Licantropo - o Livro de évora
7 A História do Acólito
VII
A História do Acólito
Aquilo tudo só podia ser uma ilusão. João não acreditava em seus olhos. Um padre trajando ainda a batina cerimonial da missa, estatura mediana, com cabelos falhos e grisalhos, caminha na direção da igreja. Seus olhos, geralmente calmos, estavam agora sérios.
- Padre... – disse João, antes de perder os sentidos.
Acordou em uma cama dura. Tinha a cabeça amparada em um travesseiro alto. Um lençol branco com cheiro de limpo cobria seu corpo. A cama ficava em um quarto pequeno. Havia uma mesa-de-cabeceira ao lado dela, um armário de frente para a porta e um ventilador de teto.E isso era tudo. Não havia quadros, estantes... Nada que demonstrasse a pessoalidade de alguém ou sua personalidade.
Sentou-se colocando os pés no chão e sentiu a cabeça latejar. Passou a mão no rosto e pode perceber as saliências de uma cicatriz horizontal abaixo de seu olho esquerdo. Esticou os braços para alcançar as costas e sentiu outras marcas.
Onde é que estava, afinal? E Miguel? O que havia acontecido com ele?
Levantou-se e abriu a porta do quarto. Ela dava em um aposento escuro, mas não por falta de janelas (estas estavam fechadas). Uma estante enfeitada com vasos de flores encostada à parede a um canto e uma mesinha pequena diante de um sofá velho com a aparência de desconfortável formavam o que parecia ser uma sala de estar bem humilde. Atrás do sofá, havia uma mureta de apenas 1 metro e meio de altura, que fazia a divisa da sala com uma cozinha bem simples.
Sentado ao sofá, encontrava-se um homem com a aparência de 25 anos lendo um jornal intitulado “A Folha de Cipriano”. Tinha cabelos negros como o dele, mas lisos como os de sua falecida mãe. Suas pernas eram esguias e uma estava dobrada sobre a outra de maneira estranha. O homem levantou a cabeça quando João adentrou o aposento, deixando seus olhos castanhos bem claros à mostra e esboçando um sorriso conhecido.
- Miguel! – disse João, aproximando-se do irmão em um salto. – O que aconteceu? Onde estamos?
- Acalme-se rapaz! – respondeu o outro, rindo do irmão mais velho. – Essa é a casa paroquial de São Cipriano. Lembra daquele padre? O nome dele é Joaquim. Ele nos trouxe pra cá e realizou um Ritual de Cura em nós dois e deixou que nos recuperássemos aqui. Ele é um feiticeiro, acredita nisso?!
João estava tonto e fez menção de dizer alguma coisa, mas então a porta se abriu. Era o tal Padre Joaquim. Havia trocado a batina cerimonial por uma batina preta e carregava em suas mãos algumas sacolas de compras.
- Você levantou! Que bom! – disse o sacerdote, também lançando-lhe um sorriso. – Como se sente?
- A cabeça está girando... mas não acho que seja por causa da luta de ontem...
- Ontem? – perguntou o padre, rindo. – Meu caro, você está inconsciente há uns três dias. Seu irmão sim, ele acordou logo na manhã seguinte, mas você estava em péssimas condições. Na verdade, nem acredito que sobreviveu...
- Nem eu, pra ser sincero.
- Devo dizer que sou parte responsável por sua salvação... Não foi fácil curá-lo, mas o Ritual do Fruto Vermelho é muito poderoso.
- Você sabe realizar o Ritual do Fruto Vermelho? – perguntou João, descrente. – Mas você é padre! Como pode ser um feiticeiro também?
- Na verdade, não sou mais feiticeiro. Abandonei a minha Ordem para tornar-me padre há uns 15 anos. Fiquei com medo de ter perdido a prática, mas afinal, é como andar de bicicleta, não é? Agente nunca esquece...
- Mas... Por que deixou de ser feiticeiro para ser padre?
- Essa é uma pergunta interessante. – respondeu o diácono. – Traz uma longa história para ser respondida e eu gostaria de contar estes fatos de estômago cheio, se me permite.
