Liberte-me
2 Abrace-me esta noite
Notas iniciais
– Agora os irmãos poderia se levantar para a oração final — disse o pastor com entusiasmo, como se fosse algo bom.
Minha mãe me obrigava a ir para a igreja todos os domingos, ele sempre achou que eu era a garota mais perfeita e puritana de todas, e eu era boa em fazer com que acreditassem. Usar roupas longas e não usar maquiagem, além de fingir que gostava de todos e era muito educada — perto deles.
Eles não sabiam do meu segredo, de que eu saia para festas e bebia, fumava, essas coisas. Mas não tinha necessidade de saberem, até porque eles sempre fingiam que não viam nada, para eles tudo que importava era como as pessoas me viam. Fingiam que nada acontecia entre eles, como se eu não reparasse.
Dava para ver estampado na cara deles como o casamento ia de mal a pior. Minha mãe já havia encontrado bilhete de motel no bolso da calça dele e meu pai já havia achado camisas que não era dele em casa e simplesmente fingiam que não viam nada. Não sei se era porque se gostavam tanto que não queriam se separar ou o fato de que eles se separarem iria ser "constrangedor" para a sociedade que eles vivem. O que não me importava nem um pouco, já fazia anos que não me importava com eles, e não vai ser agora que vou mudar de opinião.
Na igreja, eu falava com todos, como se fossemos amigos de verdade. Conto minha vida — fictícia, é claro — e eles fingem que se importam. "Como vai hoje, Kathetina?" "Estou bem Sra. Stark, e a senhora?" essas coisas.
Naquela mesma manhã meu telefone tocou e eu o atendi, mas com isso minha mãe veio até mim com cara de espanto e eu já esperava por bomba. Ela não falou nada, só tomou o telefone da minha mão e o guardou. Quando acabou o culto ela me puxou para o canto e disse um monte de coisas, dizendo que estava envergonhada comigo, que eu não deveria ter trazido o celular e que aquilo iria me custar muito caro.
Eu nunca refutava o que ela dizia, mas eu estava significativamente estressada, e não era nem de longe um bom dia. Então eu simplesmente saí correndo direto para o quarto do caseiro. Eu costumava ir lá sempre que estava mal, ele era um ótimo homem e sempre me entendia, conversávamos bastante, mas ele não estava lá, então apenas me encolhi em um canto e acendi um cigarro.
De repente a porta se abriu, eu pensei que fosse o caseiro, mas reparei pela voz que não era. Era a voz do pastor, eu reconheceria em qualquer lugar, pois era uma voz forçada e eu a ouvia todo maldito domingo. Só que ele não estava sozinho e muito agitado cambaleando de um lado para o outro, e o que aparentava estar beijando uma mulher — beijando era eufemismo.
Eu fiquei agachada olhando os dois, eles realmente estavam pegando fogo, e começaram a se despir. Era sem dúvida a pior visão do mundo as costas do pastor, parecia um urso pardo de tão peludo. Foi então que ele se abaixou e levantou o vestido da moça que eu reparei quem era e sem dúvida, era inacreditável.
Me levantei em um pulo, mas eles não repararam. O pastor estava ocupado demais lambendo a vagina da mulher, e ela estava muito ocupada gostando daquilo. Eu pensei em pegar meu celular para gravar, porém não estava comigo.
A mulher olhou para o lado e com o susto que levou quase arrancou a cabeça do pastor. Ela se encolheu no canto, envergonhada. Estava tão corada que parecia um tomate. O pastor, constrangido arrumando as calças ficava alterando o olhar de mim para ela.
– Como eu queria estar com o meu telefone, essa sem dúvida vai ficar para a história — falei com sarcasmo.
– Katherina, você não entende. — disse o pastor ainda abotoando as calças.
– Eu realmente não entendo, porque você — olhei para a moça, que a propósito era minha mãe — insiste em ficar com o meu pai quando fica dando para qualquer homem?
– Katherine... — ela estava tão constrangida que pela primeira vez não conseguia falar.
– Não fale assim com ela, ela é sua mãe — disse o pastor, bravo.
– E você não é meu pai, então não fique achando que podia enfiar esse seu pênis deformado nela.
– Olha como fala comigo!
– Eu falo do jeito que eu quiser, você não tem o maldito direito de me dizer nada. Você fica pregando uma palavra idiota para cordeiros idiotas, mas eu não sou idiota. — senti que estava prestes a chorar, não por ver minha mãe traindo meu pai, mas simplesmente porque eu já estava cansada de tudo.
