Liars and Killers
25 Capítulo 21
Notas iniciais
《Katherine Adams Kohls》
Assim que desci pela janela do porão, soltei uma risada.
— Não acredito que estamos fazendo isso. — Pietro tinha um amplo sorriso em seu rosto.
— Vai ser legal. Você vai ver. — O Vingador olhou para os lados. — Para onde, agora?
— As escadas ficam à direita. — Informei, em seguida ele segurou a minha mão e a puxou, todo empolgado. Ele parecia definitivamente mais novo naquele momento.
— Já fez isso antes? — Eu perguntei, ao notar que ele andava de maneira sorrateira e evitava passar perto de objetos pelo caminho. Maximoff parou de andar.
— Er... Sim. Digamos que eu não era um aluno exemplar no colégio. — Ele deu de ombros. — Esse tipo de coisa não é novidade para mim. — Calei-me enquanto imaginava um Pietro mais novo entrando em uma escola trancada, pronto para causar problemas. Por mais estranho que fosse, aquele pensamento me fez rir.
— E se alguém nos vir? — Cochichei, ao passo que ele sorriu de lado.
— Não se preocupe. Quem quer que seja, posso subornar com um autógrafo. — Ele piscou, o que me fez rir novamente. Estava certa de que iria me encrencar, mas não me importava nem um pouco. Não era a primeira vez e com certeza não seria a última. Dois coquetéis Molotov no estacionamento, quatro bombas fedorentas no vestiário masculino, uma almofada de pum na cadeira do professor de matemática, bexigas com ovo e farinha no treino das cheerleaders... Já estava acostumada a lidar com punições.
— Aqui, veste isso. — Pietro jogou um moletom laranja berrante na minha cabeça. — Eles têm câmeras nos corredores. — Revirei os olhos mas fiz o que ele havia me pedido, coloquei o capuz da blusa também, escondendo o meu cabelo pra dentro dela. Era incômodo, mas não podia arriscar ser expulsa do IPC. Quando me virei para Pietro, ele estava com outra roupa, uma camisa havaiana nada a ver e uma boina cinza desgastada. Ri de leve, ele mostrou a língua para mim é colocou um óculos escuros espelhado. Ele estava ridículo.
— Pronto? Podemos ir? — Ele tinha um brilho infantil nos olhos.
— Claro. Vem. — Maximoff segurou a minha mão e passou a me puxar pelos corredores. Fiquei assustada quando ele começou a observar em volta com sua agilidade sobrenatural, parecia que um demônio poderia sair do corpo dele a qualquer momento.
— Er... Pietro, você tá legal? — Perguntei, meio temerosa. Eu não esperava ter que exorcizar o meu crush. Pelo menos não no primeiro encontro.
— Hãn? — Ele parou, olhou para mim, porém logo apontou para algo por cima do meu ombro. — O que é aquilo ali? — O platinado soltou a minha mão e caminhou a passos largos até um armário de vidro. — Olha, tem algumas fotos suas aqui. — Gelei. Eu odiava aquele armário. Sabia exatamente o que havia nele. Eram as únicas lembranças que eu não conseguia queimar para seguir em frente. Respirei fundo e me mantive impassível ao caminhar para perto do armário. A cada passo sentia meu coração se apertar ainda mais, minhas mãos suavam e havia uma sensação ruim, um frio insistente na boca do estômago.
Havia fotos do grupo das líderes de torcida, ao lado delas, havia uma foto só minha segurando o troféu nacional de melhor capitã das cheerleaders. Ao lado dos retratos, o próprio troféu. Havia outras fotos, do time de futebol da IPC, de Tyler e eu juntos, com grandes sorrisos e nossas medalhas sendo erguidas orgulhosamente para a multidão. Engoli em seco, me sentindo enojada. Aquela não era eu. Odiava aquela pessoa que aparecia nas fotos, o pior é que nunca conseguiria me ver totalmente livre dela, porque ela tinha o meu rosto. Mas ela não era eu.
— Pietro, e-eu... — Observei as fotos, como fantasmas eternos que jamais iriam me deixar em paz. O platinado tirou os óculos espelhados, ainda entretido com as fotografias e os prêmios.
— Katherine, você conseguiu todos esses prêmios? Agora tenho ainda mais certeza de que você vai ser uma excelente agente e... — Ele se virou para mim, sua expressão de animada se tornou aflita. Eu não percebi o porquê da mudança repentina até ele caminhar a passos largos até mim e começar a enxugar as lágrimas que eu nem sequer sentira ter derramado. Sem dizer uma palavra sequer, ele apenas me puxou para um abraço, e não me importei em deixá-lo me abraçar.
