Licantropo - o Livro de évora
5 O Salão
V
O Salão
Damarco atacou. Saltou para cima dos irmãos em uma velocidade impressionante e seu primeiro alvo foi João, que defendeu-se das garras do licantropo com sua espada, depois saltou para trás, permitindo a Miguel investir.
Miguel tentou cravar suas presas no braço esquerdo de Damarco, mas este desviou-se e depois revidou atingindo o rosto de seu atacante. Miguel caiu no chão, atrás de João que agora desferia golpes com sua espada contra Damarco, mas sem sucesso em atingi-lo.
Damarco ia recuando e desviando-se dos golpes de João, com aquele estranho sorriso canino no rosto. Então, quando havia recuado até ficar encurralado contra uma casa, Damarco saltou. Saltou tão alto que parecia ter entrado em órbita e se misturado às estrelas. João então cometeu o erro de olhar para o céu.
A luz da lua brilhou estranhamente com intensidade suficiente para cegar os olhos de João por alguns instantes. Sentindo os olhos arderem, João brande sua espada desesperadamente, na tentativa de atingir o inimigo.
Então ouviu um grito de dor a alguns metros à sua direita. Tentou abrir os olhos e viu um licantropo enorme com as presas no pescoço de outro licantropo, ligeiramente menor. Miguel havia sofrido um ataque sério.
João pulou para cima da silhueta do licantropo maior, mesmo sem ainda conseguir enxergá-lo perfeitamente. Este último deu um salto de mais de 10 metros para trás, fugindo mais uma vez do golpe.
A visão de João então começou a ficar melhor e ele pode ver o sorriso cínico de Damarco se aproximando. Levantou então sua espada acima de sua cabeça, depois cortou o ar verticalmente, conjurando assim uma lâmina de fogo que avançou contra o licantropo a sua frente.O golpe pegou Damarco de surpresa, atingindo o lado esquerdo de seu rosto e seu tórax, derrubando-o no chão posteriormente, com a força do impacto.
- Então você ainda tem algumas cartas escondidas na manga, não é? – disse Damarco, levantando-se. O pelo de seu rosto e de seu peitoral havia ficado escuro no local onde a lâmina de fogo atingira.
- Tenho muitas outras cartas que você não vai querer que eu revele.
Às suas costas, Miguel levanta-se. Arfava de raiva e dor. Com um movimento rápido, pulou por cima do irmão e atingiu uma patada na lateral ferida do rosto de Damarco, que se permitiu soltar um grunhido de dor, mas rapidamente se recuperando e revidando o ataque.
Damarco e Miguel trocaram alguns tapas que resultaram em mais uma queda do licantropo menor e menos poderoso. João atacou com mais uma lâmina de fogo, mas Damarco evadiu-se.
- Não cairei nesse truque outra vez! – disse ele. Então começou a correr com as quatro patas ao redor dos irmãos em uma velocidade absurda. Eles podiam ver apenas o borrão que ele havia se tornado. João manteve-se em posição de defesa, aguardando o ataque, mas Miguel dava patadas aleatórias contra o ar na esperança de atingir Damarco quando este passava próximo.
Então, como uma sombra, Damarco atacou João três vezes seguidas, fazendo cortes profundos em seus braços, em seu peito e em seu rosto. Miguel correu a auxiliar seu irmão, mas o inimigo afastou-se novamente e voltou a correr em volta dos dois.
João perdeu o equilíbrio após o último ataque de seu inimigo, mas manteve-se em pé, apoiando-se com sua espada Laus Caninum, cujo efeito estuporante não fazia efeito algum contra Damarco.
Miguel saltou contra o borrão e atingiu o alvo. Os dois rolaram no chão por um tempo, trocando mordidas e arranhões, mas mais uma vez foi Miguel quem continuou caído.
Os golpes, no entanto, haviam surtido algum efeito. Damarco mostrou sinais de cansaço e seu olho esquerdo havia sido ferido. Deste ferimento corria um sangue escuro, quase negro. Ele então investiu contra João que estava preparado.
Quando o Feiticeiro cortou o ar horizontalmente com sua espada, Damarco saltou por cima de sua cabeça e ao invés de atacá-lo, adentrou o portal da igreja que havia ficado aberto após a fuga para a floresta, no início da noite.
João seguiu-o, lançando-lhe mais uma lâmina de fogo que atingiu apenas a imagem de um santo.
Damarco saltou por cima dos bancos e golpeou a mesa do altar, que se partiu em três partes, revelando uma passagem secreta no chão, antes escondida. Parecia que ele sabia exatamente o que estava fazendo. Saltou rapidamente para dentro da passagem escura e João apressou-se em segui-lo novamente, saltando também para dentro da escuridão que levava ao desconhecido.
