Licantropia: A Reserva

19 Capítulo 18: Infiltrados.


Notas iniciais
E aí gente, tudo bom? Novamente atrasei, mas é a vida... Espero que gostem!! Boa leitura.

Maon odiava o sorriso que a mulher exibia. Um sorriso selvagem, cheio de malícia e maldade que parecia rir dele por suas costas. Ele analisara as suas chances de fuga e concluíra que não eram nada boas. Embora a líder fosse a mais ameaçadora entre elas, todos os outros pareciam tão capazes de arrancar sua cabeça quanto ela.

Richard caminhava ,sorridente e confiante, fazendo o patrulheiro pensar se estava em uma armadilha. Afinal ele o havia mordido e o medo de estar sendo infectado naquele momento, fazia seu coração bater em um ritmo descompassado.

Eles seguiram para o interior da floresta, onde a copa das árvores formava uma cobertura densa e verde. A luz do sol quase não atravessava as folhas e a pouca iluminação conferia ao ambiente um ar etéreo e misterioso, como se Maon estivesse em um sonho.

Mais de uma vez sentiu falta das armas que havia escondido na roupa de patrulheiro e que haviam sido retiradas quando a líder do bando os revistara. Rich não pareceu se incomodar, mas Maon sentia que estava prestes a ser destroçado no meio do nada, onde nenhum Rasante ou patrulheiro algum dia se arriscaria a procurar por ele e seus restos mortais. Mesmo que ele fosse um desertor.

O calor e a umidade, o fizeram transpirar e a respirar com dificuldade. Ele sentia como se uma máscara tapasse seu nariz e boca, forçando-o a inspirar com força e deixando seus pulmões pesados como se estivessem cheios de água. A dor no pescoço da mordida que ainda sangrava não ajudava muito. Por alguma razão, lembrou que as mordidas dos Filhos da Noite eram altamente infecciosas, pois continham anticoagulantes na saliva. Tentou esquecer o fato de que poderia sangrar até a morte antes de se quer chegar a alcateia.

Os Nômades, Rich havia os chamado. Uma alcateia de licantropos que se movia pelo território e que, por isso, era incrivelmente difícil saber qualquer coisa sobre eles. Se eram muitos ou poucos, se planejavam algo e até precisar sua localização com certeza. Maon agora entendia o porquê. Eles eram inteligentes mantendo-se longe da rota dos Rasantes e no interior da floresta. Provavelmente demoraria alguns anos até que os Rasantes passassem a identificar as áreas mais selvagens. Como patrulheiro, ele sabia que os rastreadores tinham como objetivo mapear as rotas ainda existentes entre as ruínas e as cidades evacuadas. Quase conseguia ver o mapa sobre uma das bases de observação no alto da muralha, com seus mapas atualizados ao vivo, mostrando áreas, maiores do que campos de futebol manchadas de verde; indistintas por estarem longe dos satélites e câmeras dos Rasantes.

Maon se perguntou se eles sabiam daquilo tudo também ou apenas tinham seguido o instinto de se esconder sob aquele céu verde e úmido. Desconsiderou a ideia minutos depois. Era impossível que eles tivessem acesso aquelas informações. Eles precisariam se infiltrar na Reserva e isso era loucura.

–--Elena e Paul. ---a líder falou. ---Vão na frente e avisem Licáon sobre a nossa chegada e que estamos com dois... prisioneiros. ---ela concluiu dando de ombros.

Os Filhos da Noite assentiram e dispararam pelas árvores sem medo, sumido em questões de segundos nas sombras da floresta. Maon ficou impressionado com a velocidade deles, mas concluiu que todos os licantropos deviam ser daquele jeito. Pelo menos era o que seus treinadores diziam para eles. Hesitar é a morte.

Respirando fundo, Maon se deixou guiar pelos licantropos pelo resto do caminho, mas a partir daquele momento, seus olhos focavam em tudo ao seu redor, buscando pontos de referência que pudessem indicar possíveis fugas. Uma árvore torta com flores exóticas, um pequeno desmoronamento com pedras pontiagudas, um riacho fino e cheio de lama. Mentalmente, tentou criar um mapa simples que pudesse lhe indicar uma saída. Depois, ele pensou poderia tentar encontrar a Rota Lafayette e seria improvável que qualquer licantropo tentasse atacá-lo ali, tão próximo de outros patrulheiros.

–--Finalmente. ---alguém atrás dele murmurou.

