Life
24 Capítulo 23
Notas iniciais
Boa leitura!
Quando o céu começou a ficar azul escuro, deixando o negro da noite pra trás, eu estava aninhada entre os braços de Alex e o tronco que nos salvou a vida. O céu mudou rapidamente e a claridade já era suficiente para que eu enxergasse a minha volta.
O rio com as águas agitadas tinha um tom cinzento, pela falta de sol; o verde da mata estava escuro e ventava bastante. Dornelles não estava melhor do que eu e permanecia agarrado à ponta do enorme tronco que, agora eu via, estava atravessado no rio, quase chegando até a outra margem.
Alex passou a mão pelo meu cabelo, me fazendo olhar pra ele.
- Está bem? – ele perguntou.
Eu sacudi a cabeça em afirmação, mas ele sabia que eu mentia.
- Vem, já podemos sair daqui. – ele disse, guiando-me para a margem.
Sair do rio foi terrível. Eu abraçava meu próprio corpo na intenção de me aquecer. Alex ajudou Dornelles a sair da água e ele estava realmente ferido.
- O troco caiu em cima de nós. – ele disse, justificando o hematoma que tinha no rosto inchado. A mão e o braço direito também estavam arranhados e ele parecia sentir dor.
O olhar dele recaiu no corpo que estava a alguns metros de nós, com as pernas voltadas para o rio. O corpo de Santana estava desfigurado e muitas das vísceras estavam expostas. A cabeça estava presa ao corpo apenas pela coluna cervical e tombava para o lado, indicando voracidade das mordidas que destruíram a carne.
Havia sangue por todos os lados. As roupas rasgadas, assim como o peito exposto, estavam completamente vermelhos. Eu normalmente não me abalaria ao ver algo assim, mas senti uma pontada no peito. Por muito pouco eu não o salvei.
- Vamos atrás dos outros... temos que ver se sobrou alguma coisa no acampamento e se as motos estão inteiras. – Alex falou enquanto começava a caminhar para o norte. Dornelles e eu percebemos que ele evitou falar sobre possíveis perdas, mas deixamos passar.
Muitos metros à frente, encontramos Olavo e Marcos estirados na margem. Estavam exaustos, mas vivos. Carvalho estava do outro lado do rio e acenou quando nos viu. Por toda a margem encontramos os corpos mutilados dos vampiros abatidos por Alex. Era um verdadeiro mar de corpos e pedaços de carne podre que iriam se desfazer em pó assim que o sol estivesse alto no céu e os raios penetrassem na mata fechada.
- Vamos procurar o Júnior. Ele estava perto de mim antes do tronco cair, mas eu o empurrei pro outro lado. Eu não sei se ele foi com a correnteza ou se foi pra margem. – falei começando a caminhar.
Dornelles ficou pra trás, para ajudar aos outros. Eu iria atrás de Júnior com Alex e também atrás do acampamento. Se tivéssemos sorte acharíamos alguma coisa para ajudar no resgate. Encontramos Júnior junto ás motos. Ele estava bem e tinha conseguido sair do rio quando amanheceu.
- Eu vim ver os veículos. Parece que estão bem, nada foi mexido. – ele falou – Você tá bem?
- Sim, obrigada. – respondi agradecida. Ele sempre se preocupava demais comigo e eu me sentia incomodada com isso... especialmente com Alex por perto.
Ouvi quando ele nos chamou, de longe, na direção do acampamento. Júnior e eu chegamos até Alex e o encontramos revirando os escombros das barracas. Havia muita coisa espalhada e algumas mochilas tinham sumido. Debaixo de uma das lonas estava o meu equipamento, praticamente intacto.
Recolhemos o máximo de coisas possíveis e voltamos para onde as motos estavam. Deixamos as mochilas restantes ali e levamos as caixas de primeiros socorros até Dornelles. O resto da manhã serviu para nos recuperarmos. Olavo estava bastante ferido e Marcos tinha um braço fraturado, mas fora isso, estávamos bem. Como Carvalho já estava do outro lado do rio, ele foi andando pelo mato para achar o melhor caminho para seguirmos.
