Licantropia: A Reserva

15 Capitulo 14: Mito da Caverna.


Notas iniciais
E aí, gente? Tudo bom com vocês! Mais um capítulo. Espero que gostem. Boa leitura

–--Ei! ---a voz retirou Samantha dos sonhos bons e felizes.

Ela abriu os olhos e encarou o homem parado na sua frente segurando uma bandeja de prata cheia de comida em uma das mãos e uma pequena bolsa de pano na outra. Sam demorou alguns segundos para descobrir que era Soren. Ele parecia diferente com os cabelos cortados e a barba feita; menos selvagem e sarcástico.

–--Trouxe comida. ---ele completou, pondo a bandeja sobre a cama e segurando a perna de Samantha para exibir os arranhões na parte interna da panturrilha. Ela tentou puxa-la novamente, mas as mãos de Soren eram firmes e fortes como algemas. ---Pare com isso. Se eu quisesse te machucar não estaria te alimentando. Agora me deixe cuidar disso.

Sam tentou se soltar mais algumas vezes, mas Soren era muito mais forte e teimoso. Suspirando, ela se inclinou em direção à bandeja de comida e puxou uma maçã da montanha de alimentos. É muita comida, ela pensou, mas se recusou a reclamar. Soren tinha os olhos concentrados no corte da perna que havia parado de sangrar, mas parecia incrivelmente vermelho e inchado.

–--E então? Gostou da nova prisão? Melhor do que a outra, não? ---ele sorriu.

–--De quem é quarto que eu estou ocupando? ---Sam perguntou. ---Provavelmente só me fará ser mais odiada. Sabe... ocupar o lugar de alguém.

–--É meu. E eu não te odeio mais do que já odiava. --- Soren piscou e puxou um pedaço de pão da bandeja. ---Eu pensei... aquela garota precisa urgentemente de influências musicais e tive essa maravilhosa ideia. Você está provavelmente no maior museu de música pré-guerra do lado de fora das Reservas.

–--Onde você conseguiu isso tudo? ---Samantha perguntou curiosa.

–--Viajando. ---ele se levantou e puxou um CD qualquer das pilhas desorganizadas. ---Gosta de rock? ---Sam franziu as sobrancelhas, fazendo-o sorrir. ---Vai gostar então. Combina com a sua personalidade irritante. Se não gostar, procure nas pilhas. Eu... tenho de trabalhar. O almoço é ao meio dia e o jantar às sete. ---ele apontou para o relógio na mesa de cabeceira. ---É só seguir os outros até o refeitório.

–--Espere. ---ela se ajeitou na cama. ---Como assim seguir os outros? Você quer dizer sair daqui e comer com os outros lican... Filhos da Noite? --- Sam perguntou assustada. ---Eu não posso sair daqui. Sou uma refém.

–--Talvez. Estamos revendo sua posição. Você ser uma refém gasta muito do meu precioso tempo e a maioria dos outros matariam-na ao invés de protegê-la. Então...Raniah sugeriu essa ideia. Ele é meio aficionado em metáforas e filosofia, sabe? Ele disse que deveríamos tentar como no mito da montanha...

–--Mito da caverna. ---Sam o interrompeu.

–--Você é mais inteligente do que parece, sabia? Ele disse que devíamos gradativamente inseri-la na nossa alcateia. Quem sabe depois de um tempo, eles param de te odiar?

–--Não acho uma boa ideia. ---Sam respondeu.

–--Eu também não, mas Ran é o líder. Tenho de obedecê-lo, às vezes. --- ele abriu a porta do quarto. ---Meio dia e sete horas. Não esqueça ou passará fome. ---Soren deixou-a sozinha enquanto a música caminhava para um ritmo acelerado e eletrizante que combinava com o ritmo do coração de Sam naquele momento.

Samantha encarou o relógio. O ponteiro pequeno apontava para o doze, mas o grande cobria o nove. Ela devia ter saído do quarto a 45 minutos, mas todos os seus nervos se recusavam. Samantha imaginava o que lhe aconteceria se saísse daquele lugar sem proteção. Dezenas de Oscar´s despedaçando-a; era no que ela pensava.

