Libido
13 Capítulo 11
Notas iniciais
James:
Era estranho estar sentado, repleto de papéis em um escritório, ainda que não pequeno em proporções, minúsculo para a vida que eu tinha quando mais jovem.
Sempre fui um cara do mundo, que quebrava as regras, leis. Mas agora estava ali, as cumprindo.
Acho que foi por isso que consigo ficar tanto tempo em meio a tantos processos, porque da mesma forma que sei como cumpri-los, sei como quebra-los e saber cada lei me faz sentir mais poderoso.
O poder foi justamente o motivo de eu ter escolhido ser advogado. A editora me traria dinheiro mas nunca o que eu queria de verdade, não me traria a vitória de fazer justiça ou de ludibriar a mesma, eu não seria o Deus da verdade.
Olhei para a pilha e logo depois para meu celular, que não havia nenhuma ligação, nem mesmo de Regina.
O comportamento de minha esposa estava estranho, estranho até mesmo para seus padrões e eu iria descobrir, porque se ela tem uma lábia do demônio, eu tenho o dobro.
Foi por isso que a escolhi como esposa, porque ela tinha essa lábia e o jeito parecido com o meu. Todos da alta sociedade sabiam do seu gênio difícil e falta de escrúpulos. Do tipo que te daria uma rasteira, mesmo se você tivesse um glaucoma.
Entretanto nos últimos dias sua personalidade altiva estava diferente, e eu iria descobrir isso, nem que seja pelos métodos mais difíceis.
****
Regina
Eu estava no táxi que Daniel havia pedido após me acalmar do meu ataque de vulnerabilidade. A minha vontade de ir pra casa era zero, não queria ver o rosto de James e nem mesmo as perguntas inquisidoras que viriam.
A dor de ter feito sexo sem nenhuma preparação havia passado e então eu poderia me concentrar em outras coisas, por isso a ideia de ir para a editora e me enfiar em qualquer trabalho, nem que fosse irrelevante era a melhor possibilidade. Ter roupas e um banheiro em minha sala facilitava muito minha vida.
Pedi para o motorista para me deixar no endereço da editora, focando nas diferentes paisagens que passavam como borrões, tentando esquecer as patéticas cenas em que fui protagonistas a horas atrás.
Enquanto esperava o trajeto ser cumprido, peguei meu celular e o liguei após horas fora do ar. Tinha poucas ligações: Uma da minha secretaria, uma de James e duas de Lucrezia. Resolvi ligar para a última, porque sabia muito bem que ela não me deixaria em paz até saber cada detalhe do meu rompante.
Disquei seu número, e segundos depois pude ouvir sua voz animada no outro lado da linha.
"Alô"
"Olá, queria apenas pedir desculpas por ter te deixado no restaurante"
Pude ouvir o riso de formar na garganta de Lucrezia, que permaneceu calada por alguns instantes até finalmente falar "Não peça desculpas, você não está nem um pouco arrependida mas quero detalhes do que foi fazer com tanta pressa. Se masturbar ou encomendar meu assassinato por ter falado o que eu almejo fazer com seu cunhadinho?"
"Nada disso" mantive meu tom sereno "Fui ter uma conversa com ele"
"Eu imaginava, e provavelmente transou com ele"
Balancei a cabeça, incrédula com o quão obvio eu agia "Sim, eu transei com ele, de forma inconsequente"
"Amor, transar nunca é inconsequente"
"Sim, se for anal e sem lubrificante"
Lucrezia explodiu em risadas no outro lado do telefone e eu quis mata-la "OH MEU DEUS, ele fez a falsa puritana fazer anal. Cada dia mais quero ter esse homem como troféu"
Meus cabelos da nuca se arrepiaram, aquele ciúme e a lembrança amarga do meu ataque sentimentalista mais cedo invadiram meu corpo como adrenalina invade um corredor.
"Cala a boca"
"Eu gosto de tocar na sua ferida porque você sempre tem a mesma atitude, frouxa" explanou, no mesmo tom debochado "amanhã eu ligo, quando abaixar essa tua libido pelo meu troféu"
O telefone desligou, e eu quis taca-lo pela janela, assim como a sensação estranha que crescia em meu peito
***
David
Busquei refugio aonde sabia que ninguém me incomodaria, meu escritório. Regina deveria ter ido para casa e ela, bem ela não poderia tentar nenhum contato porque Charlotte impediria qualquer tentativa.
Minha mesa estava repleta de papéis, e minha mente repleta das imagens de Regina sobre mim. Eram como tatuagens, marcadas e irreversivelmente cravadas.
Porém minha atenção fora trocada quando meu telefone tocou, e eu o atendi.
"David" a voz de Charlotte ressoou no telefone como sempre profissional mas ainda sim convidativa "Tenho uma ligação, da sua noiva" sua voz abaixou uma oitava "devo passa-la?"
"Sim" respondi, franzindo o cenho, tentando entender o motivo de Rebeca me ligar a essa hora.
