Lia
1 Lia e o homem do terraço
Notas iniciais
“A ideia do suicídio é uma grande consolação: ajuda a suportar muitas noites más”.
Friedrich Nietzsche
“A obsessão pelo suicídio é própria de quem não pode viver, nem morrer, e cuja atenção nunca se afasta dessa dupla impossibilidade.”
Emil Cioran
Lia e o homem telhado
Por naninhachan
Lia olhou o mundo abaixo de seus pés. Do alto do 19º andar tudo parecia pequeno, sem sentido. Um ponto colorido no nada. Entretanto, sua vida ainda a incomodava. Sentia-se tão infeliz no alto daquele prédio quanto lá embaixo, no meio de tantas pessoas que não a viam. O que ela queria? Quais eram suas necessidades?
Desde pequena os olhos eram melancólicos, entristecidos, secos de amor e úmidos de lágrimas. Fala baixa, personalidade misteriosa, modos contidos e risada inaudível. Lia era infeliz... sempre. Sua tristeza não era coisa que dá e passa, não era motivação adolescente, não era besteira. Tristeza d’alma. Um rancor profundo de estar viva, ser infeliz e desacreditada. Olhou mais uma vez para a vista a seus pés.
O mundo continuaria girando depois que seu corpo se lançasse no ar e disparasse bélico para o chão. A cobertura era um lugar interessante. Viu num prédio a frente pessoas tomando café numa mesa, alegres. Ela não sabia qual era o sabor de um sorriso. Seus 23 anos de vida trouxeram-lhe dores, dissabores, depressões intermináveis e tantas quantas possibilidades de não se manter vivo. Lembrou da vez que fora atropelada e como implorava pela morte. Decidiu que se não a matassem, ela o faria.
Chegou mais perto do parapeito e subiu. O vento lançou um braço a sua volta como se a impedisse de cair e subitamente um homem apareceu ao seu lado.
- Olá, Lia. – com o susto ela quase caiu. Ele a segurou com mãos firmes e sorriu. – Ainda não. – ele a tomou nos braços e retirou do parapeito.
- O que você pensa que está fazendo, seu maluco?
- É a primeira vez que eu ouço sua voz tão poderosa. – sentiu o desvencilhar dela.
- Não sei quem você é ou o que quer, mas não dou a mínima. Caso não queira ser testemunha de um suicídio, caia fora daqui! – ela o empurrou e tentou subir outra vez, mas o homem não a deixou.
- Por que vai se matar, Lia?
- Não é da sua conta! Deixe-me em paz. – o grito ecoou e machucou a garganta da moça. Ela postou a mão em volta do pescoço e tossiu com força.
- Não se fala assim com aqueles que só querem ajudar, querida.
- Não preciso de ajuda.
- Ah, não? Vai pular daqui por qual motivo, então?
- Não lhe devo satisfações.
- Você vai se matar, certo?
- Sim!
- Que diferença faz permitir que outro lhe entenda num momento crucial da sua vida? – ele parecia se divertir com o misto de confusão e irritação nos olhos dela.
- Ok! Você vai embora depois que eu contar.
- Se você quiser...
- Eu sou infeliz. – ela disse num suspiro.
- Assim como tantos outros milhares, milhões ou bilhões, Lia.
- E daí?
- E daí? Eles não estão mortos.
- Há o que os motive a continuar em frente apesar das dores, eu não quero mais isso pra mim. Desisti e quero morrer. Dá pra cair fora?
- Parece que seu coração mudou bastante.
- Você não me conhece.
- Engana-se. Conheço sim.
- Qualquer imbecil com um computador e conexão com a internet pode saber tudo sobre uma pessoa.
- Mas não a conheço por esses meios.
- E pouco me importa como você sabe de mim! Cai fora! – ela apontou a saída daquele lugar.
- Seus pais se separaram quando você tinha dez anos. – a voz dele soava tranqüila. Coçava os fios longos e negros da cabeça.
- Ótimo! Sabe onde você pode enfiar essa informação?
- Sua mãe nunca esteve presente e você sentia falta disso.
- Qualquer criança negligenciada sente falta de alguém. – ela fingiu ignorar o homem, mas ele sabia algo sobre sua vida.