Eram 13:25 quando Raniah apareceu no quarto. Sam já havia escutado cinco CD´s inteiros da mesma banda e passava para o sexto que era uma versão acústica dos maiores sucessos desta. Ele sorriu para ela e puxou os cabelos loiros compridos para trás. Em uma das mãos ele segurava dois pedaços de pão.

–--Olá, Sam. Faz tempo que não a vejo. ---ele ergueu os dois pedaços de pão em sua direção. ---Foi o que conseguiu guardar.

–--Obrigada. ---Sam respondeu e mordiscou as bordas.

–--Soren não te falou para ir até o refeitório?

–-- Disse. Mas eu prefiro continuar viva. Pelo menos por enquanto.

–--Ninguém vai te machucar. ---Raniah se sentou no sofá e jogou as roupas no chão. ---Soren cuida mais desses CD´s do que da droga das roupas. Bom gosto, por sinal. Iron Maiden.... é melhor do que a maioria do lixo que ele guarda.

–--Ele que escolheu. Eu só continuei ouvindo. ---Sam se sentou na cama para terminar de comer.

–--Escute, Sam. ---Os olhos escuros de Raniah estavam sérios e fixados no rosto de Samantha. ---Não podemos cuidar de você o tempo todo. E eu sei que nós não cuidamos de você, na maior parte do tempo. Eu peço perdão por essas coisas, mas a maioria dos Filhos da Noite odeiam tudo sobre a Reserva. Acredite em mim quando digo que todos dessa alcateia são boas pessoas. Até mesmo aqueles idiotas do Oscar, Fred e Peter. Não somos como os Nômades. –ele juntou as mãos. ---Também não podemos devolvê-la para a Reserva. Estaríamos correndo um grande risco e eu seria degolado se fizesse isso. Eu tenho uma opção apenas: eles precisam se acostumar com você.

–--Eu serei morta. Não posso fazer isso. Algum deles arrancaria minha cabeça antes que você ou Soren pudessem me ajudar. E não minta dizendo que vocês não são os únicos. Eu sei que sim.

–--Sam. ---Raniah franziu as sobrancelhas. ---Não posso fazer mais nada. É a única forma.

–--Sinto muito, mas não sairei daqui para ser despedaçada. Vocês nem podem morrer. Como posso me defender de alguém que é imortal?

–--Nós não somos imortais...se você... ---Raniah se interrompeu. ---Esqueça. Tudo bem, Sam. Pensarei em outra coisa.

–--Pare de mimá-la, Ran. ---Soren o encarou mal-humorado da porta. --- Ela não precisa de proteção. Quebrou minha cabeça e o pescoço de um Nômade. Deixe-a. Ela se vira, não tenho dúvidas disso. Licaon quer se encontrar com você de qualquer jeito; mandou outro mensageiro.

Raniah franziu as sobrancelhas e se levantou. Soren piscou para Sam antes de fechar a porta, deixando-a sozinha com os acordes finais da última musica. ´´I am a man who walks alone`` , ela ouviu e por algum motive ela gostou do que Soren dissera. Sim, eu posso me virar sozinha.

A verdade, Sam descobrira nos dias seguintes, era que ela não podia. Naquela noite, ela não comera e ninguém lhe trouxe comida. O dia seguinte se passou sem que ela pensasse em uma solução. No outro dia, seu estômago incomodava e não a deixava se concentrar nas músicas que Soren sugeria para ela. Foi quando ela decidiu que iria pegar comida escondida no meio da noite. Era uma ideia idiota, ela sabia, mas era sua única opção. É melhor do que ser morta, se convenceu e esperou que Soren pegasse no sono.

