Liberdade
1 Freedom suits me
Notas iniciais
Título: Liberdade
Autora: Toynako
Jogo: Don’t Starve
Casal: Maxwell x Wilson
Classificação: +13
Gênero: Shonen-ai
Criada em: 30/07/19
—–x.I.x––
Liberdade
Claramente esse fora o primeiro pensamento que passou pela cabeça daquele homem parado diante do portal do qual dera as instruções para ser feito. Um suspiro escapou lento de seus lábios, agraciado pela situação em volta.
Até que notou que não era realmente a liberdade cujo almejava.
Definitivamente, não era.
Ainda estava preso, ainda estava naquele lugar. De uma forma nova, isso podia admitir, mas com toda a certeza ainda não estava livre. Respirou fundo então, aspirando o ar com leve aroma floral em volta, apenas para um novo suspiro demorado sair de si.
“— Ultrajante.” – sibilou entre dentes de forma áspera, incomodado.
Completamente incomodado.
Seu cientista havia errado em alguma coisa. Definitivamente, a culpa era deste e não sua, já que dera todas as ordens possíveis para que fosse guiado até a si.
O homem logo decidiu dar um breve descanso a luminosidade do lugar fechando os olhos, levando uma das mãos até as têmporas e massageando-as, agraciado por finalmente poder executar o simples ato e poder aliviar o incomodo em sua cabeça, cujo fora por tanto tempo massacrada por uma melodia eterna.
E ao final da massagem, ainda estava no mesmo lugar, diante do mesmo portal, pensando em como sair dali. Entretanto por hora, o único fator que vinha em mente era que precisava de mantimentos.
O jogo recomeçava.
—X—
“— Certeza que é assim, Maxwell?”
O questionamento cheio de dúvida veio do cientista, debruçado sobre sua mesa de trabalho, tentando juntar peças recém adquiridas para continuar com seu trabalho. Mesmo que não encaixassem, aparentemente.
“— Claro, meu caro Wilson, está indo bem.”
A voz suave veio de um rádio antigo de madeira, onde o elogio fez um tímido sorriso brotar nos lábios do homem que trabalhava empenhado. Era como se a confirmação do que estivesse fazendo, mesmo que ainda não tivesse a confirmação do que era, fosse um impulsionador para que terminasse o quanto antes sua tarefa.
“— Pensando bem, aparentemente essas peças não foram feitas para encaixarem-se.. ” – um breve riso veio do rádio após voltar a pronunciar-se.
O coração do cientista pulsou apressado, olhando de imediato para o aparelho, sentindo-se bem apenas pelo fato de ter ouvido o riso tão gracioso a seu ver. O dono daquela voz suave definitivamente fazia bem para o humano, como se houvesse um motivo para existir.
Como se fosse finalmente entendido.
“— Não deve ser estas peças então.” – respondeu levemente sem jeito, como se o erro delas não se encaixarem fora apenas seu.
“— Certamente.” – a voz vinda do rádio ainda estava em tom de diversão.
—X—
Dias haviam se passado desde que da ultima vez Maxwell esteve diante do portal. Houve chuvas, neve, calor... E novamente decidira parar diante do portal no qual tinha aparecido neste lugar. Não que estivesse contente a respeito disso. Definitivamente, não estava.
O ilusionista respirou fundo enquanto aproximava-se com lentidão da enorme construção, passando a mão de forma suave pelo projeto tão bem feito que dera algum erro.
“— Maldito.”
A diferença era que agora sabia o erro. E por mais cientifico que fora o constructo diante de si, faltou com toda certeza a parte menos teórica deste feito. Logicamente faltou a magia. E neste quesito, não havia como culpar Wilson, por mais que suas reclamações sempre guiassem o cientista como o único culpado disto tudo.
Por este motivo se via novamente precisando daquele homem, o homem que podia elaborar toda a parte difícil do projeto para que pudesse trabalhar sobre o que mais sabia fazer após isso.
Ciência e magia deviam andar lado a lado.
E particularmente, esse tipo de liberdade não estava o agraciando tanto quanto achou que seria. Suas sombras, logicamente não era uma companhia, apenas alter egos seus cujo tinha o controle – quase que total – das ações.
A face ficou mais séria, onde pela ultima vez tirou a bolsa de suas costas, e mexera dentro de seu interior. Alimentou-se, mesmo sabendo que dali em diante teria que recomeçar do zero, várias e várias vezes até chegar onde tocava aquela maldita melodia.. Melodia essa que nunca saíra da mente deste homem.