Charlotte foi eficiente, passando a ligação mais rápido do que eu pensava. Segundos depois pude ouvir a respiração entrecortada de Rebeca no outro lado da linha.
"David" disse ela, com a voz chorosa e sem ao menos um cumprimento.
"Rebeca, o que houve?" perguntei, também esquecendo as formalidades. Parecia que o universo estava realmente querendo deixar meu dia de ponta a cabeça.
"Eu-" parou, quase um soluço "não quero mais me casar em Londres"
Quando ouvi o que disse, quis bater com minha cabeça na mesa. Todos meus planos de afastar James, Regina e a imprensa do meu casamento estavam ruindo através de meus ouvidos e eu não podia fazer nada. Discutir seria pior, além de que sua família estava organizando todo o evento e por isso não poderia interferir.
"Por que?" foi o único que pude contestar, talvez o motivo fosse bobo e em uma hora minha noiva mudaria de ideia.
"Não está saindo nada como eu quero, nada como eu imagino. Fora que você vira morar aqui, eu quero guardar alguma lembrança boa da sua terra natal" explicou, falando arrastada de forma que seu sotaque britânico se destacasse "Já conversei com meus familiares e eles aceitaram, até mesmo Zelena e Anna se ofereceram para me ajudar nos preparativos"
Senti um gosto amargo subir meu estômago, lidar com as irmãs O'Connell era sempre estranho por ter transado com todas elas.
"Elas viriam então...." comecei
"Vão vir antes, provavelmente um mês antes. Anna terminou o projeto de um novo prédio e Zelena quer descansar um pouco da vida hospitalar"
"Rebeca, eu sei que você quer se conectar a mim mas não sei se é uma boa ideia, a casa de campo dos seus pais já estava separada e sabemos que ela pode suportar esse evento" tentei, ainda que sem esperança.
"Mas amor" sua voz veio em uma manha de menina mimada, mais fina e chorosa que o normal. Minha paciência para as birras de Rebeca era nula e então deitei minha cabeça na mesa de mogno, cansado.
"Tudo bem, se é sua vontade"
Pude ouvir sua respiração normalizar e um grito agudo logo depois perfurar meu ouvido "Obrigada amor, vai ser maravilhoso"
"Eu não duvido"
"Obrigada mesmo, entretanto espere pela lua de mel"
Fiz uma nota mental do corpo de Rebeca, esquecido momentaneamente e substituído pelo corpo estonteante de Regina que havia me intoxicado nos últimos dias. Seu corpo era esguio, porém com seios fartos e pele branca e macia. O sexo poderia ser mediano, mas nunca ruim.
"Mal posso esperar"
"Amor" começou "terei que desligar. Vou ligar para as meninas e avisar da novidade"
"Eu entendo, até depois"
"Até, e eu te amo"
"Eu também" respondi antes de desligar o telefone.
Com a cabeça ainda repousada na mesa, fechei meus olhos e soltei um suspiro.
"Mary Margaret, eu sinto tanto a sua falta"
***
Eu odiava me chafurdar em auto piedade, ficar preso em uma sala pensando no que não voltaria nunca fora uma boa opção pra mim mas também não havia nada para se fazer ali.
Nem mesmo meu trabalho era capaz de me fazer ter concentração, então decidi larga-lo na primeira hora dentro daquela sala.
Pensei em ligar para Rebeca e fazer sexo por telefone, mas na mesma hora a possibilidade fora descartada por seria entediante, como tudo que eu fazia e não era relacionado à Regina nos últimos dias.
Então resolvi sair da minha sala, caminhar pelos corredores e buscar um café. Cafeína sempre fora uma boa amiga, além de dar um descanso para minha secretária que sempre me fazia o favor de buscar litros e litros de café para mim.
O ar que corria no corredor da cafeteria era convidativo, diferentes dos olhares de certos funcionários. Alguns me olhavam com espanto, pois pensavam que eu nunca me dignaria a sair de minha sala para conviver, outros com resignação e outra parte com libido.
Tomei a bebida quente, que passou rasgando em minha garganta sem pressa. O gosto amargo ficou em minha língua e quis aproveitar, antes de voltar para minha sala e me em vez de afundar em auto piedade, me afundar no tédio.
Me virei para a maquina, afim de pegar outra copo quando ouvi os famosos cliques causados pela responsável pela minha vida estar uma bagunça. O barulho cessou um pouco, aparentemente ela ficou chocada por me ver ali, depois de tudo e o sentimento era recíproco.
"Vai demorar muito ou está moendo o café?" perguntou, com o tom de voz rouco. Eu queria me virar, ver seu rosto e perguntar o que fora tudo aquilo que passamos mas eu não tinha coragem e nem força de vontade para resistir a ela.
"Se quer rapidez Regina, vá no café aqui perto" respondi, no mesmo tom infantil que ela havia usado. Era incrível como tudo entre nós havia virado um clico vicioso, uma dança sobre a brasa em que repetíamos os passos de forma quase insana.
