Leviatã

1 Leviatã #01


Notas iniciais
Gritos na favela que passam despercebido às pessoas que já moram ali há um tempo. O grande traficante dorme tranquilo, sem saber que, pouco a pouco, seu grande império cai, e ele será o próximo da lista. E quem é a moça misteriosa?

Jorginho não esperava que o seu fim viria daquela maneira, muito menos naquela velocidade. Suas costelas já doíam como o diabo e seu olho esquerdo não conseguia se manter aberto por mais do que três segundos. Sua boca sangrava e parte dela estava amortecida. Seus dentes da frente jaziamno chão ao seu lado. E ainda havia o corte na cabeça do tamanho de um palmo, que vertia sangue por todo o seu rosto.

– Não perguntarei novamente. – disse a figura encapuzada à sua frente. Era impossível ver sua face, e Jorginho achava que isso não mudaria nada, enfim.

– Eu não sei do que o sinhô tá falando. Eu não tenho nada a ver com isso não, sinhô. – respondeu o garoto de apenas 16 anos, arrastando-se para longe de seu agressor.

Mas de nada adiantou. A figura logo estava sobre ele novamente, os punhos se fechando sobre o colarinho do garoto. Jorginho sentiu-se sendo erguido do chão. Seu rosto estava a poucos centímetros daquilo que mais parecia uma máscara. Era um lunático, e isso o assustava ainda mais.

– Você é mais um dos aviõezinhos do Sanchez, não adianta mentir para mim garoto. – a voz tenebrosa entrou como uma faca quente na manteiga, perfurando toda a sua moral, a sua alma, ou o que restava dela. Sua sanidade ia escorregando de seus dedos.

– Tá, tá, mas eu não falo com ele não. Só recebo a droga do Juca que recebe a droga do Sanchez e levo pros outros lugares, eu juro! – disse Jorginho, esperando que seu juramento valesse alguma coisa para a figura.

Para Leviatã, no entanto, aquilo não significava nada. O anti-herói olhou então por cima do ombro do garoto, focando na escada imensa que levava para o fim do morro. Por baixo da máscara, ele sorriu. Mas um sorriso maldoso, de um homem prestes a assassinar um moleque perdido na vida.

E ele nem mesmo se importava.

– Diga-me onde posso encontrar o Juca. – era sua última pergunta.

– Na Lan House do lado do Fliperama. – afirmou o garoto. Era a última coisa coerente que ele diria.

Leviatã o levou até a escada. Os olhos avermelhados e demoníacos de sua máscara encararam Jorginho. E então, sem aviso prévio, vendo o garoto em pé à sua frente, o anti-herói o chutou no meio do peito.

Ele ficou a observar o corpo do garoto rolar escada abaixo, enquanto Jorginho gritava de dor, cada osso de seu corpo se despedaçando com as sucessivas pancadas. Quando enfim chegou ao fim da escada, ele já estava desacordado, um pulmão perfurado pela costela e o ferimento na cabeça ainda mais aberto, agora mostrando o osso em si. Era hora de encerrar sua interrogação com aquele garoto.

O morro ainda permanecia em silêncio, ainda que houvesse casas ao redor de onde ele estava, ninguém saiu para ver o que está acontecendo. Era uma coisa normal de se acontecer ali, e os moradores não se intrometiam. Leviatã desceu parcimoniosamente, aproveitando cada segundo daquele sentimento de que estava fazendo uma coisa de certo, estava vingando Amanda. Jorginho, ou aviãozinho, era apenas um degrau para alcançar os maiorais.

Parou ao lado do garoto, vendo seus braços retorcidos num ângulo extremo, o sangue juntando-se à lama da rua sem asfalto. O garoto parecia que não havia sobrevivido aos ferimentos, mas logo essa hipótese foi descartada. Jorginho se mexeu violentamente, talvez colapsando. Abriu os olhos e eles demoraram a focar em Leviatã. O anti-herói ficou de cócoras ao seu lado, mãos nos joelhos.

– Escolheu o caminho errado, filho.

– Leite, mãe, por favor. E uma caixa de almôndegas do Senhor Jesus, amém.

