Life
14 Capítulo 13
Notas iniciais
cap tranquilinho o/ Bom pra Manu! tadinha, precisa respirar um pouco...hehehehe
Boa leitura!!!
O jipe sacudia bastante conforme avançávamos e eu ainda sentia as dores da noite anterior. Lembro de muito pouco depois de entrar no rio com Alex, apenas que segurei na pedra e que perdi as forças. Lembro vagamente também de senti-lo me segurar, mas foi durante um tempo longo demais.
O clima entre os soldados estava péssimo. Era a última coisa que eu queria ao resolver embarcar nessa, mas o fato era que Olavo, Carvalho e Santana estavam a um passo de me degolar. Eu não queria pensar nisso agora, queria apenas que a dor passasse. Júnior conseguiu água gelada, de fato ele tinha voltado ao rio para pegar a água fria. Eu molhava o pano (camisa do Alex) e colocava no rosto, que estava inchado no lugar em que fui acertada. De resto, o único lugar que não doía era o dedão do pé porque até cabelo o maldito vampiro tinha arrancado de mim.
O pior de tudo tinha sido perder a moto. Senti um nó na garganta quando Alex falou que ela estava destruída porque ela estava comigo há muito tempo e tinha sido consertada com muito carinho por Monroe. Bom, paciência.
Paramos horas mais tarde para comer e o silêncio entre todos estava pesando demais em mim porque sabia que era minha culpa, no fundo. Dornelles e Júnior não saíam do meu lado, enquanto Marcos escorava Filipe. Alex dirigia o jipe e, de tempos em tempo eu via seus olhos me encarando pelo retrovisor. Pronto, tudo o que eu precisava agora era que ele ficasse me vigiando, com peso na consciência, achando que me devia algo.
Senti que Alex acelerou um pouco quando a tarde foi caindo e eu já me sentia um pouco melhor, embora deitar e dormir um pouco fossem um desejo latente. Marcos estava com o mapa estendido e tentava achar um lugar para passarmos a noite em segurança.
- Eu acho que não temos mais esconderijos. Sem postos ou abrigos por perto para que possamos pernoitar. – Marcos falou desanimado, enquanto baixava o mapa. Os relógios apontavam 16h da tarde.
- Bom, levando em conta a sorte que tivemos nos abrigos, passar a noite na estrada até que vai dar no mesmo. – Dornelles falou enquanto checava os curativos do meu braço. Estavam secos, finalmente não estavam mais sangrando.
- Teremos que parar aqui, Alex, temos que armar as barracas e checar a área antes de anoitecer, não podemos seguir viajem. – Marcos gritou para o companheiro que foi reduzindo a velocidade do jipe até parar.
Como nas vezes anteriores, um grupo foi responsável por ocultar as motos e o jipe, camuflados no mato. O grupo seguiu mata adentro, pois as estradas eram abertas e vulneráveis demais.
Andamos por alguns minutos e Junior me escorava com delicadeza. Os soldados encontraram uma clareira na mata e limparam o local das folhas secas e barulhentas. Em menos de cinco minutos, havia duas barracas verde oliva montadas na clareira, perfeitamente camufladas. As ordens expressas eram nada de fogo e nada de sangue.
As lanternas deles tinham um dispositivo simples, que as transformava numa espécie de lamparina, com uma luz muito mais suave que o feixe direto. Apenas uma delas ficaria acesa, no meio entre as duas barracas.
Eles checaram as munições e se prepararam, armados até os dentes. Eu estava agoniada porque não podia fazer nada pra ajudar, estava me sentindo uma inútil completa. Depois de quase brigar com Dornelles e Júnior, finalmente cedi e entrei em uma das barracas... até discutir estava sendo doloroso. Eu e Filipe estávamos de fora das rondas, que teriam mais gente por vez. No mato, a atenção era total. O silêncio e cooperação de todos eram essenciais, pois qualquer barulho estranho era sinal de perigo, seja por vampiros, seja por animais silvestres de grande porte que caçavam durante a noite.
