Licantropo - o Livro de évora
8 Pé na estrada
VIII
Pé na estrada
-Quer que recuperemos o livro pra você? – perguntou João, descrente. Por que o padre iria querer o livro de volta? Sua vida agora não era exclusivamente dedicada a Deus?
- Não quero o livro pra mim! – respondeu o padre, rapidamente para esclarecer a confusão. – Não... não. Mas eu acho que ele não está em boas mãos. Eu realmente ouvi coisas terríveis sobre a Ordem de Ébano nesses últimos anos. Boatos que só podiam estar ligados a eles. É verdade que a tsunami no Oceano Índigo foram eles que criaram?
- É... – respondeu Miguel, dessa vez. – Ouvi dizer que queriam abrir passagem para uma cidade que estava submersa ou um templo, sei lá...
- Estão ficando loucos... – continuou Padre Joaquim. – E se aliaram mesmo ao Clã de Licaão?
- Sim, é verdade. – agora foi João quem respondeu. – Mas parece que não revelaram aos licantropos que possuíam o livro, pois se nem o líder deles sabia, já que estava aqui em São Cipriano procurando por ele...
- E estão certos em relação a isso. – disse o padre. – Não seria sensato contá-los... eles poderiam querer ter acesso ao livro... criaria um conflito. Uma aliança saudável é aquela em que ambas as partes mantém seus segredos mais sórdidos em silêncio.
Miguel fez cara de quem gostou do último comentário do padre. Mal sabia ele que o Joaquim estava dando uma mensagem ao seu irmão. Este, por sua vez, tentou manter a expressão facial mais normal possível.
- O Livro de Évora não deve continuar nas mãos da Ordem de Ébano... deveria continuar guardado no Salão de Cipriano até que seu legítimo dono venha reclamá-lo.
- Legítimo dono? – perguntou Miguel. Já possuía 23 anos, mas seu rosto continuava com traços joviais. Mas mesmo quando estava sorrindo, era possível distinguir uma estranha sombra de tristeza escondida por trás de seus olhos e, às vezes, quando olhava pensativo para o horizonte, seu rosto mostrava-se cansado devido aos longos anos na estrada.
- Diz uma das lendas que envolvem o livro, que São Cipriano escolherá um digno que seja capaz de dominar o Livro completamente. Este digno não terá intenções malignas em relação ao livro. Sua vontade será apenas a de fazer o bem. Terá em mente uma ação puramente altruísta, dizem.
- Puramente altruísta? – perguntou Miguel, com o rosto demonstrando uma expressão de descrença. – Não existe altruísmo puro ou verdadeiro... Isso é besteira!
João manteve-se calado e por meio segundo, seus olhos se encontraram com os do padre e ele sabia que o sacerdote não precisava ter realizado o Ritual do Leitor de Mentes para saber o que ele estava pensando.
- O Salão de Cipriano foi destruído quando lutei lá contra Damarco.
- Não se preocupe. – apressou-se dizer o padre. – Já o reconstruí.
- Reconstruiu?
- Sim... um Ritual aqui, outro ali. Já está tudo em ordem lá embaixo.
João ficou impressionado. O poder do padre era incrível. Era uma pena ele ter-se tornado religioso.
- De qualquer forma, sei que é muito pedir isso de vocês. Arriscado de mais, mas vocês disseram que seu mestre já quase conseguiu uma vez. Talvez se vocês unissem forças...
- Eu já pretendia ir atrás do livro. – disse João, comentário que surpreendeu seu irmão.
- Pretendia? E quando ia me avisar isso?
- Assim que deixássemos essa cidade. Venho pensando nisso há algum tempo.
- E por que iria querer o livro? – perguntou o padre, fazendo cara de surpreso para Miguel não desconfiar, mas seus olhos não enganavam João. – Tornar-se mais poderoso?
- Não... Quero apenas olhar alguns Rituais que podem ser úteis. Podem nos ajudar a derrotar Damarco. – disse ele, olhando para o irmão.
O pároco de São Cipriano sabia que aquela não era a verdadeira intenção de João em relação ao livro. Havia mais por trás daquele desejo de vingança. Ele já ouvira rumores sobre um ritual possivelmente transcrito no livro que teria um efeito muito atraente para o mais velho dos irmãos. Um poder que ele devia estar procurando há mais de uma década. Mas o sacrifício que dizem ser exigido para a realização deste Ritual é grande demais; terrível. E as conseqüências se alguma coisa saísse errada poderiam ser catastróficas.
