Leve o tempo que for necessário
3 Confissões
Notas iniciais
Um mês após a vitória contra a Calamidade, infelizmente a primeira visita da família real da Vila dos Zoras de Labrynna aos seus semelhantes em Hyrule foi marcada pela infeliz surpresa do desaparecimento do Príncipe Sidon poucos dias antes da chegada deles. Quando souberam que o ocorrido não era um fato isolado e que guerreiros de outras etnias também sumiram de forma semelhante, todos confiaram de que esse acontecimento possuía um propósito, trazendo esperança de que ele estivesse vivo e algum dia retornaria.
Felizmente em torno de um mês depois o príncipe reapareceu no Território Zora são e salvo, explicando que um pequeno guardião o teletransportou para outra dimensão onde ele, em conjunto com os outros desaparecidos, puderam salvar os campeões do passado, incluindo sua irmã, Mipha.
Quatro dias após Sidon enviar uma carta para o Vila dos Zoras de Labrynna explicando o que ocorreu com ele e se desculpando por não estar presente durante a última visita deles, o Rei Dorephan solicitou uma reunião a sós com seu filho. Quando o príncipe veio até a sala do trono no horário combinado, seu pai iniciou a discussão, sorrindo:
— Boa noite, meu filho! Muito obrigado por aceitar minha requisição!
— Boa noite, pai, é um prazer receber esse convite! — cumprimentou o príncipe, retribuindo o sorriso. — Há algo que eu possa ajudar o senhor?
— Sim, de fato há — admitiu o rei, carinhosamente. — Desde o triunfo de toda Hyrule sobre a Calamidade venho refletindo o quanto essa batalha te fez amadurecer, e mal superaste esse desafio, saíste vitorioso de outra guerra conforme teus relatos! Sem dúvida sinto que esta é uma excelente oportunidade para darmos mais um passo em tua preparação visando um dia assumir o trono do território.
— É uma honra ter contribuído da melhor forma possível nesses ocorridos e tê-lo deixado orgulhoso com tudo o que aprendi! — agradeceu Sidon, curvando-se. — Estou preparado para seguir dando o meu melhor nessa nova fase que se aproxima.
— Sei que está, e de fato mais do que nunca será necessário teu esforço, pois agora trabalharemos em um tópico que sim, é importante para todos do domínio, porém quem sentirá mais os efeitos dele serás tu. Gostaria de iniciar todos os procedimentos necessários para teu noivado, portanto desejo saber se tu possuis algum nome em mente para levarmos ao conselho.
Imediatamente o príncipe olhou para o Rei Dorephan com uma expressão de surpresa, não por não esperar que esse pedido estivesse próximo de ocorrer, mas sim porque da forma como seu pai o fez, Sidon interpretou como se seu relacionamento com Yona estivesse fora de cogitação pelos monarcas, sendo necessário escolher outra pessoa. Sem saber como responder, o príncipe sugeriu, tentando não parecer hesitante:
— Agradeço por oferecer-me essa oportunidade, pai, porém, com tua sabedoria, tenho certeza que o senhor será capaz de escolher a pessoa correta para estar ao meu lado.
— Eu que agradeço por tamanha confiança, filho, entretanto admito que essa não era a resposta que gostaria de ouvir — explicou o rei, levemente desapontado. — Entendo que essa é uma decisão difícil, porém realmente desejo que tu sejas livre para escolher quem teu coração desejar, pois caso ambos estejam de acordo com o noivado e o conselho aprová-lo, vós sereis preparados o tempo que for necessário para, se tudo correr bem, um dia casarem e assumirem o trono do território.
Por mais que não quisesse ficar em silêncio, Sidon não conseguia responder nada ao seu pai devido à quantidade de dúvidas que estavam em sua cabeça naquele momento, desde se algo ocorreu durante a última visita em que ele não estava até se haveria alguma forma de adiar aquela discussão sem transparecer o motivo que o impedia de comunicar sua decisão.
O rei, vendo o silêncio gerado e que seu filho cada segundo parecia mais tenso, anunciou, chateado.
— Peço desculpas por propor um assunto tão importante e exigir de ti uma resposta imediata, sem permitir que reflitas com calma. Proponho que tu penses o tempo que for necessário e, quando estiveres pronto, conversaremos o quanto for necessário para planejarmos o teu futuro.
