Notas iniciais
E lá vamos nós...

Quando você completa dezoito anos é geralmente a hora que você quer se tornar uma pessoa independente. Ter uma casa com as suas regras e não a de outra pessoa, ter as suas escolhas e não a de outra pessoa, ter a sua vida e não a de outra pessoa. A maior parte da minha vida foi projetada pra esse dia, e eu estava ansiosa esperando que o email com minha carta de alforria chegasse a qualquer momento.

Eu morava num orfanato pra garotas, o Orfanato Santa Mônica. A maioria aqui já estava velha demais pra ser adotada então nos colocam aqui pra espera completar dezoito anos e poder levar o tão famoso pé na bunda. Garotas que não tinham pra onde ir nem poderiam ficar. Eu não queria que isso acontecesse comigo, de jeito nenhum. Sou esperta demais pra isso.

A minha única chance era a faculdade. Eu estudei como uma louca durante todo o Ensino Médio, tudo pra esse dia. Me inscrevi pra duas faculdades, esperando ganhar bolsa integral com minhas notas, eu sabia que era difícil, eu sabia que a concorrência seria complicada, mas eu tinha que tentar.

Faltava menos de um mês pra que eu completasse dezoito anos, em menos de um mês eu teria que sair, eu não teria pra onde ir, morar nas ruas é perigoso, eu soube de garotas que acabaram entrando no mundo das drogas ou da prostituição, eu não queria isso pra mim.

Por isso coloquei todo meu esforço nos estudos, me foquei totalmente, usei cada gota de esforço apenas pra passar nessas faculdades. Já rezei pra todos os santos e olha que nem sou religiosa. Agora tudo dependia de um email.

O orfanato não tinha computadores, esse era um luxo caro demais pra garotas como nós, mas eu e a Anne íamos sempre a Lan House do outro lado da rua, ela até namora o carinha que cuida dos computadores e nos deixa acessar de graça, quer dizer, eu acessava enquanto eles se agarravam numa sala privada no andar de cima. Não sei como ele ainda não foi demitido.

Sentei em frente a tela do computador e coloquei meu email e senha. Cruzei os dedos enquanto carregava... Por favor, por favor, por favor...

E estava lá. Dois emails. É um sentimento estranho saber que todo seu futuro depende do que está escrito em uma tela de computador. Eu me inscrevi pra duas Faculdades aqui mesmo de Fortaleza. Eu estava contando com a moradia que o campus disponibilizam pros alunos, eu teria um lugar pra morar, comer e não precisaria me preocupar em ser atacada no meio da noite. Eu só precisava de um sim.

E esse sim não veio.

Você não atende as nossas qualificações... Suas notas não atingiram a nossa meta... E a meta da minha vida? Onde ficava? Isso era impossível, eu tenho certeza que acertei 80% das questões. Eu dei o meu máximo, não tem como não ter sido o suficiente.

Não percebi que Anne estava ao meu lado, nem que eu estava chorando nesse momento. Ela me abraçou e não perguntou nada. Apenas ficou lá comigo enquanto eu chorava porque sabia que minha única chance de sair desse lugar foi completamente destruída.

Eu tinha duas semanas pra replanejar todo meu futuro, principalmente onde vou morar. Ainda tenho meu emprego na lanchonete do Bil, consigo cinquenta reais por semana, talvez eu consiga alugar alguma coisa por um tempo, vou ficar com fome, mas talvez eu consiga comer um ou dois hamburgers na lanchonete, e Bil odeia que os funcionários comam seus produtos, mas talvez ele entenda... Esse plano tinha muitos "talvez", jamais dará certo.

Eu precisava de um emprego melhor, mas ninguém contrataria uma adolescente de dezessete anos sem nenhum tipo de experiência em um tempo de crise como esse. Eu estava perdida. Completamente perdida.

Deixei a Anne curtindo o namorado e voltei pro orfanato. Não era permitido passar muito tempo na rua, e já estava quase na hora do almoço, é melhor aproveitar bem a chance de comer bem antes que eu comece a passar fome.

