Liberdade num olhar

27 Capitulo 27


Capitulo 27-

– GENRAL! – Gritou Walenty.

Todos os homens da aldeia tinham-se juntado com os seus filhos mais velhos. As mulheres juntaram-se no estábulo com as crianças.

– Rendam-se ou morrem – Disse General sorrindo.

– Tínhamos um acordo. – Rugiu Walenty.

– Sim, é verdade. Eu concordei em não atacar naquele dia, hoje é um novo dia. E hoje não há acordos.

– Traidor – Rugiu Ahmad.

General riu.

– Preparar, apontar, fogo.

Os soldados saíram da floresta e apontaram as espingardas.

Os tiros ouviam-se a quilómetros.

– NÃO OS DEIXEM CHEGAR AOS ESTÁBULOS! – Gritou Walenty para os seus companheiros.

Eles estavam em desvantagem contra os soldados. Eles tinham armas quando que eles apenas lanças.

– TATE! – Gritou Jedrek quando Walenty foi derrubado ao chão.

– NÃO PARES! CONTINUA! – Pediu-lhe Walenty.

Jedrek assentiu e correu para o lado de Zarek.

– Eles são muitos – Disse Zarek cansado.

– Nós vamos conseguir.

Zarek lançou mais uma lança e acertou num soldado.

– Eu não os quero matar – Admitiu.

– Nem eu. Mas temos de os deixar pelo menos incapazes – Disse-lhe Jedrek.

Zarek e Jedrek continuaram a mandar as lanças até um cavalo relinchar.

– PÁRA! – Gritou Lucas saindo de Ogień.

– SAI DAQUI LUCAS! – Rugiu o General.

Enquanto Zarek e Jedrek olhavam para Lucas um dos soldados aproveitou e preparou-se para atacar.

Lucas apercebeu-se e tirou-os de lá deitando-os ao chão.

– Mas que… — Disse Zarek em choque.

– Lucas? – Perguntou Jedrek.

Walenty mandou uma seta ao soldado que caiu no chão a gritar de dor.

– Estais bem?

– Sim. – Disse Zarek.

– Nem todos – Respondeu Jedrek olhando para a camisola de Lucas em choque.

Walenty ajoelhou-se ao lado de Lucas e tirou-lhe a camisola ensanguentada.

A bala tinha-o atingido no abdómen.

– Precisas de curativos urgentemente – Disse Walenty puxando-o para cima pela cintura.

Lucas gemeu de dor.

– LUCAS! – Gritou o General correndo até eles. – Largue-o – Ordenou a Walenty.

– Seu idiota. Seu filho precisa de cuidados rapidamente. Olhe onde está luta vai parar.

– Solte-o – Rugiu.

– Pára! – Disse Lucas com dor. – Esta guerra é insignificante. Para que serve tudo isto? Para provares que és melhor que os outros? Para mostrares o monstro que és? Não vale a pena pai. Simplesmente não vale – Lucas voltou a gemer.

– Eles precisam de ser exterminados. – Disse simplesmente.

– Com que razão? O que ganhas com isto? Nada. Em vez disso estás a perder todos á tua volta.

– Eu estou a fazer o que acho melhor para ti.

Todos tinham parado de lutar, apenas a conversa deles se ouvia.

– Não te pedi que fizesses isto. – Lucas teve de inspirar antes de continuar – Pare com isto pai. É inútil.

– Apenas queres que eu pare por causa da miúda. Tu não gostas dela de verdade Lucas. – Disse com desdém o General.

– Eu não gosto dela, eu amo-a.

O general ficou surpreso mas logo se recompôs.

– Dispara-te. O que sabes tu sobre o amor? Ainda és um garoto.

– Já não sou um garoto há muito tempo. E eu sei perfeitamente o que é o amor. – Lucas afastou-se de Walenty e olhou o pai nos olhos – Amor é aceitar as diferenças…

– Lucas!

– O quê? – Perguntou confusa.

– Meu nome. É Lucas. – Esclareceu.

– Hmm. Certo.

Minutos se passaram.

– E então?- Perguntou um Lucas impaciente.

– Então, o quê?

Ele levantou as sobrancelhas.

– Qual é o teu nome?

– Porque te interessa eu nome? – Perguntou despreocupada.

– Bom… Preciso chamar-te alguma coisa.

– Não precisas de nomes para chamares alguém.

– Sim, mas… — Ele parou para pensar — sempre seria mais fácil.

– Não vejo como.

Lucas suspirou frustrado.

– Podes-me dizer ou não?

