Lies

11 A notícia que choca um total de zero pessoas



Seungmin caminhou até a porta com uma expressão preocupada. Alguém não parava de tocar a campainha insistentemente, quase como se fosse uma emergência.

Seu coração acelerou um pouco, mas, por precaução, espiou pelo olho mágico antes de abrir.

Ao reconhecer a figura do outro lado, seu corpo relaxou e um sorriso involuntário surgiu em seus lábios.

Changbin.

Ele destravou a porta e a abriu, inclinando a cabeça com um olhar divertido.

— Tá tentando acordar a vizinhança inteira ou só me assustar mesmo? — brincou, cruzando os braços — O que faz aqui num domingo?

— Vim te ver, é claro. Estava preocupado — Changbin foi entrando.

— Preocupado? Comigo? Por que?

— Claro que me preocupo com você, seu bobo — Changbin apertou de leve o nariz de Seungmin num gesto carinhoso — Sua mãe me ligou e disse que você não está se alimentando bem. Não comeu nada hoje?

— Não estou com fome — Seungmin se sentou no sofá e Changbin se sentou ao seu lado.

— Mas precisa se alimentar, não quero que fique doente — Changbin o puxou para que ele se deitasse em seu colo — É por causa do projeto? Está preocupado? Por isso perdeu o apetite?

Seungmin suspirou, afundando o rosto no ombro de Changbin e apertando o abraço com mais força.

Sentir o cheiro familiar do amigo, trazia uma sensação imediata de tranquilidade. Como se, por um instante, o mundo parasse e ele pudesse simplesmente respirar.

Changbin não disse nada, apenas retribuiu o abraço, suas mãos deslizando suavemente pelas costas de Seungmin, como se soubesse exatamente o que ele precisava naquele momento.

E, pela primeira vez naquele dia, Seungmin sentiu que tudo ficaria bem.

— Sim. Eu estava uma pilha de nervos. Não consegui nem comer, nem dormir direito, isso tá me deixando muito ansioso.

— Vamos fazer assim, você descansa um pouco e mais tarde eu faço algo leve e gostoso pra você comer. Mas agora me conta, o que está te deixando assim?

— To ficando louco por causa dos prazos com os projetos da facul, e isso está tirando minha paz. Por isso perdi o apetite.

— Eu posso te ajudar com alguma coisa do projeto? Qualquer coisa.

— Hum… não sei. Nós precisamos gravar um curta, é uma história lgbt. Está difícil achar um ator voluntário, já que terá um beijo gay e não é todo mundo que está disposto a isso.

— Você já tem um dos atores?

— Sim. Serei eu mesmo, não achamos mais ninguém.

— Então serei o outro! — Changbin respondeu prontamente.

Seungmin o olhou surpreso.

— Bin, acho que você não entendeu. Você vai ter que atuar um curta metragem gay e… você vai ter que me beijar… Tudo bem pra você?

— Sem problemas. Acho que você vai ficar mais confortável se fizer isso comigo do que com um desconhecido qualquer. Não é?

"Na verdade, eu vou ficar mais desconfortável ainda" — Pensou Seungmin.

— V-verdade, com você será mais fácil, mas… e a sua namorada?

— Eu explico pra ela, mas isso é o de menos. Você é a minha prioridade.

Seungmin sorriu involuntariamente, sentindo o peito aquecer ao perceber que era uma prioridade para Changbin.

Mas, ao mesmo tempo, uma pontada estranha de desconforto surgiu dentro dele.

Tecnicamente, ele se sentia meio traído como a suposta "namorada" de Changbin, afinal, ele era a Cherry. E isso tornava tudo ainda mais confuso.

A ironia da situação o fez soltar um suspiro silencioso. Seu coração estava preso em um emaranhado de sentimentos que nem ele sabia como desvendar.

— Não se preocupe, Binnie. Será tudo muito profissional. O beijo vai ser técnico.

— Não estou nem um pouco preocupado com isso. — Changbin respondeu sem hesitação, deslizando os dedos suavemente pelos cabelos de Seungmin.

Seungmin se aninhou ainda mais, deitando a cabeça no peito do amigo, sentindo o conforto daquela proximidade.

E assim, sem perceber, acabaram pegando no sono.

O silêncio aconchegante foi interrompido pelo som estridente da campainha, fazendo Seungmin se mexer com um resmungo.

Ele apertou os olhos, ainda afundado no calor de Changbin, sem nenhuma vontade de se levantar.

Com extrema preguiça, levantou-se devagar, sentindo falta imediata do aconchego do amigo. Arrastou os pés até a porta e a abriu com um suspiro pesado.

Do lado de fora, Lee Know aguardava impaciente, batendo os pés no chão com os braços cruzados.