A passagem dava em um corredor escuro no subterrâneo da igreja. João esperava um ataque, mas este não veio. Ele lançou uma daquelas lâminas de fogo para frente. A luz da chama iluminava o corredor enquanto avançava e avançou tanto que sua luz tornou-se um mísero pontinho até bater na parede quando o corredor fazia uma curva para a direita, no que pareceu a João, quase um quilômetro a frente. Não havia sinal de Damarco. Ele era capaz de correr a uma velocidade impressionante.
Indeciso em relação a avançar ou voltar e ver como estava o irmão, João decidiu seguir as paredes do corredor, correndo o mais rápido que podia. Suas botas de couro haviam sido encantadas por ele através de um ritual e o permitiam correr um pouco mais rápido do que um atleta, mas mesmo assim, enquanto Damarco avançava fundo para dentro daquela passagem escura, João tinha apenas que se contentar em seguir um rastro distante e que aumentava cada vez mais.
Após alguns quilômetros, a passagem inclinou-se para ainda mais fundo, para dentro da escuridão do subsolo. João correu por quase 10 quilômetros, até que o corredor chegou ao fim, dando na entrada de um grande salão de pedra. Ele entrou lentamente, a espada erguida a sua frente, mas não esperava um ataque surpresa, pois Damarco estava visível a sua frente, no fundo do salão.
Era um salão largo e alto. As paredes rochosas eram lisas e havia vários desenhos nela de círculos cabalísticos que João sabia que simbolizavam certos Rituais Mágicos. Uma nascente jorrava em uma piscina esculpida na pedra ao lado, no canto esquerdo, e no fundo, havia uma estátua grande feita de prata e ouro.
Era a estátua de um homem trajando mantos típicos do final da Antigüidade, um cajado em mãos, mas com uma aparência não muito velha, entre trinta e quarenta anos. Diante de seus pés dourados, estava um pedestal vazio com a inscrição “O Livro de Évora”.
- Não está aqui. – disse Damarco com a voz rouca de licantropo, olhando para a superfície lisa do pedestal. João pode notar um certo grau de decepção no tom de sua voz.
- Não. Não está. – disse João, agora ele abrindo um sorriso. – Ah é... Esqueci de mencionar. Eu já sabia disso.
Damarco lançou-lhe um olhar de puro ódio e começou a caminhar em sua direção. Os punhos cerrados, as presas à mostra.
- Onde está? – perguntou, bruscamente. – Pra onde foi levado?
- Eu não sei. Mas não preciso nem dizer, que se soubesse, é claro que não te contaria.
- Seu maldito!! – gritou Damarco e pulou para cima do outro.
- Não desta vez! – disse João. Apontou então sua espada contra o chão e com a mão esquerda, esfregou um dos rubis que ornamentavam seu punho e golpeou o chão de pedra com a ponta da lâmina com toda a força.
A lâmina da espada penetrou magistralmente na estrutura rochosa do piso e tudo tremeu como um terremoto. O teto do salão a mais de 10 metros de altura rachou e começou a desmoronar sobre eles.
João então esfregou um segundo rubi no punho da espada e seu corpo simplesmente se desmaterializou, como pó que se espalha com o vento. A última imagem que viu de Damarco, foi ele esquivando-se de uma enorme quantidade de blocos de pedra que caiam sobre ele.
Quilômetros acima, João materializava-se diante da fachada principal da igreja. Às suas costas, seu irmão continuava caído no chão, inconsciente. A cidade tremia com o terremoto que se iniciara com o golpe da espada de João. Os vitrais da igreja se partiram em estilhaços de vidro colorido e o sino que cantava as badaladas de hora em hora despencou de sua torre.
Então, quando parecia que a cidade ia ser completamente destruída pela força do terremoto, tudo cessou. O chão não tremia mais e o barulho ensurdecedor do terremoto silenciou.
Alguns postes haviam caído, mas nenhuma casa havia desmoronado. O dano havia sido mínimo levando em consideração as circunstâncias.
Miguel despertou com o estrondo e o tremor. Levantou-se de um salto, alerta, mas ao ver o irmão sangrando em várias partes do corpo vindo em sua direção, e nenhum sinal de Damarco, permitiu-se baixar a guarda.
- O que aconteceu? Onde está Damarco? – perguntou.
- Quilômetros abaixo, espero que soterrado, no Salão de Cipriano.
- Ele achou o salão, então? – perguntou o irmão licantropo, amparando o outro para ele se agüentar em pé.
- Achou. Ficou furioso quando descobriu que o livro não estava aqui.
- Acha que está morto?
- Duvido.
Então uma voz rouca saiu de dentro da igreja.
- E duvidou certo.
Era Damarco. Seu corpo agora coberto por seu sangue grosso e escuro. Mancava um pouco da perna esquerda, havia um grande machucado em sua testa e tinha uma das orelhas caninas faltando, mas ainda assim, caminhava confiante na direção dos irmãos. Seu sorriso cínico estampado de volta em seu rosto.
- Também tenho algumas cartas escondidas na manga.
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