Nós comemos algumas frutas e as últimas barras de cereal que trouxera se esgotaram. Sentei no chão frio da barraca escura, a luz do dia estava nos deixando e a lanterna do lado de fora era discreta demais, não dava pra iluminar o lado de dentro, deixava apenas algumas silhuetas visíveis. Além de estar angustiada com o lugar e com a situação, eu me sentia nua sem minhas pistolas e meu canivete... nem mesmo água benta eu tinha mais.
Eu me sentia cansada da viajem e com o corpo dolorido. Meu rosto ainda doía bastante também.
Filipe me fazia companhia na barraca, enquanto os demais ficavam de vigília lá fora, decidindo a melhor maneira de passar a noite. Os relógios apitaram juntos 17:30h.
- É horrível esse som, não é? – ouvi a voz de Filipe e vi sua silhueta mexer.
Suspirei. Eu tinha que concordar com ele. Quando o relógio anunciava o fim da luz do sol, o coração já batia mais depressa no peito.
- É... acho que nunca vou me acostumar com isso... – respondi em tom baixo o suficiente apenas para ele me ouvir.
- Sabe... eu não concordo com as atitudes do Olavo e dos outros – ele falou – Eles são uns otários, se quer saber. Você foi ótima.
Filipe era um cara reservado, mesmo entre os demais. Tinha altura mediana e pele morena bem clara, como a minha. Não tinha a aparência muito notável, sendo bastante comum: cabelos baixos e castanhos, olhos escuros... mas tinha uma massa muscular boa e era rápido. O vampiro que o mordeu teve sorte em consegui-lo, eu diria.
- Bom... obrigada. – disse sem animação.
Depois disso o tempo passou lento e a noite chegou junto com o frio. Encolhida no canto oposto ao de Filipe, eu deitei no chão, pois meu corpo estava pedindo descanso. Eu não conseguiria dormir, não com aquela tensão. Lá fora, apenas ouvia os passos cuidadosos e esporádicos dos saldados e os barulhos lindos e assustadores da floresta a minha volta.
Algum tempo depois, meu corpo sucumbiu ao cansaço e acabei cochilando. Acordei assustada quando senti uma movimentação na escuridão.
- Calma, sou só eu, está tudo bem. – a voz de Alex veio num sussurro.
Ele entrou na barraca e chegou perto, sentando ao meu lado. Eu sentei em seguida, rodeando as pernas com meus braços, protegendo-me do frio.
- Os outros estão lá fora, decidimos ficar todos a espreita, mas parece que está tudo tranquilo, não há o menor sinal deles.
Alex se aproximou e continuou com o sussurro quase inaudível:
- Eu trouxe pra você se sentir mais tranquila.
Dizendo isso, senti o frio do metal encostar em meu braço. Era uma arma, uma pistola.
- Não é tão charmosa quanto suas glocks, mas vai servir. – ele disse me passando o armamento.
Eu segurei a pesada pistola, que encaixou perfeitamente em minha mão. Instantaneamente me senti mais segura.
- Obrigada. – agradeci.
- Sabe, eu queria te perguntar... você acha possível um vampiro ter... consciência? – ele perguntou após um instante em silêncio – Sei lá, você é cientista e pesquisou os malditos, deve saber de alguma coisa.
- Consciência? Como assim? – perguntei intrigada, ajeitando a pistola na parte de trás da calça, presa à cintura.
- Quando estávamos no frigorífico e houve o ataque, eu encontrei um vampiro bem estranho... ele... ele não me atacou. Eu estava lá, sozinho, parado esperando por ele, mas ele não fez nada. Era como se ele tivesse desistido do ataque, pensado melhor.
- Alex, isso é impossível. – eu o cortei – eles são irracionais, não poderiam fazer isso... O instinto deles de alimentação fala mais alto.
- Eu sei e isso me chamou a atenção – ele continuou, controlando o tom de voz – Ele deu um daqueles urros na minha direção e saiu correndo pra mata.
Franzi o cenho.
- Eu... eu nunca soube de um comportamento assim, isso é... novo. – conclui.
- E não para por aí. – ele disse, se aproximando um pouco mais – Eu o vi ontem também.
- Ontem? – perguntei sem entender.