O olhar logo voltou-se para trás, pelo caminho de tijolos que ao final – onde seus olhos não alcançavam — havia a base que não era sua inicialmente. Entretanto, tomou cuidado para modificá-la ao seu bel prazer, deixando um ambiente mais agradável para sua estadia neste lugar. Afinal, sabia que o seu futuro companheiro de infortúnio não era bom em guardar tudo corretamente.
“— Desleixado..” – o olhar estreitou-se, negando com a cabeça de forma lenta.
A última reclamação precisava ser dita para que pudesse retornar a olhar o portal, esticando-se um pouco para puxar a enorme alavanca e fazer o mesmo funcionar.
—X—
“— Eu jurava que coloquei aqueles capacitores nesse lugar.”
Um suspiro cansado saiu do cientista, olhando em volta e vendo-se em meio ao completo caos e desordem. E não podia apenas dizer que encontrava suas coisas em meio a tanta confusão. Elas apenas sumiam, simples assim. Sumiam até que comprasse novamente e dias depois as encontrassem, e notasse que não havia mais utilidade.
“— Aqueles trequinhos coloridos? ”
“— Capacitor.”
“— Você os colocou no pote de vidro, dizendo exatamente isto: ‘Vou colocá-los juntos aqui, assim não esquecerei.’ ” – a voz vinda do rádio gracejou em tom de diversão “— Estão no armário, na segunda gaveta. ” – completou.
“— Obrigado, Maxwell.” – agradecera-o corado, seguindo apressado para onde fora informado que estava o que precisava.
—X—
Não houve interversões em sua jornada, apenas os mesmos desafios de sempre. Uma quantidade absurda de desafios. E por fim estava no mesmo xeque-mate de antes. Com o cetro-chave localizador em mãos, uma bolsa cheia de comida e tochas.
Naquele breu eterno.
Estremecera, sentindo-se mal apenas por estar novamente naquele lugar, tendo que respirar fundo e trocar o cetro por uma tocha. Não que fosse necessário, sabia que iria criar iluminação até o seu antigo trono.
A questão era que de alguma forma, sua sanidade necessitava disto, pela primeira vez desde que fora liberto, sentia-se perdendo-a lentamente ao passo que andava em direção aquela música. E conforme mais aproximava-se, mais seus pés faziam questão de andar lento, de deixar o passo mais curto.
A face tão imutável mostrava claramente medo.
Teve que respirar fundo, repassando o plano em sua mente, repassando-o várias e várias vezes para forçar seu passo a seguir adiante, guiado sempre por aquele desconforto das luzes acedendo o caminho, recordando-o do lugar onde ficara tantos anos, que não fazia mais ideia da quantidade do tempo passado.
E finalmente, estava diante do seu antigo trono, bem como estava diante do seu antigo amigo. Não que realmente tenha considerado Wilson como um amigo, era apenas uma ferramenta, possuía a total certeza disso.
“— Nos encontramos novamente, meu caro amigo..” – sibilou travesso e lento, sorrindo fino.
O mago esperou a resposta, levemente ansioso em ouvir a voz daquele homem ali. No entrando o homem cheio de vida que conhecera, encontrava-se quieto, mudo, olhando para o nada como se não houvesse vida. E algo dentro de si definitivamente incomodou.
“— Wilson..?”
Chamou-o dessa vez, sem sarcasmo na voz, algo que só existia nos tempos que era apenas uma voz no rádio e dessa vez ficara satisfeito em ser fitado. Temporariamente satisfeito, pois logo o olhar voltou-se para a aonde o som vinha. Só então fora que o liberto prestou atenção na musica.
Mesmo que a ouvisse ao passo de cada andar seu, assim que avistara-o em seu antigo trono, parecia que havia esquecido-se completamente da suave e irritante melodia.
“— Irritantemente bela, não?” – maneou com a cabeça para onde vinha o som, aquela mesma caixa de música antiga.
Novamente, nenhuma reação vinda de Wilson, fazendo Maxwell irritar-se dessa vez e os passos deste seguirem até o gerador da música, desligando-a de modo impaciente, voltando sua atenção ligeiramente para o outro. O olhar azul escuro, quase negro pode então notar a clara mudança na expressão do mais novo sentado.
