Libido

16 Capítulo 14


Notas iniciais
Olá gente, tudo bem? Fiquei longe por motivos pessoais + estudantis. Enfim, a história contém conteúdo +18 e relações homossexauis.

Minha cabeça estava explodindo após eu desligar o telefone. A pessoa do outro lado da minha somente havia deixado claro que era necessária minha presença lá, pouco informando o que aconteceu.

Percebi Lucrezia me encarando, agora com uma expressão preocupada no rosto.

"O que aconteceu?" perguntou.

Balancei a cabeça, com pressa, como se a Terra estivesse aumentado seu tempo de revolução.

"Te explico depois. Vou tomar outro banho, me arrumar. Se quiser vir comigo, te explico enquanto pego algo pra comer no café aqui perto, se não, te ligo depois" disse incisiva, sem tempo pra brincadeiras ou piadinhas.

Não ouvi qualquer protesto ou comentário pernóstico, o que me fez pensar que ela havia entendido a gravidade da situação.

Caminhei até o banheiro, retirando a toalha que envolvia meu corpo e imergi novamente na água gelada.

***

Dirigi rápido até o café, pegando apenas o necessário para alimentar a mim e a Lucrezia. Eu sabia muito bem que após explicar as informações que recebi, ela não iria ir porém surpreendentemente, minha amiga me deu um aperto no ombro e sussurrou em meu ouvido "vamos".

O caminho fora não muito longo e nem demorado pois as vias estavam vazias devido ao horário de rush ter terminado a poucas horas. O carro não balançava e o silêncio desconfortável invadiu o espaço.

Minha companheira de estrada olhava fixamente pra algum ponto da janela, quando a despertei do devaneio e avisei que tínhamos chegado finalmente ao nosso destino.

"Se quiser, pode ficar aqui dentro" falei, apressada pois queria ir.

Ela balançou o cabelo loiro, focando agora sua atenção no grande prédio á nossa frente.

"Eu vou, você sabe o quão divertido é quando estou perto de religiosos".

Soltei uma risada, feliz por ela poder me acompanhar.

Poderia ter seguido com o carro, entretanto preferi caminhar até o grande portão de ferro formados por barras que mostrava o longo caminho de pedra. Apertei o interfone, e logo depois anunciando minha presença.

Peguei na mão da Lucrezia com uma risada, e murmurei um "vamos" ainda que não tivesse ninguém próximo para ouvir.

***

Lucrezia não hesitou em nenhum momento enquanto a puxava pelos corredores barulhentos e cheios de crianças. Eu sabia muito bem seu trauma, pois quando tinha quinze anos resolveu fugir de casa por um tempo, e por estar sem dinheiro foi caminhando e pegando de Las vegas até o Colorado, entretanto foi apreendida e leva para uma casa de menores. Quando chegou deu um nome falso, e permaneceu em Neverland, nome dado porque ninguém saía dali. Após três meses e ter desvirginado nove garotos e um número inconfortáveis de garotas, além de ter recebido inúmeros castigos por parte das freiras que cuidavam do lugar, ela resolveu dizer seu verdadeiro nome e foi encaminhada para casa.

Olhei atenciosamente para o grande espaço cheio de pirralhos, quando finalmente identifiquei quem queria. Seu corpo pequeno estava quase dobrado num canto, enquanto seu olhar estava focado no chão.

"Henry" gritei, e então ele finalmente me olhou com um sorriso crescente no rosto.

"Regina" me respondeu, ainda na mesma posição. Fui até sua direção, procurando se havia algum hematoma além do baixo peso, mesmo para um menino de cinco anos.

Era estranho olhar para ele com essa idade, da mesma forma que o encontrei na rua a um ano e meio atrás. Ele estava destruído, jogado numa calçada numa chuva torrencial. Por mais sem coração que eu fosse, tomei a melhor decisão e o levei para a única pessoa que tinha um espirito bom e parental além da minha sogra, Daniel.

Meu amigo o recebeu e dias depois após alimenta-lo, cuidar dos machucados, o levou para o orfanato da sua congregação. Desde então, comecei a visita-lo, além de fazer doações pessoais e pela editora para instituição. Meu carinho por aquele menino que estava tão traumatizado quando o conheci era a prova viva que eu não era uma vadia totalmente sem coração, e que pelo menos poderia criar um gato ou uma píton quando eu envelhecesse e não pudesse mais trabalhar, assim não tendo mais ninguém para importunar além do meu marido, e das velhas tão senis quanto eu que encontraria em algum cruzeiro para a terceira idade.