Uma clareira se surgiu como uma miragem diante de seus olhos. As árvores ao redor haviam sido cuidadosamente intocadas de forma que apenas as atravessando, alguém seria capaz de ver o campo aberto de mais ou menos 80 metros de diâmetro. As árvores no interior haviam sido cortadas, mantendo parte dos troncos para sustentar lonas que formavam barracas de acampamento. De um dos lados, a madeira retirada formava um pequeno casebre de madeira de onde subia alguns poucos fiapos de fumaça cinzenta e exalava-se um cheiro de carne queimada. Havia também, em um arco ao norte, um conjunto de estacas de madeiras afiadas que serviam de barricada para o acampamento. Caminhando despreocupadamente pelo lugar, havia cerca de 30 licantropos e, se Maon tivesse de chutar, uns 50 humanos.

Não sabia como, apenas conseguia diferenciá-los. Os Filhos da Noite pareciam maiores, mais fortes e saudáveis. Era quase como observar a diferença entre soldados treinados e civis sedentários. Maon não fazia a menor ideia de porque havia tantos humanos no lugar e o que o surpreendia ainda mais, todos estavam vivos e felizes. Eram aqueles sorrisos que o chocavam. A voz de Rich retumbou em sua cabeça. Os Simpatizantes. Ele havia falado de alguns humanos que queriam se transformar. Um tremor percorreu seu corpo quando o patrulheiro imaginou todos aqueles humanos transformando-se em licantropos.

–--Por aqui. ---A mulher os guiou e com um aceno dispensou todos os outros. ---Licáon vai querer conversar com vocês.

–--Ele é o líder por aqui? ---Rich perguntou.

–--Licáon é muito mais que isso. Ele é o pai e protetor de todos nós. Até desses humanos idiotas.

–--São muitos simpatizantes. ---Maon comentou.

–--Sim. Encontramos uma vila há alguns quilômetros daqui, em uma cidade abandonada. Estava cheia de humanos que buscavam uma alcateia. Licáon decidiu que devíamos protegê-los da Reserva e bem...aí está o resultado. Um acampamento lotado e... ---ela franziu as sobrancelhas e se calou. ---Calem a boca. Mais rápido. Meu irmão não é uma pessoa paciente.

Ele sequer é uma pessoa, Maon pensou, mas decidiu não comentar. A probabilidade que ele fosse morto já era alta o suficiente, ele não precisava aumentá-las. Eles seguiram até a maior das tendas feita com centenas de remendos de lona e plástico formando um pacthwork esquisito e malfeito. A entrada era uma abertura redonda de mais ou menos um metro com um pequeno toldo na frente.

A mulher empurrou os dois para dentro da abertura e em seguida fechou a abertura com uma pequena aba de plástico presa com barbante. Estava mais quente do lado de dentro e junto com a umidade, Maon logo sentiu o suor escorrendo por sua nuca e empapando seus cabelos. Havia três pessoas no interior junto deles. A mulher que os capturara, um homem de cabelos castanhos longos e outro homem que mais parecia um puma do que um ser humano.

Os cabelos pretos eram raspados na lateral e deixados longo em uma trança longa que ia do alto da cabeça até quase sua cintura. A barba áspera estava cortada de forma irregular e era negra como piche. Os olhos verdes eram grandes e astutos, cheios de algo ameaçador e faminto. A camiseta cinza rasgada e as calças jeans sujas deixavam a vista dezenas, talvez, centenas de cicatrizes. Tudo no homem sugeria perigo. Era exatamente o que Maon esperava de um licantropo. Ele sorriu para eles, deixando à mostra dentes incrivelmente brancos e que pareceram a Maon mais afiados que dentes humanos.

–--Valerie, minha querida irmã. Paul me avisou que você tinha prisioneiros, mas esqueceu de falar que eram licantropos. ---ele se levantou e era o homem mais forte e alto que Maon já vira. ---Espero que não tenham ficado ofendidos com as nossas maneiras. Não estamos acostumados com forasteiros e todo cuidado é pouco deste lado, não é mesmo?

–--Não sabemos. ---Rich respondeu. ---Viemos da Reserva.

–--Mesmo? ---Licaon ergueu as sobrancelhas negras e então olhou para as roupas de Maon. --- Eu devia ter notado. Bem...estou mais do que interessado em ouvir a história de vocês. Não acontece muita coisa aqui. ---ele sorriu e sentou-se. ---Pode ir,Sasha. ---ele se dirigiu ao homem ao seu lado. ---Depois conversaremos com mais calma. Valerie está convidada para ouvir a história, se quiser, é claro.

