Liberdade
1 Esperança
Tentava não abrir os olhos. Não queria se lembrar. As coisas ruins que fizera... as coisas horríveis que fizera simplesmente voltavam a tona.
Havia dias que não dormia. Se contorcia no chão da pequena cela de lácrima sendo atormentado por suas próprias memórias. Por que ali? Por que agora? Aqueles cabelos ruivos, os cabelos ruivos que a pertenciam, que se esvoaçavam enquanto tentava a todo custo, lutar e fugir contra aquele monstro, o terrível monstro que se tornara. A dor que tivera de causar, as vidas que tivera de tirar e... os olhos castanhos que fizera chorar.
Como pudera ser tão fraco? Como deixara ser dominado tão facilmente? Merecia tudo o que estava sofrendo ali, merecia algo pior do que a morte. Ainda assim, gostaria de vê-la uma última vez, olhar dentro daqueles orbes castanhos e desculpar-se, desculpar-se por tudo o que havia feito. Pelo sofrimento que a causara, pelas lágrimas que tão rudilmente lhe tirara, e pela vida daquele homem, daquele homem que tentara com todas as suas forças, protegê-la do monstro de cabelos azulados que havia redirecionado seu ataque mortal para a pessoa que amava, Simon. Esperava que ela encontrasse alguém como ele, alguém disposto a protege-la a qualquer custo, alguém que pudesse cuidar dela até o fim de sua vida, alguém que não fosse ele, pois já havia perdido esse direito a partir da primeira lágrima que correu por aquela bochecha rosada. Ele certamente não mereceria esse perdão, mas gostaria de desculpar-se mesmo assim, se redimiria e então partiria e aceitaria sua punição qualquer que fosse de consciência limpa.
Um grito. Um dos guardas caíra inconsciente no chão. Sua prisão de lácrima havia se aberto, mas ele não ousaria fugir. Iria permanecer ali e continuar a ser severamente punido pelos guardas do jeito que merecia.
Olhou instintivamente para os lados para observar se os outros prisioneiros haviam deixado suas celas de lácrima, mas todos estavam tão inconscientes quanto o guarda mais a frente. Ele era a única pessoa consciente naquela sala, ou era isso que ele pensava.
Uma garota de cabelos curtos e rosados surgiu vagarosamente de trás das pilastras.
- Nós queremos você, Jellal. – Disse a menina com a voz baixa – Junte-se a nós.
- Q-quem é você? O que quer comigo? – Perguntou o garoto assustado
A menina nada disse, apenas se aproximou da cela como um fantasma se aproxima de sua vítima. Jellal, assustado, apenas recuava sem sair de seu confinamento.
- Queira desculpar Meredy – soou uma voz de trás das pilastras – Ela ainda está aprendendo a se socializar.
A medida que a pessoa surgia, uma luz se acendia na cabeça de Jellal, uma nova memória havia retornada.
- Você é... ?
— Faz um bom tempo, Jellal.
Ultear, mais uma pessoa que havia controlado, mais uma pessoa de quem havia roubado a vida, ou era isso que ele pensava. Como poderia aquela mulher estar ali, de pé, diante de seus olhos? Talvez tivesse sobrevivido? E então vindo até ali para se vingar? Que ótimo jeito de morrer, sendo esmagado por seus próprios peões.
A mulher se aproximou da cela pondo uma de suas mãos no ombro de Meredy. Ela evitava contato visual com o homem encarcerado.
- Nós viemos aqui por um motivo. – dizia a mulher – Mas antes de tudo, eu...
Naquele momento, os olhos de Jellal trocaram imediatamente de expressão, de medo para confusão. Ultear, a maga que havia usado, estava ajoelhada a seus pés.
- Eu... Eu gostaria de pedir seu perdão – Disse a mulher – Eu estava envolvida no lado negro. Eu nunca devia ter arrastado vidas inocentes comigo para este abismo sem fim, vidas como a sua.
Do que aquela mulher falava? Estava louca! Completamente louca! Como poderia sua vida ser inocente? Havia se envolvido no lado negro por conta própria, envolvido com o próprio Zeref.
- Sabe... sua vida nunca foi vinculada com Zeref. Você caiu no lado negro por culpa de outra pessoa, por minha causa. Durante toda a sua vida, eu te controlei para que você acreditasse que era o escolhido de Zeref. Por favor, aceite minhas sinceras desculpas... apesar, de eu saber que isso nunca será o suficiente.