O cérebro colapsou. Traumatismo craniano dos feios. Exagerei na dose? Não. Este em especial havia matado uma senhora de sessenta anos e um garoto de onze. Por que deveria poupar sua vida? Não importa.

Sabendo que nada mais podia fazer pelo garoto, levantou-se e se virou para sair daquele lugar mórbido. Sua moto estava próxima dali, escondida num beco que mais servia de escapatória para ele. Ele ainda podia ouvir a voz de Jorginho dizendo coisas desconexas, mas sabia que não poderia se importar com isso. Não mais.

– Todos saúdam o Jesus maconha amém sabonete de manteiga amém. – foi a última coisa que ele escutou do garoto, antes que o rugido da Night Rod entrasse em seus ouvidos.

Seu próximo passo agora era Juca, o filho da puta que colocou Jorginho naquele caminho de merda. O relógio em seu pulso ainda marcava 23h15, a noite era uma criança, e sua amiga mais fiel. Não havia quase ninguém mais nas ruas naquele horário, mas ainda era possível ver movimentação por entre as casas. O cheiro de esgoto era de revirar seu estômago, mas Leviatã não se importava com isso. A máscara praticamente anulava todos os cheiros ruins, ainda que não os impedisse completamente.

Segurando com uma mão o guidão da moto, ele checou mais uma vez se suas pistolas estavam no lugar certo, assim como suas facas também. Aquela checagem toda havia virado rotina. Não se podia entrar numa batalha sem saber se todas as armas estavam em seus devidos lugares. Posicionar uma arma de maneira errada era um segundo a mais para o inimigo, e uma chance a menos de sobreviver ao embate.

Parou sua moto próxima dali. Desligou o farol e pulou dela com as armas em punhos. Estava bem do lado da Lan House, que apesar do horário, parecia bem movimentada. Havia dois garotos de no máximo dezoito anos, parados logo à frente da porta. Mesmo de longe, com a luz degradante que iluminava fracamente a rua, era possível distinguir as bandoleiras. Colocados de lado, dois fuzis PARA-FAL, de uso restritamente militar.

Leviatã correu e escondeu-se atrás de uma caçamba cheia de entulhos, à espreita. Jorginho não tinha passado informação errada, afinal. Uma menina e um rapaz saíram do estabelecimento, parecendo ao mesmo tempo felizes e preocupados. Pela roupa que usavam, não eram dali. Possivelmente saíram da Zona Sul, lar dos mauricinhos, para comprar drogas ilícitas de um pé-rapado. Se pudesse, o anti-herói atiraria dali mesmo, explodiria numa fração de segundos o cérebro daqueles malditos, que financiavam a porra toda.

Mas seu objetivo naquela noite era outro. Era acabar com a cabeça do tráfico de uma vez por todas, eliminando cada cabeça do desgraçado. E o próximo era Juca. Quando a movimentação toda cessou, Leviatã saiu de seu esconderijo. Agora estava a menos de cinco metros de distância dos dois jovens. Aquelas metralhadoras penduradas em seus pescoços eram suficientes para transformá-lo em peneira com apenas um pente.

Enquanto pensava em como invadir o lugar, uma ideia louca passou pela sua cabeça. Era praticamente suicida, sem sombra alguma de dúvida, mas poderia dar certo. E como um homem que não há nada a perder, ele decidiu que aquela era a melhor maneira. Guardou as armas nos coldres.

Saiu de seu esconderijo, mãos para cima, a máscara escondida nas costas. Pela primeira vez, revelava seu rosto durante o serviço. Pela primeira vez, ele era Leviatã e Thiago ao mesmo tempo. Seus olhos, ainda que castanhos, mantinham a aura demoníaca de seu alter-ego. Seu cabelo escuro estava empapado nas laterais da cabeça, e a barba por fazer ajudava a passar a impressão de um homem complexado, louco.

Assim que tiveram visual de Thiago/Leviatã, os jovens levantaram suas armas. Tolos, não sabiam nem mesmo como segurá-las. Errariam todos os tiros àquela distância, enquanto ele precisaria apenas de dois para encerrar suas vidas. No entanto, ele se aproximou, as mãos ainda no alto, mostrando-se vulnerável, desarmado.

