Lie to me
3 Capítulo 3
Chamar esse lugar de casa era eufemismo. Pra começar era enorme, e além disso não era casa, era apartamento… não sei porque eu ainda me surpreendo com essa faculdade de malucos, mas esse espaço todo era só meu.
Essa sala enorme com janela panorâmica com vista para a praia de Copacabana, era só minha. Essa cozinha enorme high-tech totalmente abastecida, é minha. Esse quarto com uma cama que caberia quatro de mim em cima, só minha. E o banheiro… com uma banheira de hidromassagem, um chuveiro que caia direto do teto, uma pia com um armário em baixo cheio de toalhas brancas e, cara, tinha até um roupão.
Meu Deus, isso é um sonho, ou pesadelo. Deve ser uma armadilha para tráfico humano, certeza. Eu vi na novela, promete uma viagem com emprego pra um lugar legal e depois sequestra e é obrigada a ser escrava sexual para alguém.
Eu estava pirando, hiperventilando, tinha certeza que algo está errado, eu só me ferrava, não tinha a possibilidade daquele apartamento ser meu. Eu caí ao lado da banheira, coloquei minha cabeça entre os joelhos e tentei respirar o mais devagar possível, montando um plano pra sair dali. Estava acontecendo tudo rápido demais.
E foi ali que Samuel me encontrou. Aparentemente eu tinha hora em algum lugar e se não saísse agora estaria atrasada. Eu olhei bem pra ele. Parecia ser um homem legal. Gentil. Só tem me ajudado desde que cheguei. Ele era o meu motorista ou o vigia pra me impedir de fugir?
—Eu já estou aqui então seja sincero. Isso aqui é uma faixada pra tráfico humano não é?
A cara dele ficou vermelha, os olhos arregalados, Eu sabia! E logo depois ele começou a rir, verdadeiramente gargalhar.
—Ai meu Deus. Garota, me disseram que você seria complicada, mas não me contaram nada de paranóica!
Agora foi a minha vez de ficar vermelha.
—Olha o lugar onde estamos! É enorme! Que tipo de Faculdade dar esse espaço pra um bolsista? Isso não tem lógica!
Merda, não devia ter dito isso. Acabei de ser informada a não dizer a ninguém que sou bolsista e já quebrei essa regra.
—Sabe que você tem razão… — ele falou pensativo. — mas o que você desconhece é que, essa faculdade, é de gente rica. Onde você acha que gente rica mora? E pelo que ouvi, o bolsistas não podem ser descobertos, não se preocupe, eu já sabia. Acho que o apartamento é pra você se enturmar. Eu não sou o maior expert na ULXIV, mas o que sei é que eles não brincam com dinheiro. Cada centavo que eles gastam voltam em milhões. Eles não ficam apenas na Faculdade, esses Deluffer. Tem empresas, hotéis, imóveis, e principalmente, contatos. E é disso que é necessário pra se dar bem. Esse prédio aqui, é deles. A loja que vamos comprar o seu uniforme, é deles. E o salão que vamos também. Você entende o que eu digo? Quero dizer que pensar em desculpas pra se livrar do peso da realidade não vai funcionar. Você é órfã não é? Não tem ninguém no mundo? Ótimo. Agarre isso e transforme em oportunidade. Você não tem mais nada a perder, já chegou no fundo do poço, então agora suba. Faça contatos, seja a melhor, seja indispensável.
Era o tipo de conselho que um pai daria a uma filha. Gostaria de pensar que ele sente isso em relação a mim. Depois da minha mãe não conheci ninguém que se importasse.
—Você está certo, eu acho. Quer dizer, tenho um lugar pra morar, isso já é mais do que eu tinha ontem. E tem a faculdade, vou tentar me dar bem. Quer dizer. Não vou ter que me preocupar com comida e ser atacada à noite. Então vou conseguir.
—Isso aí garota! Agora precisamos correr. Temos coisas a fazer.
—Quando é que eu vou poder controlar os meus horários, você diz que é motorista mas está mais pra babá.
