Letters Shortaki/ Hey Arnold
3 Todas as minhas emoções são por sua causa
10 de outubro, 2012,
Casa dos Johanssen
COMPLETAVA-SE TRÊS ANOS A PARTIDA DE ARNOLD. Os amigos de seu antigo bairro sentiam saudades do loiro carismático, todos os dias que se passavam; Inclusive Gerald: seu melhor amigo e pessoa próxima desde o jardim de infância. Antes nenhum dos dois costumava andar sozinho: até vir a época atual, estragando todos seus melhores momentos. E quanta falta o fazia.
Todavia, a despedida de Arnold também mudou os tempos, o mundo ao redor de Johanssen tornou-se sombrio. O ensino fundamental virou um inferno para seus olhos, os ex amigos não se lembravam tanto de seu rosto, nem tinham o menor assunto para entrar em uma conversa, então não ficavam próximos.
Alguns colegas irrelevantes e idiotas riam de sua cara por ser sozinho, abordando-o com uma frase ridícula: “tinha que ser negro”. Várias atitudes racistas e preconceituosas vieram à tona, o excluíam e jogavam bolinhas de papel em sua cabeça, até mesmo sua própria namorada recebeu comentários bem piores e mais pesados.
Gerald não ligava mais, ele tinha orgulho de ser afro-americano, nunca escondeu isso. Com todo seu esforço, se tornou o melhor jogador de futebol do colégio, e também o campeão de Street Fighter no fliperama da cidade, assim ganhando reconhecimento.
Porém, naquela época não estava se sentindo bem, o vazio interferiu em seu peito e após tanta exclusão social de merda, levou uma advertência por agressão — o chamaram de cabelo bombril, bateu em dois colegas sem pena.
Se Arnold estivesse aqui ainda, nada disso estaria acontecendo, pensou sentado na beira da piscina, chateado e pensativo. Ele não ligava mais para seu aniversário, a data se tornou um dia comum e sem graça.
O moreno se encontrava abatido na própria festa de treze anos, com os pés debaixo da água cristalina, observava seus colegas e amigos dançando e zuando uns com os outros ao som de: Love RollerCoaster especificamente a versão do filme Beavis e Butt-head: Detonam a América. No rádio da cozinha; que trilha sonora perfeita para um momento de melancolia não é mesmo?
Seus treze anos sendo aproveitados com pouca animação e sendo jogados fora no lixo. Tudo estava perdendo graça sem a presença de Arnold, onde estão os anos dele ao seu lado? Mesmo sabendo que ele estava finalmente feliz com seus pais, será que ele sentia falta do amigo? Ou se esqueceu com tempo?
Mas não era só Gerald que estava daquele estado, do outro lado daquele casarão, as meninas observavam os garotos jogarem GTA San Andreas pelo Playstation 2, questionando porque viam tanta graça naquele jogo violento sobre gangues, drogas, roubos e outras coisas nada recomendáveis para menores, que eles obviamente não se importavam.
A única a não ligar para os garotos, era a Helga Pataki, triste e preocupada com o aniversariante longe dos meninos. Ela também havia mudado assim como ele, soube dos ataques que sofrera e percebeu o quanto era doloroso ser discriminado e excluído por doentes mentais, que olhavam apenas para a cor da pele e não para o coração.
Sentia que faltava alguma coisa no meio dos colegas, uma pessoa que iria rir e a chamar pelo seu nome e ouvir um sermão, ah sim… Arnold não havia voltado mais, ela suspirou com um semblante caído e frustrado.
Seu “atual namorado”, agora maduro e responsável, encostava no seu ombro direito, perguntando se Helga queria uma bebida, contudo acabou recusando.
Ambos os amigos estavam com o mesmo sentimento, a falta daquele “cabeça de bigorna” ainda os assustavam. Logo a Pataki observou a amiga sentada no sofá assistindo ao gameplay dos meninos bem indiferente ao lado de Lila e Rhonda. Helga sabia sobre nunca ter sido amigável com a ruiva e a morena, então sem pensar se aproximou da asiática, fazendo-a olhar para uma Helga preocupada, reparando que estava longe do namorado, assim como também estava seu.