- Sim, ontem quando estava com você no rio. Antes de amanhecer, eles se retiraram aos poucos, voltando pra mata e então eu i reconheci. Ele me olhou nos olhos e saiu. Era ele, com certeza. Estava lá novamente e me encarava com aquele olhar de raiva, como se quisesse me pegar, especificamente, além de só se alimentar.
- Isso... isso não pode ser, Alex, você deve estar enganado.
- Não, Manuella, eu tenho certeza do que vi e era ele.
Fiquei em silêncio, apenas processando as informações de Alex. Nada daquilo fazia sentido, não podia ser. Como um maldito vampiro poderia pensar daquele jeito, premeditar seus passos, hesitar em um ataque...
- Eu... eu não sei o que dizer, nunca encontrei relatos de nada parecido, nenhum comportamento desses foi registrado antes, tenho certeza. – falei ainda pensando em um milhão de possibilidade e em nenhuma ao mesmo tempo.
- Existe algum outro tipo de vírus que leva à mutação? – ele perguntou.
- Não. De fato, minhas pesquisas com Evelyn levaram à deduções bastante chocantes. Evelyn, minha mentora, acreditava que durante a guerra, o vírus tinha sido liberado ainda em fase experimental. Sabe, mesmo que um dos países tivesse esse trunfo na manga, eles não soltariam nada na natureza que pudesse dizimar a eles próprios.
- Mas eles tinham a cura. – Alex cortou.
- Não, eles achavam que tinham o antídoto e essa é mais uma evidência de que o que eles soltaram na Terra não estava completamente entendido pela ciência. – eu falei – Tanto que eles tentaram mais de um antídoto, depois que a guerra começou, e o espaço entre eles foi curto demais, não deu para se pesquisar uma segunda alternativa, entende? O que quero dizer é que eles tinham uma série de compostos guardados, compostos que seriam prováveis antídotos, mas eles não sabiam ao certo qual deles funcionaria ou se funcionaria, uma vez que nem o próprio agente biológico era conhecido.
Alex ficou em silêncio, pensativo, enquanto eu completei o pensamento.
- Se um vampiro mostrou sinais de consciência premeditando o ataque a você como uma espécie de vingança... então eu acho que estamos lidando com algo bem maior.
- Maior? – ele perguntou.
- Sim... evolução.
Minha resposta o calou e tudo o que não podia acontecer para piorar a situação dos humanos remanescentes, parecia que estava acontecendo. Os vampiros estavam evoluindo, se adaptando ao ambiente, procurando a melhor forma de sobreviver, ou seja, a melhor forma de nos matar.
Alex passou um tempo ali, mas nenhum de nós voltou a tocar no assunto... ele estava com a cabeça cheia tanto quanto a minha.
- Preciso voltar, ajudar na vigília. – ele disse se movendo pra frente, pra se levantar.
Eu estiquei o braço e segurei-o pelo ombro.
- Espera! Eu vou com você.
- Negativo. – ele disse voltando e me empurrando para trás, me fazendo sentar novamente – Você fica.
- Não pode me dizer o que fazer. Eu disse que vou sair e pronto. Não aguento mais ficar aqui, que inferno! — revidei, controlando sempre o tom de voz.
Eu estava decidida. Se os malditos estavam mesmo mais espertos, toda a proteção era bem vinda.
Eu estava decidida. Ajoelhei-me e passei por Alex ao meu lado. Num movimento rápido, o crápula se virou e me pegou pelos ombros. Sem fazer muita força, ele puxou meu corpo pra trás, me deitando no chão de volta. Senti dor com o impacto, por mais que tenha sido leve, e depois o peso do corpo dele sobre o meu.
Alex colocou ambas as mãos no chão, ao lado do meu corpo, me prendendo entre seus braços. Seu corpo fazendo uma pressão leve contra o meu. Eu não enxergava nada na escuridão e estava com os reflexos muito lentos, não apresentei resistência.
Baixando o rosto, ele chegou a tocar meu nariz com o dele.
- Eu disse que você fica.
- Sai de cima. Agora. – ordenei, tentando, em vão, empurrá-lo pelo peito.
Ele ficou em silêncio por um momento e senti o coração acelerar de forma descompassada e o suor frio se acumular nas mãos. Por um instante, eu não sabia o que Alex iria fazer, até que ele disse em tom sarcástico.