Ele chegou tarde, como sempre. Sam já estava deitada na cama quando o homem se lançou no sofá com força, fazendo barulho e jogando roupas sujas no chão ao seu redor. Samantha semicerrou os olhos e fingiu estar dormindo enquanto observava-o por entre os cílios. Ele era bonito, ela notou, pela primeira vez. Soren sempre lhe parecera sério e frio; o rosto de seu torturador e inimigo, mas com os olhos fechados e a expressão suavizada pelo sono...ele lhe parecia quase angelical.

Os cabelos negros estavam aparados, mas algumas pontas ainda cobriam os olhos cheios de cílios longos; os lábios bem desenhados, as maçãs do rosto arredondadas e altas, o nariz reto, o queixo firme e quadrado faziam-no parecer selvagem e firme, como um lobo deveria ser. O olhar de Sam desceu pelos ombros largos e os braços fortes cruzados sobre o peito até as pernas incrivelmente longas que pendiam do lado de fora do sofá. Grande demais para o sofá, ela pensou. Será que eu deveria trocar de lugar com ele? A ideia não agradava Samantha; a cama era confortável demais.

Quando a respiração de Soren desacelerou e seus ombros relaxaram, Sam se levantou silenciosa como um fantasma e caminhou lentamente até a porta. Sem sapatos e carregando a bandeja de prata para conseguir o máximo de comida possível. O maior problema seria descobrir onde era o refeitório. Ela tentou imaginar um mapa em sua cabeça, posicionando os prédios que conhecia.

–--Por favor, não me faça levantar para pegar você. ---Soren gemeu com os olhos fechados. ---Estou tão confortável aqui. --- Como Sam permaneceu calada, ele abriu os olhos e a encarou. --- Sério? Você acha que vai conseguir fugir?

–--Eu não ia fugir. ---Sam respondeu, mas resolveu não falar que estava com fome. Ele provavelmente vai rir e me forçar a fazer o que eles querem.

–--Ia fazer o que, então? ---os olhos dourados pareciam ter luz própria. ---Pegar comida? ---o silêncio de Sam o fez sorrir. ---Espere até amanhã e eu vou com você até o refeitório. E a trago de volta.Tudo bem? Confia em mim?

–--Sim. ---ela queria ter dito não, mas seria mentira. Se ele quisesse me matar já o teria feito, como disse.

–--Então volte para a cama e durma. ---ele se aconchegou no sofá. ---Ou quer que eu faça isso por você?

O sol mal tinha nascido quando Soren a acordou no dia seguinte. Juntos, eles seguiram pela cidade destruída. Nos primeiro metros não havia ninguém; Soren não tinha vizinhos. Mas quando chegaram ao que no passado dever ter sido uma avenida, Sam sentiu todos os olhares pesando sobre si, como se fossem feitos de chumbo. Ela não encontrou nenhum olhar amistoso, mas surpreendentemente, a maioria deles parecia mais curioso do que hostil. Raniah não estava em nenhum lugar à vista, mas Sam identificou Oscar a alguns metros a sua frente. Não seja fraca.

O refeitório era apenas uma das poucas casas que não se encontrava em pedaços, embora apresentasse uma série de rachaduras nas paredes. O interior era quente, abafado e barulhento. As dezenas de vozes se calaram em uníssono com a entrada de Sam. Soren ignorou os olhares e com uma das mãos conduziu-a até a pequena série de mesas cheias de comida.

–--Pegue o quanto quiser. Nós odiamos desperdício. ---Soren respondeu enquanto enchia uma bandeja com frutas e pães e cobria tudo com uma geleia rocha e viscosa.

–--Como vocês conseguem tanta comida? ---Sam perguntou enquanto se servia com um pedaço de pão queimado.

–--A menor parte nós plantamos. ---ele respondeu com a boca cheia de geleia. ---O resto é resultado dos grupos de busca e coleta.

–--Era isso que vocês estavam fazendo? Perto da Reserva? ---Sam perguntou enquanto enchia um copo com suco.

–--Sim. Nosso estoque de carne estava pequeno e vocês caçam a maior parte dos pumas e antílopes. Não podemos perder uma presa. Aquela puma...se não fosse ela, você não teria sido pega. Engraçado, não é? ---ele piscou.

