Lies
3 All I want for Christmas is you
Notas iniciais
Há dois anos
–- Victoire, se arrume logo! – era Natal, e minha mãe estava me apressando, pois já estávamos mais que atrasados para a costumeira ceia que toda a família fazia na’ Toca. Dominique, que estava no quarto do lado, bateu na parede três vezes seguidas, o que significava mais ou menos “se você não se apressar eu vou arrancá-la desse quarto nua mesmo e arrastá-la, porque eu estou morrendo de fome”.
–- SÓ MAIS CINCO MINUTOS, EU PROMETO! – berrei colando a testa à porta do quarto. Corri para o banheiro e escovei os dentes apressada, lavando e secando o rosto em seguida. Com as mãos tremendo apanhei uma bolsa preta que ficava embaixo da pia. Uma bolsa que eu quase nunca usava. Abri e tirei de lá um batom rosa, um rímel preto e um lápis de olho branco.
Eu não usava maquiagem. Não que eu precisasse, afinal eu nascera com sangue de Veela, mas para tudo sempre se tem uma primeira vez, certo? Eu sempre assistia Dominique se arrumando, então eu fazia alguma noção de como me maquiar. Passei o batom com cuidado, e apliquei bastante rímel, o que fez meus cílios ficarem enormes, destacando ainda mais meus olhos. Passei o lápis branco na linha d’água e dei uma passo para trás.
Até que não ficou tão ruim, pensei encarando meu reflexo. Voltei para o quarto e abri meu armário, procurando pelas peças de roupa que eu havia separado na noite anterior. Vesti a calça jeans preta e uma camiseta lisa, também preta. Calcei meus tênis azuis e vesti o suéter azul que minha avó havia tricotado para mim mês passado.
–- VICTOIRE WEASLEY, NÃO ME FAÇA SUBIR ATÉ AÍ! – minha mãe berrou do andar de baixo. Soltei meus cabelos, que geralmente ficavam presos, e encarei o espelho uma última vez. Eu esta, modéstia à parte, muito bonita. Sorri em contentamento e desci as escadas correndo.
–- Desculpe, desculpe, desculpe. – pedi e eles assentiram, sérios. Iríamos para lá como de costume: pela lareira. Mas, naquela noite, se eu pudesse escolher, teria mil vezes preferido aparatar. Meus pais foram os primeiros, Louis indo logo em seguida, e quando eu estava prestes à apanhar o pó de flúor, Domi segurou meu pulso.
–- Não faça isso, Toir. – ela falou com um ar sério e um olhar repreensivo.
–- Não sei do que está falando. – rebati, tentando parecer convincente, mas era tarde demais para aquilo. Ela sabia o que eu sentia por Teddy, há um bom tempo já. Ela, Louis e Rose conheciam muito bem os meus sentimentos por ele.
–- Você sabe muito bem do que estou falando, e sabe que, no fundo, é errado. Não por serem quase primos, não, isso é literalmente o de menos. Você conhece muito bem a fama dele, e sabe que ela é mais que verdadeira. Não quero que se machuque, Toir. – ela falou com olhos tristes.
–- Eu sei me cuidar, Dominique, não precisa se preocupar tanto com a minha vida. – apanhei o pó de flúor e o arremessei no chão antes que ela pudesse dizer alguma coisa, falando mais alto que o necessário: — A Toca.
Senti o calor das chamas verdes e aquela incomoda sensação de ser puxada pelo umbigo, que logo passaria. Assim que abri os olhos eu já estava na lareira de meus avós, e quase toda a família já estava ali, inclusive Teddy.
Ele foi o primeiro que me viu, e não conteve aquele sorriso quase malicioso que aquecia meu coração de forma surreal. Sai da lareira e todos vieram me cumprimentar, o que sempre demorava um tempo, já que éramos uma família gigantesca. Depois de ter cumprimentado à todos, eu, Lily e Rose saímos da casa.
–- Você está usando maquiagem, Toir? É isso mesmo? Oh, Merlin, começará à chover vacas! – Lily soltou com uma expressão indignada e brincalhona. Nós demos risadas. Mesmo sendo mais velha que elas era divertido passar um tempo com minhas primas.
–- Não fique tão assustada, Lil, é só maquiagem. – eu sorri doce e ela assentiu, revirando os olhos.
–- “Só maquiagem.”, como se vocês Veelas precisassem disso. Faça-me o favor, Victoire, não seja tão esnobe conosco, meras mortais. – nós gargalhamos. Lil podia ser a mais nova, mas tendia a ser a que fazia os comentários mais inteligentes.
–- Lil, pode entrar e ver se já começaram a preparar a mesa? – pediu Rose com ternura, sempre uma flor de pessoa. Sintam a brincadeirinha idiota da família.
–- Claro. Eu já volto. – Lil sorriu e desapareceu em questão de segundos. Rose me lançou um sorriso malicioso, e eu revirei os olhos. Eu sabia que entraríamos naquela conversa assim que ela pediu para que Lily fosse checar a ceia.