Parei de chorar quando percebi o quão silencioso estava sendo o abraço. Não era acompanhado de palavras de conforto, como "vai ficar tudo bem" ou coisa parecida. Era apenas um abraço, sem nada de especial sobre isso. Não liguei o suficiente para o fato de que as batidas do coração de Pietro estavam mais acelerada do que o normal. Por alguma razão, me sentia aérea, como se não fosse eu que estivesse presa naquele momento, e por causa disso, não sentia nada além da angústia por me recordar do meu passado.
O Vingador então me soltou, depois segurou meus ombros como uma forma estranha de demonstrar que ele estava ali para mim e por fim segurou a minha mão de novo, caminhando sem pressa para que eu me recuperasse a meu tempo.
Andei ao seu lado por um tempo, quieta, absorta em meus pensamentos. Toda a minha animação parecia ter se esvaído de meu ser, eu me sentia esgotada. Não seria justo com ele que eu me mantivesse daquela maneira, então tentaria melhorar o meu humor, pelo menos um pouco. Sabia que haviam banheiros próximos naquele corredor.
— Vou ao banheiro, já volto. — Murmurei, soltando a sua mão. Caminhei apressada até o banheiro, deixando para trás um Vingador platinado incerto de como agir. Entrei no banheiro e encarei o reflexo à minha frente. Meu rosto estava avermelhado e a maquiagem havia borrado. Aquele encontro estava sendo um desastre.
Respirei fundo, me aproximei do espelho e chequei a bolsa, surpresa por encontrar uma pequena embalagem com lenços umedecidos dentro dela. Sage era uma pessoa muito precavida, eu tinha que me lembrar de agradecê-la posteriormente. Peguei um lenço e passei um tempo tirando a maquiagem, tentando ignorar o fato de que Pietro devia estar preocupado fora do banheiro feminino. Enquanto me olhava no espelho, concentrada em minha tarefa, respirava fundo para me acalmar. As cheerleaders, Tyler, Kitty no controle... Aquela era uma parte da minha vida. Eu teria que assumir isso alguma hora. Mas parecia algo muito distante de acontecer.
Meus olhos avaliaram a figura do espelho. A sensação que persistia de alguma forma em meu cerne era que eu não a conhecia. A pessoa que me encarava de volta, com seus olhos verdes marejados e rosto inchado. Não conhecia aquela garota. Pelo menos, não completamente. Deixei os pensamentos de lado e lavei o meu rosto. O sequei e sorri debilmente para o meu reflexo, como se ele me dissesse que logo tudo ficaria bem. Arrumei o cabelo e finalmente saí do banheiro, como suspeitava, Maximoff estava à minha espera.
— Desculpe pelo meu comportamento. — Disse, nervosa. Eu havia estragado tudo, era o que sentia. Ele me levaria para casa e depois acharia melhor não sair comigo novamente. Ele sorriu para mim, porém não parecia sentir pena, era mais um sorriso de compreensão.
— Tudo bem, Kate. — Lhe dirigi um sorriso fraco, silenciosamente desculpando-me mais uma vez. — Não vou perguntar nada a você, fique tranquila. Eu só... Fiquei assustado com o que aconteceu. — Seu rosto se contorceu em uma expressão de preocupação e ele segurou meu rosto entre suas mãos, quase que por impulso. — Você está bem? — Seus olhos azuis se fixaram nos meus, e me senti corar perante a sua mirada. Balancei a cabeça afirmativamente e um pequeno sorriso preencheu seus lábios. Estávamos próximos, o que era... Estranho. Não era um incômodo, porém não era algo natural. Conseguia sentir uma tensão surgindo no ar, ao mesmo tempo em que meus olhos registravam cada detalhe do rosto de Pietro — o maxilar quadrado, a barba por fazer, os olhos azuis com as pupilas dilatadas. Seu rosto se aproximava do meu cada vez mais, eu sabia que aquela seria a hora do primeiro beijo. Era perfeito — ele tentaria me acalmar e, por não saber como conseguir isso, seria um beijo delicado e romântico.
Um sorriso maroto brotou em sua face, ao mesmo tempo em que suas mãos apertaram as minhas bochechas de leve fazendo uma careta travessa. Fiquei traumatizada.
Pietro então começou a rir como um idiota e deu alguns passos para trás, para longe de mim. Acariciei minhas bochechas doloridas.
— Imbecil. — Disse entredentes e saí andando a passos largos para longe dele, que ria cada vez mais. Quando estava indo para o ginásio, ele surgiu à minha frente, ainda com aquele sorriso no rosto. Devia ter lhe dado um soco na fuça quando tive a chance. Ele arruinou completamente o clima, jogando fora o momento ideal.