— Phoebs, você viu o Gerald? — A loira demonstrava preocupação, com as mãos na cintura no meio do campo de visão das outras meninas que queriam ver a TV. — Ele está muito sozinho, só apareceu para nos receber.
— Gerald me disse que prefere ficar um pouco afastado até a festa acabar, mas para falar a verdade estou achando que deve ser algo referente ao Arnold — A asiática afirmou. — Gostaria de ajudar… Mas nunca passei por isso, ele nem ao menos ligou ou mandou lembranças.
Helga então entendeu, porém acabou fingindo como sempre faz, era melhor assim.
— O Arnold? Ah, por favor! — A loira fingiu um riso forçado. — Aquele cabeça de bigorna deve ter esquecido de nós, já se passaram três anos.
— Deixa de ser otária, Helga! — A ruiva esbravejou entrando na conversa. — O caso é sério, e você fica aí brincando com o problema?!
Numa fração de segundos Helga a interrompeu.
— Ninguém falou com você, Lila! — A Pataki rebateu. — O Arnold deve estar vivendo outra vida, ele nos abandonou, aceita! Desde a viagem para San Lorenzo, tudo mudou pra ele, deve tá feliz.
— Acontece que o Gerald está desanimado no próprio aniversário, um monte de idiotas ficaram o perseguindo e enchendo o saco dele e você fica brincando com a situação?! — Lila continuou a discussão. — Vê se cresce, esqueça o passado e respeite o problema emocional dos outros.
Lila não estava errada. Por mais que a garota virasse a amiga mais próxima do Shortman, ela sabia o quão Gerald era importante e especial para ele. Perder uma amizade dói e não é fácil superar tão depressa; nem telefone ou rede social sabiam se Arnold tinha na época, apenas o antigo telefone do cortiço em que morava com os avós, até hoje o casal de idosos viviam naquela residência.
Não houveram mais notícias recente sobre Arnold ou sua família, o garoto simplesmente sumiu do mapa, sem dar nenhum sinal de vida, ou sequer tinha rede social. A loira do laço de fita só tinha mágoas e ódio pela saída do garoto, seu coração acelerava ao ouvir seu nome, seus pulmões quase doíam pela respiração profunda, a raiva consumida a fazia perder o autocontrole muito rápido.
Helga pensou por um minuto: Gerald realmente deve compreender a solidão.
Se parasse para analisar, não estava contente com as palavras que dissera. A insegurança não parava de a perturbar, era chato e não fazia o menor sentido aquele loiro aparecer. Além do mais, entregou seu coração para alguém que nem sequer amava.
— Tem razão, Lila, talvez eu esteja passando dos limites, na verdade sei muito bem como ele se sente. Vou tentar falar com o ele. — Helga concluiu, logo limpando sua garganta e analisando melhor a situação.
— Você tem certeza disso? — Finalmente Phoebe havia se posicionado. — É melhor nesse assunto do que eu. — Ela não queria ser a péssima namorada para o moreno, portanto, ajudar não seria a melhor solução, ninguém conhece Arnold melhor que Helga, afinal ela era apaixonada pelo o loiro.
— Não se preocupe, irei ajudá-lo da melhor forma, confie em mim. – Disse a loira do laço de fita, saindo pelos fundos.
[...]
Helga não tinha tanta certeza se a conversa ajudaria, mas não a surpreendia ver todos afastados uns dos outros. Tanta inimizade. Isso a irritava profundamente, tinha que fazer alguma coisa imediatamente.
Em uma fração de segundos, sem nem piscar os olhos, ela já estava comprometida com outro rapaz Phoebe e Gerald estavam consertando o relacionamento. Em sua família, muito pior que antes, ela ouviu gritos pertubadores pela cozinha, Bob agredia sua esposa, apenas o braço de sua irmã mais velha a protegeu.
A Pataki suspirou enquanto andava pelo corredor da piscina, encarou um Johanssen cantarolando enquanto olhava seu reflexo na água. O garoto levou um susto ao ver Helga ao seu lado, sentada de penas cruzadas. Mas seu semblante caído fez com que ela se sentisse mais preocupada do que antes, sua consciência estava pesada.