Eles ficaram paralisados, e minha mãe estava com lagrimas nos olhos. Eu fui até a porta e o pastor tentou me impedir mas eu o empurrei para longe. Abri a porta e olhei para minha mãe, ela se quer tinha coragem de me encarar, estava exposta e frágil, e eu estava como um lince quando olha uma gazela.
– Pare de fingir que você e meu pai estão bem, pois eu sei que não estão. Vocês terminarem não será motivo de constrangimento, mas isso que você fez... isso é vergonhoso. — finalmente a lagrima desceu — Eu pensava que você era uma moça moralista, que gostasse de ir à igreja como todas as moças caretas. Mas você não passa de uma vadia qualquer.
Ela começou a chorar e pôs a mão no rosto, e sai do quarto e bati a porta. Estava secando as lagrimas e pensando que aquilo não tinha sido de todo mal. Talvez agora, finalmente, eles se separariam de uma vez. Não dava para ver amor nos dois, não dava para ver sequer felicidade. O jantar era sempre constrangedor, todos quietos. E não havia um final de semana feliz. Talvez agora ao menos eu consiga ser feliz.
Andar até em casa me fez pensar muita coisa, tanta coisa que minha cabeça estava doendo. Eu cheguei e meu pai estava na cozinha ouvindo música e tomando café. Por incrível que pareça, eles estava sorrindo. Geralmente os filhos nunca vê os pais chorando, eu nunca os via sorrindo. Eu me sentei do lado dele e imediatamente ele desligou o rádio e fechou a cara olhando em volta, provavelmente procurando minha mãe.
– Sou só eu — disse com uma voz fraca, e segurei a mão dele. Eu olhei no fundo dos olhos dele e a única coisa que vi foi alguém lá dentro lutando para sair, e estava certo que a grade que impedia era minha mãe.
– Está tudo bem, querida? — ele falou com uma voz pacifica, e um pouco surpresa.
– Vai ficar. Pai, porque vocês insistem nisso? — as sobrancelhas dele subiram quase que no meio da testa — Eu sei que querem ser uma família normal, com uma filha normal. Mas isso aqui não é normal, nem de longe. Vocês fingem tão mal que chega a ser constrangedor. Isso não é normal, muito menos salvável. — ele olhou para baixo — pai, eu não sou mais uma garotinha, não precisam fingir isso, dane-se o que vão pensar, mas as pessoas já pensam milhares de coisas, você nem se parecem um casal de verdade. Por que insistem em fingirem que estão juntos, quando poderiam estar sorrindo?
– É complicado — ele estava com uma voz embolada, provavelmente estava chorando. Não dava para vez, porque ele estava de cabeça baixa.
– É complicado fingir, fingir que são felizes juntos. Pai eu sei que você é um bom pai, mas minha mãe...
A porta se escancarou, e era ela, a "puta" — como eu gostava de chamá-la agora". Eu me levantei, beijei a nuca do meu pai e subi as escadas. Ela tentou me parar mas não conseguiu. Me tranquei no quarto e me joguei na cama de cara. Era a sensação mas estranha que eu já senti na minha vida, eu estava triste e ao mesmo tempo feliz. Eu pressentia que as coisas estavam por mudar, e sentia que finalmente eu poderia sorrir sem ser um sorriso forçado.
Naquela noite houve-se paz. Ninguém falava, a casa estavam em silencio, nem mesmo nosso cão latia, parecia que a casa estava de luto. Eu não tinha decido, não sabia o que eles tinham resolvido, e de certa forma estava com medo da resposta.
Ouvi uma batida na porta e meu coração foi na boca. Senti um enjoo repentino e meu corpo começou a pinicar, eu estava tão nervosa que meu estomago se embrulhou e senti até ânsia de vômito. E se fosse minha mãe dizendo que eu e ela vamos morar juntas? e se for os dois dizendo que vão tentar mais uma vez? e se...?
Eu me levantei, fui muito devagar até a porta, quem fosse que estava na porta sabia como eu me sentia, pois não bateu de novo. Eu abri a porta devagar e vi que era meu pai. Senti como se alguém tivesse me empurrado pelas costas, pôs me joguei nos braços dele. Ele sussurrou no meu ouvido "Agora somos só nos dois, pequena” Senti meus olhos arderem, meu corpo amolecer, e lagrimas escorrerem pelo meu rosto como nunca tinha acontecido antes.
Eu não chorava de tristeza, chorava pelas magoas passadas, chorava por dias que segurei o choro, chorei por todas vezes que vi meus pais se entreolharem com ódio nos olhos, chorei pela morte dos meus familiares, acho que chorei até mesmo pelo meu nascimento, pois as lagrimas não paravam de descer. E por sorte meu pai não me largava, ele me segurou tão forte aquela noite que pela primeira vez eu senti o que era ser amada.
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