Leva-me
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Diferente de muitas pessoas, não penso que o amor seja capaz de salvar vidas. Mesmo se eu amasse alguém e esse amor fosse correspondido, não mudaria o fato de que vou morrer. Pode ser hoje, amanhã, daqui um mês ou daqui três anos. No final, eu vou morrer. Estamos destinados a isso. Para mim, saber que no final o que me espera é a morte me deixa aliviada. Ao contrário de várias pessoas, considero a morte minha amiga. Ela vai me tirar desse mundo imundo onde uma mulher sofrer estupro, um idoso ser agredido, crianças serem abusadas, pessoas matarem umas às outras virou rotina.
Talvez você esteja achando que me importo com tudo isso, mas na verdade não. Mesmo se eu saísse pelas ruas gritando e exigindo mais segurança e ordem, como vários protestantes fazem, não mudaria nada. O mundo está um caos e não acredito que Deus irá mudar isso. Afinal, Ele não fez nada até agora. Quanto tempo se passou desde o dia que foi dito que Ele voltaria? Não acredito que Deus exista realmente, mas se existe, por que não faz nada? Está ocupado demais assistindo o mundo acabar? Se ele realmente existe, deveria começar a agir. Também não acredito em Céu ou Inferno; Paraíso ou Purgatório. Eu só quero escapar desse mundo. Ir para algum lugar onde eu não sinta nada. Ou simplesmente desaparecer do universo.
Olho para o céu e observo as nuvens saírem de frente da lua. Para mim ela é uma das coisas mais lindas que existem. Quando a olho, lembro-me da minha infância. Da época em que tudo era simples — tudo era colorido. Eu era tão inocente e sonhadora. Imaginava que tudo era como em um conto infantil, onde príncipes se casavam com princesas. Pensava que todos eram felizes e que nada poderia atrapalhar essa felicidade. Meus pais não me deixavam assistir televisão, pois queriam me proteger das calamidades que se passava fora de nossa casa. Sou grata até hoje por isso. Pude viver em meu mundinho imaginário por muito tempo, sem precisar me preocupar com as desgraças que aconteciam no mundo.
Minha forma de pensar mudou muito desde quando eu era criança, lógico. Contos de fadas não são verdadeiros. Príncipes e princesas se casam, mas tudo parece muito forçado, no meu ponto de vista. Quando criança pensava que tudo ia além do preto e do branco; hoje acredito que tudo é desse jeito. Muitas pessoas dizem que, para uma garota de dezessete anos, tenho pensamentos pessimistas demais. Acredito que sou somente realista.
Admiro a lua pela água da piscina e começo a me despir. Coloco a ponta de um dedo do meu pé na água e a sinto quente. Estico meus braços, fazendo um breve alongamento e mergulho. Sinto meu corpo ficar mais leve enquanto afundo. Abro os olhos, enxergando somente a luz da lua por entre a água. Sempre às dez da noite venho mergulhar na piscina. É uma das coisas que me faz ficar relaxada; faz-me parar de pensar um pouco na morte. Apesar de que eu posso me afogar aqui e agora. Aliás é uma ideia tentadora.
Sinto a falta do ar, portanto subo até a superfície e encho meu pulmão de oxigênio. Afasto o cabelo do meu rosto e me deito sobre a água. Fico olhando a lua e o céu estrelado. As nuvens, de minuto em minuto, passam em frente à lua. Fecho os meus olhos por um tempo e lembro que tudo isso um dia desaparecerá. Assim como eu. Abro novamente os meus olhos e contemplo a lua por alguns minutos, antes de nadar até a borda da piscina e sair da mesma. Pego a toalha em cima da cadeira e me enxugo. Visto toda a roupa que eu havia despido, calço os chinelos e ando em direção à porta de trás da casa.
Entro sem fazer barulho, subo as escadas, adentro em meu quarto, jogo a toalha no chão, pego o meu celular, pego as chaves, uma buchinha e saio. Assim que chego à garagem, pego a minha bicicleta. Abro o portão e saio da residência dos meus pais. Depois de fechar o portão, recebo uma mensagem de texto do meu irmão:
Não volte muito tarde. Amanhã cedo você tem que me levar à biblioteca.
O respondo:
Não precisa se preocupar. Volto antes da meia noite.
Guardo o celular no meu bolso, prendo o meu cabelo molhado em um rabo de cavalo e começo a pedalar pelas ruas da cidade. Assim como mergulhar na piscina à noite, pedalar pela cidade também é um dos meus hobbies. De dia a cidade é muito barulhenta e sufocante, mas durante a noite tudo fica silencioso, tirando as gritarias de adolescentes bêbados que encontro às vezes.
Não acho essa cidade muito bonita, mas alguns lugares merecem ser visitados. Como por exemplo, o Bosque das Cerejeiras, o Parque Natural das Rosas e A Casa Assombrada da Rua Doze. Visitei todos os três lugares citados e achei dois deles bonitos. Em certo mês do ano as Cerejeiras dão flores e o bosque fica espetacular. No Parque Natural das Rosas tem mais da metade de todos os tipos de rosas que existem no mundo. Visitei esses dois lugares ainda criança.