Era como se a vida tivesse voltado para o corpo aprisionado, o olhar castanho voltou a criar brilho, a respiração passara de tão lenta para algo ruidoso, apressado, como se o corpo estivesse debaixo da água todo esse tempo, desprovido do oxigênio tão fundamental para a vida e agora simplesmente emergira, agarrando-se e buscando toda e qualquer chance de respirar.
Wilson olhou para os lados, completamente desnorteado, afobado e respirando de forma apressada. Piscava de forma rápida, como se tentasse fazer os olhos focarem em algo, e esse algo fora logicamente o monstro a sua frente. Aquele homem de voz suave que mentira para ele.
“— Maxwell!” – esbravejou, tentando levantar-se em um impulso, para socar o rosto dele.
Para o aprisionado, constatar que estava preso era uma surpresa maior do que o lugar em si, o mais novo olhou para suas mãos, vendo algo como sombras em formato de garras prendendo seus pulsos, bem como havia alguma coisa negra em volta de sua cintura, rodeando-o. O mesmo não podia ver, mas suas pernas estavam presas de igual forma, por sombras que limitavam todo e qualquer movimento ou tentativa de fugas.
“— Vejo que ainda sabe falar.” – gracejou, rindo de forma sarcástica em seguida, fazendo o som ecoar pelo lugar.
“— Assim que sair daqui, eu vou te matar!” – vociferou entre dentes, completamente irritado com a situação que se encontrava, visivelmente tentando soltar-se.
“— Poupe energias. Não fará diferença alguma.”
“— Um dia ainda sairei daqui.. E obviamente irei te ma-..” – calou-se, arregalando os olhos ao ver a mão daquele homem sobre a vitrola “— Não ouse Maxwell, não ouse ligar isso.” – a ameaça estava clara na voz.
“— Ou fará o que? Pedir desesperadamente para que desligue? Suplicar..?” – estava mais que claro o divertimento na voz do homem mais velho.
Foram longos segundos um encarando o outro, os olhares se cruzando onde agora havia um brilho de raiva fixo no amadeirado que era o olhar de Wilson, enquanto em Maxwell havia apenas a elegante e azulada zombaria. O tempo pareceu parado enquanto se encaravam, como se quem falasse primeiro acabaria perdendo algum jogo intimo de aposta.
Um jogo que não havia ganhadores.
“— O que quer..?”
Fora Wilson quem falara primeiro, dando um mais que obvio suspiro cansado, olhando para cima e buscando algum ponto para acalmar sua recente crise de raiva por conta do homem diante de si. E da mesma forma, ainda estava tão fixo o que para si foram momentos atrás.
Sua noção de tempo perdera-se facilmente, o cientista não saberia dizer nem se aguentou horas, ouvindo aquela melodia caótica em meio as trevas em volta, antes de perder a consciência e acordar com uma voz suave chamando seu nome.
Tão suave que pareceu ainda estar em seu quarto da casa alugada cujo estava atrasando os pagamentos por conta de estar gastando o seu dinheiro comprando peças para construir algo. Era como se estivesse dormindo sobre a bancada da mesa, em uma das várias vezes que fizera isso e era acordado por uma voz doce ao seu lado. Tão doce que parecia que sentia um leve carinho em sua cabeça, o convidando para despertar e ter um bom dia de trabalho.
“— Pelo jeito parou de portar-se de maneira mimada.” – alfinetou-o com suas palavras, retirando a mão do aparelho e antes que o outro falasse alguma coisa para rebater o recém dito, erguera a mão “— Não.” – disse firme, apenas vendo o olhar do homem ali sentado estreitar-se de modo irritado “— Enfim.. Gostaria de fazer um acordo.”
Maxwell calou-se, sorrindo fino ao aproximar-se mais de Wilson, parando diante dele e observando bem as expressões furiosas, houve um longo tempo e nenhum dos dois falara nada.
“— Não acredito que está esperando que eu concorde sem saber do que se trata.” – Wilson respirou fundo, abaixando o rosto e negando com a cabeça “— Vamos lá Maxwell, o que pode ser tão ruim para você parecer receosos assim? Irá ficar em meu lugar?”
“— Vou.”