Na verdade, Padre Joaquim já sabia dessas intenções de João antes mesmo de pedir-lhe que fosse atrás do livro e sabia que ele pedindo ou não para que os irmãos o fizessem, não mudaria o fato de que eles tentariam furtar o artefato histórico. Tocar no assunto apenas trouxe para a conversa a possibilidade de ambos terem o livro em mãos e assim, ele poderia ouvir João dizer com a própria boca o que tinha em mente para o irmão, que a princípio, não tinha conhecimento de nada. João contaria a verdade para Miguel, ou manteria esse segredo até, quem sabe, um dia poder pô-lo em prática? Pelo visto, manteria segredo...
- Tem razão! – respondeu Miguel, seu rosto jovial, porém cansado, mais uma vez abrindo-se em um sorriso, como ele sempre fazia durante o dia. – Não pudemos fazer muita coisa contra Damarco nem quando ele estava sozinho. A não ser que... bem, o padre poderia nos ajudar, não é? Com sua ajuda, padre, acabaríamos com aquele licantropo maldito rapidinho...
- Não, não posso! Jurei que nunca mais ia fazer feitiçaria e não quero mais quebrar este juramento.
- Mas...
- Miguel! Ele já disse que não vai. – cortou-lhe o irmão.
Os irmãos se entreolharam e Miguel submeteu-se ao comando do outro como sempre fizera desde os tempos da infância.
- Tem razão. Desculpe padre, acho que perdi a cabeça.
- Bem... Acho que não podemos nos demorar muito mais aqui em São Cipriano. – continuou a dizer, João, mudando de assunto. – Você vêm comigo tentar roubar o livro, Miguel?
Miguel olhou-o surpreso com a pergunta.
- É claro que sim!
- Ótimo. Devemos partir então. Precisamos comprar algumas coisas no Mercado de Bruxos, e depois teremos um longo caminho até a floresta amazônica.
- Então é lá que Pelásio está escondido? – perguntou o padre. – Por que não teleportam para lá?
- Por que o esconderijo dele está muito bem protegido. Por exemplo, não é possível encontrá-lo se usarmos de meios mágicos para facilitar a busca. Se nos teleportarmos o mais próximo possível do local, ele ficará invisível para nós. Precisamos ir até lá como pessoas comuns fariam. E é claro, sem o objetivo de matá-lo. Qualquer um que queira fazer isso, também não irá encontrá-lo.
- Muito inteligente. – comentou o padre. – Mas não gostariam de ficar para o almoço?
- Não. – respondeu João, depositando sua xícara de café na mesinha diante do sofá e levantando-se. – Precisamos partir o mais rápido possível.
Miguel não parecia concordar muito com aquela opinião do irmão, mas não disse nada, como nunca fazia.
- Onde está minha espada? – perguntou João, pela primeira vez lembrando-se da arma pela primeira vez após ter acordado.
- Está guardada a salvo, no armário do quarto onde você estava dormindo. – respondeu o padre.
João rapidamente voltou àquele cômodo e readquiriu a arma. Ela estava guardada em sua bainha, a qual João prendeu nas costas.
- Vocês não viajam com muita bagagem, não é? – disse o padre, irônico.
- Deixamos quase todas as nossas coisas na casa de um amigo antes de virmos para São Cipriano. – explicou Miguel.
João então dirigiu-se sério ao presbítero.
- Tenho que dizer que foi uma felicidade para nós dois termos cruzado o caminho de São Cipriano. – disse, apertando a mão do sacerdote, em um gesto simples de despedida. – Obrigado por tudo.
- Não tem de que.
Miguel então deu um passo à frente. Sempre muito mais caloroso que o irmão, abraçou o padre como se fossem grandes amigos. De fato, nos últimos dias haviam criado um laço saudável de amizade enquanto esperavam a recuperação de João.
- Obrigado, padre. – disse ele.
Dessa vez o sacerdote não disse nada. Apenas deu-lhe um tapinha nas costas. Soltaram-se então e Miguel juntou-se ao irmão, ao lado da porta.
- Não direi adeus. Guardarei em meu coração a esperança de vê-los novamente. – disse o padre. Os dois então cruzaram a porta da frente, e olhando sim para trás, para dar o último gesto de despedida, deixaram a pequena cidade de São Cipriano e tomaram a estrada de chão em direção ao sol que havia terminado de nascer durante a conversa e agora brilhava forte no leste.
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