— Espera, Kate. Me desculpe. Eu fiquei nervoso, me perdoe. — Cruzei os braços o encarando. — Eu só... Não queria estragar tudo.
— Mas você estragou. — Respondi com frieza, o que o fez arregalar os olhos. Sorri com deboche, minhas palavras eram ácidas. — Eu entendo o seu ponto de vista, "herói". Encontrou um coraçãozinho para brincar enquanto não tem nada melhor para fazer; alguém para iludir com promessas vazias.
— Não, eu jamais faria...
— Me poupe, Vingador. — O cortei. — Não tenho tempo para joguinhos. — Disse e peguei meu celular da bolsa, ignorando o que quer que fosse que Pietro estivesse falando. Segui até a saída do ginásio pois sabia que o alarme não era ativado naquela parte do colégio e abri a porta, discando o número de Lucas no teclado do aparelho.
— Katherine, por favor, me deixa explicar... — Mercúrio surgiu à minha frente mais uma vez e tomou o celular de minhas mãos.
— Hey, me devolve! — Protestei.
— O que raios aconteceu para você ficar desse jeito? — Ele perguntou.
— Não te interessa. — Rebati. — Agora devolve o meu celular antes que eu dê um chute no seu saco.
— Só me diz o que aconteceu. — Ele pediu com delicadeza e colocou a mão no meu braço. — Por favor. — Respirei fundo. Eu não conseguiria me livrar dele, isso era irritante. Mas também era bom, de certa forma. Eu teria que falar o que me afligia, coisa que eu jamais fazia. Eu preferia muito mais sofrer em silêncio.
— Eu não quero acreditar nisso. — Murmurei evitando o seu olhar, cabisbaixa. — Que você está apenas brincando comigo. — Confessei. Ele ergueu meu queixo suavemente com seu indicador, e um sorriso sincero estava em sua face.
— Não estou brincando com você. — Afirmou com tranquilidade. — Eu gosto de você. E sei que você também gosta de mim, caso contrário, nem estaríamos aqui agora, não é? — Assenti em silêncio. — Pois então. — Ele devolveu o meu celular. — O que me diz de recomeçarmos essa noite? — Um sorriso minúsculo surgiu em meus lábios.
— Seria uma boa ideia.
< Sigyn, Goddess of Fidelity >
Assim que Katherine saiu do apartamento, esperei quinze minutos e depois segui ao telhado do prédio. A porta estava selada por magia, porém consegui entrar sem complicações. O feitiço repelia apenas humanos. Havia um divã, uma hidromassagem, uma mesa dourada com diversas iguarias e um bar. Dois homens e três mulheres seminus estavam adormecidos na hidromassagem, alguns com uma grande quantidade de glitter em seus corpos. Conhecia bem aquele rastro de destruição, assim como conhecia bem o responsável por trás dele.
Segui a trilha de garrafas de bebida vazias até um grande divã de veludo vinho, o filho de Odin tinha sua face voltada para os céus e ignorava minha presença. Uma mulher loira estava deitada ao seu lado, de costas para o mesmo, adormecida. Uma manta de seda azul era a única coisa que cobria seu corpo desnudo. Ele não se deu ao trabalho de se virar para mim, seu olhar estava perdido entre as estrelas, sua mente, viajando para longe de Midgard.
— Sigyn. — Chamou, ainda sem se virar para mim. Sentei aos seus pés, ignorando completamente a presença da mulher adormecida. Segurei a mão do deus, que a afastou de imediato. Soltou um suspiro audível e sentou-se para conversarmos, seus cabelos negros estavam mais rebeldes que o usual. — O que você quer? — O observei por um momento. Ele continuava o mesmo, afinal, os excessos faziam parte de seu cerne; todo o luxo e o sexo, de sua vaidade. Não importava o que acontecesse, Loki sempre retornava aos velhos hábitos, mesmo que fosse o mais imprevisível dos deuses. Sua expressão se tornou raivosa. — Não me olhe desse jeito. — Ele pegou a garrafa mais próxima da cama e bebeu o líquido que restava em três goles.
— O que está acontecendo com você, Loki? — Questionei com calma. Ele cuspiu as palavras:
— Não é da sua conta, meretriz. — Deferi um tapa em seu rosto, o que fez com que a garrafa se estilhaçasse no chão. O moreno trincou os dentes. — Vadia. — Outro tapa, mais forte, fez com que a marca da minha mão ficasse em sua bochecha esquerda. O conhecia bem o suficiente para saber que Loki só não revidaria meus golpes se ele acreditasse que merecia ser punido por alguma coisa. O motivo, no entanto, o deus levaria ao túmulo consigo. Ele estava abalado, isso era evidente.