–--Cômico. ---Sam respondeu irônica. ---Podemos ir agora? ---ela sentia a pressão atrás de suas costas.

–--Ir aonde? ---Soren perguntou inocentemente.

–--Para... o seu quarto. ---Sam respondeu e sentiu-se corar por motivos inexplicáveis.

–--Já? Tem certeza? Não quer conhecer os outros?

–--Não. Prefiro continuar com a minha garganta fechada, obrigada.

–--Bem...eu não posso ir. Tenho de trabalhar. ---Soren respondeu.

–--Mas, você prome... ---Sam se calou quando Soren se virou e fez sinal para uma garotinha que correu até onde ele estava.

–--O que foi, Soren? ---a menina sorriu.

–--Caly, essa é Samantha. Mas, ela gosta de ser chamada de Sam. Sam, essa é Calíope, mas...

–--Esse nome é uma droga. Me chame de Caly, por favor. --- a garota sorriu e estendeu a mão animadamente; Sam sorriu e apertou-a. ---É ela, não é? A da Reserva?

–--Exatamente. ---Soren mordeu outro pedaço de pão com geleia. ---Ela não é muito de falar, então use toda essa capacidade de irritar para fazê-la abrir a boca. Ela não quer ficar aqui, mas tenho de trabalhar.

–--Treinar aqueles idiotas é trabalho? –Caly ergueu uma sobrancelha, fazendo Sam sorrir. ---Pode deixar, eu a levo.

–--Se ela te irritar... eu entendo se você fugir ---Soren piscou para Caly que lhe deu um soco leve nas costelas.

–--Por aqui. ---Caly apontou para a porta mais distante. ---Podemos pegar o atalho.

Elas atravessaram o refeitório sob os olhares curiosos de todos os Filhos da Noite. Caly parecia alheia ao fato e caminhava animadamente, cumprimentando todos que alternavam sorrisos simpáticos para ela e olhares frios para Sam.

O céu estava azul claro e cheio de nuvens brancas e redondas. Algumas poucas pessoas caminhavam pelas ruas e olhavam confusos para as duas garotas. Caly seguiu por uma rua estreita e cheia de rachaduras e parou em frente a uma pequena cerca de arame antiga e enferrujada. Do outro lado, a floresta havia tomado conta do espaço.

–--Eu encontrei esse atalho há alguns anos quando Soren me trouxe para cá. Saindo por aqui, podemos passar ao redor de toda a cidade sem sermos vistas até qualquer lugar. Não conte pra ninguém, por favor, é assim que eu consigo saber de tudo o que acontecesse aqui. Eles nunca me contam nada aqui. Acham que sou insignificante.

–--Prometo. ---Sam respondeu. ---Então há quanto tempo você está aqui?

–--Há 3 anos, mais ou menos. ---ela respondeu e apontou para a direita. ---Por aqui.

–--E quantos anos você tem?

–--14, mas faço 15 daqui a algumas semanas. ---Caly se virou e escutou. ---Se esconda. Tem alguém nos seguindo.

–--O quê? Não...eles podem te machucar.

–--Eles não vão me machucar. Sou uma deles.

Caly a empurrou para dentro de um dos carros coberto com grama e folhas. Sam se encolheu por detrás dos bancos apodrecidos e esperou. O som de passos chegou alguns minutos depois e a voz de Oscar fez seu sangue gelar.

–--Onde ela está, Caly? ---ele perguntou. ---Sabemos que ela veio com você.

–--Eu a mandei correr. Já deve ter chegado na cidade nesse momento.

–--Não minta para mim. Eu teria ouvido o som dos passos dela. A vadiazinha está aqui em algum lugar. Por que está protegendo ela? Uma humana que vai fugir assim que deixarmos uma brecha. E vai voltar trazendo centenas iguais a ela, com armas prontas para furar nossas cabeças.