Por volta das 14h, já tínhamos uma grande balsa armada com troncos e cordas. Dois homens passaram para o outro lado do rio e utilizamos o restante das cordas junto com cipós para auxiliar na travessia das motos. Uma a uma, fomos atravessando as máquinas, que agora teriam um ocupante a menos.
Era pouco mais das três da tarde quando havíamos retomado a caminhada e em menos de meia hora, achamos a estrada que seguiria para a Naska. Carvalho, Júnior, Alex e eu éramos os menos feridos e por isso guiamos as motos. Os demais foram nas garupas junto com o equipamento... é claro que fui sozinha. Tínhamos menos de duas horas para seguir um bom pedaço de estrada até um abrigo e sabíamos que os malditos vampiros sobreviventes da noite anterior estariam pelas redondezas.
Quando os relógios apitaram 17:30h, nós estávamos próximos a uma antiga base militar. Era um quartel muito antigo, do início do século, mas que era nosso único refúgio. O grupo chegou e logo tratamos de camuflar as motos e entrar. O lugar era terrível. As paredes em ruínas apresentavam musgo e rachaduras de dois dedos de espessura. O cheiro de mofo era forte e me fez espirrar diversas vezes.
No fundo de um dos blocos internos do complexo havia uma cadeia. Um lugar onde as grades corroídas pela oxidação deixavam um cheiro característico no ar.
- Ali. – Dornelles apontou – Tem umas celas de isolamento. As portas são de aço e as paredes parecem estar em estado razoável de conservação. Se nos separarmos em dois grupos, podemos ocupar as melhores celas.
- Isso não. – Alex falou, deixando a mochila no chão – Eu não vou poder ajudar o outro grupo caso haja uma invasão.
- Então você fica sozinho. – Carvalho propôs – Se estivermos trancados e bem armados, podemos nos virar por um tempo. Você pode ficar nessa primeira cela e nós nos dividimos nas duas últimas. O corredor é estreito, se eles chegarem aqui, você sai e não nos expões
A proposta dele era a mais razoável, embora eu não gostasse dela. A ideia de deixar Alex exposto como um muro de contenção era desagradável pra mim. Ele, no entanto, concordou e nós nos dividimos. O tempo estava se esgotando e às 18h, o céu já estava escuro novamente. Dividimos a munição igualmente e o suprimento de comida, já que nenhum de nós tinha se alimentado bem durante o dia.
Alex pegou alguma coisa pra comer e agarrou seu facão na mão direita. Ele me encarou por um tempo curto antes de abrir o braço para que andássemos. Segui com Marcos e Júnior para a penúltima cela e Olavo, Dornelles e Carvalho foram para a cela ao lado. Ouvimos a voz de Alex enquanto ele passava o ferrolho e fechava os cadeados pelo lado de fora das celas:
- Bom, eu não vou trancar a minha cela. Rezem para eu não morrer, pois se isso acontecer, vocês ficam presos aí pra sempre.
- Se você morrer e eu ficar trancado aqui, eu juro que me mato só pra ir atrás de você e te enfiar a porrada. – Marcos falou para o amigo quando este caminhava para seu espaço solitário.
Ouvi Alex rir e depois, o som pesado de sua cela sendo fechada.
O espaço era mínimo para três pessoas mais as mochilas de acampamento, mas era isso o que tínhamos. Comemos muito rapidamente as frutas e cereais e bebemos metade do estoque de água dos cantis. As armas que sobraram não eram muitas, mas o suficiente para sobreviver por um tempo a mais, caso houvesse uma emergência. Conforme as horas passavam e a escuridão aumentava, aumentava também nossa tensão. Essa era a terceira noite de estrada e estávamos cansados de tantos confrontos, de tanto medo.
No pequeno espaço, quase nada era ouvido. Minha cabeça sentia a pressão de estar trancada ali, entre paredes grossas e apertada, com a incerteza do que viria a seguir. Aquela tensão era angustiante e o medo, permanente.