— Oi, quer conversar? — A loira tentou puxar assunto com o amigo, vendo ele virar seu rosto diretamente para ela. — Se não quiser minha companhia, eu saio.
— Pode ficar, Pataki, pelo menos alguém de bom senso perto de mim. — O Johanssen jogou a cabeça para trás, levou as costas da mão ao rosto. — Só estou tentando esquecer do passado e da merda que cometi mais cedo no colégio, já deve estar sabendo, né?
— Não toda a história, o que aconteceu? — perguntou curiosa. — Alguém bateu em você?
— Dei um basta nos otários que me xingavam. — Admitiu. — Uns caras preconceituosos me menosprezavam por ser negro, o que a cor da minha pele causa nessa gente? Quando tentei me defender, fui para a diretoria — desabafou entre prantos. — Minha família não sabe, mas andei sofrendo bastante esse ano, minhas notas estão baixas, eu só vivo sendo humilhado e excluído, onde estão meus amigos? Eles simplesmente sumiram e me deixaram para trás, completamente sozinho nessa merda!
— Poxa… sinto muito por você, porém não deveria se chatear por isso, todo mundo ama você, inclusive sua família. — Ao ouvir o desabafo do amigo, sentiu uma pontada de arrependimento, ela não gostava de preconceito, achava Gerald lindo do jeito que sempre fora. — Minha família também não é nada comum. Meu pai é ganancioso e minha mãe só trabalha dentro de casa, mas… Mudando de assunto, o que quis dizer sobre… bem… o passado?
Gerald franziu a testa
— O Arnold, ele era meu melhor amigo, e infelizmente não está aqui comigo para me ajudar, parece que nem importante pra ele eu sou mais. — Esbravejou. — Não gosto de mendigar empatia das pessoas, só que perder alguém machuca e quanto mais a gente pensa na pessoa, mais ficamos perdidos, eu fico perdido...
— Eu não sou de mentir, entendo como se sente, sei como foi um bom amigo para o Arnold, que agora está morando em outro país. — O assunto estava se tornando um pouco tenso, a confiança de Helga não podia estragar o momento, ela queria ajudar. — Posso te contar um segredo?
— Pode!
— Eu amava-o, a vida inteira. Aquele beijo que dei nele na sexta série, foi melhor do que o primeiro. Sempre escondi essa paixão através do ódio e dos xingamentos, mas os meus problemas sempre vinham a mim, era horrível ser rejeitada por não ser a “feminina” e andar com os garotos. — Assim como Gerald, Helga também desabafou. — No entanto ele foi embora, me arrependo todos os dias, troquei ele pelo Stinky novamente e sinto que meus sentimentos por ele não acabaram e nunca vão acabar.
— Espera? Isso não é segredo — riu. — Sempre soubemos que era apaixonada pelo Arnold, já o Stinky, você namora por que gosta dele ou só finge gostar?
— Ele é incrível, mas… Parece que não tenho a mesma paixão recíproca, é difícil explicar, não importa! — suspirou. — O importante é que o passado já passou, estamos crescendo e vivendo outra vida, então e daí se você é diferente? Eu também sou e te acho lindo!
— L-Lindo? — gaguejou, sentindo o rosto ruborizar. — Obrigado, não sabia que era alguém tão sincera, está mudando mesmo.
— Só não conte para a Phoebs, ok? – riu de nervoso pelo elogio. — Mas, você é muito bonito, mesmo. Não ligue para a opinião dos outros, seja apenas você.
— Tudo bem, vou sim! — sorriu. — Porém, quanto a você ser rejeitada pela sua família, e também… estar comprometida com alguém que não ama, saiba que estarei aqui para qualquer problema, afinal, somos amigos. — O Moreno estendeu a mão esquerda para uma Helga constrangida. — Não, somos?
— S-Sim! obrigada por se preocupar comigo também. Promete não contar a ninguém sobre nossa conversa? — Ambos deram um aperto de mão e se abraçaram rapidamente. — Está melhor agora?