– Vim aqui pra comprar bagulho. – falou.

– Não tem essa porra aqui não. – falou o moleque de cabelo loiro somente na parte de cima da cabeça.

Leviatã queria agir. Thiago estava sendo cauteloso. Seu plano suicida daria certo, ele sabia.

– Tá achando que eu sou burro, Mané? Eu sei que o Juca ta aí dentro. – apostou todas as fichas nas confissões de Jorginho.

Os garotos se entreolharam. Ele havia acertado, enfim.

– ‘Cê não é cana não né? – perguntou o outro, o fuzil balançando de um lado para o outro, mirando para todos os lados, menos para o seu corpo.

– Acha que eu seria cana, seu porra? Deixa eu entrar logo que minha esposa ta me esperando. – aquilo doeu no peito, como uma facada direta no coração.

– Se aproxima pra gente revistar o senhor. – falou o Zeca Urubu.

Thiago queria ter sorrido, mas manteve-se impassível. As mãos ainda no alto. Agora estava há 4 metros de cada um deles. Aproximou-se mais. Zeca Urubu e Treme-Treme colocaram as mãos em seu corpo ao mesmo tempo. Treme-Treme, à esquerda, sentiu a arma em seu ombro. Zeca seguiu a onda de seu amigo e ambos fizeram menção de tentar puxar o fuzil para cima, mas Leviatã foi mais rápido. Sim, Leviatã, pois agora era ele quem dominava a situação.

Com precisão de um combatente exímio, ele retirou as duas facas presas nas bainhas de seu cinto e as subiu em direção ao queixo dos dois vagabundos. Torceu-as antes de finalmente tirar, o sangue preenchendo suas luvas. Os moleques nem mesmo conseguiram alcançar os gatilhos. Tombaram como um peso morto aos pés do anti-herói, que já colocava sua máscara novamente. Mas ele ainda não havia terminado. Pegou um PARA-FAL e examinou-o, checando a munição. O pente estava cheio, e junto aos garotos, ainda podia-se encontrar mais cinco munições.

Pegou todas. Como uma biqueira que se preze, os bandidos ali dentro deviam ter armamento mais pesado que simples 9 mm como as que ele carregava. Engatilhou a arma e girou a roldana esquerda. A visão noturna ativou em seu capacete. Entrou na Lan House, que na verdade era bem maior do que parecia, fazendo conexão com a casa ao lado por meio de uma parede quebrada e um passadiço de madeira.

O lugar estava vazio e silencioso, exatamente da maneira como ele não esperava que estivesse. Tudo muito calmo. Com o fuzil à frente, ele subiu as escadas que levava para o andar de cima da Lan House, procurando qualquer sinal de vida. Vazio. Em meio aos computadores do primeiro andar, sacos e mais sacos de maconha e pinos de cocaína. Não era possível que tivessem abandonado a porra da casa em questão de segundos.

Talvez estivessem na outra casa, como era de se esperar. Fizeram da lan house uma espécie de armazém barato, enquanto a base ficava ao lado. Bando de burros filhos da puta.

Leviatã se virou para partir descer as escadas, e foi quando as coisas ficaram ruins.

– Pegamos o desgraçado. – disse uma voz vinda lá de baixo. A luz se acendeu de uma vez. Os olhos de Leviatã queimaram e ele se contorceu, tentando se livrar da visão noturna que agora o incomodava. Girou a roldana e, ainda que vendo estrelinhas voando ao redor de seus olhos, apontou a arma em direção à escada.

Uma granada quicou para perto dele.

Em questão de segundos, que foi o tempo que ele levou para processar que devia fazer alguma coisa, a granada explodiu. E nesse exato momento em que os fragmentos voaram para todos os lados, Leviatã estava voando pela janela em direção ao solo. Uma queda de cinco metros que nem ele mesmo previra. O vidro estilhaçado havia entrado em seu braço esquerdo, e provavelmente havia rasgado um nervo, pois doía como o diabo, e ele não conseguia movimentá-lo facilmente. Suas costas, agora pregadas no chão, apenas se juntavam às outras partes de seu corpo que gritavam de agonia.