— Não, pai, é que... — admitiu o príncipe, angustiado, imediatamente parando de falar ao perceber que estava agindo por impulso, porém vendo que Dorephan claramente demonstrava interesse que ele continuasse falando, Sidon respirou fundo e desabafou:
— Há tantos anos mantenho isso em sigilo que admito não saber como externalizar, mas, ao mesmo tempo, entendo que se não for agora, posso não ter outra oportunidade. O senhor é testemunha que, desde a reunião mais de 30 anos atrás com a família real da Vila dos Zoras de Labrynna, Senhorita Yona e eu cumprimos da melhor forma possível o que foi acordado naquele dia, porém preciso admitir: Nunca deixei de ter sentimentos por ela, ao contrário, em todos esses anos apenas aumentou tudo o que sinto, mesmo após 25 anos sem nos vermos devido a tudo o que a Calamidade causou em nosso território! Deixo claro que aceito qualquer repreensão por voltar a esse assunto ao invés de aguardar uma nova decisão sobre ele, porém diante da situação atual, entendo que não era mais possível esconder isso do senhor.
No primeiro momento o rei não demonstrou nenhuma reação, apenas permaneceu olhando para seu filho enquanto ele se recompunha depois da confissão realizada. Ao vê-lo mais tranquilo, Dorephan sorriu e respondeu, calmamente:
— Peço perdão se em algum momento minha forma de falar te causou a impressão de que estava ignorando tudo o que ocorreu anos atrás, apenas preferi me manter o mais imparcial possível e garantir que não te influenciaria caso em algum momento teus sentimentos mudaram. Então, pelo que entendi, fizeste tua escolha, correto?
— Exato, porém reforço que seguirei respeitando a vontade de todos, portanto aguardarei o tempo que for necessário ou até mesmo mudarei minha decisão se for o melhor para os domínios — confirmou o príncipe, sério.
— Então acredito que chegou o momento de te anunciar algo que ocorreu durante a última visita da família real da Vila dos Zoras de Labrynna: Os monarcas e eu nos reunimos para discutir sobre esse assunto, pois nunca duvidamos que um dia tu retornarias, e chegamos à conclusão de que como nossos filhos não aparentavam terem desenvolvido sentimentos por outra pessoa em todos esses anos, tudo indicava que eles se mantinham fiéis ao outro. Com isso, quando tu retornasses, cada monarca conversaria com seu respectivo herdeiro para confirmarmos nossa teoria, e caso a comprovássemos, não só autorizaríamos como apoiaríamos que vós volteis a discutir sobre esse assunto.
Novamente Sidon ficou sem palavras para responder seu pai, dessa vez devido à felicidade que sentia com a notícia recebida. Após alguns segundos apenas sorrindo, ele curvou-se e agradeceu:
— Sou eternamente grato a todos pela autorização que recebemos, além de concordar com os critérios utilizados para tomar essa decisão. De fato, gostaria de retomar esse tópico com a Senhorita Yona se esse for o desejo dela, então peço para adiarmos por alguns dias a definição de com quem noivarei para que eu possa escrever uma carta a ela a respeito do tema.
— Concordo, especialmente considerando que ela provavelmente terá a mesma atitude.
— Muito obrigado, pai, dou minha palavra que amanhã terei algo pronto para enviar visando resolvermos o quanto antes esse assunto! — assegurou o príncipe, finalizando a frase com seu sorriso característico.
Não tendo mais o que discutir sobre o assunto, ambos deram como encerrada a conversa para que o príncipe pudesse focar na escrita da carta solicitada, o que ele iniciou poucos minutos depois, na Represa Oriental.
Por mais que parecesse uma tarefa simples, Sidon precisou de alguns rascunhos até conseguir elaborar um conteúdo que lhe agradasse e refletisse o que ele sentia naquele momento, optando por comunicar sua decisão de escolher Yona como sua noiva por tudo o que ele ainda sentia por ela, porém enfatizando sua preferência para que sua amiga tomasse a decisão que fosse melhor para ela.