"Oi garoto" falei, me abaixando para poder encara-lo nos olhos.

"Oi" agora com a excitação de ter me visto tendo acabado, sua voz soou tímida.

Tirei o cabelo castanho da sua testa, percebendo seus olhos castanhos esverdeados em encarando com sua curiosidade infantil.

"Por que não está comendo?" finalmente cheguei ao ponto, sabendo que nenhuma funcionaria dali me explicaria de forma melhor do que ele.

"Porque eu não quero" explicou, ainda que aquilo não fosse o que eu queria.

Revirei os olhos, esse moleque estava cada vez mais se assemelhando a mim. Arqueei a sobrancelha, tentando descobrir como o faria falar.

"Isso não é resposta" comecei, agora tocando seu rosto "fala, por favor" era engraçado como não pedia nada para ninguém, mas uma criança de cinco anos estava me dobrando.

"O Roland foi embora" falou, e franzi a testa no esforço de me recordar quem era.

"E o que tem isso? Sente falta dele?"

Ele negou com a cabeça, apesar de saber que esse era sim um fator, não era o principal.

"Então, se não é isso, o que é?"

"E se ele voltar?" me questionou e eu não tinha a mínima ideia do que diria para sanar sua dúvida.

"Ele não vai baby" tentei consola-lo. Sua expressão de preocupação me lembrou o real motivo daquilo, durante seu tempo aqui, Henry havia sido "devolvido duas vezes"

As crianças no processo de adoção tinham que passar por um período de adaptação com sua nova família, e por duas vezes, as famílias justificaram das mais diversas formas o motivo de não ficar com ele, mesmo que o garoto fosse considerável "adotável" pois era branco e tinha idade menos de 8 anos, média de idade em que a maioria das crianças eram adotadas.

"E você também não" o confortei "Mas isso só vai acontecer se você se alimentar"

Ele assentiu com a cabeça, entretanto não muito convencido.

"Agora, como vai na escola?" perguntei, mudando para um tópico mais feliz.

"Bem" respondeu-me, dando um sorriso desajeitado, mostrando sua falta de dentes costumeira para sua idade.

Olhei para trás, vendo Lucrezia me analisar com um sorriso no rosto, era quase como se estivesse vendo um programa do Animal Planet, daqueles aonde um homem interage com alguma espécie super. violenta e quase extinta, e nesse caso, eu era o ser dessa espécie.

"Espero que sim" dei meu melhor sorriso em troca.

"E o livro?" perguntou e eu tentei lembrar do que assunto se tratava.

"Puta que pariu!" soltei quando recordei-me do que era, e ouvi o menino rir por eu ter dito um palavrão.

Eu havia combinado com a instituição que a editora iria lançar um livro com os contos das crianças e os lucros viriam todos para a congregação.

"Vamos ver" comecei, os contos já estavam lá, o problema é que em meio a minha vida caótica combinada com meus problemas com minha boceta salivante, não havia pensado em nada para a arte da capa "logo logo vocês poderão ver"

Toquei seu rosto de novo, fazendo um carinho que foi recebido com uma risada alta.

"Agora, vai brincar" incentivei, o que foi atendido pelo pequeno, que saiu em disparada.

Eu me levantei em meus pés, ficando de pé e ajeitando minha postura para caminhar até Lucrezia, para sairmos dali. Fiz exatamente isso, entretanto uma voz conhecida me chamou e fez-me parar meus planos.

"Sra. Nolan"

Virei-me, vendo a figura não com um habito mas com uma roupa facilmente identificavel como uma freira.

"Madre Superiora" respondi o comprimento, parando de andar, sendo seguida por minha amiga.

Lucrezia deu um sorriso debochado para a mulher. A religiosa tinha uma estrutura baixa, cerca de 42 anos, com cabelos castanhos e olhos da mesma cor, sua pele branca destacava o enorme crucifixo de ouro que pendulava em seu pescoço a qualquer movimento.

"Gostaria de falar com você, a sós" anunciou, mandando um olhar incisivo para a loira ao meu lado.