Ainda assim, ele se manteve apontando o PARA-FAL para a entrada da Lan House. No momento em que avistou um dos vagabundos, abriu fogo.

O fuzil rugiu em suas mãos, e ele teve de fazer um esforço tremendo para segurar o recuo. Dentre os dez tiros que disparou, dois acertaram o alvo, abrindo rombos do tamanho de uma melancia nas costas do rapaz magricelo, que tombou no pé da escada. Os outros se viraram no mesmo instante, reunidos num canto mais afastado, e começaram a atirar também. Leviatã rolou para o lado e, com esforço tremendo, correu para uma cobertura. Os tiros lambiam seu corpo, e a adrenalina fluía livre pela sua corrente sanguínea.

– MATA O VIADO! – gritou um lá de dentro, em meio ao tiroteio. Leviatã respirou fundo e tirou seu corpo da cobertura da lateral da porta. Atirou. As balas perfuraram três vagabundos no peito e feriu um na perna, que agora só estava conectada ao resto do corpo por conta de um tendão.

Pela sua contagem, faltavam outros cinco que estavam em frente ao passadiço, todos municiados com fuzis. Uma das balas ricocheteou na parede ao seu lado e fez com que ele recuasse. Recarregou o fuzil o mais rápido que pôde e voltou a atirar, assim que viu que era mais seguro. Acertou mais três e foi obrigado a voltar, antes que um dos tiros acertasse a sua cabeça. Aqueles vagabundos não sabiam nem como segurar uma arma, por isso ele vinha tendo tanta sorte. Mas estava ciente que tudo o que eles precisavam para acabar com a sua carreira era um tiro apenas.

– Cadê o filho da puta? – perguntou um moleque que, pela voz, não tinha nem passado pela puberdade. Pena, iria morrer cedo.

– Aqui. – falou Leviatã, virando-se mais uma vez e abrindo fogo. Descarregou o pente inteiro nos dois que restavam e no rapaz que estava com a perna lacerada.

Sem nenhum asco ou desprazer, o anti-herói passou em meio aos corpos, seu coturno se enchendo de sangue. Todos ali estavam mortos, felizmente. Agora, tinha que terminar o trabalho. Falar com Juca e acabar com a carreira de Sanchez. Recarregou o fuzil e passou como um soldado de elite pelo passadiço, prestando atenção em todos os lados. Não seria emboscado novamente, não ali.

Estava agora na casa, e sabia que Juca estava ali também. Em algum cômodo, escondido como um rato que premedita seu fim. Leviatã estava cansado de tudo aquilo, seu corpo todo doía, e algumas partes de sua roupa precisavam ser remendadas. Passou por um extenso corredor, onde se podia chegar à cozinha, que havia sido transformada em laboratório de drogas. No fim, uma sala de estar mobiliada com um sofá e uma televisão apenas.

O anti-herói pisava cautelosamente, não querendo fazer barulho algum. O corredor continuava depois da sala, chegando à um outro cômodo e um banheiro logo no fim. A casa estava quieta demais. Ele tinha pouco tempo, logo a polícia estaria ali. Avançou, inspecionando cada canto. O cheiro de pólvora empertigava o ar, e o sangue se juntava à merda toda.

Parou em frente à porta fechada. Por baixo da máscara, deu seu sorriso habitualmente maléfico. Encostou o ouvido na madeira e fechou os olhos.

– Shh. – escutou do outro lado.

Virou-se, apontou o fuzil e abriu fogo. Vinte rajadas que perfuraram a porta toda. Os gritos dos vagabundos escondidos eram música pros seus ouvidos. Com uma pesada, a porta cedeu e Leviatã entrou, apontando a arma para todos os lados.

Havia dois homens ali dentro. Um deles estava sem camiseta e com uma pistola .45 numa das mãos. O outro estava caído para baixo de uma cama desarrumada e com pó por toda parte. Leviatã virou-se para o armado e disparou duas vezes. Duas flores vermelhas brotaram em seu peito. Foi em direção ao outro e o ergueu, jogando-o sobre a cama.

