Life
36 Capítulo 35
Notas iniciais
Obrigada a todos pelos reviews e queria agradecer especialmente à Eloá, que com seus comentários críticos e sinceros, me fizeram ver o quanto esse capítulo seria importante! Obrigada, Eloá!
Boa leitura a todos!
Dormi abraçada a Alex e deixei meu corpo relaxar completamente. Estava tendo um sonho bom. O mundo era normal... bom, normal no sentido de não ser infestado de vampiros. Eu estava num shopping e experimentava um vestido bonito. Eu iria sair com Alex para jantar. Entrei no provador e tirei a blusa. Estava desabotoando a calça para poder experimentar a roupa quando percebi um movimento. Instintivamente, virei pra trás e dei de cara com a porta do provador trancada.
Quando voltei e encarar o espelho eu vi uma figura me encarando. Era um homem, grande e musculoso. Tinha uma roupa estranha, como de lutadores medievais, como um cavaleiro antigo. Eu não consegui ver o rosto do homem, que estava embaçado, desfigurado em minha mente, eu apenas reconheci longos cabelos negros que se perdiam de vista.
Assustada, gritei e colei o corpo na porta do provador. Minha mão correu para o fecho, para sair daquele cubículo, quando a criatura se moveu. Levantou a mão, que portava uma espada brilhante cor de cobre. Eu virei, desesperada, sentindo a raiva da criatura contra mim. Eu precisava sair dali.
O fecho não queria abrir, estava travado, emperrado, como se tivessem segurando pelo outro lado. Ouvi a lâmina descer atrás de mim e me abaixei, na hora exata, mas ainda senti a lâmina afiada cortar meu ombro de raspão.
Acordei assustada, me pondo sentada rapidamente. Estava suando e ofegante.
- Manuella? – ouvi a voz sonolenta, porém alerta, de Alex ao meu lado – O que houve?
Sentia o coração acelerado, a adrenalina a mil. Meu ombro esquerdo ardia e quando olhei, estava com um corte fino e avermelhado.
- Tudo bem? – Alex disse enquanto sentava ao meu lado, olhando pelo quarto a procura de algo estranho.
- Tudo... tudo bem... eu me assustei com um pesadelo, só isso. – respondi ainda aturdida.
A ferida em meu ombro ardia bastante, mas não sangrava. Eu podia ter me machucado durante o sono, sem querer.
- Vem cá, volta a dormir. – ele disse, passando o braço em minha cintura e me levando junto com ele.
Deitei abraçada a Alex, que me apertou contra o peito. Meus olhos vasculharam o quarto, ainda em alerta, enquanto a claridade do dia começar a iluminar o ambiente aparentemente normal. Eu ainda estava abalada, mas me fiz relaxar. Meu corpo estava cansado e eu queria sentir um pouco mais do aconchego que Alex me proporcionava.
...
Acordei com o sol batendo em meu rosto. Abri os olhos lentamente, sentindo a suave respiração de Alex em minha bochecha; ele dormia profundamente. Tentei retirar seu braço de cima de mim com cuidado para não acordá-lo. Estava quase conseguindo quando ouvi sua voz atrás de mim.
- Onde pensa que vai, senhorita?
Eu ri com o pequeno susto e ele voltou a me puxar pra cama e me aninhar em seus braços.
- Alex! Você sabe que horas devem ser? Eu tinha um monte de coisas pra fazer no laboratório, a nossa viajem já está na porta e temos que deixar tudo pronto.
Minhas palavras saíam apressadas e ele não me interrompeu. Quando terminei ele disse:
- Bom, nada disso aí me convenceu a te soltar.
Revirei os olhos pra ele, que sorriu.
- OK, seu preguiçoso, fica aí enquanto eu planejo com os outros como a gente vai chegar vivo na base. – falei rindo enquanto saia dali.
Peguei minhas roupas espalhadas pelo chão e fui até o banheiro, que ainda estava todo molhado. Tomei um banho morno e finalmente parei pra pensar no que tinha acontecido. Eu sentia uma leve ardência na região íntima, e também tinha um sorriso idiota no rosto. Alex foi o primeiro homem com quem transei de forma consensual e tinha sido simplesmente incrível. Só de pensar nas sensações que ele me causou, meu corpo já ficava aceso.
Terminei o banho rápido, sentindo a barriga roncar de fome. Saí do banheiro vestida, com uma toalha na cabeça... a primeira que vi na frente.
- Peguei isso emprestado, não queria molhar sua casa toda. – falei me referindo à toalha.
