Liédoa

2 Capítulo 2


Notas iniciais
Consegui escrever outro ainda hoje! Esse capítulo ficou um pouco... Pesado, eu acho... Mas "abre" a história pra uma continuação. Ficou um pouco maior que o outro também!

“Aquele dia... É a minha memória mais lúcida, daquela época. O que aconteceu comigo, o que eu senti, a perda de alguém querido por mim despertou um sentimento que eu nunca havia experimentado antes. Eu já havia sido apresentada ao medo, frustração, decepção, e até raiva... Mas naquele dia... Eu conheci o ódio.”

Os dias passaram lentamente, e Silena e Liédoa desfrutavam da companhia uma da outra. A idosa estava sempre ensinando algo novo à menina, que ouvia com curiosidade e guardava em sua memória cada palavra da sabedoria anciã da xamã. E depois de muitos meses, a garota passou a notar certa preocupação afligir a sua amada avó.

Certo dia acordou com o céu ainda escuro, e olhando a posição da lua, pela janela ao lado do tapete onde dormia, deduziu que faltavam algumas horas para o amanhecer. Tudo estaria normal, se não tivesse olhado para o lado e notado a falta de Silena. Uma dor repentina lhe correu o peito, e levantou num pulo, gritando pela senhora. Mas parou ao vê-la no lado de fora da casa, olhando para o céu estrelado.

–Desculpe por ter lhe preocupado, minha menina. Quer olhar as estrelas?

A resposta foi um abraço apertado na idosa, que retribuiu ternamente.

–Achei que tivesse se juntado à Terra, como você disse, vovó... Fiquei com muito medo. – disse, com a voz chorosa.

A xamã fitou o chão. Um longo minuto se passou, e ela respondeu, finalmente:

–Não posso esperar mais para dizer-lhe, Liédoa... Eu pensei que podia adiar esse momento até você poder se virar sozinha, pelo menos. Mas a Terra está me chamando. Ela diz que meu tempo está acabando. Eu vejo a Morte, agora, e ela está triste.

A menina não soube responder. Uma lágrima correu por sua bochecha, e perguntou:

–Você conhece a Morte, vovó?

–Sinceramente, mais do que eu gostaria. Mas ela não é de todo má. E cumpre o seu trabalho. Só espero que você não a conheça tão cedo... – falou a senhora, tentando sorrir para a garota. – Agora, por que você não dorme um pouco? Deve estar cansada. E precisa de energia para colher frutas amanhã.

–Tudo bem... – A voz da idosa pareceu convincente o suficiente para a menina. Deu-lhe um longo abraço, e beijou-lhe a bochecha. – Boa noite, vovó...

–Boa noite, Liédoa... Durma tranquila.

A garota entrou na cabana, virando-se apenas para ver a única pessoa que conhecia e amava virar a cabeça para o céu, e observar as estrelas.

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Os raios de sol, quentes e brilhantes, atravessaram a janela pequena, perto de onde Liédoa repousava. Começou a acordar lentamente. Uma sensação ruim estava se espalhando por seu corpo, e em frações de segundo, essa sensação foi traduzida em sons. Agora com mais atenção, a menina identificou sua origem: Uma voz desconhecida, até então. Recuperou-se do susto, e tentou se concentrar naquela conversa. A voz era grossa e firme, e vinha do lado de fora da cabana:

–Ninguém pode resistir ao domínio do Faraó! Essa velha achava que podia viver confortavelmente, aqui, em terras sagradas, onde os mortos descansam! Essa heresia acaba de ser paga com a vida! Agora, vasculhem esse barraco! Talvez ela tenha acumulado algum dinheiro nessa existência miserável.

Algumas outras vozes assentiram, em contentamento. A garota ainda estava assimilando o que acabara de ouvir, em choque. “Essa velha”? Seria a sua querida avó? Como assim, “paga com a vida”? “Vasculhem esse”... “Barraco”?