Pelo horário, o príncipe optou por dormir no local onde estava, porém sono era o que ele menos sentia por tudo o que passava em sua cabeça naquele momento. Mesmo apenas querendo descansar por saber que bastava entregar a correspondência amanhã e aguardar pela resposta, Sidon não conseguia conter seu entusiasmo e a todo momento pensava no fato de que todos os sentimentos que ele guardou para si durante tantos anos estavam próximos de voltarem a ser correspondidos, pois tudo indicava que sua amiga se encontrava na mesma situação e lhe traria um retorno positivo.
No dia seguinte, ao retornar para o Território Zora no início da manhã, o príncipe solicitou que Molbe, a secretária chefe da família real, levasse sua carta até o navio que viajava de Hyrule para Labrynna e, ciente de que uma resposta poderia levar dias, ele seguiu para as atividades previstas no seu dia, evitando ao máximo pensar sobre o assunto.
Próximo do fim da tarde, após terminar seus estudos, Sidon caminhou até a sala do trono para verificar se seu pai ou Timo precisavam de algo. Ao chegar ao local, ele encontrou ambos conversando enquanto o rei segurava um envelope em sua mão.
— Filho, fico feliz em vê-lo! Confesso que se tu não viesses dentro de alguns minutos, solicitaria que Timo fosse o buscar! — admitiu Dorephan, sorrindo, e estendendo o braço na direção do seu herdeiro para que ele pegasse o envelope, o monarca continuou:
— Esta é uma carta que a Senhorita Yona escreveu para ti, chegou ao território aproximadamente 30 minutos atrás.
— Muito obrigado por guardarem-na para mim! — agradeceu Sidon, surpreso e pegando a correspondência. — Acredito que anteontem ela passou pela mesma conversa que tive e imediatamente me escreveu para anunciar sua decisão.
O príncipe sentou-se ao lado do trono de seu pai e permaneceu alguns segundos apenas observando o envelope, sabendo que muito provavelmente encontraria ali dentro algo que definiria boa parte do seu futuro. Respirando fundo, ele rasgou cuidadosamente a lateral, tirou de dentro a carta recebida e, abrindo-a em silêncio, passou a lê-la calmamente:
“Caro Príncipe Sidon,
Espero que esta carta encontre você, o Rei Dorephan e Timo bem, assim como minha família e eu estamos.
Ficamos todos aliviados ao receber sua última correspondência e saber que retornaste em segurança para o Território Zora, por isso aproveito a ocasião para parabenizá-lo pelo êxito na missão que atuaste! Admito que não consigo imaginar a sensação de estar em outra dimensão, impedindo uma das maiores tragédias que ocorreu na Hyrule que conhecemos, por isso não nego que desejo trocar várias cartas com você para saber mais sobre sua experiência, se você não se importar de contá-las, é claro!
Embora o ocorrido seja algo histórico, sem dúvidas, meu motivo para lhe escrever é outro. Poucos dias após recebermos a feliz notícia de sua volta, meus pais se reuniram comigo para discutirmos sobre o fato de que chegou o momento onde eu deveria escolher alguém para noivar.
Admito que durante a escrita desta carta pensei em várias formas de como lhe dar essa notícia, e acredito que não há opção melhor do que sendo direta ao ponto: Escolhi você como meu noivo.
Entendo que nunca mais tocamos nesse assunto desde aquele dia mais de 30 anos atrás, respeitando a decisão de nossos pais, entretanto hoje, com autorização deles, preciso admitir que meus sentimentos por você apenas aumentaram após todos esses anos, sendo essa a principal razão da minha escolha.
Pelo que meus pais informaram, é esperado que o Rei Dorephan tenha essa mesma conversa com você em breve, isso se ela já não ocorreu quando você estiver lendo esta carta, portanto desde já deixo claro que respeitarei sua decisão no assunto caso ela seja diferente da minha.
Ainda poderia lhe dizer muitas coisas relacionadas a esse assunto, porém considero que não seria correto trazê-las nesta correspondência. Além de que prefiro não estendê-la muito, reforço meu compromisso a não afetar sua escolha de forma alguma.