Alex já tinha arrumado a bagunça que fizemos e tinha o rosto úmido, que provavelmente tinha lavado na pia perto do fogão. Estava terminando de vestir a calça, mas não a tinha fechado ainda. Estava lindo parado ali me olhando.
Ele sorriu quando percebeu que o admirava a caminhou até mim.
- Tá bem? – ele perguntou, me acariciando a bochecha.
- Sim, muito. – respondi, sentindo o rosto esquentar levemente.
Ele sorriu novamente e me beijou o pescoço suave, mas foi o suficiente para me arrepiar a pele.
- Vai ficar aqui comigo? – ele perguntou, passando o dedão em meu lábio inferior.
- Eu preciso ir pro laboratório, tenho que terminar as coisas por lá. – falei desviando o olhar para a janela que refletia a luz dourada.
- Sabe que não tô falando disso. – ele puxou meu queixo em sua direção e tinha um sorriso torto nos lábios.
- Alex... eu... acho melhor não.
Ele pareceu levemente desapontado, mas não insistiu. Deu-me um beijo nos lábios e disse que depois a gente conversava melhor. Eu apenas acenei e fui para a sala, deixando o banheiro livre pra ele e me dando um tempo pra pensar.
Depois de pentear o cabelo e catar minha mochila, que ainda estava no canto do quarto de Alex, saí e fui em direção ao alojamento onde eu ficava. No caminho não consegui parar de pensar na proposta de Alex, me pedindo para ficar com ele em sua casa. Aquilo me deixava confusa. Eu queria estar ao seu lado, agora mais do que nunca, mas era muita coisa mudando ao mesmo tempo, eu não conseguia lidar com tudo. O melhor a fazer seria mesmo ficar em meu espaço e ele no dele, assim poderíamos pensar melhor.
Confesso que senti um leve tremor ao caminhar pelo corredor que levava ao meu quarto, pois ali tinha sido o local exato da emboscada de Olavo... aquele desgraçado. Sinceramente, se eu fosse uma vampira, não conseguiria nem chegar perto do sangue podre daquele infeliz.
Estava voltando ao laboratório, ainda saboreando o final da goiaba que peguei na cozinha, quando avistei Lisa. Corri até ela e fomos juntas para o segundo pavimento.
- Poxa, estava igual a uma louca atrás de você. – ela falou, parecendo nervosa.
- O que houve? – perguntei jogando o resto da fruta no lixo.
- O que houve? Você não sabe o que aconteceu ontem? Dois soldados apareceram mortos nos galpões e o povo anda dizendo que foi Alex quem os matou. Depois disso ele saiu e foi atrás de Olavo. Ninguém sabe o que aconteceu.
Antes que eu pudesse pensar em alguma coisa, ouvi a voz excitada de Roger chegando até nós. Havia mais dois pesquisadores com ele.
- Gente, gente, babado fortíssimo: o pessoal do conselho acabou de encontrar com Alex, eles estão em reunião fechada só com algumas pessoas. Parece que ele matou mesmo aqueles soldados e o conselho vai ter que tomar alguma providência!
- Céus! O que será que vão fazer com ele? – Lisa perguntou, com as mãos na boca.
- Roger, onde está acontecendo essa reunião? – perguntei em tom urgente, sentindo o sangue gelar.
- Hããã, eu acho que na casa de um dos conselheiros.
- Roger, eu preciso que você me leve lá imediatamente. – falei puxando o outro pela camisa de forma não muito educada.
- Ai, meu Deus, Manuella, o que que tá acontecendo? – ele perguntou assustado com minha atitude.
- Vamos, você já vai saber. – falei começando a andar para as escadas enquanto o puxava pela mão.
Eu nem precisava ter feito aquilo com Roger, pois logo vi uma pequena aglomeração próxima a uma das casas habitadas de Naska, mais próxima à academia. Era a maior de todas e ficava no bem no centro da região. Havia alguns soldados protegendo a entrada e muitos curiosos.
- Roger, é aquela? – perguntei olhando o homem levemente assustado.
- Sim. Manu, o que está acontecendo? Você tem algo a ver com isso? – sua voz estava alterada, ele estava preocupado.
- Me desculpa, não quis ser grossa, mas é que Alex precisa da minha ajuda. – falei dando um rapidíssimo beijo na bochecha do meu amigo e fui passando por entre as pessoas que tentavam enxergar e ouvir alguma coisa que se passava lá dentro.
- Manuella! Manuella! – a voz de Roger foi ficando baixa, conforme fui me afastando dele.
- Desculpe, mas não pode passar. – o soldado falou, parando na entrada da porta da frente.