— Como você se preocupa! — O Sorriso de Johanssen mexeu com o coração daquela garota, sem ao menos saber, entretanto era errado se apaixonar por ele. Phoebe e Gerald sempre foram fiéis um ao outro. — Não vou contar o seu segredo, pode ficar tranquila! E parece que você me animou de algum modo. — Ao ouvir sua mãe lhe chamar, Gerald, teve que sair do local aonde estava relaxado. — Te vejo na hora de cortar o bolo, até daqui a pouco.
— Até!
Honestamente, ter uma leve queda pelo seu melhor amigo quase lhe fez enterrar sua cabeça em um buraco. A loira não se arrependeu de ter o ajudado, após aquilo muita coisa acabou mudando; sentiu uma leve atração pelo Gerald, só não sabia se era para valer ou apenas coisa do momento.
Querido Gerald Johanssen
(16/11/2012)
Acho que estou enlouquecendo. Desde o dia da sua festa de aniversário, não esqueço de nossa conversa. Mas acho errado ter que admitir esse sentimento por você, afinal, é meu amigo e namorado da minha melhor amiga. Isso estragaria o respeito e consideração que tenho por vocês. Convenhamos o quão eu me senti triste por você, Arnold era realmente uma pessoa incrível, nem acredito que aquele idiota do Cabeça de futebol, nos deixou e nem ao menos deu notícias. Ele agora deve ser um metido a popular e é capaz de até ter mudado o penteado e estilo de cabelo, nem quero imaginar, o assunto não é este, é outro.
O motivo de estar escrevendo essa carta é porque descobri que te acho um garoto inteligente e lindo. Você mudou bastante desde o fundamental, exceto seu gosto horrível para músicas e jogos de videogame, ou quando zoava da minha cara quando brincávamos na rua. E não ligue para a opinião dos outros, eles são uns otários preconceituosos que querem chamar atenção, sempre digo a Phoebe para te ajudar no que for preciso, espero que ela tenha recebido minhas dicas.
Queria viver feliz, igual a vocês dois. Sinceramente, nem acredito mais no amor, meu pai traiu minha mãe com a secretária dele novamente, isso me fez ver como os homens são uns imbecis, e para piorar mais ainda, Miriam está no hospital, Olga foi a única a estar ao lado dela, quanto a mim… me mantendo presa em meu quarto. Queria ter você aqui.
Você seria um ótimo conselheiro. Eu costumava ser rebelde, ser cautelosa com todos a minha volta, mas você me acalmou e agora todas as minhas emoções são por sua causa.
Ver você novamente sorrindo e rindo das besteiras que eu te disse naquela tarde de outubro, de algum modo me fez estar feliz depois de três anos sem o Arnold.
Você foi o único a nos ver beijando no passeio a San Lorenzo. Aquilo foi um romance comum de criança, entretanto para mim significou tudo.
Talvez não esteja apaixonada por você, eu gosto da sua companhia, estou confusa e não consigo dizer nada mais além disso.
Obrigada por me ouvir, me ajudar e me fazer pensar em você, espero que esse sentimento acabe, não é certo gostar de você.
Com amor, Helga Geraldine Pataki
[...]
O ensino médio começou um pouco avoado. Principalmente a mudança de salas e alunos, apareceram novatos de todos os tipos e a maior parte dos professores haviam mudado, tanto fisicamente e mentalmente. Helga estranhou estar perto daquelas pessoas, ou talvez tenha tido um ponto de vista diferente ao longo dos anos. A dupla de melhores amigas se aproximava pelos corredores da PS 118 como nos velhos tempos, atravessando a aglomeração.
Com o semblante curioso e atento pelos arredores, encontrou uma colega familiar acenando para ela, era Sheena, com um sorriso tímido no rosto para a Pataki.
Quando Helga olhou para frente, de repente se esbarrou com uma certa garota rebelde de cabelo preto chanel de bico e piercing no septo; Rhonda a ex amiga e também a atual namorada de Stinky, completamente diferente da pessoa que sempre fora, e aparentemente morrendo de ódio pela a garota ter esbarrado contra ela.
— Ei, olha por onde anda, Pataki! – A voz ríspida fez com que Helga se sentisse ameaçada. — Perdeu a noção do perigo?
