Letum Proditoris
2 Terceiro Turno
Notas iniciais
POV Rose Weasley
O corpo dele atingiu o chão em um baque surdo.
Eu já estava me movendo antes mesmo de pensar. Ajoelhei ao lado dele e levei os dedos ao pulso — fraco. A respiração vinha irregular, entrecortada. Inclinei o rosto, aproximando o ouvido do peito, contando mentalmente os batimentos descompassados enquanto minha mão percorria o tronco à procura de outras lesões. Havia sangue, evidente, concentrado, mas nenhum sinal imediato de fratura exposta. Saquei minha varinha mantendo-a alinhada ao corpo dele, sussurrando um feitiço à procura de outros ferimentos, o feitiço percorreu sua extensão em um brilho contido, revelando o que não era visível: uma hemorragia concentrada, sem sinais imediatos de ruptura de órgãos vitais, mas com uma instabilidade que avançava rápido demais. Direcionei a ponta da varinha ao ferimento no tronco. — Vulnera Sanentur. A resposta foi parcial, mas suficiente para conter o sangramento..
Um estalo alto preencheu o espaço abruptamente.
No segundo seguinte um auror surgiu quase sobre nós, a postura estava rígida e a voz firme precedendo qualquer explicação.
-Afaste-se
Não houve tempo para respostas. Naquele mesmo instante a porta do consultório foi escancarada com força suficiente para bater contra a parede, e três curandeiros da ala de feitiços entraram falando ao mesmo tempo. As palavras se sobrepunham, rápidas, técnicas, urgentes demais para que eu acompanhasse o conteúdo.
Um deles já estava com a varinha erguida antes mesmo de terminar a frase que dizia, conjurando uma maca com um gesto simples. O corpo foi elevado do chão sem cerimônia, estabilizado no ar por um feitiço firme, e então transferido para a maca com a mesma precisão quase impessoal com que se organiza um objeto fora do lugar.
Ninguém me olhou.
Ninguém me explicou.
Eles saíram tão rápido quanto entraram, levando o corpo consigo, seguidos de perto pelo segundo auror que continuava ditando ordens em sua voz grave. O som da porta se fechando atrás deles pareceu mais definitivo do que deveria, como se encerrasse algo que eu não tive tempo de entender.
E então, de repente, não havia mais nada.
Permaneci sentada no chão por um instante que não medi. O consultório retomou seu estado anterior com uma facilidade desconcertante. A lareira voltou a crepitar em um ritmo baixo e cortante, preenchendo o silêncio.
Um homem apareceu, falou, caiu — e deixou de estar ali.
Simples assim.
Meus olhos desceram, quase por reflexo, até o chão onde ele havia estado. Restava apenas uma mancha discreta de sangue, escura o suficiente para confirmar o ocorrido, mas pequena demais para sustentar qualquer tipo de permanência. Em um movimento automático de varinha a mancha desapareceu, sem resistência.
Como se nunca tivesse existido.
Levantei-me em seguida e voltei para a mesa. A pena ainda estava parada no ar. O pergaminho ainda aberto, aguardando.Retomei a posição sem esforço, como se nada tivesse interrompido o fluxo natural das coisas.
A porta se abriu novamente, e ergui o olhar — por um segundo, expectativa.
Injustificada.
Uma mulher colocou a cabeça para dentro, o nariz envolto em um curativo improvisado.
— Mordida — murmurou.
Assenti, indicando que entrasse. O restante seguiu como de costume. Perguntas objetivas, respostas incompletas, avaliação direta. Removi o pano com cuidado, revelando uma marca pequena, mas inflamada o suficiente para justificar o incômodo.
Puffskein.
Criaturas inofensivas — até não serem mais.
São tão fofos que em geral as pessoas esquecem que podem tentar comer qualquer coisa, inclusive o nariz de sua dona adormecida.
O tratamento foi simples. Limpeza, essência de arrebol e uma dose de poção revigorante para conter a reação à secreção. Ela agradeceu antes de sair, e outro paciente já ocupava seu lugar antes mesmo que eu tivesse tempo de reorganizar completamente os instrumentos.
Depois outro.
E outro.
O tempo voltou a avançar da forma habitual — contínuo, indistinto, dissolvendo-se em uma sequência de atendimentos que variavam nos detalhes, mas nunca na estrutura. Ferimentos diferentes, histórias diferentes, resultados essencialmente previsíveis. O fluxo não diminuía; apenas se reorganizava, preenchendo qualquer espaço disponível com mais trabalho.
Quando o último paciente saiu, o relógio já indicava um horário que deixava claro que eu não deveria mais estar ali. Meu turno havia terminado. O turno extra também.
Meu corpo parecia concordar com isso. Ignorei.