- Me desculpe, mas eu preciso entrar. – falei encarando o soldado – Eu sou testemunha de Alex.
O cara ficou sem saber o que fazer, até que bateu na porta algumas vezes. Alguém lá dentro abriu um feixe e o sodado passou a informação adiante. Instantes depois, Dornelles abriu a porta e me deixou passar.
- Manuella, entra! – o soldado com semblante preocupado falou.
Passei pelo soldado que vigiava a porta e entrei na casa. Tinha bastante gente ali. A sala era grande e tinha sido transformada numa espécie de tribunal informal. Vi uns dez membros do conselho sentados atrás de uma grande mesa de madeira. O pai de Roger e Lisa estava entre eles. Vi muitos soldados de pé, espalhados pelo local. Marcos, Júnior e alguns outros estavam perto da janela oposta, e me olharam.
Alex estava no centro da sala e ao lado dele, havia um soldado franzino, que eu não sabia o nome. Ele parecia estar discursando quando entrei. Todos ficaram me encarando.
- Prossiga Carlos. – o membro mais velho do conselho e que sentava no centro da mesa, pediu.
O garoto continuou a falar e meu olhar se prendeu nos olhos azuis esverdeados de Alex, que sorriu discretamente, apesar da situação. Franzi a testa, sem entender sua atitude. Ele não parecia nervoso ou apreensivo e eu sabia o motivo, sabia que ele tinha feito o que achava certo, o que achava que era o melhor pra me proteger. Mas meu coração doía, eu não estava acreditando que ele estava enfrentando uma acusação formal de assassinato.
-É... bom, então depois que eu disse a ele que não poderia passar, vi que Max se aproximou de nós.
- Max estava com você reforçando a segurança? – o conselheiro perguntou pro garoto.
- Sim. — o soldado Carlos respondeu, parecendo desconcertado.
- E então?- outro membro que se sentava à mesa perguntou.
- Bom, então Max perguntou a Olavo o que ele tinha feito pra ter irritado Alex a ponto dele proibir sua saída de Naska. Max mencionou uma mulher, perguntou se Olavo tinha mexido com alguém.
- E quem era essa mulher, você sabe? – uma senhora sentada na beira da grande mesa perguntou.
Carlos não respondeu por um tempo, parecia estar pensando.
- Não sei senhora. – ele respondeu.
Meu queixo caiu e eu estava literalmente sem fala. Ninguém na sala disse nada, mas senti diversos olhares em minha direção. Carlos prosseguiu seu relato.
- Então depois disso, Max disse a Olavo que ele estava perdido. Olavo respondeu que precisava sair de Naska pra se recuperar dos ferimentos, disse que voltaria depois pra se vingar, mas quando eu disse a ele que eu não o deixaria sair, ele me acertou com a coronha da arma e eu... bem, eu desmaiei.
Iniciou-se um burburinho na sala, mas logo o chefe da mesa pediu silêncio e acrescentou:
- Isso é verdade, Max?
Alex continuava a encarar os membros do conselho e eu reparei que as atenções se voltaram para o soldado negro de porte imponente que estava ao fundo. Os olhos negros encararam os meus antes de responder que sim.
- E podemos saber o que foi que Olavo fez com essa suposta garota que tenha irritado você? – a mulher da ponta da mesa perguntou pra Alex, com um tom cínico e desdenhoso.
- Olavo não mexeu com ninguém, ele me atacou, nós brigamos depois da festa e ele me ameaçou junto com Petrus e Sidarta. Eu perdi o controle e matei os dois na luta e Olavo fugiu. Eu o segui e o matei.
Os membros do conselho se entreolharam e Alex parecia muito seguro da mentira que contava. Estava tudo errado, ele não iria enganar ninguém assim e não era justo o que passava por minha causa. Isso não podia continuar por mais tempo.
- É mentira! – falei em alto e bom som, controlando de maneira magistral meu nervosismo, como sempre fazia.
Todos me olharam e vi a confusão nos olhos de Alex.
- Como é, mocinha? – a mulher perguntou em minha direção.
- Manuella... – Dornelles tentou me segurar, mas não conseguiu. Eu me desvencilhei de seu aperto e dei um passo a frente, entrando no espaço vazio do círculo inquisitório.
- O que Alex acabou de dizer é mentira. Eu me chamo Manuella e sou eu a responsável por toda essa confusão. – falei encarando o conselho de forma determinada.
- Manuella... – Alex tentou intervir, mas eu o cortei.
- Não, Alex, chega! Eu não quero que minta por mim, não há necessidade. É verdade o que o soldado Carlos contou entre a conversa de Olavo e Max nos muros. Olavo e os outros dois... eles mexeram comigo na festa de Naska e... Alex foi me proteger.
