Liability
1 Capítulo 1
Notas iniciais
As semanas e dias que passei com ele tinham sido maravilhosos. Adorava cada detalhe dele. Cada sorriso que ele me lançava, me derretia como manteiga na chapa, cada gesto seu era tão ingênuo e suas conversas não eram produto de alguém que queria apenas alimentar o próprio ego, mas sim trocas de informações e teorias loucas e engraçadas. Fora do comum. Nem precisou pedir, meu corpo já estava em suas mãos, e com todo prazer ele se apossou de mim. E eu me apossei daquele corpo.
Me sentia confortável e segura quando passava tempo com ele, mas assim que nos separávamos e cada um ia para sua casa, começava de novo. Aquele peso na barriga, parecendo um tornado dentro de mim, uma tempestade de emoções e a pior delas era sentir que ele apenas fingia tudo aquilo, que todo aquele agrado e afeto era passageiro.
Não era culpa dele. Depois de um tempo lidando com homens rasos, era extremamente difícil achar um tão bom, e a gente fica sempre com o pé atrás. Mas eu queria era pular de ponta. Me afogar naquele abraço, e mil outras coisas que m arrepiam só de pensar sobre.
"Não!'' Minha mente dizia. A dificuldade em confiar facilitava o desapego, e isso de certa forma me ajudou muito no passado. Mas queria vê-lo cada vez mais. Me entregar. Mas sentia que eu era responsabilidade demais, que ele veria meu interesse como defeito, e todos os outros defeitos viriam à tona. E eu tenho vários deles.
"Isso aí é amor, tá?" Minha mãe afirmou quando contei pela (talvez) centésima vez sobre como ele me deixava feliz. Ela sempre foi muito segura das próprias opiniões, e na maioria das vezes bem certeira. Apesar de minha cara ficar vermelha como um tomate, neguei até a morte. "É só um crush". E de fato era, na minha mente amar é muito mais que isso. Apenas gostava de dividir tempo com o mesmo. De fato, apesar de meu desapego geral, parte de mim sempre esperava que as paixonites fossem virar algo mais, e nesse caso ele parecia o homem perfeito.
Imagine meu entusiasmo quando me chamou para ir a uma festa com ele. Meu coração acelerava só de pensar, e separei uma semana antes a roupas que iria usar. Media cada situação possível pra não parecer idiota. Mesmo que cada instância em meu passado provasse que de fato eu faria merda. A festa seria do pior tipo, cheia de gente e bebida, duas coisas que odeio. Mas com ele ao meu lado, seria melhor, não? E se ele me queria perto de gente que ele conhecia, significava que ele era sério sobre a gente.
Finalmente o dia chegara e lá estava eu. Fomos juntos e de mãos dadas entramos naquele casarão. As luzes coloridas iluminavam a noite e o barulho que chamavam música me ensurdecia, além de que dava para chapar só com o cheiro da maconha que estavam fumando na entrada. Nunca tinha visto tanta gente em tão pouco espaço, e meus instintos diziam para correr dali imediatamente. Segurei a mão dele forte, me forçando a acreditar que éramos apenas os dois ali.
Não precisou nem de meia hora naquela festa, para confirmar o que mais temia. Eu era apenas um passatempo.
A mão dele soltou da minha com imensa velocidade e ele deu uns quatro largos passos até chegar em um grupo de pessoas — amigos — assumi. Ele passava cumprimentando cada um com abraços e apertos de mãos. Até chegar nela.
Pegou sua mão e deu um beijo delicado, diferente do que tinha feito com todos os outros. Alguém passando por ali nem perceberia a diferença, passaria despercebido como um simples afeto, mas deu para ver pela troca de olhares que ali tinha história. O mesmo sorriso que ele lançava para mim, sempre foi dela. Minha mente ficou como um relógio parado, e aquela encarada dos dois pareceu durar uma hora inteira. Eu nunca tinha visto aquela garota.
Saí dali antes que ele se virasse, não queria que me visse assim, frágil. Talvez eu estivesse sendo precipitada, ou aquele cheiro forte de bebida e drogas estivesse afetando minha mente. Meu maior medo sempre foi ser alguém descartável, e naquele momento me senti assim. Não que fosse culpa dele, não tínhamos nada. Minha mente até estivesse pregando peças em mim, afinal ele não fez nad-"Não! Não vou fazer isso comigo novamente."
A música parecia abafada e eu me sentei no chão com tonturas. Todos aqueles sorrisos dele tinham sido verdadeiros e todas as falas tinham sido genuínas, e o momentos tinham sido quentes, mas ali sentada no chão, tudo parecia uma gélida mentira. Só pude deixar as lágrimas rolarem.
Naquele momento só pude pensar em quando eu era uma pequena garota que dançava na minha sala de estar ouvindo músicas calmas, eu queria voltar aquela versão de mim...eu já sabia que...
Bem, se eu quisesse amar alguém de verdade ela estaria pronta para me receber. A garotinha que chorava no banheiro da escola, porque alguém rasgou sua cartinha de amor, e que naquele momento, em vez de chorar no banheiro, chorava na casa de alguém que nem conhecia numa festa que nem deveria ter ido. A garota que morava sozinha com a mãe, e que, como pode se perceber, é horrível com sentimentos. A garota que não tinha coragem de encarar um rapaz nos olhos, e muito menos falar com um, mas que de alguma forma sempre acabava nos braços de um mané.
Talvez alguém pense que isto tenha sido um exagero. Afinal nada aconteceu, ainda era eu a garota que ele trouxe consigo, não? Talvez minha carência seja tão enorme que não consegui lidar com a ideia de uma simples garota? Egoísmo, talvez?
Não importou. Quase uma hora se passara e ele não tinha dado as caras. Ou talvez eu tenha me encolhido tanto em mim mesma que ele nem conseguiria me ver? Não quis saber. No outro dia deletaria seu número e o deixaria viver a própria vida. Estava cansada de tentar achar almas gêmeas e me perder de mim mesma no caminho. Num último raio de esperança levantei minha cabeça esperando que ele fosse aparecer e explicar que tudo aquilo era um mau entendido. Nada. Me encolhi ainda mais, debruçando para amenizar a dor de meu estomago. Apenas me esconderia em algum canto chorando. Afinal com todo mundo ali bêbado, quem ligaria?
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