A noite passou muito lentamente e eu apenas cochilava apoiada à parede, vindo a acordar assustada a todo momento quando um animal qualquer fazia um barulho mais alto lá fora. Nós ouvimos barulho de chuva e as horas pareceram ainda mais arrastadas que nas noites anteriores.
Graças a uma bondade da Natureza, que nos permitiu descansar por uma noite, o dia veio sem nenhum problema. Assim que o sol despontou no céu, um Alex de aparência cansada abriu os ferrolhos e nos tirou da prisão. Todos pareciam cansados, mas não tínhamos tempo a perder. Já estávamos atrasados demais e precisávamos seguir em frente.
Durante mais três dias e três noites, nós viajamos. As noites eram sempre tensas, mas tivemos a sorte de não encontrar mais nenhum vampiro nos abrigos que encontramos pelo caminho até Naska. Depois do sexto dia de estrada e noites mal dormidas, estávamos todos muito cansados e isso era o pior de tudo, pois era exatamente o cansaço nosso maior inimigo.
Por vezes, Alex questionou a calmaria que vivíamos. Pra ele, os vampiros estavam nos esperando perto de Naska, prontos para abocanhar um grupo cansado e desesperado de viajantes. Eu duvidava dessa possibilidade, mas tinha que concordar que, depois daquela armadilha imposta por eles, tudo era possível.
Durante as viagens e paradas, ou até mesmo as vigílias noturnas, Alex e eu não tivemos mais nenhum, digamos, momento. Mas eu via os olhares dele, sabia que me vigiava, sabia que me protegia. Ele sempre tentava se aproximar, puxar assunto ou até mesmo sentar perto de mim. Eu permitia, pois eu gostava da companhia dele e queria ele por perto, mas quando eu percebia que ele estava tentando se aproximar demais, eu me afastava.
Nós estávamos no que poderia ser o último dia de estrada antes de chegar a Naska. Paramos para o almoço e descansar um pouco, quando encontramos uma clareira e um lago próximos à estrada. O clima do grupo permanecia o mesmo e eu sabia que a morte de Santana e Filipe ainda pesava em seus companheiros. Aproveitando os últimos minutos de descanso e também que os homens conversavam um pouco mais animados checando as motos, fui até o lago me refrescar um pouco. Era tão raro podermos nos lavar em rios ou lagos como aquele durante o percurso, que estava agradecida pela oportunidade.
Retirei a blusa e as botas e levantei a calça larga até a metade da perna. Lavei os pés e os massageei um pouco, quase sorrindo com a sensação de alívio. Minha blusa estava um trapo, pois eu estava com ela desde o dia anterior. Dobrei-a e decidi vestir a branca que trouxe da loja de departamentos. Antes disso, lavei meus braços, busto e barriga e molhei bem o rosto para tentar tirar o semblante cansado. Eu faria quase qualquer coisa por um banho quente e uma noite inteira de sono.
Vesti a blusa nova e fiquei surpresa em como vestia bem. Era de uma lycra grossa e deixava a parte de cima do top preto aparecendo. Achei inapropriado pra ocasião, já que favorecia meus seios, mas eu não estava em tempo de escolher nada. Quando virei, dei de cara com Alex me olhando.
- Ficou perfeita. – ele falou se referindo a blusa, eu acho.
Senti o coração acelerar um pouco.
- Já estamos indo? – mudei de assunto ajeitando cabelo em um coque.
- Por que você sempre é evasiva quando se trata de elogios? – ele perguntou ao se aproximar.
- Alex, vamos parar com isso, tá bom? – falei meio sem paciência, ele nunca me entenderia mesmo.
Alex segurou minha mão, tentado me fazer carinho, mas eu não deixei. Tentei desviar de seu caminho, mas ele colocou o corpo na frente. Abaixou a cabeça em minha direção, tentando me beijar.
- O que foi Manuella? – ele perguntou em tom baixo, querendo entender minha reação.
- O que foi o quê? – perguntei virando para encará-lo.
Estávamos perto demais um do outro, mas nem eu nem ele nos movemos. Lentamente ele tentou se aproximar, acariciando meu braço com a mão bem suavemente. Seus olhos me admiravam, tinham desejo e algo mais que os faziam brilhar. Eu sabia que estava apaixonada por ele, sabia que se ele insistisse mais, eu cederia.