— Até que enfim! — exclamou, empurrando a porta sem cerimônia. — Você demora tanto pra atender que eu quase fui embora!

Seungmin revirou os olhos, ainda sonolento.

— Podia ter ido. — resmungou, mas Lee Know já estava entrando como se a casa fosse dele.

Lee Know viu Changbin vindo do quarto e sorriu com malícia.

— Atrapalhei o casal. Ótimo. Vocês terão tempo pra transar depois.

— A gente não tava tran…

— Preciso conversar com vocês dois — Lee Know interrompeu o Changbin sonolento.

— Você me caçou até aqui. Espero que seja algo muito importante — Changbin revirou os olhos.

— É muito mais que importante. Honrem a licença de "Amigos do Lee Know" que eu dei. É um assunto urgente!

— O que houve? — Seungmin perguntou, preocupado ao ver o amigo tão abalado.

— Preciso confessar uma coisa séria. — Lee Know suspirou, reunindo coragem — Eu amo o Han. Tô apaixonado por ele de verdade. É isso.

O silêncio se instalou na sala.

Changbin e Seungmin apenas o encararam com uma expressão vazia, completamente sem reação. Nenhum choque, nenhuma surpresa, apenas um silêncio.

— Ah, era isso? — Seungmin resmungou, visivelmente desanimado.

Ele tinha sido arrancado do abraço de Changbin por isso? Por uma revelação que já estava na cara fazia tempo?

Bufando, cruzou os braços e olhou para o lado.

Changbin soltou uma risada baixa, se recostando no sofá.

— Todo esse alarde pra dizer uma coisa que nós já sabíamos? — Disse Changbin.

Lee Know estreitou os olhos.

— Como assim vocês sabiam? Eu acabei de abrir meu coração pra vocês e essa é a reação que eu recebo?!

Seungmin suspirou pesadamente.

— Lino, por favor, você basicamente se transformou em um cachorrinho atrás do Han. Tava bem óbvio.

Lee Know abriu a boca para retrucar, mas fechou logo em seguida.

— Você tem noção do tanto que você me perguntou do Han? — Seungmin continuou — Todo dia você me pergunta alguma coisa sobre ele ou pede pra eu descobrir algo.

— Mas era por causa da aposta.

— Eu já falei pra você esquecer isso — Disse Changbin.

— Sim, mas agora é sério. Agora eu realmente quero conquistar ele. Eu tô muito apaixonadinho por aquelas bochechas. Ele é tão lindinho.

Changbin e Seungmin se olharam, balançando a cabeça negativamente e fazendo cara de nojo.

— Vixe, tá apaixonado mesmo — Disse Seungmin.

— E você vai contar pra ele que isso era uma aposta no começo? — Perguntou Changbin.

— Vou, mas calma, preciso me preparar pra isso. Escolher as palavras certas.

— Não tem palavras certas. É só dizer a verdade e pronto.

— Não é tão simples assim.

— Quanto mais você demorar, menos simples será.

Seungmin engoliu em seco, sentindo as palavras de Changbin atingi-lo diretamente.

Na manhã seguinte, no campus, Seungmin se aproximou da mesa onde Changbin e Lee Know já estavam sentados, parecendo confortáveis demais para aquela hora do dia.

— Nossa, que demora — Lee Know reclamou.

— Da próxima vez que quiser saber de alguma coisa, você mesmo vai procurar saber — Seungmin respondeu, impaciente.

— Tá tá, mas e aí? Descobriu alguma coisa?

— Ele gosta de peixe.

— Que? Peixe?

— É, peixe. Aqueles bichinhos que vivem no mar, sabe?

— Eu sei. Mas e então, será que ele gosta de restaurante de peixe? Vou convidar ele.

— Não, idiota. Ele gosta de peixe, não de comer peixe. Ouvi ele comentando.

— Por que não leva ele num aquário? — Sugeriu Changbin — Está tendo uma exposição, imagino que ele vai gostar.

— Boa! — Disse Lee Know, animado — Não sei o que seria de mim sem vocês. Vou comprar os ingressos e convidar o Hannie.

Lee Know saiu correndo sem nem esperar qualquer resposta dos amigos. A ansiedade fervilhava dentro dele, precisava planejar um passeio perfeito com Han Jisung.

Seu coração batia forte só de imaginar a possibilidade de passar mais tempo com ele, de vê-lo sorrir, de descobrir mais sobre seus gostos e manias. Queria que fosse especial, algo que Han realmente gostasse.

Mas, no fundo, um medo persistente o incomodava.

E se ele não aceitasse?

Essa ideia fez Lee Know diminuir o passo por um momento, mordendo o lábio em hesitação. Mas logo sacudiu a cabeça, afastando a insegurança.