- A primeira vez que você tentou se matar foi por uma overdose de analgésicos, mas uma vizinha lhe salvou. Ela ficou desesperada quando você desmaiou e acabou te levando para o hospital.
- Eu estava sozinha quando tomei os remédios, ninguém deveria ter me encontrado. – mexeu nos cabelos e o vento os desarrumou novamente.
- Eu sei... mas ela te salvou. Depois disso você tentou algumas outras vezes. Seu pai tentou te levar a médicos, porém você se recusou.
- Não queria ser entorpecida por calmantes. – ela sentou no chão distante do parapeito e mais perto do homem. Ao redor dele havia um calor envolvente.
- Fez bem. Eu sei muito sobre você, Lia. Você quer ouvir mais?
- Eu sei tudo sobre mim.
- E não confessa, nem demonstra. Escondeu-se a vida inteira atrás dessa máscara e se tornou invisível. Não devia se surpreender com o fato das pessoas não lhe notarem.
- Isso é um problema meu.
- Mas você sempre quis ser notada.
- Que diferença isso faz? – ela ergueu o tom de voz e o corpo. – Depois da minha mãe e o fim da minha família, me dediquei a minha vida.
- E se decepcionou.
- Como? – as sobrancelhas arquearam incrédulas.
- Quantos amigos você tem, Lia? Com quem você pode contar quando as lágrimas invadem seus olhos à noite?
- ...
- Ninguém.
- É ninguém. Até Deus cobre os ouvidos quando eu preciso de algo. – os olhos do homem se estreitaram diante do comentário, Lia não viu.
- Quando você precisou de suas amigas, o que elas fizeram por você? Viraram as costas. Ignoraram seus pedidos e suas dores. Mesmo os do seu sangue fizeram isso. Porque o ser humano é ser egoísta. O instinto de sobrevivência é uma manifestação dessa característica. Você mataria pra sobreviver, pra comer, pra amar. Como fez com sua mãe...
- Como sabe dela? – Lia se virou na direção da voz a seu redor. O homem andava em círculos e um aroma intenso bailava no ar, enlevando-a.
- Eu sei que você matou sua mãe. Sei como, quando e onde colocou o corpo. Mas não sei o motivo.
- Porque eu a odiava... Como odeio todas as pessoas à volta. Odeio minha irmã também se quer saber.
- Mas ela não está morta.
- Ainda não... mas vai morrer um dia e eu não queria ter o sangue nas minhas mãos.
- Por quê?
- Não vale à pena. – uma frieza emergiu na voz outrora inconstante de Lia. O homem sorriu.
- Você a sufocou enquanto dormia. Levou quase 3 horas pra se livrar do corpo, das evidências. O álibi já estava forjado e mediante às capacidades dos órgãos de defesa, você nem precisou de esforço para confirmá-lo. Você não tem histórico em delegacias, é uma cidadã exemplar, pagadora de impostos e cumpridora do dever.
- E uma recorrente assassina. – Lia riu.
- Eu diria que sim, afinal, repetir um crime, seus detalhes geram um motivo e um ritual de eliminação do outro.
- Eu mato mulheres de 50 anos ou mais abandonadas pelos filhos aos quais elas fizeram o mesmo. Não considero isso um crime.
- Ainda que seja?
- Sim. Eu precisaria de empatia para me condoer delas e quando mato, tenho pena só de mim.
- Nós dois sabemos que não é pena, Lia. É vingança. Você se vinga cada vez que repete o gesto.
- Quem é você afinal? Como sabe tanto sobre mim? Está me investigando? Eu nunca deixei pistas de quem eu era, como atuo ou coisa que valha.
- É verdade.
- Então?
- Então o que?
- Como você sabe de mim?
- Sabendo.
- Isso não é resposta e quer saber, já perdi muito tempo com você.
- Por que se matar?
- Não tem mais um motivo.
- Como assim?
- Matar perdeu o sentido. Não sinto mais a mesma emoção quando o jorro de sangue de uma pessoa tenta atacar minha pele, ou quando aquelas mulheres abrem os olhos e descobrem que estão nas mãos de um demônio.
O homem estreitou os olhos novamente. Lia se incomodou.
- Não é a culpa que te traz à beira do abismo? – ele insinuou.
