Liédoa
1 Capítulo 1
Notas iniciais
“São apenas alguns resquícios da minha história... Faz tanto tempo. Mas é sempre bom lembrar-me da minha vulnerabilidade. Minha memória falha é uma das poucas coisas que me lembram de que, apesar de tudo, ainda sou humana. Por mais que minha vontade seja forte, não consigo ultrapassar as barreiras da mortalidade.”
Era uma noite fria e seca, típica de uma região desértica. Um pequeno vilarejo despontava em uma curva do rio Nilo. As pequenas casas de barro, pequenas e atarracadas, expeliam a fumaça das lareiras mal construídas, a luz tênue do fogo bruxuleando através das janelas. Um vulto se esgueirava por entre as vielas desniveladas, carregando um pequeno cesto, feito artesanalmente com caules de papiro. Quando a misteriosa figura passava rapidamente por um foco de luz, via-se uma mulher, escondida embaixo de um lençol de linho esfarrapado. Sua vida já estava difícil demais. Seus quarenta e dois anos já lhe pesavam o suficiente, e os falsos boatos que lhes eram atribuídos feriam seu orgulho e tornavam-na mal vista pelas pessoas. Era a única solução, ela assentiu com pesar. Ajoelhou-se na argila úmida, e repousou seu precioso invólucro nas águas quentes e plácidas do Nilo. Mas suas lágrimas pareceram mais quentes quando suas mãos desprenderam-se do cesto, e seus olhos marejados acompanharam-no até não enxergar nada além da água escura e da lua cheia, que iluminava seu rosto complacentemente.
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“Ela era uma boa pessoa. Uma alma calma e prestativa, que me ajudava com uma paciência e amor que me pareciam infinitos. Talvez ela tenha sido a única mortal a quem sinto falta. Mas a Morte... É imutável. Ela existe, e cumpre seu papel com maestria. Menos comigo.”
-Liédoa! Onde está você, minha menina?! – chamava a senhora, enrugada da cabeça até os pés, mas sem deixar de sorrir largamente sempre que via a garotinha a quem aprendera a amar, correndo em sua direção.
-Vovó Silena! Veja o que eu achei! Veja! – Mal contendo seu entusiasmo, Liédoa entregou-lhe um maço de raízes gordas, cobertas de lama.
-Mas estas são as maiores que eu vejo em muito tempo! Vou cozê-las até estarem crocantes, e garanto que o molho de tâmaras vai estar tão bom que você vai comer o suficiente pra uma semana!
-Molho de tâmaras! Mal posso esperar!
As duas adentraram a pequena choupana, isolada na beira do Nilo. A margem em que se encontravam se situava a quilômetros da outra, e a vegetação densa tornava o abrigo invisível aos eventuais esquifes que passavam. Apesar de quieto demais, tanto a senhora de 174 anos quanto a menina de nove apreciavam a companhia uma da outra.
Logo após acender o forno a lenha e colocar as raízes para cozer, Silena convidou a menina a sentar ao seu lado.
-Liédoa, minha querida, por que não conversamos um pouco enquanto nosso jantar cozinha? Adoraria saber o que você fez hoje, para voltar tão enlameada! – disse com ternura.
-Você não vai acreditar no sufoco que eu passei, vovó! Você sabe, tudo começou quando eu estava andando pela trilha do rio, procurando frutas. Mas aí, eu vi dentro da água um arbusto quase do meu tamanho! Ele tava juntinho de um monte de papiros, mas você me ensinou que o formato das folhas das raízes aquáticas é muito diferente, e eu soube na hora que eram aquelas. Só que quando eu fui pegar, apareceu um... Crocodilo! Ele ficou me olhando com aqueles olhos assustadores, mas eu subi em um damasqueiro e esperei um tempão até ele ir embora! Aí eu desci e apanhei as plantas! Você não acha que eu fui super corajosa?! – Silena ria com gosto, vendo o entusiasmo da garota ao contar a história.
-Você teve mais coragem que qualquer um que já conheci, minha menina. – respondeu com ternura.
Liédoa a olhou, pensativa.
-Vovó... Quantas pessoas você já conheceu? Às vezes, fico com vontade de conhecer outras pessoas. Faz tanto tempo que eu estou aqui, e eu só conheço a senhora...
Silena baixou o olhar, triste. Hesitou antes de responder, e disse:
-As pessoas tem medo, minha menina. Medo do que não entendem. E o quando as pessoas tem medo, podem se tornar agressivas. Para elas, minhas habilidades são perigosas, o que me torna uma pessoa perigosa.
-Isso não é verdade, vovó! A senhora é muito boa! Não é culpa sua se você pode ouvir a Terra falar! Ela que te ensinou a fazer meu molho de tâmaras! – Retrucou a garotinha, com a certeza de suas palavras.
A idosa olhou-a nos olhos, e a abraçou ternamente. Ainda abraçada com a menina, continuou:
-A Energia Vital de todos acaba um dia, Liédoa, até mesmo a minha. Eu vivo há tanto tempo porque a Terra me presenteia com suas forças, e repõe a energia que falta nesses ossos quebradiços. Um dia eu vou me juntar à Terra, mas não vou sair do seu lado. E apesar de meus poderes serem insignificantes perto dos Dela, posso ver que a quantidade de Energia Vital em você beira o infinito. Você vai viver, meu amor, e conhecerá mais pessoas que você pode contar. Eu prometo.
Sem compreender exatamente a resposta de Silena, a garota refletiu, cerrou os olhos, e dormiu no colo de sua amada vovó, até a hora de comer suas adoradas raízes cozidas.
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