"Ah madre" Lucrezia começou a falar, ajeitando o cabelo e a olhando fixamente "creio que ela não tem nada a esconder de mim. Não é mesmo?" perguntou, se aproximando de mim, quase beijando minha boca.

PUTA QUE PARIU.

Vi o corpo da madre tremer, e sua expressão se tornar de calma para enojada.

"Você poderia por favor se afastar dela?" falou para nós duas, com o olhar indignado.

"Por que? Por que não somos um casal hétero?" rebateu

Eu ia matar a Lucrezia.

"Porque vocês não são um casal" a freira falou "E porque nossas crianças não são submetidas à sexualidade tão cedo, nem por casais ou por esses..." começou

"Esses o quê? LGBTs? Gays? Viados? Sapatões?" a fúria em Lucrezia era evidente "E sobre não sermos um casal: Deveria ler meu último livro querida, ia te tirar muitas dúvidas além de que tirar seu amargo pela falta de sexo porque você em vez de você apontar o dedo pros outros, ia usar num lugar mais interessante, na sua boceta" seu corpo se aproximou do da madre perigosamente.

Ótimo, além de me odiar por minha índole, agora Lucrezia era adicionada a equação, além de que a enfermeira da minha sogra era freira daquela congregação.

Pus-me entre as duas, afastando principalmente o corpo da loira.

"Chega" falei, acabando com o pequeno show.

"Tira essa mocinha daqui" exclamou a mais velha e fiz um sinal com a cabeça para que Green fosse para o carro e felizmente fui atendida.

Quando finalmente a loira se afastou, foquei minha atenção na mulher que tinha algo a me falar.

"Então, depois disso. O que tem para me falar?" perguntei, cruzando os braços "Se for sobre o livro-"

Fui cortada abruptamente com um movimento da mão da morena.

"Não é isso Sr. Nolan" começou, tomando um ar e colocando uma expressão dura no rosto "É que começamos a ver o caso de Henry, especificamente e percebemos que suas voltas ao orfanato não eram culpas da família e sim do comportamento dele"

"Como assim? Henry é um menino empático, com boas notas, carinhoso" teci meus elogios, quase como uma mãe orgulhosa. QUASE.

"Eu sei disso, convivo com ele todos os dias"

"E então?"

"Mesmo com tudo isso, ele volta. Conversamos com uma das famílias e perguntamos sobre seu comportamento junto a eles e o casal" ela enfatizou a última palavra "disse absurdos, nada a ver com a personalidade dele" tomou um fôlego "E o casal que adotou Roland, os De Locksley¹, falaram que estavam interessados em adotar Henry também porém que ele foi extremamente arredio, ainda que isso seja normal depois de todos os traumas. O ápice foi ver um desenho que foi pedido na aula sobre expectativas de futuro, e havia sua imagem com os dizeres "minha futura mãe".

Engoli a seco ao assimilar as informações recém adquiridas, era extremamente estranho um ser humano ter um sentimento tão puro por mim, depois do meu pai.

A freira percebeu meu silêncio como incentivo para continuar.

"E depois de todos os episódios juntos, eu e algumas irmãs decidimos que não é saudável a senhora continuar visitando o menino, assim o incentivando a continuar com esse comportamento"

Meu rosto mudou de confuso para abalado, não era o que eu queria apesar de ser o certo. Mas sempre fui conhecida por não ter uma moral muito boa e não fazer o certo.

"O que é saudável ou não deveria ser decido por um psicólogo e não por um bando de mulheres que sequer pisaram em uma universidade" esbravejei.

"Nós sabemos da saúde espiritual, e nesse campo, sabemos que seu comportamento com ele não é" rebateu.

Meu sorriso se tornou psicótico pelo que vi espelhado nos olhos dela, e percebi seu medo.

"Sabe o que não é saudável? Falar pra pessoa que paga mais das metades dos gastos disso aqui, o que fazer. Principalmente porque agora você estaria pedindo doações e não tentando me dar ordens. Além de que dá pra perceber que aproveita bastante o conforto concedido por mim e que não é uma franciscana²" disse, aprontando para o crucifixo que daria para comprar uma casa de luxo ou uma frota de carros populares.