- Eu estive com você assim durante a noite toda, lutando contra uma correnteza filha da mãe, então pode fazer força a vontade que você não vai me tirar daqui. Eu só vou sair quando você me der sua palavra de que vai ficar quietinha aqui dentro, em repouso, e que não vai nem pensar em colocar essa sua cabecinha linda e inchada pra fora dessa barraca.
Ele tinha sido tão irônico, autoritário e insolente, que eu perdi a fala. Senti sua respiração levemente ofegante em meu rosto, ele aguardava uma resposta que não veio.
- Vamos, Manuella, se não quiser prometer tudo bem, posso ficar aqui até amanhecer se for preciso.
- Isso é ridículo, Alex, você não pode fazer isso! – eu me exaltei um pouco e meu tom de voz se elevou um pouco mais que o permitido.
- Viu? Já está alterada. Não vou poder deixar você sair daqui. – ele disse tranquilamente, enquanto ainda me mantinha presa ao chão.
- Mas que merda! Não diz que estou alterada, eu estou é puta da vida! Não gosto de ficar aqui, isolada, sendo tratada como uma garotinha! Eu sei que posso ajudar.
- Manuella, você não precisa provar mais nada pra ninguém. – ele disse e seu tom foi mais sério do que normalmente era – Você já mostrou a todos nós como é forte e corajosa, mas você não é de ferro, nenhum de nós é. Você está se recuperando e seu corpo precisa descansar. Além de ser um risco pra você mesma sair, você vai colocar a todos nós em risco porque vamos ficar preocupados em cobrir sua parte além da nossa, não porque você seja incompetente, mas porque simplesmente está fraca. Então, coloca a mão na consciência e fica com esse traseiro lindo que você tem aqui dentro, por favor.
Ok, eu estava pasma. Abri e fechei a boca diversas vezes, sem conseguir dizer nada. A merda era que ele estava certo e isso me irritava.
Respirei fundo várias vezes. Eu tinha problemas em admitir que outra pessoa estava certa, mas tive que dar o braço a torcer.
- Ok... – falei depois de um tempo – Ok, você está certo, eu vou ficar aqui dentro, não vou sair.
Senti-o sorrir. Embora tenha ouvido minha promessa, Alex não se afastou nem um centímetro, pelo contrário, senti seu rosto ainda mais perto do meu. Eu estava nervosa com isso, com sua proximidade, com seu cheiro e sua imposição sobre mim. Estava nervosa de uma forma nada conveniente, ainda mais porque me peguei imaginando como estariam seus olhos naquele momento, aqueles olhos tão intrigantes.
- Eu já prometi, já disse o que você queria ouvir. – falei finalmente, rompendo o que for que estivesse havendo naquele momento.
- É, você disse, mas eu não... – ele sussurrou ainda extremamente perto.
- Ah, não? – perguntei incomodada com aquilo tudo – Então o que tem a me dizer?
Senti seus lábios roçando muito de leve nos meus quando ele disse:
- Obrigada por ter salvado minha vida.
Engoli seco. Eu estava ficando louca, definitivamente. Qualquer outro cara já teria sido arremessado pra fora daquela barraca há tempos, mas eu não o expulsava de cima de mim. Tá certo que eu estava fraca demais e não conseguiria fazer isso, mesmo que quisesse, mas a questão é que eu estava trêmula e nervosa com aquela aproximação toda de uma forma infantil.
- De nada. – eu falei friamente, fazendo força pro lado, querendo sair debaixo dele. Eu não queria mais seguir com aquilo.
Alex não me segurou mais, não imprimiu resistência e me deixou sair. Livre de seu aperto, voltei a sentar no chão da barraca, que já não parecia mais tão fria.
Satisfeito com o resultado, Alex se levanto e foi na direção da saída. Antes de deixar a barraca, porém, ele se virou e disse:
- E não se preocupe, eu não me aproveitei de você lá no rio... eu espero poder fazer isso com você bem acordada.
Eu ainda vi o sorriso torto em seu rosto antes dele me deixar na escuridão quase completa.
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