A resposta firme do homem mais velho, fizera o prisioneiro arregalar os olhos, erguendo o rosto novamente em direção á ele. Era como se a maior revelação do século tivesse sido feita ali, naquele momento. E soava tão absurda que era claramente uma mentira. Entretanto por ser tão absurdamente falsa, tornava-se uma verdade que fazia Wilson acreditar que mesmo a resposta sendo dita de forma firme e eloquente por aquele homem bem vestido, seus ouvidos cansados da melodia o havia feito entender a palavra de maneira errônea.
“— Então faça logo, sua voz me irrita.” – o mais novo voltara a si, virando o rosto e esperando que fosse liberto de uma vez.
“— Irrita?”
O comentário de alguma forma fizera o homem em pé sorrir de forma extremamente travessa, com uma pitada de crueldade naqueles lábios finos. Era claramente a face de alguém que iria aprontar alguma coisa, apenas por divertimento próprio e obviamente sem importar-se com os estragos que seus atos poderiam causar.
Maxwell ponderou brevemente, analisando se podia divertir-se com a situação. Não vendo nada que interferisse, já que não sentia fome no momento e o ambiente estava iluminado – fora o fato de ter comida dentro de sua bolsa, nada mais agradável que o seu especial de Almôndegas feitas com a caça que providenciou antes de aventurar-se para esse ultimo lugar, sabendo que poderia precisar ficar um tempo mais considerável nesse horripilante mapa.
“— Engraçado..” – a voz do mais velho saiu arrastada “— Não era isso que me pareceu, quando estava em sua casa.”
“— Ora Maxwell.. Você mentiu para mim e eu menti para você. Eu sou faminto por conhecimento e ciência.. Você era alguém que estava me dando algo que almejava. Agora não passa de um condenado nesse lugar, igual eu fui.. Quer saber, divirta-se. ” – ao terminar de falar, virara o roto, como se tivesse dado por encerrado a conversa.
O mago olhou e olhou, ainda mantendo o mesmo sorriso animado de instantes atrás, mesmo diante de uma frase tão rebelde daquele homem muitos anos mais novo que a si. Não que o tempo tenha afetado a idade aparente, ainda era um afeiçoado homem maduro, de traços finos e roupas elegantes. Não um jovem adulto que se esquecia de fazer a barba.
“— Entendo.”
Proferiu lenta a resposta ao deboche na voz do prisioneiro, afastando um passo de onde estava e levando a mão para a bolsa que usava em suas costas, mexendo nessa e tirando um livro negro, grosso com a letra M cravada em vermelho na capa. Assim que ajeitara novamente a bolsa nas costas, tratou de folhear o livro com calma, dedilhando as folhas com os dedos como se procurasse algo, levando o digito do indicador aos lábios e lambendo-o de leve para poder virar a página com mais precisão.
Tal ato não passou despercebido por Wilson, que olhava-o de forma discreta, mesmo com o rosto virado. Algo dentro de si pulsou, não sabia se era o coração, uma alma ou alguma coisa maligna dentro de si. Só conseguiu entender que o olhar focou-se na rosada e discreta língua que vez ou outra saia de dentro daqueles lábios irritantemente sorridente para lamber o dedo.
Inconscientemente, houve a sensação de sede por parte do cientista. Como se houvesse uma necessidade anormal de beber água. Não que nesse mundo caótico que existiam houvesse de fato essa necessidade. Era algo tão confuso, os dias passavam rápido, devia administrar bem os horários e tempos. Se bobeasse, havia algum monstro de quase sete vezes a própria altura o seguindo como se quisesse o fazer de jantar.
Havia morte em cada esquina desse mundo.
“— Encontrei.”
A voz do homem alto diante de Wilson fez os pensamentos do mesmo se quebrarem, piscando algumas vezes até notar o que se passava diante de si. O livro que antes era segurado e as páginas passadas com tanto esmero, agora flutuava diante do mago e de alguma forma isso fez com que tivesse um pressentimento ruim.
Sentimento esse que ficara mais forte ao ouvir algumas palavras sem sentidos ao ver do aprisionado, antes de um pequeno show de mágica a parte surgir diante com uma cópia exata de Maxwell parada, segurando uma espada.
A mágica fora para criar um clone de sombras guerreiro, portador uma espada sombria. Era como se a escuridão escapasse do clone que era totalmente constituído destas. Um corpo enegrecido, um vulto igual a sombra que seguia cada coisa viva e não viva em no mundo.