Passando pela entrada fui parada pelo Denis, ele era o porteiro e segurança do orfanato, tinha cerca de quarenta anos e parecia um armário. Ele era insuportável. Um verdadeiro babaca que dava em cima de todas nós. Quando reclamávamos à direção éramos chamadas de vadias por "dar em cima de um respeitável senhor casado que jamais agiria de forma tão vil na frente de donzelas"... Um verdadeiro Filho da Puta, isso sim.

—A gatinha arrumou um macho aí fora foi, ganhando presentes... Já que tá abrindo as pernas pros outros bem que podia abrir pra mim também né Vick. Garanto que tu vai gostar gostosa.

—Vai a merda Denis!

—Quem vai pra merda é você daqui à alguns dias, pensa que eu não sei que já vai ser expulsa. A maioria de vocês param lá no Cabaré da Neuza, acho que ainda tem vaga pra mais uma vadia.

—Nem fodendo. Agora de que presente você tá falando? — Essa era a parte que eu estava mais curiosa. Minha mãe faleceu quando eu tinha sete anos, ela era filha única e meus avós já haviam falecido. Éramos eu e ela contra o mundo até que ela não teve mais forças pra lutar. E nunca tive notícias do meu pai então não havia ninguém que me mandasse encomendas, nem mesmo cartas eu recebia.

—Que tal um beijo, aí eu te dou. -Respondeu ele na maior cara de pau.

—Que tal eu chutar entre suas pernas?

—Você não ousaria.

—Experimenta... — ele sabia que eu faria, essa não seria a primeira vez que isso aconteceria. Acontece que Denis assediava todas as garotas, mas comigo era pior. Ele dizia que eu era sua favorita e em mais de uma vez ele tentou me passar a mão durante esses seis meses que trabalha aqui. Em uma dessas vezes ele ficou falando fino por uma semana.

Ele me jogou um pacote pequeno, do tamanho de um livro, só que mais grosso. Balancei mas não fazia a mínima idéia do que poderia ser ou quem havia enviado. Olhei o remetente e encontrei apenas o nome da cidade de onde veio, "Rio de Janeiro". Eu não conhecia ninguém que morasse lá, na verdade eu não conheço ninguém que não more nessa rua, além dos colegas da escola.

Olhei pro Denis e ele estava me encarando com curiosidade. Estava escrito na cara dele que ele queria saber o que havia dentro. Eu não daria esse gostinho a ele.

—Não balança essa bunda desse jeito gostosa, assim você me mata!

Levantei o dedo do meio em resposta e sai andando pro meu quarto que dividia com Anne e mais seis garotas no momento estava vazio por que era a hora em que o almoço estava sendo servido. Rasguei o papel morta de curiosidade, é o primeiro presente que recebo desde que minha mãe morreu e o conteúdo foi surpreendente.

Um iPhone. Eu ganhei um iPhone. Deve estar havendo algum erro, olhei mais uma vez pra ver se era pra mim mesmo e estava lá, meu nome e endereço tudo certinho. Eu estava chocada... E feliz. Eu poderia vender quando eu saísse daqui, isso aqui é com certeza caro, eu poderia conseguir pagar uns quatro meses de aluguel de uma kitnet.

Eu não sabia como mexer e estava com medo de quebrar e perder o valor da venda, mas eu queria saber se tinha alguma coisa dentro dele, se tivesse eu teria que apagar antes de dar pra outra pessoa. Júlio veio a minha mente, o namorado da Anne era um gênio em tecnologia e com certeza saberia tudo sobre esse negócio aqui.

Saí correndo pra Lan, passei por Denis que nem olhei pra cara dele. Júlio não estava no térreo, quer dizer que ele tava se agarrando com a Anne lá em cima e na última vez que subi pra fala com um dos dois presenciei a pior cena da minha vida. Me arrepiei toda só de lembrar da Anne pelada. Ahhrg!

Mas pra minha sorte os dois já estavam descendo totalmente descabelados. Júlio ficava fofo assim, Anne parecia que tinha um ninho de pássaros no lugar do cabelo. Uma vez vendo a minha cara de intrigada sobre o por que do cabelo dela sempre terminar assim ela simplesmente disse "O Júlio gosta de puxar", e eu achei isso informação demais.

—Preciso da sua ajuda.

