Serena, 12 anos
Foi tudo muito rápido: Em um momento eu corria atrás de meu irmão, brincando com ele. No outro eu senti uma forte pancada na lateral de meu corpo, como se todos os meus órgãos estivessem sendo empurrados.
Fui cegada por um clarão.
E depois escuro. Tudo escuro.
Acordei em uma caixa. Não conseguia falar, muito menos gritar. De repente a caixa foi aberta e vi que estava num lugar escuro e havia uma figura semelhante a uma pessoa ao meu lado.
Ela estendeu a mão e me ajudou a levantar. Sua mão era fria como uma manhã de inverno. Tentei focar minha visão é só consegui ver uma coisa.
Chifres.
Corri como uma ladra um fuga, sem nem prestar atenção aonde estava indo. Depois de alguns minutos reconheci uma rua, e segui por um caminho que eu conhecia bem.
O caminho da minha casa.
E então perdi a consciência, como se algo tivesse entrado em mim.

Victor, 14 anos
Dois dias após a morte da minha irmã, Serena, meus pais foram passar alguns dias na casa de meus avós. Fiquei cuidando da casa, sozinho.
Aquela pirralha, quando chegou eu a odiei com todas as minhas forças. Mas depois que ela cresceu ela virou minha amiga, minha princesinha. Ela tão bonita, loira, e seus olhos, meu Deus, eram de um azul tão claro que você podia ver o céu refletido nele, mesmo numa noite escura. E era doce, se preocupava com os outros, era corajosa e inteligente como eu nunca fui.
Entrei em seu quarto, relembrando os momentos de diversão com toda a família, as brigas, as brincadeiras...
Em cima da mesa, peguei sua boneca preferida, uma réplica personalizada de si mesma, que a nossa tia deu a ela em seu aniversário de nove anos. E chorei, porque minha única verdadeira amiga agora estava morta.
E então eu ouvi.
Algo batendo no portão.
Fui me aproximando cautelosamente. Eu vi, cabelos dourados por cima do portão e corri para abri-lo. Minha irmã estava de volta!
Me arrependi no momento em que a olhei. Seus olhos outrora azuis agora eram negros como uma noite trágica, sua pele estava pútrida e seu quadril estava esmagado no lado esquerdo, assim como sua mão esquerda. Ela se aproximou de mime sussurrou em meu ouvido:
-Va... mos... brin... car... ma... ninho?
E tremendo, respondi:
-De que?
-Esconde... esconde...
Saí correndo sem me importar com o fato de que havia empurrado aquilo que parecia minha irmã. Entrei dentro de casa e fechei a porta.
Ela se levantou rapidamente e correu até a porta.
-ABREEEEE -Berrou
Corri para o cômodo mais próximo, a sala, e me escondi embaixo de uma mesa.
De repente um estrondo, ela quebrara a porta. Enquanto isso eu rezava silenciosamente. Eu a ouvi dizer algo como "lá vou eu" e depois "apareça maninho, não adianta fugir de mim."
Eu a ouvi fungar algumas vezes e depois
A mesa em que eu estava escondido voou sobre minha cabeça.
Corri como se não houvesse amanhã, subi as escadas com minha irmã apenas dois degraus abaixo de mim. Quanto cheguei no topo me virei e dei um chute nela, que saiu rolando escada abaixo.
Me tranquei no meu quarto e fechei as janelas, empurrei os móveis para a porta e rezei com todas as minhas forças para que fosse apenas um sonho.
Enquanto isso ouvi os passos.
Subindo a escada.
No corredor.
E então
Ela começou a chorar.
-Maninho... Desculpa, eu não queria te machucar... Eu estava tão sozinha...
Abri a porta lentamente. Ela me abraçou. E então eu lembrei. Garotas mortas não choram.

3 dias depois
Na televisão, a repórter diz: "O caso do suicídio de Victor foi concluído. Ele foi encontrado na noite de quinta-feira, os pulsos com cortes de quase 40cm ao lado do cadáver de sua irmã. O garoto de 14 anos entrou em depressão após a morte da irmã, Serena, num acidente de carro. Ele desenterrou o corpo da garota, levou-o para casa e suicidou-se em seguida. A polícia suspeita que vândalos entraram na casa, logo após o suicídio dele e destruíram alguns móveis"
Antes de morrer, Serena viu algo intrigante. O motorista do carro.
Tinha chifres.

Notas finais
Muito obrigado a quem leu. Se quiser mais um capítulo, favorita e comenta por favor :v
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!