O café já estava em minhas mãos quando eu fui virar-me, entretanto num movimento rápido Regina o tomou de minha mão.
Nesse momento, olhei para sua figura. O cabelo estava ainda com leves cachos, a maquiagem padrão com a boca vermelha e um vestido preto terminavam sua imagem de dama de ferro.
"Acho que descobri uma forma mais rápida, David" disse com o deboche escorrendo mas somente consegui me lembrar dela gritando meu nome quando eu estocava profundo em sua boceta.
"É sempre assim com você?" a questionei.
"Como?" arqueou a sobrancelha.
"Agindo como uma criança mimada, você tem não tem cinco anos"
"Não mesmo, e você não tem direito de me questionar nada" rosnou, bebendo o café na minha frente como forma de provocação.
"Claro que eu tenho, você aparece na minha casa como uma louca e a gente..." a frase morreu ali por alguns instantes "transou. Além de que existiu algo ali"
"Existiu sim, tesão" me retrucou, colocando os braços sobre os peitos em sinal de defesa. Esse gesto foi compreensível a vulnerabilidade que teve mais cedo, a entendia porque era exatamente o que eu sentia, entretanto sua atitude infantil não.
"Fale o que quiser" falei, cansado.
"Eu falo porque mesmo dono disso aqui, o território é meu, Nolan"
Soltei um suspiro pesado, Regina era impossível.
"Em seus sonhos"
"Não mesmo" zombou
Passei por ela, irritado "Vai se foder"
***
Regina
Eu havia voltado para minha sala e estava tentando voltar ao meu norte. A conversa com David havia me descontrolado, de novo.
O efeito nocivo que ele me causava estava criando uma cascata de problemas pra mim.
E eu queria mata-lo, somente por existir.
Mas meus pensamentos foram trocados quando uma batida na porta ressoou em meus ouvidos.
"Entre" falei, ajeitando minha postura na cadeira.
Minha secretária entrou na sala, com uma caixa de presentes de tamanho mediano nas mãos. Franzi o cenho quando vi o objeto.
"Quem deixou essa caixa?" perguntei, com o corpo rígido.
"Charlotte, a secretária do Sr. Nolan" Cara respondeu com a voz fina, e eu sentir o medo que exalava.
Com suas palavras, considerei devolver a caixa para meu cunhado com alguma resposta malcriada, entretanto a curiosidade de saber o que ele conseguiu planejar com tão pouco tempo se apoderou de mim e acabei vendo-me aceitando o presente.
"Obrigada, Cara" falei em um tom que deixasse claro que a queria fora da minha sala.
Finalmente sozinha, pus-me a analisar a caixa. Talvez tivesse algum réptil venenoso ou um vídeo nosso transando, apesar de que a primeira opção fosse mais plausível nos tempos em que eu e David vivíamos.
Desamarei o laço grande e tirei a fita que envolvia a caixa. A abri e pude ver que sob os papéis havia um conjunto de sutiã, calcinha e cinta-liga da La Perla¹, entretanto ao lado havia outra caixa.
E eu quis muito abri-la para o que quer que fosse, jogar na cara de David assim como a roupa íntima. Segui meu instinto e abri a caixa, revelando então algo que não esperava. Um vibrador de coloração cinza. Minha boca se abriu em um "O" por conta do espanto dele fazer algo do tipo. Era baixo até mesmo para ele.
O objeto era tradicional, dos que eu via nas casas das minhas amigas porém que nunca tive vontade de comprar. Ao analisa-lo sabia que minhas bochechas estavam rosadas e me odiei por isso. Eu não ficava constrangida, nunca.
Olhando de novo para caixa, pude ver um papel dobrado de forma minuciosa. Ao abri-lo, identifiquei a caligrafia firme e elegante de David.
Regina,
Se domina a editora, eu domino a sua boceta.
Espero que se divirta bastante com seu novo amigo e fique menos amarga.
Não comprei nada para o anal pois não sei se já se recuperou, além de que não sabia se devia comprar um lubrificante pois percebi que não é muito fã.
Se quer ser criança, dois podem dançar esse tango.
Espero que você se foda.
David
Ao ler o que o bilhete dizia, joguei o vibrador dentro da caixa com a lingerie. Saí marchando furiosa em direção a sala de David, ignorando tudo e todos que passaram por mim.
Quando finalmente vi sua secretária com cara de sonsa, sentada.
"Nem tente me anunciar" sibilei, sabendo muito bem que aquela coisinha tinha participado daquilo, mas dela eu tratava depois.
"Sr., o Sr.Nolan já não está mais no escritório" falou, com um sorriso nos lábios.
"Onde ele foi?" a questionei.
"Ela não me informou, no entanto disse que não voltaria hoje" afirmou.
Soltei um gruindo, e me virei sem ao menos me despedir da mulher. Ele havia jogado a bomba e nem ao menos ficou para ver o resultado.
Saí marchando como fui, voltando para minha sala e de novo analisando os objetos.
"Filho da puta" gritei, tentando extravasar um pouco da raiva que estava sentindo.
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