Padre Joaquim dirigiu-se então à cozinha e começou a retirar suas compras de dentro da sacola. Ele havia trazido alguns pães, um saco de café, caixinhas com saquinhos de chá, queijo, presunto e manteiga.
- Acho que chá não é muito convidativo a essa hora da manhã. Café então? – perguntou o padre para os irmãos.
- Por favor. – respondeu Miguel, continuava a olhar sorrindo para o irmão, que apenas acenou positivamente com a cabeça para o padre.
- Interessante como as coisas são, não é? – começou a dizer o homem de batina, enquanto preparava alguns sanduíches e colocava uma caneca com água no fogo. – Entrei para a igreja para uma missão da Ordem e acabei a abandonando para tornar-me padre. Que ironia...
- Qual era a missão? – perguntou João, sentando-se no sofá ao lado de seu irmão.
- Bem, como você deve imaginar, tinha a ver com o Livro.
- O Livro de Évora?
- Sim. Como você sabe, este Livro é um artefato que foi sempre muito desejado entre os feiticeiros. Minha Ordem estava em peso atrás dele. Se nós o possuíssemos, nos tornaríamos a Ordem de Feiticeiros mais poderosa do mundo, isso considerando apenas metade das histórias que concernem ao livro como verdadeiras.
Padre Joaquim interrompeu sua história apenas por alguns instantes, enquanto coava o pó de café com a água que acabara de ferver.
- Mas afinal, que livro é esse? – perguntou Miguel, o único que não sabia nada sobre aquela história.
- Dizem que Cipriano, antes de converter-se era um feiticeiro e que em uma de suas viagens encontrou uma poderosa bruxa chamada Évora. Ela deu-lhe um livro contendo inúmeros Rituais Mágicos poderosíssimos. – explicou rapidamente o irmão.
- Por que nunca me contou isso? – perguntou Miguel, estranhando o alcance do conhecimento do outro.
- Sei lá... – respondeu João, dando de ombros. – Não achei que fosse importante. Pelásio me contou uma vez e eu havia esquecido sobre isso.
Miguel aceitou as explicações do irmão, mas padre Joaquim percebeu que o que João havia dito não era inteiramente verdade, ou então que faltavam alguns fatos àquela história, mas preferiu não dizer nada.
- Enfim, — disse o padre, continuando seu relato. — nós tínhamos algumas pistas em relação ao livro. Lugares possíveis para ele estar. Eu fui encarregado de procurá-lo aqui, em São Cipriano. Era o local mais provável para o seu paradeiro, afinal, esta cidade foi fundada pela Ordem dos Ciprianos, que você bem sabe, foi extinta há uns cinqüenta anos. E se Cipriano foi quem recebeu o livro das próprias mãos da bruxa Évora, era possível que ele estivesse sob o poder da ordem que ele criou há mais de mil e quinhentos anos, antes dele se converter ao cristianismo, é claro.
“A igreja foi erguida apenas como disfarce para a construção do Salão de Cipriano em seu subterrâneo. Se bem que na época toda cidade tinha que ter uma igreja, se não, não prosperava. A cidade funcionaria como sede para a Ordem e assim foi por quase meio século, até ser atacada em 1954 pela Ordem de Newman. Os Feiticeiros desta Ordem encontraram um livro de capa preta intitulado “Livro de Évora”, mas era falso, mesmo que eles não soubessem disso. Ele foi escrito pelos Ciprianos justamente para situações como estas, e que para o verdadeiro Livro de Évora jamais viesse a cair em mãos erradas.”
Padre Joaquim depositou os sanduíches e a garrafa de café sobre a mesinha defronte ao sofá. Depois voltou a cozinha e pegou algumas xícaras em um armarinho acima da geladeira e uma cadeira da mesa da cozinha para ele poder sentar. Depois, voltando à sala de estar, serviu o café e pegando para si um dos sanduíches, deu-lhe uma mordida, tomou um gole da bebida quente e continuou a narrativa.