A mulher sorriu como se compartilhasse um segredo com o irmão e os dois sentaram-se em almofadas no canto mais afastada da tenda. Rich e Maon sentaram-se na outra ponta sobre um banco de madeira precário. Licáon ofereceu-lhes uma garrafa de água que o patrulheiro aceitou, agradecido e deixou que Rich contasse a história, torcendo para que ele realmente tivesse um plano.

–--Nós trabalhávamos como enfermeiros na ala laboratorial da Reserva ao Norte. Cuidávamos de civis doentes, no geral, mas fomos remanejados há algumas semanas para a Àrea 1, uma espécie de quarentena que era um mistério até para nós, internos. Somente pessoal autorizado, sabe? ---ele perguntou e Licáon assentiu com um sorriso leve no canto da boca. ---Na Àrea 1 havia alguns Filhos da Noite doentes e alguns que pareciam perfeitamente normais. No início não entendemos o que eles estavam fazendo ali porque sempre nos disseram que apenas humanos são permitidos na Reserva. Depois de alguns dias entendemos que os licantropos não estavam doentes.

–--Filhos da Noite, por favor. Licantropos é ofensivo. ---Licáon o corrigiu com suavidade, mas Maon percebeu um alerta em seus olhos vedes.

–--Me desculpe. É o costume. ---Rich respondeu sem se abalar. ---Como estava dizendo, nós descobrimos que eles eram experiência da Reserva. Procurando uma cura, eu acho. Mas a maioria continuava infectada e tentava de todas as formas fugir, mesmo com os efeitos colaterais. Era aí que nós entrávamos. Limpávamos a sujeira, injetávamos calmantes, coisas desse tipo. Até que um dia, fomos mandados para acompanhar um Filho da Noite que estava sob observação em uma sala especial. Nós devíamos aplicar algumas injeções e conferir se tudo estava indo bem. Foi neste dia que fomos mordidos. Os guardas ficavam do lado de fora e não viram quando ele se soltou e nos atacou. Quando os guardas o imobilizaram, nós fomos embora antes que eles pudessem ver as mordidas. ---ele fez uma pausa para beber água. ---Limpamos os ferimentos e os escondemos colocando outras roupas. Passamos os dias seguintes analisando nossos sinais vitais à procura de algum sinal de infecção. Quando Maon começou a ter sinais de febre; eu comecei a me tornar instável. Tínhamos organizado nossa fuga desde o único como um plano B e quando tudo começou já estávamos prontos. ---ele sorriu. ---Sua irmã nos encontrou alguns dias depois. Tínhamos planejado escapar, mas não para onde iríamos depois disso. Estávamos procurando uma alcateia, mas foram vocês que nos encontraram.

–--Bem. ---Licáon sorriu. ---Essa foi uma história interessante. Mas dizem que é tão difícil fugir daquelas muralhas. Eu não sei. Nasci do lado de fora, bem no início da guerra. Meus pais eram ambos Filhos da Noite e fugiram comigo quando a vila onde eles se escondiam foi invadida. Conte-me como vocês fugiram. Eu adoro histórias de aventura, não é mesmo, Valerie? ---a mulher assentiu.

Rich passou cerca de duas horas falando com fluidez e calma. Se Maon não soubesse da verdade, teria sido convencido rapidamente. Ele gesticulava nos momentos certos, fazia pausas programadas e cuidadosas para tomar fôlego e fazia piadas sempre que a atenção estava muito concentrada sobre ele. Em alguns momentos perguntava algo a Maon que concordava e, algumas vezes, complementava com algum detalhe, tentando tornar a história mais verossímil.

–--Bem, meus caros. ---Licáon respondeu com um sorriso e desta vez Maon teve quase certeza que o líder dos Nômades estava convencido. ---Vocês estão com sorte. Eu realmente preciso de ajuda para me defender de um clã que está nos ameaçando e toda ajuda é bem vinda. Parabéns, vocês agora fazem parte dos Nômades.

–--Ótimo. ---Rich levantou e apertou a mão do homem com um sorriso. ---Se me permite a curiosidade, por que este clã os está ameaçando? É comum que vocês briguem uns com os outros?

–--Não, nós. Somos pacíficos e quase nunca arrumamos problemas. Mas o chefe deles, Raniah, é agressivo e quer acabar com qualquer alcateia que esteja por perto. –ele sorriu. ---Mas, não se preocupe. Estamos em vantagem numérica e temos sempre o ataque-surpresa.

Notas finais
E aí, o que acharam? Críticas e comentários são sempre bem vindos. Até semana que vem!!