Vocês devem estar se questionando novamente: por que Rhonda e Helga não se respeitavam ou nem eram amigas depois de anos? É uma história bem curta na verdade. Desde os nove anos de idade, Rhonda, sempre fora uma menina narcisista e dedicada ao universo fashionista. Por ser a menina mais popular do fundamental e pela grande vontade de imaginar, todos se vestiam iguais a ela.
Mas seu verdadeiro passatempo era deixar os outros para baixo — inclusive Pataki —, mas em um dia fatídico lembrou de nunca mais abaixar a cabeça para a ignorância de Wellington.
[...]
Tudo começou depois de um convite recusado para a “festa só para meninas”. Todas as garotas do bairro foram convidadas, no entanto, aquela loira que tanto desprezava tinha recusado, pensava ter sido alguma brincadeira de mal gosto. Pelo seu ódio, Pataki simplesmente começou a espalhar rumores sobre a colega bem arrumada. Ela só se enturmava com os meninos, não sobrava tempo algum para pensar em um dia onde chegaria a entender o lado feminino, era tudo bem mais complicado.
Helga de fato se sentia uma menina e era uma. Entretanto, ninguém a enxergava como uma “moça delicada”. As pessoas ao seu redor riam e falavam coisas horrendas sobre sua valentia e determinação, os meninos implicavam com ela, mas nada que um soco não resolvesse. Somente suas vestimentas mostravam o quão ela aparentava ser feminina por fora, mas não era pelo vestido rosa e o laço de cabeça que a definiam ser “padronizada”.
Por dentro, era uma mulher forte, corajosa e sincera. Naquela época fora impossível enxergar este comportamento, infelizmente teve que forçar a ser aquela “menina” que a sociedade impôs e reprimiu quem realmente era.
Como todas as meninas inocentes e comuns, Helga não soube mais o que fazer, então decidiu se interessar pelo mundo das garotas. Mas sua mãe não sabia como ensiná-la, só assistia televisão e seu pai muito menos, ele iria a humilhar. Já sua irmã morava em Minnesota. Helga não gostava de Olga, antigamente a primogênita da família sempre se mostrava superficial, nos dias atuais, Olga tinha vergonha de falar sobre seu passado.
Então com a decisão de se transformar em uma mulher de verdade, Pataki explorou o centro da cidade, gastou sua mesada guardada em perfumarias e todas as edições da revista Seventeen existentes; aquele seu dinheiro era para um novo livro que queria tanto: Alice através do espelho de Lewis Carroll, mas o descartou e substituiu seu sonho para uma farsa.
Os artigos das revistas adolescentes eram ridículos e pesados demais para a sua idade.
Desde quando uma garota feminina precisa se arrumar diariamente para impressionar quem ama? Isso não é considerado algo machista? Helga pensou consigo mesma diante das fotos daquela página.
— Artigo sobre beleza. – Trancada em seu banheiro de frente ao espelho, a pia se preenchia com diversos batons, blushes, rímel, paleta de sombras. A jovem gemia de dor por causa da pinça que arrancava os pelos de sua grossa sobrancelha. Até arriscou depilar suas pernas com cera quente; havia sido doloroso. Se olhava igual se olha para um pedaço de carne de vestido tubo colado ao corpo, seus seios encheram-se de papéis debaixo do top justo e o cabelo bem penteado cheio de laquê.
Pataki se transformou em uma garota que ela nunca aceitaria. Os sapatos de salto eram desconfortáveis e o lápis de olho incomodava suas pálpebras. Aquela experiência nunca mais iria se repetir, não aguentaria uma segunda vez.
Ao destrancar a porta, Miriam encontrou Helga toda enfeitada, estava esperando o banheiro ficar livre para que seu marido fosse tomar banho. Pelo susto a mulher quase desmaiou, a filha ignorou a cena, seguiu em frente para pegar sua bolsa vermelha de plástico, ela não disse uma palavra.
Encontrou vários meninos boquiabertos, o novo visual chamou muito a atenção deles, até seus amigos mais queridos estranharam. "Helga estava agindo como uma garota."
Apesar das brincadeiras, o resultado não saiu como o esperado. Arnold mostrou estranheza, aquela não era quem ele estava acostumado a encarar.