Estiquei os braços, sentindo os músculos tensionados e pesados, como se cada movimento exigisse um esforço ligeiramente maior do que deveria. Talvez eu também precisasse de uma poção revigorante.
Isso podia esperar.
Terminei o relatório com a mesma precisão automática, deixando a pena repousar sobre o pergaminho já preenchido. Dei uma olhada no meu trabalho certificando-me de que estava tudo ali.
A porta se escancarou outra vez.
O impacto contra a parede foi seco.
Um curandeiro do segundo andar parou no vão, visivelmente desalinhado. As mangas estavam manchadas, o olhar ligeiramente atrasado, como se ainda estivesse preso a outra cena, outro ritmo. Havia um esforço claro para manter o foco.
Ele me olhou.
Demorou um segundo a mais do que o necessário.
— Você sabe fazer poção de reversão?
— Sei.
A resposta saiu antes mesmo que eu considerasse qualquer alternativa.
Ele assentiu, rápido demais.
— Então vem comigo.
Não era um pedido.
Saí com ele imediatamente. Os corredores passaram em uma sequência irregular de movimento e desvio, rápidos demais para qualquer orientação consciente. Ele falava enquanto andávamos, frases quebradas, respiração ligeiramente comprometida.
— Estamos ficando sem... muita gente... reação... não estamos dando conta.
Era o suficiente.
As escadas mudaram de lugar, obrigando-nos a refazer o caminho. Um corredor foi bloqueado por uma parede recém-surgida. Ajustamos a rota sem questionar. Movimento contínuo. Correção constante.
Quando finalmente alcançamos o segundo andar, o ambiente era outro.
Mais cheio. Mais barulhento. Menos controlado.
Pessoas cruzando corredores com pressa, macas sendo levitadas em sequência, vozes que já não tentavam manter o controle absoluto da situação. O ar estava carregado de um cheiro denso, um misto de poções abertas, ingredientes esmagados e algo metálico sutil, persistente.
Fui direcionada ao laboratório quase imediatamente.
Não houve apresentação. Não houve explicação detalhada.
Apenas instruções.
Preparar. Repor. Continuar.
A Poção de Reversão passou a existir como um gesto repetido. Ingredientes medidos sem hesitação. Misturas ajustadas com precisão automática. Tempo controlado por instinto. Frascos sendo preenchidos e retirados das minhas mãos quase tão rápido quanto eram concluídos.
E, entre uma preparação e outra, pacientes.
Muitos.
As reações se repetiam, mudando apenas nos detalhes, mas mantendo o mesmo padrão, consistente demais para serem casos isolados. Havia algo em comum entre todos eles.
O fluxo não parava.
Não diminuía.
Apenas continuava.
Enquanto amassava raízes entreouvia fragmentos de conversa que atravessavam o ambiente.
Contaminação
Um lote inteiro de poção.
Horas passaram, ou algo próximo disso. O conceito de tempo deixou de ser importante em algum momento entre a décima e a vigésima poção preparada em sequência.
Senti uma leve tontura depois de tanto tempo em pé.
Ignorei.
Continuei.
Quando a situação pareceu desafogar um pouco me permiti um segundo de pausa. Encostei as mãos na bancada por um instante.
Respirei.
Tentei lembrar quando tinha sido a última vez que comi.
A resposta não veio.
O pensamento não se desenvolveu o suficiente para se tornar relevante.
Endireitei a postura logo em seguida, já estendendo a mão para o próximo conjunto de ingredientes, iniciando outra preparação. Ao redor, o movimento continuava.
Ininterrupto.
E, em algum ponto entre uma poção e outra, ficou claro que aquilo não iria acabar tão cedo.
E, ainda assim, minhas mãos não pararam.
—--
Horas depois, o caos parecia, finalmente, começar a ceder — não o suficiente para ser chamado de controle, mas o bastante para permitir a ilusão dele. O fluxo ainda existia, constante, exigente, mas já não transbordava pelos corredores com a mesma urgência desordenada de antes. O padrão, que até então se insinuava entre hipóteses e tentativas de explicação, deixou de ser suspeita e se consolidou como evidência incontestável: Poção Revigorante contaminada. O lote inteiro. Claro que seria algo tão banal. Algo que qualquer bruxo compraria sem pensar duas vezes, que atravessaria o Beco Diagonal em mãos distraídas e chegaria às casas bruxas como uma solução simples para o cansaço cotidiano. Revigorante. A ironia era quase ofensiva.
Graças a Merlin, eu não tinha me dado ao trabalho de tomar um frasco pela manhã — caso contrário, provavelmente estaria agora em uma dessas macas, reduzida a mais um padrão repetido entre tantos outros.