– Juca? – perguntou com a ponta do fuzil apontando para a face do meliante.

– Sou eu, sou eu. – respondeu o traficante.

– Que bom que apostei certo.

Agora que estava tudo nos conformes, Leviatã se sentia mais leve e ansioso para acabar com a raça de Juca. Mas tinha de encerrar com chave de ouro, para que nada daquilo ligasse à sua pessoa. Ainda queria ser uma sombra na sociedade, sem a mídia colocando-o em foco. Era uma lenda, e isso era bom.

– Vamos dar uma volta. — falou. Seu punho, logo em seguida, acertou em cheio o queixo fraco do rapaz. Juca desmaiou, e quando abriu seus olhos, desejou intensamente que o não tivesse feito.

***

Seus sentidos foram sendo recobrados lentamente, seus olhos batalhavam para se abrirem novamente. Havia ainda uma espécie de dor que afligia a sua mente e o seu queixo. Onde estava? As imagens não entravam em foco, mas a figura à sua frente era facilmente reconhecível.

Que cheiro era aquele? Por que não conseguia se mexer?

No mesmo instante que se fez essas perguntas, seus olhos se habituaram às luzes, com os formatos, com o ambiente, com tudo. O homem de preto estava à sua frente. Em sua mão direita, uma pistola. Na esquerda, uma caixa de fósforos. Juca engoliu em seco quando ele se aproximou. Tentou se afastar, mas ainda sentia seu corpo preso. E não era pra menos.

– Sempre achei esse método de matar covarde, até mesmo pra vagabundos como vocês. O “microondas” é desumano, e nessa parte até entendo a preferência de vocês por ele.

Juca, que esperava nunca passar por aquela situação, urinou e defecou em suas calças. As lágrimas e súplicas não demoraram em saltar de sua boca. E com elas vieram as promessas.

– O senhor não é mal não, senhor. Não faz isso não senhor. É desumano senhor. O senhor é herói, senhor. – era basicamente o que ele dizia a cada pedido de misericórdia.

Leviatã se aproximou. Seus olhos vermelhos perfuraram a alma de Juca.

– Eu não sou humano. – disse ele. – Mas agora você pode me responder uma pergunta básica.

– Respondo tudo senhor, mas me dá uma chance, por favor!

– Eu esperava realmente sua colaboração, jovem. Diga-me como eu encontro o Sanchez.

– É a maior casa no topo do morro, senhor. E fica do lado do Bar do Waltinho. – exclamou Juca, atentado a responder com prontidão.

– Muito bom.

Leviatã virou-se de costas e foi se afastando do rapaz. Por alguma razão, Juca achou que podia respirar aliviado. Havia feito o que aquele lunático havia pedido. Depois daquele susto, ele jurava que jamais voltaria para o crime, nunca mais assaltaria ninguém, não faria uso de crianças para entregar as drogas, nem mesmo estupraria as mães, irmãs e namoradas daqueles que não podiam pagar pelas cargas. Ele jurava que jamais tocaria na porra de uma arma novamente.

– Obrigado senhor, obrigado! – falou, aliviado.

Leviatã parou. Virou-se lentamente, até seus olhos contrastarem com a luz do morro. Guardou a pistola 9mm. Abriu a caixa de fósforos e retirou dali um fósforo. Não desviou os olhos de Juca, e o garoto voltou a urinar e defecar. Seus olhos se arregalaram, mas não havia mais o que fazer. O cheiro que ele sentia? Gasolina pura.

– Eu não disse que te pouparia. – falou o anti-herói. Riscou o fósforo, a pequenina chama lambendo sua máscara, dando um toque ainda mais macabro para a cena.

Lançou o fósforo no rastro de gasolina quase invisível. Juca gritou o mais alto que pôde, mas isso não foi nada quando o fogo tomou conta dos pneus e devorou todo o seu corpo. Ele já não mais assaltaria ninguém, não faria uso de crianças para entregar as drogas, nem mesmo estupraria as mães, irmãs e namoradas daqueles que não podiam pagar pelas cargas.

