Licantrope
8 Lua cheia
Notas iniciais
Me assustei quando me olhei no espelho nessa primeira manhã de lua cheia. Desde o primeiro dia de aula tenho tentando esconder as olheiras e a pele pálida com bastante corretivo, base, pó e quilos de blush. Apesar disso, algumas pessoas ainda me perguntavam se eu estava bem, se estava dormindo direito e outras até sugeriam que a minha palidez era porque não andava me alimentando bem por não gostar da comida dos elfos... Mal sabiam eles que meu problema era comigo mesma. Uma parte até então desconhecida e que me aterrorizava mais a cada minuto.
Hoje era dia de lua cheia.
Hoje era o dia de eu me transformar.
Hoje era o dia que eu conheceria a maldição que me assolaria pro resto de minha vida.
O espelho me mostrava uma figura até então desconhecida aos meus olhos. Estava branca como um fantasma, os olhos fundos, e me sentia fraca, como se uma doença tivesse tomando conta do meu corpo. O que, de fato estava acontecendo.
Tomei um banho na tentativa de me revitalizar. Mas não adiantou muito. Comecei então o ritual das maquiagens para me esconder. Tive que passar tanta coisa no rosto que ele ficou até pesado. Deixei os cabelos soltos para tirar a atenção do rosto e coloquei as vestes de Hogwarts, tomando cuidado para não amarrotá-las. Deixei o nó da gravata um pouco frouxo e a saia um pouco mais comprida que o normal.
Saí do banheiro deixando a nuvem de vapor para trás. Devo ter demorado demais, pois a Amy não me esperara para descermos juntas. Sozinha, atravessei o salão comunal se despertar muita atenção e comecei a descer as escadas.
Tudo normal até agora. Já me perdia menos nos infinitos corredores da escola, e, pela primeira vez, consegui chegar ao grande salão sem errar nenhuma vez. Palmas pra mim, por favor!
Avistei as garotas no meio de um monte de Wesleys, todos falando ao mesmo tempo e rindo uns dos outros. Sem querer atrapalhar o “momento família” me sentei na pontinha da mesa, passando despercebida pela maioria ali. Exceto um certo moreno irritante.
O Potter pegou seu prato de café da manhã, seu suco de abóbora e veio se assentar do meu lado, como se fossemos velhos amigos e fosse super normal ele vir conversar comigo.
– Você está pálida. Por quê? – ele começou tomando um gole de seu suco.
– Porque veio pra cá? Sua família está toda reunida no meio da mesa. – Repeti o seu ato e levei o copo até a boca, deixando uma marca de batom vermelho no mesmo.
– Eu perguntei primeiro. Tenho direito de receber a resposta primeiro. – Retrucou arrogante como sempre.
– E se eu não estiver afim de responder? – entrei no joguinho barato dele.
– Também não responderei. — Assim a conversa foi finalizada. Ficamos, os dois, comendo, escutando a respiração um do outro, mas sem falar nada. O resto da mesa ainda explodia em risadas, sem perceber o clima estranho ali instalado.
Assim que acabei meu suco de abóbora me levantei da cadeira, mas minhas pernas não conseguiram suportar o peso do meu corpo. Me preparei para a queda, mas ela não aconteceu. Braços fortes envolveram a minha cintura antes que eu chegasse ao chão. Um perfume inebriante preencheu meu nariz. Poderia ter ficado ali a eternidade inteira, mas acho que o Potter pensa o contrário, pois ajudou a me levantar rapidamente (rápido demais para o meu gosto) e pendurou em um dos ombros a sua mochila, pegou a minha e a jogou por cima do outro ombro.
– Vamos morena, acho que precisa ir à enfermaria... Pelo visto não está muito bem. – Falou no meu ouvido, com uma delicadeza que eu imaginava que ele nunca possuiria
Não tentei detê-lo. Iria para lá mais tarde de qualquer forma. Caminhamos lado a lado, ele sempre por perto caso eu perdesse as forças novamente.
– Não vai mesmo me contar o que está sentindo? – Começou arrogante de novo.
– Não vai mesmo me contar porque se preocupa? – perguntei sincera.
O garoto bufou e voltamos à caminhada lenta e silenciosa.
Chegamos à enfermaria alguns minutos depois. As portas estavam abertas e nenhum aluno se encontrava ali dentro. A sala era toda branca, com macas bem limpas e lençóis perfeitamente esticados. Uma senhora, meio gordinha, logo apareceu para ver o ocorrido.
– Ah, senhorita White! Esperava lhe ver hoje! – Falou toda entusiasmada, para o meu total espanto. Porque 1- não era uma coisa legal eu me transformar numa fera hoje à noite e ela me ajudar com isso; 2- o Potter ainda estava aqui do meu lado e com uma bela cara de interrogação e 3- ninguém deveria saber que eu já tinha um “horário marcado” com a enfermeira de Hogwarts uma semana por mês.
Arregalei os olhos, numa tentativa silenciosa de avisar a mulher que o garoto não sabia do meu pequeno... Problema. Acho que entendeu, pois logo depois expulsou o Potter do local, com a desculpa de que ela precisaria me examinar e não queria enxeridos observando. Murmurei um “obrigada” e ele se foi. Deixando-me sozinha com a enfermeira.
– Desculpe por isso. – ela começou – pensei que tinha contado para os seus amigos, e quando ele veio te acompanhando... Bem, acho que já entendeu.
– Está desculpada. Mas ele não é meu amigo. Só me acompanhou porque é incrivelmente chato e arrogante a ponto de não deixar uma menina “indefesa” andar sozinha pelos corredores da escola só porque está pálida. – Alterei um pouco a voz, mas logo depois me arrependi.