Eu tinha acabado de sair de um vôo, dormi nada na noite anterior. Só queria um banho e cama. Eu olhei em direção àquela banheira enorme, bem do meu lado. Seria meu primeiro banho de Banheira.
—Meus horários fixos são as aulas, e apenas a hoje é amanhã, com visitas obrigatórias a todos os estudantes. A maioria faz essas coisas assim que sai do Ensino Médio. Já sabem que vão estudar aqui então compram com antecedência, quase como um ritual de passagem. Os pais deles estudaram ali, talvez os avós também. Quem sabe. Só que você mocinha. Chegou a uma semana do início das aulas sem saber onde se meteu. Precisamos correr pra recuperar o tempo perdido.
Não era culpa minha chegar atrasada, nem dele, mas isso não tirava a minha irritação com a situação em que estávamos. Se tínhamos que ir, então é melhor ir de uma vez.
Só deixei minhas coisas aqui e entrei de volta naquele carrão preto. O uniforme foi tranquilo. Era antiquado e estiloso ao mesmo tempo… é possível?
A saia era vermelha pregueada, dois dedos acima do joelho era o regulamento. A parte de cima era uma camisa branca com um blazer vermelho com detalhes brancos e azuis. Era elegante e me faria parecer uma adolescente… isso é muito controvérso. Tanto quanto eu amar e odiar. Odeio saia. Comecei a odiar quando eu estava entrando na escola e o vento levantou a minha no meio do pátio quando eu estava na oitava série. Minha calcinha foi comentada durante uma semana entre os meninos da escola, sorte que ninguém registrou esse momento vergonhoso.
Mas amei a parte de cima. Nunca tinha usado algo do tipo. Me senti importante.
O sapato e as meias eram de livre escolha apesar de ser recomendado meias brancas e sapatos fechados. A loja disponibilizou eles também é enviariam pra minha casa quando estivesse pronto.
Próxima parada foi o salão. Não sei pra que. Minha aparência é como dizia minha mãe, única. Meu cabelo é cor de fogo, igual ao dela. Os olhos era uma complicação pra mim, eu gostava de querer passar despercebida, mas era impossível pra quem tinha Heterocromia. Minha mãe dizia que Deus não tinha encontrado uma cor que misturasse a dela com a do meu pai, então colocou uma em cada olho. Minha pele era levemente bronzeada com muitas sardas. Eu era estranha. Mas eu gostava. O problema era adaptar minha estranheza em novos lugares.
Não havia muita coisa que fazerem pra que eu ficasse apresentável. E mesmo assim me surpreendi com o resultado. Eu só sentei lá e deixei me fazerem de boneca. Eu nunca tinha estado em um salão antes então não tinha certeza do que fazer. Deixei que fizessem o trabalho deles, a única coisa que eu pedi foi pra que não diminuísse o tamanho dos cabelos. Eu já tentei cabelos curtos um vez e foi um total desastre. Ele ficava armado, pra todo lado. Sem forma definida. Tive que passar meses de chapéu. Não é uma experiência que eu quero refazer.
Quando terminou, meu cabelo estava domado, não sei até quando, as sardas estavam ocultas em muita camada de base, e meus olhos estavam muito bonitos, eu tinha que admitir pelo menos isso.
—Pra que tudo isso Samuel? Fala sério, não tem mais nenhum lugar pra ir não né?
—Só uma festa hoje a noite, um encontro com todos os alunos, alguns pais também estaram presentes eu acho…
—Que?! E você só me diz agora!
Isso não podia está acontecendo!
—Eu realmente preciso ir?
—Lembra do que eu disse? Contatos.
—Mas eu quero um banho antes! E dormir um pouco seria legal também.
—Nada contra banho. Você pode prender todo esse cabelo em algum negócio e manter a cabeça longe da água na banheira…
—Fala sério! Nem roupa eu tenho pra isso!
—Claro que tem! Seu closet está cheio deles. E de sapatos. Eu tive que carregar boa parte deles sabia?
—Eu tenho um closet? Uma coleção de vestidos e sapatos? Samuel… tem certeza que não tem tráfico humano envolvido nessa história?
E mais uma vez ele estava rindo da minha cara. Onde foi que eu me meti?
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