Leviatã ficou observando o fogo subir cada vez mais e se tornar preto. Os gritos do rapaz traficante era poesia aos seus ouvidos. Quando ele parou de berrar, o anti-herói desceu o morro. No outro dia, nem mesmo se lembraria de ter feito isso.

Não se importava com nada, muito menos com vagabundos traficantes.

***

Do outro lado da cidade, um homem muito rico gritava. Mas era este grito de prazer, quase atingindo o fim do ato sexual que se consumava em seu quarto na cobertura de um dos prédios mais caros de São Paulo. A moça acima dele, montando como uma peoa, também gritava e ria. Era loira, e seu cabelo estava empapado nas laterais de sua cabeça. Com força, aproveitando cada momento daquilo como um êxtase delirante, ela apertava as mãos do ricaço contra os seus seios.

Carlos Martins era um homem sortudo, certamente as pessoas diriam. Tinha dinheiro, o carro do ano e a mulher que ele quisesse ter, à distância de um movimentar de seus dedos. E naquela noite, ele mesmo admitia que tinha se superado. A moça era incrivelmente bela e misteriosa. E ele nem mesmo se lembrava de seu nome... Marina, Luíza? Não saberia mais dizer. E o que isso importava? Assim que o dia amanhecesse, ele aproveitaria mais uma vez, colocaria um dinheiro em seu bolso e a mandaria embora, talvez guardando o número de seu telefone para quando se sentisse sozinho. Afinal, uma peça rara daquelas deveria ser guardada com esmero.

– Estou quase, querida, estou quase. – resmungou, em meio ao júbilo prazeroso do momento.

– Não, espere mais, estou quase. – respondeu a garota, sua mão direita tocando o pescoço de Carlos e apertando. Então ela era daquelas que gostavam de sufocamento no final da relação sexual? Ele adorava aquilo, e isso só fazia sua excitação aumentar.

Algo tocou sua perna direita, algo pontiagudo que provocou uma pequena fisgada na região da coxa. Certamente ela tinha alguma presilha ou algo pontudo preso no espartilho. A mão em seu pescoço apertou mais. A respiração de Carlos foi cortada subitamente, e ele ainda achava aquilo estranhamente excitante.

A moça (Marina? Luiza?) beijou seus lábios. O toque doce provocou um misto de sensações em Carlos. Ele não agüentaria mais. Ela se endireitou e gritou, atingindo o orgasmo. Ele não suportou mais e terminou ali seu serviço também.

Mas a mulher ainda não havia terminado.

Suavemente, ela desceu a mão esquerda para o meio de suas pernas, ainda montada sobre Carlos. Ele não conseguia ver muito bem o que ela fazia, mas achou que não iria se arrepender. Sentia-se impotente, fraco como qualquer homem ficaria após o sexo.

Riu e virou sua cabeça para trás para ver o relógio. Marcava 4h50min.

– Estou acabado. – falou.

– Eu não. – ela respondeu.

– Mas como... – Carlos não teve tempo de terminar a frase. Uma faca perfurou sua carótida antes mesmo que ele pudesse ter noção do que estava acontecendo.

O sangue fluía em rios pelo ferimento, tampando as vias respiratórias, aumentando ainda mais o desespero. Suas mãos foram diretamente para o corte, tentando estancar o fluxo do rio vermelho que havia sido desencadeado, enquanto seus olhos erguiam-se para a sua assassina. A moça ainda estava sobre ele, lambendo a faca com uma expressão demoníaca.

Tentou gritar, e isso fez com que o sangue transbordasse pela sua boca também, tampando seus olhos num mar vermelho. Sua garganta fazia o som de gorgolejar que ele tanto vira nos filmes. Já não conseguia mais respirar. Logo outra facada o perfurou na região do peito. Ainda sentia a dor, mas não tinha força para fazer mais nada.

– Foi um prazer conhecê-lo. – era essa a última coisa que ele ouviria.

Quando ela se levantou, passando a faca lentamente na região do clitóris e lambuzando de sangue toda a sua vagina, Carlos Martins já estava morto.

E a noite daquela moça nem havia começado.

Notas finais
Gostou?Então avalie! É o pagamento de qualquer escritor saber que está sendo reconhecido.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.