- Não. Culpa é um sentimento desenvolvido por uma religiosidade que não possuo, por valores nos quais não acredito e portanto, não sinto culpa quando pessoas morrem em minhas mãos.
- Coincidentemente por uma ação sua. – o semblante era sarcástico.
- Posso?
- Pular? Fica ao seu critério. Contudo seria um desperdício sua partida com tantas coisas a serem acertadas nesse mundo.
- Como o que, por exemplo?
– Outras pessoas que não deveriam contar dias para a morte e sim, encontrá-la imediatamente.
- O que você está sugerindo?
- Que você permaneça viva e mate outras pessoas.
- Como?
- Exatamente. Sua vida manterá o sentido e você seguirá feliz até o dia em que efetivamente deve morrer. Então o que me diz?
- Fechado. – apertou a mão do estranho e sorriu vitoriosa.
Ele a ajudou descer do parapeito e seguiu a frente até a porta que dava nas escadas condutoras ao andar mais baixo. Ele sumiu na primeira curva da escada. Lia sentiu um arrepio sinistro.
*
*
*
Anos mais tarde
- Mais um corpo foi encontrado. Esse é o terceiro pedófilo assassinado este mês. – Lia desligou a televisão enquanto o jornalista ainda dava a notícia e quando virou na direção da cozinha se deparou com o homem do telhado de sete anos atrás. Estranho como ele não havia mudado uma ruga, como se o tempo não tivesse...
- Como você entrou aqui? – ela perguntou aturdida.
- Eu posso entrar em qualquer lugar quando bem entender. Como tem estado a vida?
- Seguindo seu rumo.
- Vejo que tem feito um bom trabalho, menos um tarado nas ruas.
- Pedófilo.
- Que seja. Está pronta?
- Para o quê? – ela foi até a cozinha. Alguma coisa lhe dizia que deveria temer aquele homem mais do que imaginava.
- Para o que eu gosto de chamar de “viagem”.
- Eu não irei a lugar algum com você. Nem sei quem você é.
- Oh, querida, infelizmente para você, e felizmente para mim, sua vontade e curiosidade não fazem diferença. Você vem comigo e será agora!
Lia sentiu o piso sob si tremer. Um calor foi tomando todo o lugar junto com a risada grave e perversa do homem. O apartamento foi ficando escuro e subitamente o chão se abriu. Lia tentou correr, mas a cada passo uma nova fenda se fazia e o que ela podia ver e sentir era, verdadeiramente, o inferno.
- O que é isso? – ela gritou tentando escapar das mãos negras flamejantes que a tentavam tocar, segurando-se a parede.
- Esse, Lia, é seu novo lar. Ao inferno!
Um demônio gigantesco de pele grossa e avermelhada, cheiro sulfúrico escalava a fenda até seu topo. Estendendo a mão para além da abertura, a criatura agarrou a perna esquerda de Lia, que gritava e tentava se agarrar com mais força ao que podia.
O sofá foi sendo arrastado com ela, que lutava contra a força descomunal do ser cujas mãos lhe queimavam a pele. O cheiro de morte, fogo e lodo subia nauseabundo, e Lia perdia as forças, as unhas. Com as mãos sangrando puxou o pé da mesa e tentou subir, mas era em vão.
- É inútil resistir, Lia. Você vai amargar suas crueldades no lugar mais propício. — o homem dizia. Sua face estava iluminada pelo fogo sobrenatural a emanar da enorme fenda no chão da cozinha. Lia chorava.
- Não, Deus, eu não quero ir.
A risada atroz do homem que parecia maior e mais curvado a cada minuto soou tonitruante no pequeno lugar, ecoando pelo mundo ardente que esperava a alma de Lia.
- Você já fez sua escolha, Lia. Leve-a.
O demônio prendeu fortemente o pé esquerdo de Lia e se lançou ao meio da fenda levando-a consigo.
- Ah, que pena... – o homem misterioso suspirou. – Ela não entrou no Inferno com o pé direito.
A risada que soou no recinto fez o céu escurecer. Num instante, o homem partiu num brotar de fumaça.
\"O caminho do inferno está pavimentado de boas intenções.\"
(Karl Marx)
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Publicada em 26 de janeiro de 2010.
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