–--Soren confia nela. ---Caly respondeu. ---E eu confio em Soren.

–--Aquele idiota. É mais burro do que parece. Onde ela está? ---Oscar gritou. ---Me diga ou eu juro que faço você falar.

–--Tente. ---Caly respondeu. ---Eu acabo com você.

–--Não seja idiota, garota. Onde ela está?

–--Longe. Ai! ---Caly gritou e Sam viu a garota caída no chão.

Samantha se moveu tão rápido quanto se movera nas outras vezes que lutara contra os Filhos da Noite; era instintivo. Seus braços envolveram o pescoço de Oscar e torceram, mas o homem era mais resistente do que Sam esperava. Ele rosnou e com um movimento simples, lançou Sam por cima de sua cabeça.

–--Peça ajuda, Caly. --- ela gritou e se apoiou na árvore mais próxima. A menina correu com os enormes olhos dourados arregalados.

–--Eu mato você antes que Soren chegue aqui. ---Oscar rosnou e exibiu o mesmo sorriso sádico de antes.

–--Você pode tentar. ---Sam desafiou e se afastou dois passos.

A adrenalina corria em suas veias e ela sentia todos os seus sentidos em alerta, prontos para o menor sinal de movimento. As aulas de Defesa na Reserva voltaram em sua mente com força total. Eles são mais rápidos e mais fortes. Sejam inteligentes, ágeis e não hesitem em nada. Hesitar é morrer, a voz do treinador ecoou em suas memórias. Seus olhos procuraram por alguma coisa ao seu redor que pudesse usar como arma e se fixaram na maior pedra do lugar, 20 metros atrás de Oscar.

Ela não hesitou. Hesitar é morrer. Sam se moveu o mais rápido que podia e correu na direção de Oscar. O lobisomem sorriu confiante e sanguinário, flexionou os dedos e retesou-se como Sam já vira pumas fazerem. Ela girou no último instante, os cabelos formando uma cortina ao redor de si, parando atrás de Oscar. Ele se virou perdido e Sam, aproveitando os poucos segundos de confusão, lançou a pedra diretamente no seu olho esquerdo. O sangue escorreu imediatamente, fazendo o homem gritar e rugir como um animal ferido.

Sam fugiu. Ela não queria e se sentia fraca por fazê-lo, mas já vira o bastante dos licantropos para saber que lutar contra eles sem uma arma ou roupa especial era impossível. Ela morreria no instante que o ferimento de Oscar se fechasse. Seus pés dispararam pela floresta que se reduziu a uma mancha verde-escura. O lobisomem a alcançou em poucos segundos, e suas mãos envolveram a cintura de Samantha lançando-a ao chão.

–--Vem aqui, sua vadiazinha da Reserva. ---os dedos de Oscar apertaram o pescoço de Samantha, privando-a do ar.

Ela engasgou e com as mãos arranhou o rosto do licantropo, mas ele não a soltou. Suas pernas chutaram a cintura e a barriga de Oscar, mas era como atingir uma pedra. Seus olhos se encheram de pontos vermelhos que lentamente tornavam-se negros, seus pulmões doíam e seu coração antes acelerado começava a perder o ritmo.

Soren surgiu como uma sombra escura e indistinta atrás de Oscar; grande, forte e selvagem. Foi apenas um movimento, simples e rápido, como Samantha piscaria os olhos. O pescoço do licantropo se quebrou em crack audível até mesmo aos ouvidos danificados de Sam. O homem caiu sobre ela pesado e sólido, mas foi rapidamente afastado pelo outro lobisomem.

Ele a ergueu, encarando-a com dois enormes olhos dourados cheios de raiva e preocupação. Soren a segurou pelos ombros e esperou até que Sam conseguisse respirar normalmente. Ela podia sentir o pescoço latejando onde fora apertado por Oscar e seus pulmões doíam intensamente.

–--Está tudo bem. ---Soren respondeu como se estivesse falando com um animal machucado. ---Acabou.