- Eu não te entendo, sabia? Eu nunca sei o que fazer com você, eu não posso me aproximar que você se esquiva. Eu fiz alguma coisa que você não tenha gostado?
Alex falava sem piscar, sem tirar os olhos dos meus. Eu até compreendia seus motivos. Sempre que ele achava que estava conseguindo algo de mim, eu me afastava. Era inevitável, eu não conseguiria seguir mais que aquilo, não poderia dar a ele o que ele queria.
- Alex, por favor, entenda. Eu gosto de estar com você, mas isso não quer dizer que possa haver um envolvimento maior além do que já foi. Esquece, isso nunca vai acontecer, nem com você nem com ninguém.
- Não me fala isso! Eu tenho certeza de que você nunca beijou alguém como me beijou, que nunca sentiu aquilo com outra pessoa.
Alex foi incisivo, olhava-me diretamente nos olhos, com muita determinação. Eu sabia do que ele estava falando. Realmente nunca tinha sentido o que senti nas duas vezes que estivemos juntos.
- Alex, por favor, foi só um beijo, não significou nada. – menti com a voz mais desdenhosa que consegui – Não pense que é o melhor nisso porque não é.
Ele pareceu sentir o impacto de minhas palavras, mas não desistiu, pelo contrário. Ele desviou o olhar pra minha boca, desejando-a mais uma vez.
- Não mente pra mim. Só me fala a verdade, Manuella. Eu sei que você se controla, sei que se afasta de todo mundo que tenta se aproximar de você. Eu não sei o que aconteceu no seu passado que te faz ser assim, mas eu preciso que saiba que nem todas as pessoas são iguais.
- Corta essa. Você vai me dizer que é um santo agora? – explodi – E não ouse falar sobre o meu passado, não ouse nem sequer tentar saber!
-Eu não quero saber sobre seu passado! Eu quero você, não entende? Não consegue ver isso?
- Ah é? E você me quer pra que, pra transar em cima de uma mesa velha como fez com aquela garota?
Senti um nó na garganta e minha cabeça latejava. Eu estava começando a ficar sem argumentos para afastá-lo, principalmente porque eu não queria que ele se afastasse. Então, minha última fuga foi jogar sujo, muito sujo.
- O quê?! – Alex se descontrolou – Mas que porra! Você sabe que é diferente com você.
- Não me importa! – eu gritei, colocando as mãos sobre seu peito para empurrá-lo, não queria seguir com aquilo – Eu não quero nada com você, não quero nada!
Ele não deixou que o empurrasse. Segurou meus braços, me mantendo perto. Ele estava com raiva, tanto quanto eu.
- O que aconteceu com você? Foi um namorado que te magoou? Alguém que você amava, foi isso? – ele perguntava insistente, cravando aqueles olhos brilhantes nos meus.
- Não foi nada disso! Você nunca vai entender! – eu devolvi – Eu nunca vou poder estar com alguém, Alex, eu não posso!
Eu estava desesperada e descontrolada. Sentia tanta vontade de me apertar contra ele e deixar que me abraçasse, mas, ao mesmo tempo, queria-o longe de mim. Queria não sentir aquela bagunça de sentimentos perto dele.
- Como não pode? O que te impede? Sabe o que eu sinto por você! Não me importo com seu passado, pra mim nada importa. Eu posso te ajudar a esquecer esse cara, eu posso...
- Pára! Pára! Você não entende! – gritei, tentando me afastar, interrompendo seu discurso.
- Então me explica! – ele pediu.
Estávamos alterados, eu tentava me soltar e empurrá-lo ao mesmo tempo. Senti as lágrimas querem sair de mim enquanto minha mente voltava no tempo e revivia o pior dia de minha vida.
- Me explica! – ele insistiu, com raiva e intensidade.
- Eu fui estuprada, Alex! Você não entende isso e nunca vai entender! Eu nunca vou poder me envolver com ninguém porque eu não consigo! Eu não suporto essa dor!
Fale com o autor