Em algum momento, os funcionários da Seção de Padrões de Comércio Mágico apareceram, e por aqui ficaram. Instalaram-se no ambiente como uma presença incômoda, deslocada, atravessando o fluxo do hospital com uma insistência que já não convencia ninguém de que era apenas zelo profissional. Havia urgência ali, sim, muito mal disfarçada sob camadas finas de protocolo.
Eles circulavam entre os pacientes como se estivessem presos em um ciclo: as mesmas perguntas, repetidas com pequenas variações que pouco alteravam o sentido — onde comprou, quando, qual frasco, quem recomendou. E depois, de novo. E de novo. Como se, pela simples exaustão, as respostas fossem se reorganizar, encaixar-se perfeitamente e, enfim, entregar uma solução que claramente não existia.
A visita não solicitada de Rita Skeeter um pouco mais cedo não ajudou em nada a melhorar ânimo deles. Se antes já se moviam com pressa entre os pacientes, depois da passagem dela a urgência pareceu se intensificar, quase como se o tempo tivesse encurtado de repente. As perguntas passaram a ser feitas com ainda mais insistência, as anotações mais rápidas, os olhares trocados entre eles carregados de uma tensão que não precisava ser dita em voz alta. A julgar pelo sorriso satisfeito com que ela saiu ao ser retirada pelos seguranças meia hora depois, não é difícil imaginar que ela encontrou exatamente aquilo que procurava. Se a situação não fosse resolvida antes da publicação do Profeta Diário de amanhã, eu poderia apostar que alguém seria despedido. Talvez mais de um. E, pela forma como eles se moviam agora, parecia que todos ali já tinham chegado à mesma conclusão.
Eventualmente, em algum ponto que não se anunciou como especial ou diferente, o ritmo começou a ceder. Não houve alívio repentino, nenhuma mudança dramática que pudesse ser apontada com clareza; apenas pequenas brechas se abrindo entre uma urgência e outra, intervalos ligeiramente maiores, respirações que finalmente podiam ser completas. Foi o suficiente para que alguém, em algum lugar, decidisse que aquilo já era controlável. E foi assim, quase sem perceber, que entendi que podia sair. Não porque o trabalho havia terminado, mas porque, pela primeira vez desde que tudo começara, havia gente suficiente para que minha ausência não significasse um risco imediato. Aceitei essa constatação sem resistência, como se meu corpo já tivesse tomado a decisão muito antes da minha mente acompanhar.
O caminho até fora do hospital aconteceu em fragmentos dispersos, pouco memoráveis. Corredores que pareciam mais longos do que realmente eram, escadas vencidas no automático, portas atravessadas sem registro consciente. Enquanto saía, desviei automaticamente de uma área isolada por cordas e de um andaime instável; a reforma mágica ainda avançava pelo hospital, rearranjando paredes e corredores como se o próprio lugar se recusasse a permanecer fixo. Em algum ponto, o ar mudou. O cheiro denso de poções, ervas e magia saturada ficou para trás, substituído pelo ar noturno, frio o suficiente para parecer estranho contra a pele. E então, sem transição clara, eu já estava do lado de fora. Depois, em casa.
Fechei a porta atrás de mim com um movimento mecânico, atravessando o espaço quase no escuro, acendendo apenas o indispensável para não tropeçar no próprio caminho. Não houve um momento exato entre estar em pé e me deitar. Apenas o instante em que o colchão cedeu sob o meu peso e, com ele, algo em mim finalmente cedeu também. O corpo parou antes da mente acompanhar.
O cansaço era profundo o suficiente para ser quase abstrato. Não era só físico, nem apenas mental, mas uma soma indistinta dos dois, pesada, constante, difícil de nomear. Fechei os olhos esperando que o sono viesse como consequência natural, como sempre fazia. Mas ele não veio. No lugar, um único pensamento atravessou, limpo demais para ser ignorado.
O auror ensanguentado.
A imagem surgiu com uma nitidez desconfortável, detalhada demais, insistente demais para alguém que já deveria estar apagando. Abri os olhos no mesmo instante, encarando o teto como se precisasse confirmar que ele não estava ali, que aquilo não tinha atravessado comigo até aquele espaço. O silêncio do quarto sustentou a realidade, mas não afastou a lembrança. Permaneci olhando para cima, deixando o pensamento se desenrolar sem esforço, quase contra a minha própria vontade.
Será que ele estava bem? Teria piorado? Ou se sequer tinha acordado?”
A resposta mais honesta veio logo em seguida, simples, direta, inevitável.
Provavelmente eu não saberia.
Dificilmente teria qualquer motivo para passar pela ala onde ele foi encaminhado. A constatação não trouxe frustração, nem alívio. Apenas se encaixou, precisa, no restante do dia, como mais um fato entre tantos
outros que não exigiam reação.
Fechei os olhos outra vez.
E, dessa vez, adormeci imediatamente.
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