— Loki... — Ergui minha mão para tocar seu rosto, porém ele a estapeou, deixando claro que não queria que eu o incomodasse naquele momento. O encarei por um momento. Tinha minhas suspeitas quanto aos motivos de seu comportamento, mas ele jamais admitiria nada que o comprometesse, principalmente, nada que o deixasse vulnerável. — Podemos conversar? — Seus olhos verdes se direcionaram a mim, ergui uma sobrancelha. Ele fechou os olhos e respirou fundo, em seguida levantou-se, foi até suas roupas, colocou sua cueca e a calça, abriu mais uma garrafa de uma bebida qualquer e colocou em dois copos. Ele indicou o bar com a cabeça, então me levantei, sentei em uma das banquetas e ele sentou na banqueta ao meu lado, ficamos um de frente para o outro. Ele estendeu um copo com o líquido para mim, aceitei de bom grado. Por um antigo costume, Loki ergueu levemente o braço que segurava o copo para fazer um brinde. Quebrado, acabado e exilado eram apenas três dos adjetivos que poderiam descrevê-lo no meio de tudo o que estava acontecendo. Entretanto, não importava o quão ruim as coisas ficassem, Loki jamais esqueceria o que jazia em seu coração.
— À Asgard. — Murmurou, propondo o brinde com a voz rouca. Um sorriso triste surgiu em meus lábios e senti um aperto em meu peito ao dizer:
— À Asgard. — Bebemos o gole do brinde e ficamos em silêncio por um momento, como se estivéssemos de luto. A saudade de casa sempre voltava a assombrar. Por séculos sonhei em ver novamente o Valhalla, reencontrar velhos amigos e partir para novas aventuras por toda gloriosa Asgard. Reencontrar Loki havia sido uma das melhores coisas que acontecera comigo desde a minha última luta com Sif, pouco antes de deixar o Reino dos Aesir. Pensava que encontraria meu antigo amigo, o trapaceiro ardiloso de sempre, mas acabei me surpreendendo ao notar que a luz em seu olhar havia se apagado. Aquele não era mais o meu amigo Loki. Ainda estava tentando descobrir quem era.
— Também senti sua falta, Sigyn. — Confessou com os olhos em mim, seu sorriso triste espelhava o meu.
— Então... — Afastei meu cabelo do rosto jogando-o de qualquer jeito por cima do ombro e olhei com uma expressão séria para o deus da mentira. — Agora pretende me dizer o que está acontecendo? — Loki expirou e desviou o olhar do meu. Cruzei os braços, implicitamente pressionando-o a me responder.
— Covarde. — Sussurrou.
— Como é? — O encarei. O moreno colocou mais bebida em seu copo e encarou a garrafa por um tempo.
— Covarde. — Falou, alto e claro. — Eu sou um covarde. — Havia raiva em sua voz. E por trás dela, havia mágoa e culpa. A manipulação era seu instrumento de controle assim como as mentiras eram seu mecanismo de defesa.
— Isso é notícia velha. — Provoquei, pois queria saber do que se tratava. Se ele explodisse, talvez me contasse a razão de tais pensamentos. Uma risada triste saiu de seus lábios finos.
— Admiro o seu esforço, mas você não consegue manipular o manipulador, deusa. — Por um milésimo de segundo vi o meu velho amigo Loki, o que fez o meu coração se encher com a esperança de um dia reencontrá-lo. O estranho com a aparência do deus da mentira ficou sério mais uma vez. — Ficamos separados por mais de uma década. Não espera realmente que eu lhe revele todas as minhas angústias, planos e segredos, não é?
— A verdadeira amizade é aquela que se mantém mesmo apesar do tempo, da distância e das dificuldades. — Coloquei minha mão por cima da sua e a apertei levemente, com um sorriso sincero e olhos fixos nos dele. — Tudo bem, Loki. Estarei aqui quando estiver pronto e quiser conversar, não importa sobre o que seja. — O deus calou-se e seus olhos brilharam. Retirei minha mão da sua, levantei-me e caminhei até a porta do terraço. Quando estava quase girando a maçaneta, Loki surgiu em minha frente através de seu teletransporte e me surpreendeu ao jogar seus braços ao redor do meu pescoço, me abraçando apertado com certa urgência.
— Obrigado, Sigyn. — Sussurrou em meu ouvido antes de desaparecer. Sorri, sem conseguir evitar. A semente da esperança havia sido plantada em meu peito, e não desistiria até que ela crescesse e desabrochasse revelando quem meu melhor amigo realmente era. Sim, eu acreditava que havia esperança para Loki.
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