Depois da caminhada longa até a residência da colega, a loirinha do laço de fita, bateu na porta, chamando seu nome com uma voz duvidosa. Quando a morena abriu e encarou um sorriso torto nos lábios dela, as convidadas pararam de se maquiar, pintar as unhas, entre outras coisas. Todas congelaram ao reparar na mudança física de Helga; aquele rosto tão lindo agora ficou enfeitado pela maquiagem, parecia uma boneca de edição limitada, até que Pataki se ofendeu, ainda não se achava linda perto delas.
— O que você está fazendo aqui? — Rhonda pôs as mãos na cintura, olhava para Helga com desdém. — Você mesma recusou o meu convite. Nem ouse entrar!
A morena tentou se afastar, mas desistiu ao receber um beijo na bochecha.
— Desculpem, garotas, me atrasei? — Com um riso medonho junto ao sorriso cínico, a loira dos olhos castanhos aproximou-se da cadeira mais próxima, sentando-se perto das demais. — Eu andei ocupada, como de praxe, tive que arrumar meu quarto.
— Oh, Helga, você está passando bem? — Rhonda novamente retrucou. — Deixarei você ficar, pelo visto não tenho escolha, já que você é uma garota. — Bufou, voltando para seu lugar.
— Pensei que tinha recusado o convite dela. — Phoebe cochichou. — Por que a mudança rápida? Você odeia maquiagem, sabe disso melhor que eu.
— Phoebs, meu amorzinho, estou maravilhosamente bem. Sou a nova Helga Geraldine Pataki, lembre-se do ditado: quem vive de passado é museu! — As palavras em sua boca soavam como uma piada, as meninas não se contentaram a crise de risos. — Não me acha bonita?
— Infelizmente tenho que discordar. — A japonesa ergueu a sobrancelha. — Gostava da antiga Helga, aquela que pelo menos era honesta e não chamava atenção dos outros. Essa sua atuação de patricinha chega a ser vergonhosa.
Então ela percebeu que Phoebe não era de mentir. A farsa de tentar enganar alguém pela aparência, estava fora de questão. O que tinha dado errado?
— É, você tem razão… — sussurrou aos ouvidos da melhor amiga. — Talvez eu tenha ido longe demais.
— Quer se maquiar ou sair daqui? — Rhonda interrompeu o assunto entre as duas meninas, chegando maldosa perto de Pataki. — Se quiser, tenho este lindo batom vermelho, dizem que é mágico. — A provocação passava dos limites, a morena mexia no batom perto do rosto medroso de Helga, que faltava suar pelo nervosismo. — É de marca!
— Bom, posso te ajudar. Tenho esse esmalte rosa, é das meninas super poderosas! — Sheena não notou que o plano de Rhonda era provocá-la, ela nem falava muito com as meninas. Tinha cabelos castanhos claros e belos olhos ônix. Não deixaria ser manipulada pela dona da casa. — Gostou?
— Ou que tal este creme para rugas? — Uma outra se aproximou, cheia de creme na cara, parecendo um quadro abstrato. Pataki quase perdeu a paciência naquele momento, isso com certeza estava indo longe demais.
Elas só tinham nove anos de idade, como assim se importavam com rugas, tintas de cabelo, esmaltes chamativos e depilação?
Todos ao seu redor seguiam os mandamentos de Rhonda de forma tão natural. Vozes entravam por sua cabeça, falando para ela usar esmalte, creme, batom. Sua mente parecia estar prestes a explodir. Sem aguentar mais aquela loucura, Helga deu um grito fino, desmanchou o penteado, arrancou os papéis embaixo da roupa, borrou a maquiagem e se atreveu a jogar a nécessaire de Nadine para longe.
— Chega! — levantou-se, batendo os pés com muita força no chão. — Vocês não percebem o que estamos fazendo? Estão se produzindo, por quê? — Berrou, sem perceber a raiva em seu peito.
— Sabia que tinha mentido esse tempo todo. Você não é uma de nós! — A mais velha respondeu sarcástica, junto com as amigas aterrorizadas ao seu lado.