A sombra olhou para os lados de forma curiosa, e em seguida para a própria arma, antes de abaixar-se de leve e cravá-la no chão. Era quase como se houvesse vida, e não apenas uma ferramenta nas mãos de um bruxo incrivelmente habilidoso. Por isso o vulto moveu-se mais, encarando seu criador e dando um sorriso gentil, sendo o total oposto do sorriso travesso nos lábios do outro.
“— Um pouco de liberdade, lhe cai bem.” – gracejou Maxwell, encarando a si mesmo em formato de sombras.
“— O que pretende Maxwell?” – questionou um confuso Wilson, olhando aquela cena que soava um quadro bizarro entre a generosidade e a devassidão.
Quem atendera dessa vez fora a sombra, que virara o rosto ao prisioneiro, ainda portando o mesmo sorriso nos lábios enquanto aproximava-se, levando uma das mãos ao rosto do homem ali.
“— Max.. wel?”
O toque tão suave no rosto de Wilson fizera-o notar novamente algo dentro de si se remexer enquanto era sentido, enquanto observava aquele olhar intenso em sua direção. Não conseguia mais prestar atenção nas coisas à volta, havia apenas aquele único toque em seu rosto, aquele sorriso que parecia deixar claro que tudo estava bem.
O cientista nem ao menos notara que o mais velho pegara o livro e o fechara, colocando cuidadosamente em sua bolsa como estava inicialmente, rodeando o trono. O olhar estava completamente fixo nas sombras diante dele. Tão fixo que a aproximação lenta em sua direção não passava despercebida.
“— Wilson..” – a voz doce veio de trás do trono, obviamente de Maxwell que escondera-se atrás do mesmo.
“— O que..?” – a dúvida saiu de forma levemente desesperada.
O olhar castanho claro estava arregalado, como se tivesse avistado um daqueles monstros de sete vezes o tamanho do próprio. Mas não, era apenas a sombra que aproximava-se tanto que podia sentir uma estranha e curiosa respiração da mesma. Sentira os lábios secarem, tendo a necessidade de lambê-los de forma lenta e demorada, deixando-os entreabertos após o ato.
Aquele aproximar resultou em um encontro de bocas, inicialmente bem superficial, ainda de olhos abertos como se esperasse uma a aprovação do outro pra que pudesse ser aprofundado. E o propulsor disso fora o movimento desesperado das mãos de Wilson, que claramente tentavam arrancar o enlace sombrio que o aprisionavam, na tentativa de segurar aquele corpo e o trazer mais para si.
Como se a sombra pudesse entender o desejo daquele homem preso, o beijo finalmente iniciou-se. O fechar de olhos deu inicio e as bocas encontraram-se com mais vigor, os lábios buscavam-se em meio a ofegos de ambas as partes, a sons molhados de beijos que aprofundavam-se mais a medida que o coração batia acelerado no homem preso.
Com o passar do longo beijo, Wilson passara a ofegar entre o mesmo, ansiando tanto aquilo que sentia o coração – ou o que quer que tenha ali dentro – agitar-se completamente. E não demorou tanto para vez ou outra o aprisionado começar a emitir curtos grunhidos, um gemido baixo provindo do prazer de sentir finalmente o contato e, acima disso, ser esse tipo de contato.
Há quantos anos este homem não sentia lábios de encontro aos seus? Mesmo antes de estar aprisionado nesse lugar, a vida era tão parada como a que estava agora...
Era um cientista afinal, e seus inventos necessitavam de certo tempo e cuidado. Quando encontrava algo a se dedicar não havia nada em volta que importasse, às vezes o mesmo esquecia-se até de fazer a própria barba. Logicamente mulher alguma desejaria ser colocada em quinto plano.. Porque nem para o segundo, terceiro e quarto plano ficariam... Esta era uma verdade fixa, imutável.
Por fim, Wilson Higgsbury sempre soube estar fadado a ser um daqueles cientistas malucos que viviam e morriam sozinhos.
“— Eu sei que deseja isso..” – novamente a voz veio por detrás da cadeira.
A sombra sentara no colo do preso, passando os braços em volta da cabeça do mesmo, intensificando o ato que agora fazia mais e mais gemidos escaparem. Se havia alguma dúvida se era um abuso ou um consentimento, claramente era solucionada a questão pelo desejo em retribuir o ato que Wilson possuía. Ele desejava isto.
“— Deseja tanto quanto eu.” – Maxwell deu um suspiro longo, saindo detrás da cadeira, encarando a cena diante de si.