Quando se deu conta do perigo que corria, sentiu uma mão pesada lhe erguer do chão e arrastá-la para fora de casa, com violência. Um círculo de pessoas lhe rodeava, olhando com escárnio. Reparando o físico dos soldados, concluiu que seriam os “homens” que Silena lhe disse. Elas eram “mulheres”. A palavra da idosa soava doce em seus ouvidos.

–Quer dizer que a velha tinha uma escravinha com ela? Quanta falta de escrúpulos para uma pessoa só. Que seja. Vamos levá-la para vender no mercado de Tebas! Preparem os barcos! – Gritava o que parecia ser o líder.

Imediatamente, os homens ao redor obedeceram, se dirigindo à margem do rio. O líder andou na direção de Liédoa, ainda presa nas mãos de um soldado. Chegou perto de seu ouvido e sussurrou sarcasticamente:

–Fique feliz por não virar carniça para os chacais como aquela velha, sua pirralha. Estou levando em conta que você era obrigada a estar aqui. Se me trouxer qualquer problema, vou garantir que vire comida de crocodilos.

A menina não conseguia pensar. Não tinha ideia do que estava acontecendo. Quando o homem se afastou, seus olhos focaram onde a idosa estava na noite passada. Mal pode conter seus soluços. As lágrimas começaram a cair descontroladamente, e seus músculos fraquejaram. Bem onde havia abraçado e beijado a senhora que sempre conhecera e amara, restava uma poça enorme de sangue, com os pedaços mutilados de sua avó refletindo a luz do sol em um espectro escarlate. Os homens começaram a rir ao perceber o sofrimento da garota. A confusão se transformou em raiva, que rapidamente se tornou ódio. As risadas ecoavam altas em seus ouvidos, e Liédoa beirava a perda de sua consciência.

–Vai realmente chorar por ela, pirralha? Que seja o que você quiser, então! – exclamou, sacando a cimitarra.

A estocada foi certeira. Não havia chance da menina se esquivar, com o soldado segurando-a por trás. Tossiu, com a espada ainda perfurando-lhe o ventre. Porém, nesse mesmo instante de dor inimaginável, um arrepio lhe percorreu a espinha. Depois disso, tudo pareceu um sonho. Ou um pesadelo.

A Terra se dobrava ao seu redor, ao seu comando. O cascalho tremia na terra empoeirada. Assustados, os soldados, recuaram, libertando a garota. Ela se levantou num sobressalto, e as ondas quebravam fortes na praia. Calmamente, retirou a cimitarra de sua barriga, sem demonstrar dor. Virou o rosto repentinamente para o homem que a ferira, e fitou-o com seus olhos vermelhos como o sangue de Silena. E disse, com uma voz gutural, grave e imponente, com um sorriso entrecortado:

–Que seja o que você quiser... Então.

Terminada a ameaça, tudo explodiu em chamas. Os corpos entraram em combustão instantânea, e a vegetação próxima, a cabana e os barcos incineraram e se tornaram negros de fuligem. Os soldados corriam desesperados, e os que não estavam agonizando no chão, pulavam no rio, em tentativo de apagar as chamas. Mas Liédoa sabia que o fogo não apagaria; Ele era fruto de seu ódio. Andou em passos leves até o líder do pequeno grupo, e olhou-o nos olhos. Ele balbuciou algumas palavras desesperadas enquanto era imolado:

–Pieda... De... Pare... Por Fav... Tenha...

Ela riu. Um riso leve e descontraído, como costumava rir com sua avó. Fitou a cimitarra em suas mãos até o metal incandescer, e fundiu o ferro no rosto do soldado para calar-lhe a boca. Com um gesto, quebrou os braços e pernas do homem, estilhaçou-lhe as costelas, e assistiu a morte lenta e sofrida com um deleite que nunca havia sentido. Essa foi sua última lembrança.

Notas finais
Obrigado por ter lido! Se der tudo certo, eu posto o próximo capítulo amanhã, ainda. E se puder deixar um comentário, agradeço muito!
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.