—Fala vadia, o que foi agora? — Respondeu Anne. O Júlio nunca entendia por que a gente só se referia uma à outra com xingamentos, era uma coisa nossa. Chamamos as amigas de "Vadias" e as inimigas de "Queridinha"...

—Você não piranha, seu namorado. Tem como você olhar isso aqui pra mim? Mostrei a ele o iPhone.

—Puta merda! Onde você conseguiu isso? É um da última geração!

— É muito caro? — Perguntei ansiosa, queria saber por quanto venderia, acho que conseguirei uns quinhentos reais nele pelo menos.

—Se é caro? Isso aqui é no mínimo oito mil reais. Onde conseguiu? Não acredito que tô segurando essa belezinha!

Oito mil?! Tudo isso? Ai meu Deus! Eu vou poder pagar pelo menos um ano de aluguel, não vou morar na rua!

—Eu ganhei, mas eu não sei como usar, você me ensina? Quero ver se tem algo aí dentro, saber quem mandou sabe? Depois eu acho que vou vendê-lo então vou precisar da sua ajuda também, não sei nada de iPhone.

—Você é tão sortuda vadia! -Anne estava quase dando pulinhos. Eu sabia que ela estava preocupada comigo, como eu iria me vira fora do orfanato. Agora eu estaria bem.

O Júlio com o jeitão dele me mostrou tudo que tinha nele e como usar. Não tinha fotos, nem vídeo, nem mesmo música. Já estava perdendo as esperanças de achar alguma pista de quem me enviou...

—Tem uma mensagem! -Gritou Júlio entusiasmado.

—O quê? O que tem escrito? Me mostra!

Havia apenas duas palavras no SMS.

Me ligue

Eu estava nervosa, como assim me ligue, sem nenhuma explicação ou qualquer outra coisa? Minhas mãos estão tremendo.

—Liga logo! Não aguento isso! Se você não ligar eu ligo. — Vendo a minha reação, Anne já ia tomar o celular pra ligar pra pessoa. Mas fui mais rápida que ela, tomei o celular da mão do Júlio e deslizei o dedo pela tela ligando pro número que me enviou a mensagem. Chamou por poucos segundos mas logo foi atendido e uma voz grossa foi ouvida do outro lado da linha.

—Que bom que ligou senhorita Vicktória, já estava pensando que o celular não havia chegado à suas mãos.

—Desculpe, mas... Com quem estou falando?

—Ah! Que educação a minha, esqueci de me apresentar. Sou Pierre Deluffer, reitor da Universidade Luiz XIV, e eu gostaria de convida-la a frequentar a nossa instituição, obviamente sabemos da sua condição financeira e familiar. Estamos dispostos a dar-lhe bolsa integral, moradia e a passagem para vir de avião.

Eu estava chocada, até cinco minutos atrás eu estava imaginando como seria morar na rua sem dinheiro, e agora eu recebo uma proposta do Reitor de uma faculdade no Rio de Janeiro. Como assim? Tem algo errado aí.

—Desculpe senhor, mas como me encontrou? Nunca me inscrevi pra sua universidade.

—Nós somos uma universidade especial, não usamos provas pra que o aluno entre, temos os nossos próprios métodos de avaliação. A senhorita não precisa responder agora, ligarei amanhã, neste mesmo horário, então a senhorita pode me dizer se está disposta a aceitar nosso convite. Irei desligar agora, tenho muitas coisas a fazer. Até amanhã.

No mesmo momento que a ligação foi encerrada o Júlio já estava na frente do computador pesquisando sobre a Universidade. O que ele encontrou foi incrível. A lista de ex alunos graduados é lotada de nomes famosos, os cursos oferecidos eram incríveis, e tinha História! E em determinado momento achamos a foto de Pierre Deluffer, ele era um homem de no máximo 45 anos, era incrível que ele era capaz de controlar uma instituição tão incrível com tão pouca idade... Se formar na ULXIV era sinônimo de ser bem sucedido. A vida está me dando uma chance, Deus está finalmente olhando pra mim. Não vou desperdiçar. Uma nova vida me espera no Rio.

Notas finais
Até a próxima, tentarei postar dois capítulos por semana.