Agora, visitar A Casa Assombrada da Rua Doze foi espantoso. Na época, três mulheres haviam desaparecido (isso foi há três anos). Como não me interessava pela televisão (e meus pais não me deixavam assistir, como havia dito antes), pelas revistas e jornais, não sabia.
Certo dia, na hora do intervalo, ouvi dois meninos comentarem sobre uma casa abandonada. E como era curiosa, não hesitei em perguntar em que rua ficava a casa. No mesmo dia depois da escola, a procurei, e quando a encontrei, fiquei surpresa ao ver o estado em que se encontrava. O muro da frente estava todo descascado, igual à fachada da casa; e o portão todo enferrujado. Senti um arrepio subir pelo meu corpo.
Assim que começou a chover, entrei pelo portão. Empurrei a porta com um pouco de força com as duas mãos e ela se abriu, fazendo um barulho alto. Estava tudo escuro e senti um cheiro horrível. Imaginei que alguma coisa havia estragado ali dentro. O barulho do trovão soou alto, fazendo-me entrar de vez na casa.
Como qualquer pré-adolescente normal, fiquei com vontade de descobrir o que tinha além da sala suja em que me encontrava. Soltei a minha mão da porta, deixando-a se fechar com um barulho ainda mais alto. Dei dois passos para frente, tomando cuidado para não pisar nos sacos de lixo que estavam espalhados por ali. Olhei para as paredes negras, que apresentavam rachaduras e infiltrações. Consegui ver os restos de um sofá no meio daquela imensidão de lixo. Dei mais alguns passos e cheguei perto de uma porta de madeira quebrada. Vi talheres jogados pelo chão e um monte de cacos de vidro. Deduzi que ali fora um dia a cozinha. Depois de dar mais alguns passos, entrei em um corredor e ouvi o som abafado de dois trovões caírem. Fiquei assustada e olhei para trás. Percebi que já estava ficando bem distante da entrada. Respirei fundo, sentindo desconfortavelmente o cheiro.
Ajeitei a mochila nas costas e continuei andando em direção a uma grande porta intacta. Reparei que na parede do corredor se encontravam vários retratos velhos, possivelmente dos antigos moradores da casa. Senti um calafrio olhando-os. Quando abri a porta a minha frente, encontrei três mulheres nuas e mortas a um metro. Meus olhos se arregalaram e o meu coração começou a bater muito forte e com rapidez. Coloquei uma mão na boca e senti meu estômago revirar. Os corpos tinham ferimentos e, algo branco, meio transparente, estava grudado nas partes genitais delas. Os olhos delas estavam abertos, como se estivessem me observando.
Sem conseguir olhar por mais tempo, corri para fora da casa. Abri o portão e corri sob a chuva até a minha casa. Contei tudo aos meus pais e eles ligaram para a delegacia. Foi confirmado que aqueles corpos eram das mulheres desaparecidas. O assassino não foi encontrado, mas ouvi um dos policiais dizer ao outro que tinha ocorrido necrofilia. Fiquei sabendo também que os policiais não suspeitavam de nada, pois achavam que os desaparecimentos não tinham ligações. Pensavam até que as mulheres desaparecidas estavam na casa de algum namorado.
Dizem que as almas daquelas mulheres assombram a casa. Por isso os adolescentes deram o nome a ela de “A Casa Assombrada da Rua Doze”. Hoje, aquela casa é visitada por várias pessoas, pois descobriram que o dono era um homem poderoso anos atrás.
Mais tarde perguntei ao meu pai o que necrofilia significava, mas ele não quis me explicar. Por isso, na segunda-feira, fiz uma pesquisa no computador da escola e ao descobrir o seu significado e ver as fotos, me questionei sobre o que Deus estava fazendo enquanto aquele ato horrível estava acontecendo. Comecei a questionar sobre tudo e desde então passei a não acreditar Nele. Li a Bíblia várias vezes, porque queria saber mais sobre esse tal Deus. Eu era obrigada a ir à igreja com o meu irmão. Comecei a acreditar que a existência de Deus não passava de uma ilusão que os humanos se agarravam. Não critico religião nenhuma, mas também não acredito nelas. Quando bebê fui batizada na igreja Católica, mas para mim, ser batizada ou não, não faz e nunca fez diferença.
Quando chego na praça, deixo minha bicicleta encostada em uma árvore e começo a caminhar entre os brinquedos. Costumava trazer o meu irmão aqui quando ele era mais novo. Ele adorava brincar na gangorra. Até os seis anos eu só o trazia de manhã ou à tarde, mas depois que ele fez nove anos comecei a trazê-lo à noite também. Ele se divertia bastante. Éramos bem próximos, mas quando comecei a mudar (me transformando em uma garota descrente na salvação do mundo), nos afastamos um pouco. Agora ele não sai muito comigo, mas ainda se preocupa com o que estou sentindo ou fazendo.