— O-o quê?
Naquele momento, Jellal sentiu-se caindo em um abismo, não por causa da pobre mulher que rastejava a seus pés por perdão, e sim de si mesmo. Então aquele que controlara sua mente não fora o poderoso mago Zeref? Fora a mulher que naquele momento suplicava-lhe por perdão? Como pudera ser tão fraco a este ponto? Nunca mais poderia se perdoar totalmente, nunca mais teria coragem de olhar naqueles olhos castalhos novamente.
- E-eu te perdoo.
— O-o que disse?
— Eu te perdoo sabe, com você me controlando ou não, eu já tive a experiência de cair para o lado negro uma vez, e eu conheço o arrependimento que foi me causado quando tomei consciência de meus atos.
Ele seria capaz de perdoar aquela mulher, mas não a si mesmo.
- Eu gostaria de me redimir de alguma forma, tanto de você, quanto de Merdy, por isso, resolvemos formar uma guilda.
— Uma guilda de magos?
— Não uma guilda das trevas e nem uma guilda oficial, uma guida independente, a Crime Sorciere. O nosso objetivo é destruir qualquer referência a Zeref que ainda reste na terra.
— Você diz... ?
— As guildas das trevas. Acredito que não seja necessários lhe informar nosso objetivo final.
— Zeref.
— Assim, poderemos evitar que mais pessoas caiam no lado negro. Esta será tanto minha forma de me redimir quanto nossa punição por termos nos envolvido com as trevas. Claro... Eu não irei lhe obrigar a entrar, se quiser poderemos ir embora e fingir que nada aconteceu. Meu objetivo já foi completo, eu pude lhe pedir desculpas.
Jellal sabia que devia permanecer ali, afinal, já havia caído no lado negro uma vez, quem dirá se cair de novo? Abriu a boca para negar a oferta de Ultear, quando uma nova luz surgiu na cabeça de Jellal, uma bem mais brilhante.
“ Você não deve morrer! Você deve viver e pagar por tudo o que fez, Jellal!” Foi o que disse a ruiva de armadura com lágrimas correndo por seu rosto corado.
Sabia que devia morrer, mas não podia negar, queria continuar a viver, queria ver aqueles olhos castanhos, aquele cabelo ruivo e aquela personalidade forte que não condizia com a menininha medrosa que fora um dia e que tanto o impressionara. Queria fazer o que ela dizia.
- Eu entrarei na sua guilda e trabalharei ao seu lado para deter Zeref. – Brandou ele
Há quanto tempo não via a lua? Há quanto tempo não via as estrelas? E aquela grande imensidão azul escura que se estendia sobre ele? Não sabia, mas agora que conseguira sua liberdade, havia uma coisa que tinha que fazer. Começou a correr, correu como nunca correra antes. Não sabia exatamente onde ficava, mas tinha um palpite.
- Jellal! – O grito de Ultear e Meredy atravessou os seus ouvidos.
Correu em direção ao grande prédio no final da cidade. Tinha que ficar perto dali, Fairy Hills. Erza havia dito onde morava após o conflito com a Oración Seis, antes de ser levado pelo conselho. Começou a escalar as paredes do dormitório feminino. Janela por janela ele procurava olhar. Estava certo que saberia qual era o quarto da ruiva assim que olhasse.
Tinha razão. Aquele grande corredor que se estendia a sua frente com nada mais nada menos do que armaduras, dezenas delas, sem dúvidas era o quarto de Erza. Mas tinha algo errado, cada armadura daquele grande corredor estava coberta por uma fina camada de plástico e poeira.
Não tardou a atravessar os quatro quartos de armaduras, abrindo escancaradamente a porta do verdadeiro quarto, o quarto dela.
Sua respiração falhou. Tanto a majestosa cama quanto os móveis e objetos perfeitamente arrumados estavam cobertos pelas mesmas camadas de plástico e poeira. O que teria acontecido com a poderosa Titânia? Talvez uma missão centenária? Não. Simplesmente não conseguia imagina-lá numa missão como aquela. Temia o pior.
Em cima da cama, Jellal avistou uma simples rosa vermelha.
- Jellal! – Gritou Ultear que vinha correndo atrás dele – Você... não foi informado?
Jellal permanecia estático, olhando para aquela simples rosa vermelha que tanto lembrava aqueles cabelos.
- Erza Scarlet, assim como metade da guilda Fairy Tail...
...Está morta.
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