- A Ordem de Newman foi então derrotada pela Ordem de Ébano, ou seja, a ordem na qual eu fazia parte antes de virar padre, há pouco mais de quinze anos. Roubamos o Livro de Évora que eles haviam extraviado dos Ciprianos e deduzimos que ele era falso. Então foi assim que fui escolhido para infiltrar-me na igreja, aqui nesta cidade. Eu era 3º Mestre da Ordem na época, um título bem respeitável.
“Disfarcei-me como Acólito, uma posição perfeita para a missão. O chato era ter que auxiliar a missa, mas isso foi apenas no início. O tempo passou e a minha missão ficou meio esquecida pelos meus sentimentos. Na época, o pároco da igreja era Padre Serafim. Ouvi-lo dirigir-se aos fiéis na homilia durante a missa passou a me satisfazer como as refeições do dia a dia. Desviei-me de minha tarefa e minha ordem começou a me pressionar. Queriam ouvir relatórios sobre minhas atividades, mas tudo o que tinha era uma crescente vontade de seguir o caminho religioso.”
Padre Joaquim parou para dar mais uma mordida no sanduíche. Depois continuou.
- Tivemos uma discussão, a Ordem e eu. Então voltei a minha missão, mas não mais com o intuito inicial. Minha vontade era apenas a de terminar logo aquele encargo para abandonar o mundo da feitiçaria e tornar-me padre. Acabei por descobrir a passagem sob o altar. Claro que não foi tão fácil assim. Ela havia sido lacrada com um Ritual poderosíssimo.Depois que consegui abri-la, segui aquele corredor escuro e finalmente encontrei: O Salão de Cipriano.
“E lá, em um pedestal diante da estátua do santo, encontrava-se o livro aberto no famoso Ritual da Cabra Preta. Este Ritual era de longe o mais poderoso do livro. É o que tornou São Cipriano tão famoso entre os feiticeiros e que todos achavam que fosse de sua própria autoria, mas não era. De fato, um dos poucos rituais daquele livro que os feiticeiros do mundo todo conhecem a teoria desde os tempos de Cipriano, mas não muitos são os que conseguem realizá-lo com maestria. Felizmente para vocês, eu fui um dos que conseguiu dominá-lo no auge de meu poder enquanto feiticeiro, do contrário, a Oração da Cabra Preta que recitei contra o tal Damarco não teria surtido efeito algum. Seria apenas um monte de palavras estranhas reunidas.”
“Entreguei o livro para a Ordem de Ébano sem nem ao menos dar uma olhada nas demais páginas e comuniquei-os que estava deixando de ser feiticeiro. Não queria ter mais nada a ver com magia e feitiçaria. Passaria a dedicar minha vida a Deus. Entrei para o seminário e tornei-me padre no ano em que Padre Serafim veio a falecer. O bispo designou-me para São Cipriano a meu pedido e aqui estou há quinze anos.”
Padre Joaquim terminou sua história lançando mais um sorriso aos irmãos. Nunca havia contado aquilo para ninguém, mas os dois precisavam saber. Sabia pelo que estavam destinados a passar. Havia previsto tudo aquilo há muitos e muitos anos.
- Mas... o que não entendo é por que você não nos ajudou desde o começo? Por que não disse lá na floresta que também era um feiticeiro e por que não foi lutar contra Damarco quando nós fomos?
Uma sombra perpassou os olhos do padre. Era tristeza, e João podia notar aquilo. Ele pareceu meio sem graça ao responder.
- Quando abandonei a Ordem, jurei pra mim mesmo que jamais mexeria com feitiçaria de novo. Não estou dizendo que magia tenha a ver com o demônio, ou coisas folclóricas do tipo, mas com certeza não condiz com a filosofia da Igreja Católica. Eu sequer havia olhado o Livro de Évora em minha sede de tornar-me padre!