–- Nem comece com isso, ruiva. – protestei me sentando na grama gelada de dezembro. As folhinhas verdes estavam cobertas por uma fina camada de neve, que caíra na noite anterior. Mesmo que minha bunda estivesse congelando, era uma sensação maravilhosa.
–- Ah, mas eu vou sim, loirinha. – ela se sentou ao meu lado, me empurrando suavemente com o corpo, e nós duas sorrimos. – Eu sei muito bem porque... ou melhor, para quem você se produziu tanto.
–- Pare com isso. Eu só me arrumei porque é Natal. – falei brincando, sabendo que não a convenceria de maneira alguma. E eu nem queria, não escondia nada de Rose.
–- Ah, claro. Com certeza, até porque o Papai Noel deve ser um cara bem gostoso por baixo da fantasia. – nós rimos, talvez mais alto que o necessário, pois atraímos alguns olhares de dentro da casa. – Corta essa, Toir, nós duas sabemos quais são as suas intenções.
–- Na verdade, eu não tenho intenções. Tudo bem, eu me arrumei para ele, mas nós duas também sabemos que ele está ficando com aquela garota da Lufa-Lufa. Não é como se algo fosse acontecer hoje, Rose. Portanto, chega desse assunto, está bem? – pedi, e ela percebeu que se continuássemos falando daquilo eu acabaria magoada.
–- Claro. – ela me abraçou de lado e deu um beijo em minha cabeça. Era incrível como Rose sabia exatamente a coisa certa a se dizer, ou até mesmo não dizer, para fazer com que eu me sentisse melhor.
–- Ei, vocês duas ai na grama, a mesa já está posta. – Lil apareceu chutando nossos pés, e nós sorrimos para ela, que sorria para nós com aquele jeito meigo que sempre carregava. Nos levantamos e fomos juntas para o outro lado do quintal, onde uma mesa quilométrica estava coberta por uma toalha de decoração natalina e por pratos que pareciam deliciosos.
Meu estômago roncou alto, e me apressei a sentar na primeira cadeira que vi, só então percebendo que estava com muita, muita fome mesmo. Rose se sentou à minha esquerda, com Lily logo ao seu lado. Ia acenar para que Louis se sentasse na cadeira à minha direita, quando alguém a puxou para trás.
–- Posso saber se essa já está ocupada? – olhei para cima e encarei Teddy, com um sorriso doce nos lábios. Sorri de volta para ele, tentando controlar minha respiração que havia acelerado como sempre acontecia quando nossos olhos se encontravam.
–- É claro que não. Pode se sentar se quiser. – ele abriu um sorriso ainda maior, se sentando e puxando a cadeira para frente e ligeiramente para a esquerda, quase encostando-a na minha. Estávamos tão próximos que eu podia sentir seu cheiro.
–- Bem, eu gostaria de, como de costume, dizer algumas palavras. – Harry estava de pé, segurando seu copo. Todos estávamos esperando que ele falasse, em silêncio, quando senti algo envolver minha mão, que estava em meu colo. Olhei para baixo e vi os dedos de Teddy se entrelaçando nos meus.
Um sorriso se formou em meus lábios, e assim que encontrei seus olhos percebi que ele também estava sorrindo. Respirei fundo, tentando não surtar e prestar atenção às palavras de Harry. Todo Natal, alguém se levantava e fazia um discurso. Geralmente eram meus avós, mas esse ano Harry resolvera agradecer à todos da família, que o acolheram tão bem, e agradecer à maravilhosa ceia preparada pelas mulheres da casa. Todos brindamos e comemos, como sempre fazíamos. E como de costume, não havia silêncio nem mesmo na hora de comer.
Como todos já tinham idade o suficiente para não acreditar mais em Papai Noel, não tínhamos mais que fazer o teatrinho de que alguém havia pousado no telhado, ou coisas desse tipo. Esses trouxas têm cada ideia maluca...
–- Tudo bem, tudo bem... – Hermione falou no meio da sala apinhada de gente, horas mais tarde, pedindo silêncio. – Está na hora de trocarmos os presentes, portanto nada de gritaria, pessoal.
Nós todos rimos, inclusive ela, porque sabíamos que aquilo era impossível. Os gritos geralmente vinham de nós, meninas, quando ganhávamos coisas que queríamos. Lily e Rose me deram roupas e livros, assim como a maior parte da família. Todos estávamos trocando presentes e gritando desesperados quando percebi que estava faltando alguém.
–- Eu já volto. – falei me abaixando e apanhando um pacote pequeno que trouxera. Assim que saí da casa, imediatamente senti meus ossos congelando, o rosto ardendo pelo ar frio. Me abracei para diminuir os tremores e comecei a andar, não tendo que ir muito longe para encontrá-lo. – Teddy.
Assim que chamei ele ergueu os olhos, que contemplavam o chão segundos atrás. Ele estava sentado em um tronco recém cortado de uma árvore bem, bem antiga que ficava no quintal, que era enorme. Ele se levantou, as mãos nos bolsos frontais da calça.