Sento no escorregador e fico olhando as pessoas passando, a passos apressados, pela praça. Consideram essa praça muito perigosa à noite e eu concordo com isso, pois já vi várias pessoas sendo assaltadas aqui. Também já fui assaltada, acho que umas sete vezes, mas isso foi quando comecei a vir. Depois de uns três meses pararam de me assaltar, e alguns caras que fazem seus assaltos aqui até avisam que é para me deixar em paz. Fiz um acordo com alguns deles: eu posso vir à praça quando quiser, mas sem atrapalhar o pessoal em seu “trabalho”.
Gosto de vir aqui para poder recarregar as minhas energias. Cada um tem a sua forma de recarregá-la, alguns leem livros, outros escutam músicas, dormem, saem com amigos, escrevem, assistem filmes. A minha é nadar à noite e vir aqui, nessa praça. Sei que se eu não fizer isso terei vontade de cometer suicídio. Ao contrário de muitas pessoas, não sinto que tenho algo a fazer nesse mundo. Só estou aqui observando tudo. Vendo pessoas serem mortas, outras matando, namorados brigando, cachorros sendo maltratados. Se eu tivesse o direito de fazer um desejo, pediria para nunca ter nascido.
11h14m é a hora indicada no meu celular. Levanto, caminho até a minha bicicleta e volto para casa. Durante o caminho, observo algumas garotas da minha turma beijar alguns meninos. Por sorte elas não me vê. Não sou de ficar julgando ninguém, mas acho as atitudes delas ridículas. Há um tempo percebi que as garotas que saem beijando ou ficando com vários meninos são vistas com olhos ruins. E isso não inclui só os adultos, mas também os outros adolescentes. Nenhum garoto certo; que queira casar irá querer namorar sério com uma garota que sai à noite com vários garotos e que provavelmente beijou todos eles. O mesmo vale para os meninos. Se algum dia me apaixonar, com certeza vai ser por um garoto diferente desses que têm na minha turma.
Abro o portão, deixo a bicicleta na garagem e depois entro em casa. Assim que termino de subir as escadas e entrar em meu quarto, mando uma mensagem de texto para o meu irmão:
Estou em casa. Dorme bem. Não se esqueça de me acordar amanhã.
Ele respondeu alguns segundos depois:
O.K.
Tiro minhas roupas e entro no banheiro. Tomo um banho e visto o meu pijama. Escovo os dentes e apago as luzes. Deito na cama e fecho os meus olhos, mas antes de dormir penso em algumas coisas, como por exemplo: meus pais não se preocupam com o que faço ou deixo de fazer. Com quinze anos decidi parar de ir à igreja, também parei de usar as antigas roupas coloridas e passei a usar preto e branco. Muitas pessoas, principalmente amigos dos meus pais, começaram a me criticar. Na escola comecei a ser chamada de aberração e esquisitona. No começo me sentia mal, isolada; solitária.
As minhas notas começaram a cair e os professores começaram a querer saber o motivo. Dizia a eles uma desculpa qualquer e assim eles me deixavam em paz por um tempo. Na primeira vez que os meus pais viram o meu boletim com notas baixas, meu pai me bateu. Foi a primeira vez e também a última. Coloquei na minha cabeça uma coisa que o meu pai havia me dito: posso fazer o que bem entender, mas as minhas notas deveriam continuar as melhores. Sabia que no futuro, mesmo não querendo, teria que fazer uma faculdade e assim me formar.
Minha mãe me mandou conversar com uma psicóloga e, depois de um mês, ela disse aos meus pais que eu não tinha problemas sérios. Ela disse a eles que eu estava me redescobrindo e que isso era uma coisa boa. No começo, dos meus doze aos catorze anos, eu estava me redescobrindo mesmo, porém, as coisas começaram a piorar. Comecei a me sentir vazia e inútil. E ainda me sinto assim. Não tenho nenhum talento e me acho uma fracassada.
Além disso, também não me acho bonita, mas estou dentro do padrão de beleza do mundo. Meu cabelo é preto, longo e ondulado naturalmente. Os meus olhos são grandes e cinzas. Minha pele é extremamente branca e sou magra. Tenho algumas marcas de espinhas (e espinhas) no rosto, o que não é bonito, mas é uma das fases que estou passando agora. Os meus dentes (por ser filha de um dentista) são todos brancos demais e certinhos. Tenho olheiras, poucas, mas tenho. As minhas sobrancelhas são um pouco grossas, mas não as acho feias. Meus lábios são finos e rosados.
Minha única amiga, Luísa, disse-me que ter insegurança demais é bobagem, porque ela me acha muito bonita. Sei que ela quer me ajudar, mas acho que não tenho mais jeito, apesar da minha aparência, o que para mim não conta muito, já que sou uma pessoa feia por dentro. E ninguém é capaz de salvar uma alma já morta. Ninguém. Tenho vontade de terminar com tudo faz tanto tempo.
Por que ainda continuo aqui?
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