– Niecierpliwy Kid – Resmungou Mirabelle.

– O quê? – Perguntou confuso.

Mirabelle riu.

– Nada.

– Eu agradeceria que falasses comigo numa língua que eu percebesse. – Disse Lucas tentando disfarçar um sorriso.

– Mirabelle!

– Mirabelle?

– O meu nome. É Mirabelle.

– Eu gosto. É …

– Esquisito!- Acabou Belle.

– Não! Diferente!

– É admirar cada palavra que diz, cada sonho que têm, cada sentimento…

– Por isso é que eu estou a dizer – Disse alevantando-se e olhando para Lucas. – Se eles conseguiram criar uma nova vida, uma nova casa para todos nós, se eles conseguiram enfrentar os seus medos para salvarem aqueles que amam. Tu também serás capaz de enfrentar o teu pai… e seguir os teus sonhos.

Lucas admirou cada palavra que ela dizia, sabia que ela tinha razão. Ela era diferente. A vida dela era diferente. Mas nada a impedia de ser especial. Apenas pelas palavras dela, qualquer um via que ela era especial, que ela era diferente…

– É explicar-lhe tudo com prazer, ficar feliz apenas por a olhar…

– Então o que é um computador? – Perguntou Mirabelle.

Toda a semana tinha vindo ter com ela. Ele gostava de como ela o fazia sentir.

Apenas eram eles os dois e mais ninguém.

A não ser Ogień e Cień, que sempre estavam presentes. Mas eles pareciam ter o seu próprio mundo.

– É uma máquina onde podes aceder a tudo. Podes ouvir musica, escrever, desenhar, ver vídeos, fotografias, podes ver o que está a acontecer no outro lado do mundo. É incrível.

O olhar de Mirabelle ficou brilhante, era como se ela pudesse ver o que era um computador pela descrição dele.

Lucas ficou muitas vezes assim. Apenas a olhando. Todo o que ela fazia o fascinava.

– Viver apenas para a ver sorrir, fazer de tudo para que ela brilhe…

Ele gostava disso. Gostava de como ela ficava radiante e satisfeita.

A única pessoa que ele alguma vez tentou agradar foi o seu pai, mas agora, ver Mirabelle e como ela ficava tão linda, tão frágil, ele apenas queria saber de agradar a ela.

– Passar o tempo todo a pensar nela…

Assim como ela era a única que ele pensava quando ia dormir. A única que pensava quando acordava, quando tomava duche, quando se vestia… fizesse o que fizesse, ela estava presente nos seus pensamentos.

– Amor é ficar contente apenas por falar o seu nome…

– Mirabelle…

– Eu já disse para me chamares de Belle. Apenas minha mãe me chama assim.

– Mas eu gosto de Mirabelle.

Ele revirou os olhos e sorriu.

– O que queres?

Ele olhou para ela, confuso.

– Nada.

– Então para que me chamas-te? – Perguntou desconfiada.

– Não te chamei. Apenas queria dizer o teu nome.

– Está bem. – Disse como se achasse que ele fosse doido.

E talvez ele até fosse.

Mas não se importava.

Porque se importaria?

– É ter que estar com ela dia e noite, é sermos nós próprios, não termos medo de nos mostrar…

Ele não sabia explicar mas, apenas que tinha que ver Mirabelle.

Estar com ela parecia a coisa mais normal do mundo. Não tinha que fingir ser o que não era, podia desabafar como nunca o fizera e por mais incrível que pareça, sabia que podia contar com ela.

– Aprender coisas novas apenas por ela…

– Hmm, como se diz desculpa em polaco. – O sorriso malandro sempre presente.

– Usprawiedliwiać.

– Uspradil… — Tentou.

Mirabelle descontraiu e riu.

– Uspra…

– Uspra. – Repetiu Lucas.

– … wie…

– Wie.

– …dliwi…

– Dliwi.

– …ać.

– Ać.

– Exacto. Agora tenta.

Lucas suspirou profundamente fechando os olhos.

– Usprawiedliwiać. – Abriu os olhos devagar – Acertei?

– Perfeitamente – Disse Mirabelle rindo.

– Desculpar sempre que sabemos que erramos, porque se não podemos perde-la para sempre…

Ela tinha de vir.

Ele tinha de vê-la.

Ele precisava desculpar-se. Dizer que tinha sido um erro. Ele sabia que ela se tinha ofendido quando se assustou pensando que era uma pessoa. Mas ele estava com medo. Se fosse seu pai ele estava feito. Os treinos duros com o Sargento seriam ainda mais duros. E isso não podia acontecer, porque levaria mais tempo, e mais tempo significava menos tempo com Mirabelle.