Espero que tome a decisão que o faça mais feliz, o que ao mesmo tempo também será minha felicidade. Você sabe que sempre desejo tudo de melhor para sua vida, pois você merece por sempre ser esse amigo extraordinário e estar ao meu lado em todos os momentos que precisei, mesmo que fosse por meio de suas cartas.
Fico à espera de sua resposta.
Atenciosamente,
Senhorita Yona.”
Ao terminar a leitura, o príncipe não conseguia nem mesmo anunciar a decisão de sua amiga por conta de tudo o que ele sentia no momento, restando a ele apenas dobrar uma vez a carta para fechá-la novamente e batê-la levemente em sua perna direita algumas vezes enquanto sentia algumas lágrimas começarem a escorrer.
— Peço perdão por me intrometer, mas a Senhorita Yona trouxe alguma notícia sobre o assunto que esperávamos? — disse o rei, preocupado.
— Sim — confirmou Sidon, enxugando as lágrimas com a mão que estava livre enquanto abria um sorriso. — Ela também me escolheu como seu noivo!
— Fico imensamente feliz por receber essa notícia, filho, e tenho certeza que a Senhorita Yona e sua família também ficarão quando souberem de sua decisão — previu Dorephan, também sorrindo. — Claro que ainda teremos todo o processo de apresentar o caso ao conselho buscando a aprovação de todos ali presentes, porém de minha parte saiba que desde já não apenas autorizo esse noivado como sinto uma enorme satisfação em vê-los compartilhando do mesmo desejo.
— Obrigado, pai, não há dúvidas que teu apoio é de grande importância para mim! — agradeceu Sidon, abaixando a cabeça por alguns segundos.
Ao voltar para sua posição normal, o príncipe olhou para Timo e notou que o conselheiro mantinha sua expressão séria de sempre, como se a notícia recebida não tivesse importância ou até mesmo ele não estivesse de acordo com o ocorrido. Preocupado, Sidon questionou:
— Timo, tenho ciência de que não deveria te perguntar isto, porém, considerando que tu és da família da Senhorita Yona, não tenho como conter-me: Tens algo que gostaria de comentar sobre o ocorrido? Tua opinião é uma das que mais levarei em conta.
— Príncipe Sidon, limito-me a opinar apenas na posição de conselheiro, visando sempre o melhor para nosso território — afirmou Timo, incomodado com a indagação. — Vejo que esse noivado será complexo para aprovarmos no conselho considerando a importância da Senhorita Yona para a Vila dos Zoras de Labrynna, portanto recomendo que se prepare bem para convencer os anciãos de que essa escolha não trará futuros problemas para algum dos domínios.
— Concordo que teremos dificuldades no conselho e que tu, melhor do que ninguém, cumpre com o papel que te é esperado, meu caro Timo — interveio o Rei Dorephan, sorrindo. — Entretanto, vejo essa situação como um caso muito específico onde não há problema manifestar sua opinião caso assim deseje, principalmente considerando uma rara ocasião onde o rei pode se descuidar e não prestar atenção em sua próxima frase!
Imediatamente o monarca passou a olhar para o lado, fingindo estar distraído, ao ver que seu conselheiro parecia não ter gostado da proposta, enquanto Timo, sabendo que tanto o rei como o príncipe desejavam que ele confessasse sua real opinião, se viu sem outra escolha. O conselheiro respirou fundo, olhou para Sidon e, dando um leve sorriso, algo poucas vezes visto, admitiu:
— Certo, se é o que todos aqui desejam e considerando a improvável hipótese de que o Rei Dorephan está desatento, abrirei uma exceção. Seu pai e eu já conversamos sobre o assunto, portanto para ele não será novidade o que irei dizer, mas se realmente quer minha opinião, saiba que, como parente da Senhorita Yona, não poderia estar mais orgulhoso da decisão que ambos tomaram! Conheço bem vossa criação e a história que possuem, então não há como negar que vós fizestes a melhor escolha possível!
Após abaixar sua cabeça por alguns segundos para agradecer o conselheiro por sua atitude e suas palavras, Sidon prometeu:
— Agradeço o apoio, Timo, e juro para vós que daqui para frente me esforçarei ainda mais, não apenas para um dia me tornar o rei do território, mas também para que a Senhorita Yona esteja ao meu lado como rainha!
Fale com o autor