Os olhos de Han brilharam no instante em que viu os ingressos nas mãos de Lee Know. Ele piscou, surpreso, o coração disparando.

— Não pode ser... — murmurou, pegando um dos ingressos para conferir se era real.

Era o evento que ele tanto queria ir, mas que, além de ser absurdamente caro, os ingressos eram difíceis de conseguir. Ele já tinha desistido da ideia há semanas.

— Como... como você conseguiu isso? — perguntou, ainda incrédulo.

Lee Know sorriu, satisfeito com a reação.

— Tenho meus métodos. — disse, com um tom misterioso.

Han o olhou desconfiado.

— Calma, não fiz nada ilegal. Meu pai é amigo do Diretor do evento. É isso.

Han continuou olhando para o ingresso como se fosse um bilhete dourado para a melhor experiência da sua vida.

— Você realmente conseguiu isso... pra gente ir juntos?

— Eu posso ir com você?

Han cerrou os olhos.

— Então é um encontro? — Perguntou Jisung.

— Não, claro que não, quer dizer, é sim, NÃO! não é. Na verdade é.

— É ou não é?

— Sim, é — Lee Know tentou responder com firmeza mas estava tremendo e Han percebeu, tentava segurar a risada — Hannie, você quer ir comigo? Se não quiser tudo bem, eu vou entender e…

— Quero.

— Sério?

— Sim.

— Tem certeza?

Han revirou os olhos.

— Vou acabar mudando de ideia.

— Não, não, não… é que eu tô um pouco nervoso — Lee Know sorriu tímido.

— É normal ficar nervoso perto da pessoa que gosta.

O rubor subiu rapidamente pelo rosto de Lee Know, mas ele tentou disfarçar com uma risadinha.

— E você fala isso com tanta naturalidade.

— Bom, você disse que está apaixonado por mim, não disse? Então — Han deu de ombros.

— Insensível.

— E você gosta desse insensível. Mas, eu não sou tão Insensível assim, até acho bonitinho você gostar de mim.

— Meu Deus, essa é a pessoa que eu amo... — Lee Know murmurou, balançando a cabeça negativamente, mas com um sorriso nos lábios.

Han arqueou uma sobrancelha, cruzando os braços.

— Arrependido? — perguntou, tentando parecer indiferente.

Lee Know o olhou fixamente, seus olhos brilhando com algo intenso.

Antes que Han pudesse reagir, sentiu Lee Know puxá-lo firmemente pela cintura. Seu corpo congelou.

O ar ficou preso em sua garganta quando percebeu a proximidade. O calor da pele de Lee Know contra a sua, a forma como seus olhos não desviavam, tão certos, tão convictos.

— Nunca vou me arrepender de ter te escolhido.

O coração de Han martelou forte no peito. Ele queria responder, queria provocar de volta, mas pela primeira vez... ficou sem palavras.

— Pra sua informação isso não me abala nenhum pouco — Disse Han num tom de voz baixo, parecia que sua voz não queria sair.

— Não é o que seu corpo diz, parece que você está tão nervoso quanto eu — Lee Know o puxou mais.

— Que bobagem — Han o empurrou — Enfim, e-eu eu, preciso ir pra casa.

— Ok, meu Jisungie. Te pego às sete da manhã.

— Me pega? — Han ficou ainda mais corado.

— Sim, pra irmos ao evento… ou você pensou em outra coisa? — Lee Know sorriu com malícia.

— Meu Deus Lee Minho, eu não pensei nada disso.

— Se você quiser eu chego uma hora mais cedo e a gente pode…

— As sete está ótimo — Han o interrompeu.

Lee Know deu risada.

— Então, até domingo, meu Jisungie. — Lee Know disse, sorrindo de canto, aproveitando a oportunidade para provocá-lo uma última vez.

Han parou por um segundo, apertando os lábios, e então retrucou rapidamente:

— Não sou seu. — Mas sua voz não saiu tão firme quanto gostaria. — E até domingo.

Sem dar tempo para mais provocações, virou-se e saiu apressado, tentando manter a compostura. Mas, por dentro, seu coração estava uma bagunça. Sentia o corpo tremendo levemente, as mãos suando, como se ainda estivesse sob o efeito daquelas palavras e da forma intensa como Lee Know o olhava.

Lee Know, por sua vez, continuou parado no mesmo lugar, observando Han se afastar com um sorriso satisfeito nos lábios. Ele sabia que, aos poucos, seus sentimentos estavam sendo correspondidos.

Notas finais
Huuuuuum Minnie e Binnie vão "atuar" um beijo gay? É isso mesmo, Brasil? Lino e Hannie em um encontrinho fofo... ( *︾▽︾) Ai ai, isso esta ficando sério, Lino. Conte a verdade ao esquilinho!