“Ignorar o que havia sido no passado era difícil, mas foi possível durante esses últimos quinze anos. No entanto, não pude permanecer escondido na delegacia àquela noite. Eu avisei ao policial Daniel e aos outros policiais que não interferissem, e devo dizer que entrar no meio de uma batalha entre licantropos e feiticeiros era a última coisa que eles tinham em mente. Quanto a mim, não dava pra ficar lá sem fazer nada. Quando senti o tremor de terra, fui correndo até a Igreja e vi que vocês dois estavam à iminência de serem mortos. Conjurar a Oração da Cabra Preta era a única opção que tinha.”
João parou para raciocinar tudo o que havia ouvido. Padre Joaquim, feiticeiro da Ordem de Ébano... Jamais teria imaginado isso daquele padre no início daquela noite fatídica. Então resolveu revelar seu próprio segredo ao padre.
- Já sabia que o livro não estava aqui.
Padre Joaquim olhou-o curioso. As sobrancelhas contraídas.
- Você já sabia disso? – perguntou o padre, incrédulo. Miguel passou a olhar para o irmão de maneira diferente.
- Você sabia?
- Sim. – respondeu João, sem olhar para o irmão ao seu lado.
- Como?
- Pelásio, nosso Mestre. – respondeu João. – Me contou.
- E como ele sabia? Ninguém sabe que a Ordem de Ébano tem a posse do livro, eles fizeram um pacto interno de jamais revelarem esse segredo. Ou será que ele entrou para a ordem depois que eu saí?
- Não. Ele esteve dentro da Torre de Lótus e o viu com os próprios olhos.
- Na Torre de Lótus? Uma das sedes da Ordem de Ébano. Eu lembro que eles haviam decidido deixar o livro guardado lá. Mas como ele sabia que iria encontrá-lo? – agora era a vez de o padre interrogar.
- Não sabia, apenas desconfiava. Aquela Ordem estava agindo de maneira muito estranha há anos. Estavam adquirindo poder muito rápido...
- Mas como ele conseguiu invadir a Torre? É impossível fazer isso sem ser percebido... E com certeza a câmara onde o livro se encontrava devia estar muito bem protegida.
- Não sei como... Mas ele disse que havia feito. Quando estava prestes a roubar o livro, foi descoberto e teve que fugir. Por isso viajou para o norte, para se esconder por uns tempos no meio da floresta. A Ordem de Ébano está em peso atrás dele querendo matá-lo. Não querem que ele espalhe o segredo deles.
- Faz sentido, mas é reprovável, claro. – completa o padre, rapidamente.
Ninguém tinha mais nada a dizer, mesmo que todos ainda tivessem perguntas não respondidas. João simplesmente não acreditava em como os fatos haviam acontecido e sua mente estava cheia com as novas informações adquiridas. Tudo o que queria agora era poder expressar sua gratidão ao sacerdote.
- Você já me salvou duas vezes, e ao meu irmão, uma. Como posso agradecer? – perguntou João.
Padre Joaquim parou para pensar um instante. Quando respondeu, pareceu satisfeito em ter podido pensar em alguma coisa.
- Bem, há algo que talvez vocês possam fazer por mim. – respondeu ele. Um estranho brilho em seus olhos.
- E o que é? – agora foi Miguel quem perguntou.
- Recuperar o Livro.
Notas finais
Ritual é a primeira forma de se conjurar magia pelos feiticeiros. Ele pode ter vários objetivos:
1- Curar, Encantar, Amaldiçoar, mudar o estado físico ou psíquico de alguém. Como é o caso do Ritual do Fruto Vermelho(curar) e o Ritual do Levanta Cão(devolver a consciência).
2- Encantar objetos, como é o caso da espada Laus Caninum. Era uma espada comum até ter sido encantada com alguns rituais diferentes. A história desta espada será contada mais para frente.
3- Habilitar o uso de certas Orações Mágicas como o caso do Ritual da Cabra Preta. Ele permite a quem o conjurou pronunciar a Oração da Cabra Preta e obter resultados. Se alguém tentasse dizê-la sem ter feito o ritual anteriormente, nada aconteceria.
Obs.: Se mais algum tipo de Ritual for acrescentado a história nos capítulos seguintes, incluirei uma nova Nota Informativa explicando-o.
Fale com o autor