– Amor é saber o quanto ela vale e fazer de tudo para ter de novo nos braços…

Mirabelle valia a pena?

Claro que valia caneco!

Era a primeira miúda que amava e não ia desistir assim.

Se ela não estivesse lá amanhã, iria á procura dela, nem que para isso tivesse que ir até á sua aldeia

– Sempre que a vez é como se a visses pela primeira vez…

O seu coração parou de vez.

Mirabelle estava deitada num tronco a olhar para cima. O pé balançando da esquerda para a direita em perfeita sintonia.

– Isso não se faz. – Por fim olhou para ele – Também gostarias que te destruíssem a casa?

Ele não respondeu, não pode. Ela estava ainda mias bela do que dantes. Os seus olhos pareciam ainda mais intensos, o seu cabelo mais loiro. Era como se já não a visse á anos.

– O nervosismo só de a tocar que faz o teu coração explodir…

– HÓ, mas não vais mesmo. – Lucas conseguiu por um braço ao redor da sua cintura e puxou-a conta o seu peito. – Tu nem penses que vais sair daqui.

A voz dele tinha saído rouca. Eles nunca estiveram tão próximos. Não assim.

– Não me podes prender aqui!- Avisou.

E por algum motivo a voz dele saiu trémula.

– Arriscar tudo apenas para estar ao pé dela…

– Posso ir?

Ela olhou para ele assustada.

– Estás a gozar não é?

– Não. Estou a falar a sério – Disse sentando-se á sua frente.

– Lucas, se eles souberem que vez da civilização... eu nao sei o que vai acontecer. – A voz dela era um sussurro.

– Era assim tão mau.

– EU não sei. Sempre que um de nós faz um pergunta sobre vocês, eles ficam nervosos e dizem que nunca devemos conviver convosco. Eles dizem que...

Lucas ergueu-lhe o olhar.

– O quê? O que eles dizem?

Ela suspirou cansada.

– Eles dizem que vocês sois perigosos.

Lucas não estava a acreditar.

– Perigosos? Perigosos porquê?

– Não faço ideia – Respondeu balançando a cabeça.

Como eles poderiam dizer que eram perigosos?

Eles matem-se afastados da civilização, não sabem nada.

– Como é que eles podem dizer isso? – Lucas levantou-se furioso.

Nem todos eram como o seu pai.

Haviam pessoas que não faziam mal a uma mosca.

– Isso é tão injusto – Resmungou. – Achas o mesmo que eles? – Perguntou virando-se para ela.

– Achas mesmo que se achasse estava a falar contigo?

– Bem visto – Disse voltando-se a sentar. – Mirabelle?

– Sim.

– Se eles soubessem que falas comigo, o que te aconteceria?

Ele apenas se tinha lembrado disso agora.

Se a família dela soubesse, o que lhe aconteceria?

– Não sei. – O pensamento dela estava longe – Nunca ninguém fez isso. Provavelmente era considerado um zdrajca. Não faço ideia.

Lucas sabia que ela tinha medo disso.

O olhar dela estava tão longe.

Se eles soubessem era um grande risco, mas ele queria estar com ela.

– Posso fingir ser outra pessoa – Arriscou.

– É muito arriscado. Tu nem sabes falar polaco. – Avisou

– Sei algumas palavras. E vocês estão sempre a falar em polaco?

– Não, mas…

– Então vez. – Deitou-se para trás interrompendo-a – Podemos fingir e enganá-los por uma noite.

– Queres correr esse risco? É porque é um grande risco. – Avisou Mirabelle.

Lucas olhou-a.

Era um grande risco, é verdade. Mas também, ela valia a pena.

– Eu sei.

Mirabelle suspirou derrotada.

– Muito bem. Temos de arranjar uma história.

– Amor é arriscar a vida por ela…. Estar preso a ela. Por isso é que eu sei que eu a amo. E se continuares com isto, podes-me esquecer. Porque é a ela que eu escolho.

Walenty pôs uma mão no ombro dele e sorriu.

– Muito bem – Disse orgulhoso.

Lucas sorriu e olhou para o pai.

– E então? Vais continuar com isto e perder-me a mim e á minha mãe ou parar e deixarás que eu escolha os meus próprios caminhos?

General olhou para Lucas e para a sua ferida. Mesmo com dores, Lucas fez-lhe frente por aquela miúda. E ele tinha razão em tudo o que disse.

– Senhor? O que fazemos? – Perguntou um dos soldados.