O falatório recomeçou com força total e logo os próprios membros do conselho estavam de pé, discutindo entre si, enquanto outros pediam silêncio. Eu só consegui ver os olhos de Alex confusos no meio da confusão.
- SILÊNCIO! — o mais velho exigiu.
Quando a conversa paralela diminuiu, outro membro do conselho indagou:
- Manuella, você foi a moça que veio junto com o pelotão há alguns dias, não é?
- Sim. Eu sou de Santa Clara e conheci Alex e os outros quando passaram pela minha província. Eu tinha um objetivo em comum com eles, que era encontrar a cientista Lauriê e segui com o comboio até São José, onde a encontramos. Depois disso vim pra cá e planejo seguir viajem até a base original informada por ela.
- Isso é verdade. Eu posso afirmar a veracidade do que Manuella diz. – Dr. Robert falou, me olhando com carinho – Ela é uma pesquisadora incrível e trouxe grande conhecimento e ajuda pra nós com todas as informações que ela e sua tutora reuniram durante anos. Ela tem trabalhado conosco no laboratório, preparando tudo para a viajem que se aproxima.
Eu o agradeci com o olhar, mas a mulher da ponta da mesa logo prosseguiu.
- Bom, Manuella, podemos saber qual o seu grau de envolvimento com Alex pra ele chegar ao ponto de matar três soldados de Naska por mexerem com você?
Senti o sangue ferver com as palavras daquela bruxa. Eram cheias de veneno e sarcasmo. Logo Alex se irritou e isso não era bom.
- Isso não é da sua conta e nem de ninguém. – ele disse sério, com a voz levemente grave. Todos o olharam seriamente, mas ela prosseguiu com a mesma entonação.
- Ora, é uma pergunta pertinente, não acha senhorita? – ela se voltou a mim.
- Tudo bem... — falei na direção de Alex que já engolia forte. O silêncio foi total.
- Então, vocês são namorados e Alex ficou com ciúmes por Olavo e os outros terem mexido com você, foi isso? Esse foi o motivo torpe da morte deles?
Encarei a mulher com raiva e falei no tom mais frio e controlado que consegui enquanto a encarava fulminante.
- Alex e eu somos mais que amigos. Eu simplesmente devo a minha vida ele. Quando eu retornava pro meu quarto, depois de ter aproveitado a festa, fui surpreendida por Petrus e Sidarta no corredor do segundo andar do prédio dois. Eles me agarraram, me levaram a força para um dos galpões, perto das plantações. Quando chegamos lá, Olavo estava a minha espera. Eles me bateram, rasgaram meu vestido e Olavo ria de mim enquanto se divertia com meu desespero. Eles abaixaram as calças, estavam me molestando e Olavo estava prestes a me estuprar quando Alex apareceu. Ele afastou os três de perto de mim e Olavo fugiu. Ele me pegou, me levou pra casa dele e cuidou de mim porque eu estava muito abalada com aquilo e com medo. No dia seguinte ele foi atrás de Olavo e fez o que vocês já sabem. Os outros dois infelizes não resistiram.
As pessoas ouviam caladas ao meu relato e ninguém interferiu, nem mesmo Alex. Eu não queria que tivesse chegado àquela proporção; sabia que depois daquilo, eu seria o assunto de Naska, mas simplesmente não podia permitir tamanha injustiça com o homem que me salvou.
Continuando no mesmo tom, eu encarei a cada um dos membros do conselho antes de prosseguir:
- Alex simplesmente não pode controlar o que fazia, estava fora de si. Ele agiu por impulso, apenas pra me proteger. Olavo e os outros não valiam merda nenhuma; aquele crápula planejou muito bem o que queria fazer comigo e só não concluiu porque eu tive a sorte de ser salva por Alex, mas eu me pergunto, por quanto tempo vocês não conviveram com aquele homem bem aqui, atacando as suas mulheres em baixo de seus narizes? Quantas pessoas já não foram atacadas por ele e não tiveram a coragem de falar alguma coisa? Então, caros conselheiros, eu espero que, ao invés de acusarem esse homem de ser um assassino perverso e sem coração, vocês o agradeçam por ter feiro o que fez.
Eu estava com raiva, e destilei todo esse sentimento nas mãos deles. Eu não me importava mais de revelar o que passei, não quando o que estava em jogo eram a liberdade e a integridade de Alex.
Depois disso, eu simplesmente virei as costas e saí dali, fazendo força para empurrar a multidão que cercava a casa do conselheiro.
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