O homem, cujo nem sabia mais se podia ser considerado assim ou deveria mudar sua nomeação para ser das trevas, manteve o olhar fixo no beijo diante de si. Sentia sede, e neste mundo essa era uma necessidade que não precisava ser saciada. Por esse motivo apenas respirou fundo, respirou e pegou novamente a chave-localizador, mantendo-a em mãos.
“— Chega, sombra.” – mandou firme, incomodado com o tempo que os dois se mantiveram no ato.
O beijo era para ser apenas uma brincadeira, no entanto mostrou-se algo que mexera mais com Maxwell do que o mesmo poderia imaginar. Por isso mandara que o ato findasse, no entanto, os dois quase enamorados continuavam agarrando-se mais e mais.
“— Sombra!” – voltou a chamá-la, notando que a mesma estava com livre-arbítrio demais.
Só desta vez, perante o comando tão sério, que o ser criado unicamente pela magia obscura do mago recuou. E mesmo assim, estava visível o quanto esta estava querendo continuar com o aprisionado. No entanto, obedecendo à ordem do criador, ajeitara os cabelos e roupas, pegando deste o cetro que mantinha em mãos.
“— Muito bem.”
“— O que... O que foi tudo isso?” – um Wilson completamente ofegante e corado, questionou.
“— Liberdade.”
Mesmo a explicação, não soou como uma para os ouvidos do cientista. Para quem necessitava sempre de uma resposta para tudo, de uma resposta lógica e precisa, a única palavra vaga o fez apenas estreitar os olhos, sentindo-se curioso em querer entender qual o significado oculto por detrás da mesma. Então o que podia fazer era observar que viria a seguir.
A sombra seguiu com a chave-localizador até o lugar onde deveria ser colocada, segurando-a com as duas mãos em posição para ser utilizada. Quanto a Maxwell, esse mostrava-se levemente temeroso, segurando a espada negra da sombra, mantendo-se imóvel enquanto observava a cena.
Era o seu plano.
O pior era não fazer a menor ideia se realmente daria certo, não tinha noção nem se o mundo que estavam necessitava de alguém sentado naquele trono para geri-lo. No entanto, definitivamente, iria tentar. Era tentar ou ficar eternamente preso, em uma falsa liberdade, tendo que escapar de monstros e controlar mantimentos, resistir a estações e a tudo mais o que o ciclo doentio de ano neste mundo, exercia.
O mago prendeu a respiração, vendo a sombra criada cravar o cetro-localizador em seu lugar. O movimento seguinte próprio fora rápido, assim que notou Wilson ser liberto, apressou-se e puxou-o para si, o abraçando com desespero enquanto largava a espada negra no chão.
Com um contentamento silencioso em seu coração, vira a sombra criada ser engolida e colocada no trono, onde em seguida tudo ficara negro por questão de instantes. Quando a luz se fez presente novamente, estava em pé, com Wilson tremendo em seus braços e ambos diante da porta para o inicio das tarefas.
“— Maxwell..?” – chamou-o, erguendo o rosto e fitando-o.
“— Lhe dei o que deseja...” – disse isso para ele anteriormente.
Os olhares se encontraram por longos instantes, não havia o que pudesse ser mais dito agora. Não nesta situação, não com os lábios aproximando-se de forma lenta, como se fossem imãs. Entretanto, um barulho similar a uivos de cães foram ouvidos por ambos, fazendo com que se afastassem no exato momento.
“— Trabalhe comigo, meu caro amigo.” – tratou de tirar as bolsas das costas, pegando uma lança e entregando para o outro “— Juntos, conseguiremos sair.”
“— Assim que nos livrarmos destes lobos raivosos, darei um belo soco na sua cara.” – vociferou, vendo o mais velho rir.
Momentos depois já estavam correndo em busca de qualquer outro ser naquele mundo que os ajudasse a enfrentar os lobos que logo apareceriam. Maxwell não sabia se sua sombra sumiria ou permaneceria naquele lugar, não tinha mais controle da mesma. Estava apenas satisfeito com sua ideia ter dado certo. Wilson estava ao seu lado e de alguma forma, tê-lo consigo era reconfortante.
Entender os sentimentos, ou o que quer mais que fosse, tinha a plena noção que era hora para isso. Provavelmente, nunca iria existir propriamente dito, uma hora para isso. No entanto, de alguma forma, o cientista e o mago estavam juntos.
FIM
(30/07/19)
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