"Sra Mills-" tentou argumentar, mas a cortei com um movimento da mão, exatamente como ela havia feito comigo.

"Se eu fosse uma pessoa horrível, cortaria qualquer relação com a congregação, Madre. Mas não vou fazer isso, porém não quero mais uma mulher amarga que só não é julgada porque usa um habito, tente mandar em mim. Uma mulher que se andasse com roupas normais, diriam que pra comprar esse penduricalho que usa no pescoço, abriu as pernas para um cara rico" cuspi, me virando.

"Não admito que fale assim" me desafiou

"Você não tem que admitir nada" retruquei saindo de perto e indo para meu carro.

"Que Deus tenha piedade da sua alma" ouvi ao longe.

"Realmente, ele deve ter mas a senhora não, então pare de sermões."

"Herege" gritou indo na direção oposta a minha.

"Vai se foder" gritei de volta

***

Entrei em meu carro batendo a porta, sendo recebida por uma risada.

"O que a representante da inquisição queria?" Lucrezia perguntou, se ajeitando no banco do carona.

Soltei um suspiro, aquela conversa havia me deixado mais furiosa do que tinha percebido num primeiro momento.

"Ela quer que eu não visite mais o Henry" expliquei, cansada.

"E..?"

"Eu a coloquei no seu devido lugar, e disse que faço o que eu quero"

"Bem do seu tipo, mas ela não ia falar isso atoa, ou ia?"

Me ajeitei, colocando o cinto e ligando o carro, olhando para o caminho em vez da loira ao meu lado.

"Ela disse que não é saudável eu continuar o visitando, que ele cria expectativas. Mas no fundo, a Madre só é uma amarga, igual as freiras do colégio aonde eu estudei. Uma vez colocaram-me para ficar cinco horas ajoelhada, rezando" pontuei.

Lucrezia balançou a cabeça.

"E hoje em dia, você só se ajoelha para fazer boquete"

Abri minha boca, tentando formar uma resposta tão baixa quanto sua fala.

"Alguém já falou que você é ridícula?" rebati, sendo a melhor coisa que podia falar no momento.

"Muitas vezes, mas normalmente é ridiculamente boa, na cama" retrucou rindo e fazendo um sinal para eu focar no caminho

****

Após deixar Lucrezia no hotel aonde estava hospedada, resolvi cancelar meu dia de trabalho e ir direto para casa.

A fúria cega havia se esvaído do meu sistema, e as palavras da Madre giravam em minha mente criando um questionamento. Seria realmente bom eu continuar visitando o menino?

No caminho até em casa, cozinhei cada dado recebido hoje, além das palavras de Lucrezia sobre James. Eu realmente estava bloqueando meu marido por culpa? Algo que senti poucas vezes na vida.

Era estranho perceber que estava levando minha vida para rumos incertos, que eu não queria. Filhos? Ou pelo sentir carinho de alguém que poderia preencher essa função? Não.

Deixar o conforto do meu casamento e me aventurar em algo que não me daria nada mais que orgasmos e dor de cabeça latente? Não mesmo.

Esse era o momento para colocar minha vida nos trilhos de novo.

Engoli a seco, entrando na cobertura e de repente recebi uma mensagem de James perguntando se queria almoçar, para resolver as coisas.

Digitei uma resposta rápida, falando que estava em casa e prepararia alguma coisa e que se ele quisesse, podia vir. Fui prontamente respondida, e fui para a cozinha preparar algo rápido.

O filé de frango com legumes foi fácil, mesmo com o meu nível de distração. Arrumar a mesa foi bom para tentar deixar de lado qualquer pensamento libidinoso e culpado.

Quando finalmente terminei, ouvi a porta sendo aberta e fui recebida com a costumeira beleza do meu marido. Eu sabia que deveria tentar concertar as coisas, mas a incerteza que corroía meu estômago fez-me tomar uma decisão impensada.

Caminhei até sua direção, e o puxei para um beijo. Na sua incerteza, deixou a pasta que segurava cair num baque surdo, para enredar uma mão em meu cabelo e colocar a outra em meu quadril

"Me fode" sussurrei suplicante.

Notas finais
¹ De Locksley: Robian e Marian, o sobrenome fora usado para definir Robin Hood. ² Ordem de freis que seguem a doutrina de São Francisco de Assis.