Todos nós sabíamos que era difícil para ele, o Natal. Teddy nunca chegara a conhecer os pais, e mesmo que fosse alegre e brincalhão na maior parte do tempo, sabíamos que aquilo o entristecia, afinal eram seus pais que ele perdera, tão cedo... Seu nariz estava vermelho na ponta, e os olhos estavam marejados.
–- Ei. – coloquei o pacote no chão, quase correndo em sua direção e o abraçando. Ele retribuiu imediatamente, encostando a testa em meu ombro. Por ser mais alto que eu, tive que ficar na ponta dos pés para que ele pudesse ficar confortável.
–- É só que... eu queria tanto os ter conhecido, Vicky. – ele falou com a voz embargada, e aquilo partiu o meu coração. Me afastei delicadamente, ainda meio abraçada à ele. Com meus dedos frios sequei as lágrimas que rolavam por suas bochechas, ainda quentes.
–- Eu sei. E sinto muito, mesmo. – ele assentiu, em silêncio. – Mas... tenho algo para você. – sorri, e ele sorriu de volta, erguendo uma das sobrancelhas, curioso. Me soltei devagar de seus braços e caminhei até o pacote que havia deixado no chão. Assim que o entreguei ele sorriu.
–- Não precisava ter me comprado nada.
–- Ah, pare com isso! E abra logo. – ele sorriu ainda mais, rasgando o embrulho azul, que era bem próximo à cor que seus cabelos geralmente mantinham. No entanto, naquele momento, eles estavam cinza, o que me magoava, porque eu sabia que ficavam com aquela tonalidade quando Teddy não estava bem.
Seus olhos se iluminaram assim que encarou a lã azul-clara, estendendo o suéter a sua frente, para admirar melhor a flecha prateada enorme bordada acima das letras também em prata que formavam “Appleby Arrows”, o nome de seu time favorito de quadribol. Seus cabelos passaram de cinza para um azul claro quase idêntico ao da lã.
–- Vicky! – ele exclamou com um sorriso tão lindo que não pude evitar sorrir também. Ele dobrou o suéter e o colocou em cima do embrulho, depositando ambos em cima do tronco. Dando um passo para mais perto de mim, ele me segurou pela cintura e me rodou no ar.
Assim que me colocou no chão ele deu um sorriso malicioso, procurando algo no bolso de trás. Ele tirou de lá uma caixinha vermelha, muito bonitinha. A entregou para mim, e foi a minha vez de erguer a sobrancelha.
–- Teddy... – comecei a repreendê-lo.
–- Nem ouse reclamar, você também não deveria ter me comprado nada, Weasley. – eu sorri para a caixinha, a abrindo. Encarei-a com um sorriso que, certamente, ia de orelha a orelha. Dentro da caixinha, em uma corrente de prata, havia um pingente, também de prata, em forma de flor.
–- Teddy... é lindo! – exclamei, encantada. Ele sorriu, tirando a corrente da caixinha e, com cuidado, a colocando em meu pescoço. Ela era comprida, e o pingente ficava na mesma altura que meu coração. – Obrigada.
Passei os braços por sua cintura, abraçando-o com força. Ele retribuiu com carinho, e com a cabeça encostada em seu peito, pude ouvir seu coração, descompassado, batendo alto. Quando nos separamos suas mãos ainda estavam na base das minhas costas.
–- Fico feliz que tenha gostado, de verdade. Mas tem outra coisa que eu adoraria te dar. – ele falou, a voz firme agora tão meiga que mal parecia o mesmo garoto que eu conhecia há anos.
–- Não tem mais nada que eu queira. – comentei, e era verdade, porque ele ainda estava em meus braços, e aquele era o melhor presente de Natal que eu poderia ganhar, em anos.
–- Mas tem algo que eu quero. Você. – segundos depois de as palavras terem deixado seus lábios, antes mesmo que meu coração pudesse tentar sair por minha boca, ele colou nossos lábios em um beijo calmo e delicado.
Aquilo parecia um sonho. Eu, Victoire Weasley, estava beijando Edward Remus Lupin. Finalmente, era o que uma vozinha gritava em minha cabeça. Quando finalmente voltei ao mundo real, meus olhos ainda estavam fechados, nossos lábios se movendo em sincronia, nossas línguas brincando uma com a outra, meus dedos perdidos em meio aos seus cabelos. Eu nunca me sentira tão bem em toda a minha vida.
–- Victoire, Teddy! – nos separamos assim que ouvimos a voz de Alvo, que vinha de dentro da casa. – Voltem para dentro, está começando a nevar.
Só então me dei conta de que pequenos flocos de neve caiam e grudavam em nossos cabelos. Nossos olhos se encontraram, e sorrimos um para o outro. Meu corpo começou a tremer, deixando de lado o calor interno que eu sentia, notando o frio que realmente fazia. Voltamos para dentro abraçados, só nos separando quando chegamos perto o suficiente da’ Toca para que alguém reparasse.
Definitivamente o melhor Natal de todos.
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