– Tudo bem, tudo bem... A diretora me falou que você só vinha mais tarde, mas é bom que tenha vindo antes. Você se sentirá bem cansada hoje e acho que não conseguiria mesmo assistir às aulas. Ela trará a poção mais tarde. Pode ficar à vontade enquanto isso.
– Desculpa a pergunta, mas... O que realmente tem nessa poção e o que ela faz? – quastionei me lembrando da educação severa que sempre recebia em casa “Nunca aceite bebidas desconhecidas de ninguém, pode ser veneno” aqueles mesmos sermões de sempre. Tinha saudade daquilo.
– Não sei exatamente os ingredientes, mas é feita com acônito e é muito difícil de ser preparada. Ela faz com que você fique mais racional durante as transformações.
Deitei no colchão macio, com uma pontada de culpa por estar atrapalhando a cama antes muito bem arrumada. Fique ali, vegetando, sem saber muito bem o que fazer. É a mesma sensação de quando alguém espera para ser enforcado, espera para enfrentar o desconhecido, para sofrer, mas sem poder fazer nada contra isso. É torturante, angustiante.
Minha mente vagava de volta à floresta no dia da minha transformação... De longe o pior dia da minha vida. Dor. Eu senti muita dor. E tentava me preparar psicologicamente para senti-la novamente.
Escutava o badalar do relógio a cada hora, e o meu desespero só crescia. A enfermeira trouxe meu almoço e me esforcei para comer duas colheradas. Depois disso veio um lanche à tarde, para o qual eu nem olhei. E, por fim, chegou a diretora com um pequeno frasco em mãos.
– Daqui a meia hora irá anoitecer e a lua parecerá no céu. Beba a poção e venha comigo. Vou lhe mostrar onde passará essas noites.
Peguei o frasco com as mãos trêmulas. Acho que estava tão nervosa que mal senti o gosto da poção em contato com a minha boca. Levantei da cama e me firmei no chão com um pouco de dificuldade. A diretora andava a passos largos para fora do castelo, e tive um pouco de dificuldade ao acompanhá-la. Quando ela finalmente parou, eu bufava e meu corpo protestava em cansaço graças à má alimentação do dia.
Estávamos enfrente a uma árvore estranha. Era bem alta, e com a nossa aproximação começou a se mexer loucamente tentando nos atingir. A mulher pegou um pequeno graveto e se esgueirou com facilidade até atingir com ele, um nó no tronco da árvore que se estagnou de repente.
– Esse é o salgueiro lutador, ele guarda a entrada para a casa dos gritos, que fica em Hogsmeade. Ninguém mais sabe sobre essa passagem, fique tranqüila, e, quanto a casa, ninguém se aproximaria também, pois se espalhou boatos de que ela era mal assombrada quando o nosso primeiro lobisomem veio para Hogwarts. Desça pelo buraco e vá reto. No segundo andar encontrará um quarto com uma cama pra você.
Assenti relutante e, como uma verdadeira grifinória, dei um passo à frente para a minha forca.
– E, mas uma coisa. – Me voltei novamente para a McGonnagal — Boa sorte, querida. – Os olhos da diretora se encheram de lágrimas e ela se virou, enquanto eu escorregava pelo buraco nas raízes do salgueiro lutador.
Andei durante alguns minutos somente à luz da varinha. O túnel era baixo, o que me obrigava a andar curvada. O caminho não era curto, e, quando as minhas costas já reclamavam pela posição o túnel começou a subir, e passei por uma pequena abertura.
Observei, então, sob o pôr-do-sol entrando pela janela, um quarto vazio. Saí de lá e, no fim do corredor encontrei uma escada. Segundo andar dissera a Minerva. Subi controlando a respiração e tentando encontrar a calma. Os degraus estavam velhos e rangiam conforme eu subia.
Logo na primeira porta à direita avistei um dormitório parecido com o da grifinória, exceto pela cama. Ali só tinha uma. Será que eu dormiria essa noite?
Aproximei-me da janela e pude ver a lua crescendo no horizonte. Meu corpo começou a tremer e meus músculos começaram a queimar. Sentia-os contraindo e relaxando, se alongando mais do que minha pele podia suportar. Vi meus nariz se alongar e os pelos se espalharem por ali. De repente comecei a escutar melhor, e conseguia ouvir tudo ao meu redor, até mesmo um rato que roia o carpete no andar debaixo. A dor era alucinante, chegava a embaralhar a minha visão. Senti os pelos crescendo ao longo do resto do meu corpo, e, com um impulso, fiquei de quatro. Dois membros não suportavam mais o meu peso.
E então, tão inesperada como começou, a dor parou, e eu vi no reflexo da janela uma licantrope. Com pupilas dilatadas pelo escuro e pelo medo. Uma licantrope. Com pelagem marrom escura e patas gigantescas. Uma licantrope. Com uma grande lágrima escorrendo pelo focinho. Uma licantrope. Eu.
Tentei caminhar sobre as quatro patas, e por incrível que pareça, era mais difícil do que andar sobre duas. Tinha que coordenar os movimentos das patas de trás com as da frente. Minhas unhas rasgavam a madeira do chão como se fosse papel. Eu estava com medo de mim mesma.
Minha pulsação era mais rápida e ritmada. Meus movimentos mais bruscos e precisos. Não era mais humana. A respiração estava mais forte e eu sentia o meu peito inflar a cada segundo.
De repente, algo cresceu de dentro do meu próprio ser, e pude me ouvir uivando pela primeira vez. O Som faria a “Sophie humana” estremecer e sair correndo. Mas EU gostei daquele som. Repeti mais uma vez, e outra, e outra. Estava, finalmente, me conhecendo.
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