— Tem razão, Rhonda! — Helga por fim deu seu melhor argumento. — Honestamente esperava coisas melhores vindas de vocês. Olhem para nós, tinta no cabelo, máscara no rosto, esmaltes feios e escandalosos nas unhas, que chato! — riu. — Por que estamos sendo dependentes dessas porcarias? Somos melhores que os garotos, estamos na melhor idade da vida, melhor idade para sermos quem somos, afinal temos nove anos. Deveríamos nos divertir!
— Ela está certa! — Phoebe se admirou com as palavras dela, essa era a Helga que tanto amava. — Não precisamos disso. Machuca, irrita e incomoda. Somos meninas comuns e quero sair desse lugar sem me sentir esquisita ao redor dos outros.
Todas as meninas se reuniram ao lado de Helga e Phoebe, o argumento era sensato e bem construído. Ele fez todas verem como Rhonda estava errada e isso fez com que não fosse mais respeitada como antes. Passou a festa sozinha, sem nenhuma amiga sequer para defendê-la ou ficar ao lado dela.
— Podem sair da minha casa! Me arrependo de ter feito essa festa, mesmo. Só converso com garotas, não mulambentas hipócritas! — disse com grosseria.
— Então converse com si mesma!
[...]
E foi assim que a rivalidade entre ambas as garotas nasceu. Embora tenham outras vidas e tiveram outras mudanças, não se entendiam bem desde a briga; a morena se adaptou a um novo estilo e a nova personalidade.
Da fama de popular para uma vocalista de banda hard-rock da garagem dos pais, sempre de saias, meia arrastão, a clássica camiseta do álbum Master Of Puppets do Metallica, jaqueta de couro com bottons e os coturnos militares nos pés.
Helga a olhou de cima á baixo, dando um pequeno ar invejoso.
— Relaxa, foi um acidente. Como se eu quisesse tombar contigo sem querer, por aí. — Helga cruzou os braços encarando-a diretamente, com sarcasmo e ironia. — Vai para um cemitério, vestida assim?
— Falando sobre o estilo das minhas roupas. Não é da sua conta! — Rhonda rebateu. — Lindo os tênis, para uma ultrapassada que veste esse vestido rosa brega. — Encarou os calçados da colega, rindo debochada.
— Obrigada pelo elogio de merda, mas tenho coisas a fazer. — A dos cabelos longos virou para frente abrindo seu armário, quando sentiu a japonesa cutucar seu ombro esquerdo, reparando no ex namorado abraçando a atual.
Ele também não havia mudado nada, o mesmo roqueiro de sempre, com aquela camiseta marrom, calças rasgadas, perfume forte e o cabelo arrepiado para trás. Perto de Rhonda ele estava igual ao um jogador de basquete.
— E aí? — O garoto punk tentou cumprimentar Pataki. Se ele falasse da carta que recebeu, levaria um soco ali mesmo e preferia evitar isso no momento. — Curtiu o verão?
Stinky não era alguém de guardar rancor, também estava decepcionado por ela ter terminado com ele, não se falavam desde o ocorrido no ano passado.
Sabia que Jimmy, ou melhor James Ryan era uma paixão platônica, mas a cabeça da mais nova não pensava tanto nele assim, só pensava em Arnold.
Helga não resistiu ao rubor em suas bochechas, ele ficava lindo quando ajeitava o cabelo, era irresistível. Sua queda por ele não tinha acabado fielmente, contudo não pôde trocar nenhuma palavra com o ex-namorado, Rhonda além de sarcástica, tinha jeito de ser bem ciumenta e possessiva.
— S-Sim — gaguejou. — Estamos atrasadas, não quero levar bronca no primeiro dia de aula, tchau! — Pela ansiedade nítida, puxou as mãos da asiática, correndo para outro corredor.
Phoebe sem entender nada, decidiu acalmar sua melhor amiga.
— Está vendo, só? Ainda gosta dele! — Phoebe soltou uma risada pequena vendo o semblante nervoso da loira. — Eu te disse sobre como é complicado os garotos, deu para perceber o jeito como falou mais cedo, você não esconde isso tão bem.
— Eu sei, Phoebe, acontece que… — O sinal da primeira aula tocou e os alunos começaram a entrar nas salas. — Deixa pra lá.
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