–--Acabou? ---Sam explodiu, irritada. ---Só começou! Todos aqui querem me matar. Eu avisei a vocês. ---ela bateu com os punhos fechados no peito de Soren. ---Eu disse que iria morrer se me deixassem sozinha. Que tipo de idiota deixa uma garotinha cuidar da mulher que todos querem matar? É como colocar um alvo na cabeça dela. Oscar a teria matado se eu não tivesse... ---Sam se calou quando Soren a abraçou. Foi apenas alguns segundos, mas o choque era grande demais. Ela demorou algum tempo para empurrá-lo para longe.

–--Obrigado. Eu fui idiota, mas juro que...

–--Não jure nada, tudo bem? ---Sam respondeu, mais calma e confusa. ---Apenas me leve embora daqui. Assim que descobrirem que ele morreu por minha causa haverá um mutirão para me matar.

–--Certo. ---ele respondeu obediente. ---Por aqui. ---ele a guiou pela trilha parando em frente ao prédio onde ela ficara antes.

–--Não. ---ela se afastou da porta. ---Eu não posso ficar aqui. É o primeiro lugar aonde vão me procurar.

–--Ninguém vai entrar aqui. É o meu quarto; eu mato qualquer um que entrar aqui sem ser convidado. Entre, por favor. ---Soren respondeu educadamente, mas os olhos cor de cobre estavam cheios de impaciência.

Sam obedeceu. Sentia que não adiantaria de nada discutir com ele. Ela aprendera com o passar dos dias que Soren era muito mais teimoso e intransigente do que qualquer um que já houvesse conhecido. Além disso, irritar uma das poucas pessoas que ainda se mantinha disposta a ajuda-la era suicídio.

O quarto estava exatamente igual com exceção da garotinha que estava sentada sobre a cama com as pernas cruzadas e os olhos arregalados. Sam não havia a observado com atenção ainda, mas as semelhanças com Soren eram impressionante. Os cabelos negros como nanquim caíam em cascatas lisas até a cintura da menina, a pele bronzeada pelo sol, o mesmo nariz, os lábios um pouco mais cheios e os olhos dourados cheios de energia e selvageria. Se Caly não fosse anos mais nova, poderiam passar-se por irmãos gêmeos.

–--Soren. ---Ela sorriu. ---Sam! Eu pedi ajuda, como você disse. O que ele fez com o seu pescoço? --- Caly ergueu as sobrancelhas assustada.

Sam passou os dedos ao redor da pele e sentiu-a inchada. Ela podia imaginar os hematomas roxos que surgiram em poucas horas. Já me acostumei a eles. O que são dois hematomas no pescoço comparado as dezenas que tenho no rosto? Ela viu a expressão chocada de Soren ao ver as marcas e soube que estavam piores do que pensavam.

–--Não foi nada. ---Sam respondeu. ---Ele ficou pior, posso te garantir.

–--Onde ele está?

–--Morto. ---Soren respondeu. ---Não por muito tempo. Até a coluna dele se restaurar...eu diria algumas horas.

–--Raniah tem de saber o que ele fez comigo, Soren! ---a menina se levantou, subitamente irritada. ---E com Samantha! Olha o pescoço dela.

–--Sim, eu sei. ---ele respondeu com uma careta. ---Faça isso por mim, tudo bem? Chame Raniah. ---a garota assentiu e saiu correndo em uma nuvem de cabelos escuros.

Soren se sentou no sofá com a cabeça entre as mãos, olho fechados e a expressão carregada. Sam não sabia o que fazer e apenas se sentou na beirada da cama, onde encarou sua imagem no vidro da janela. As marcas no pescoço estavam tão negras quanto os cabelos do licantropo; duas enormes machas em ambos os lados de seu pescoço como um colar.

–--E o que acontece agora? ---Sam perguntou.

–--Um julgamento. ---Soren respondeu. --- Oscar será morto ou pior.

–--O que pode ser pior que a morte?

–--Ser expulso.

Notas finais
O que acharam?? Até semana que vem.