Let me know
20 Plano: parte um
Notas iniciais
— Senhorita Dupain-Cheng, trago boas notícias. — Anunciou a enfermeira da manhã, logo que entrou no quarto. — Terá alta hoje! Eu acho que, no tempo em que trabalhei aqui neste hospital, você é a garota mais abençoada.
Marinette teria pulado da cama, mas se segurou não fazer isso. Ainda tinha que fingir que sentia alguma dor. Já era estranho para os médicos ela estar se curando rápido, não precisava mostrar que na verdade já estava totalmente bem. Pelo menos fisicamente.
— Seus pais estão assinando os papéis e o doutor já deve subir para dar a alta. — A enfermeira anotou algumas coisas na folha que trazia, depois voltou os olhos para a menina. — Está tudo bem?
— Sim, estou apenas preocupada com um amigo. — Respondeu, balançando a cabeça.
— Adrien Agreste?
Marinette tomou um susto, quase engasgando de surpresa.
— Aconteceu alguma coisa com o Adrien? — Perguntou, dessa vez querendo mesmo sair da cama.
— Ele está desaparecido desde a manhã anterior, quando teve aquele ataque na escola onde estuda. — A mulher disse, o rosto preocupado e triste, como se aquilo realmente pesasse nela. — Achei que soubesse. Está nos noticiários.
— Não, não era com o Adrien, mas agora... — A menina levou a mão ao peito.
— Não queria preocupar você, Marinette. Peço desculpas.
— O quê? Não, eu agradeço. Quer dizer, isso é preocupante, precisava saber. Meus pais evitariam me dizer isso a todo custo. — Respondeu baixando os olhos e tentando manter a respiração calma.
Quando a enfermeira saiu do quarto, Tikki apareceu.
— Tikki, Adrien desapareceu! Preciso fazer algo. — Marinette levantou da cama e começou a andar pelo quarto, nervosa, procurando uma ideia que fosse melhor que sair por Paris gritando pelo garoto.
Sua cabeça doía. Havia passado a noite em claro, preocupada com Chat Noir. Seus olhos pesavam de sono, mas a notícia de que Adrien estava desaparecido tinha dado uma energia extra a seu cérebro, fazendo-a ficar inquieta e desperta.
— Ai, Marinette, espero que esteja tudo bem! Tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo! — Tikki flutuava tão inquieta pelo quarto quanto Marinette andava.
— Precisamos fazer algo! Pensar em algo! — A menina disse, aflita, buscando alguma ideia que a ajudasse.
— Com quem estava falando? — Sabine entrou no quarto.
Tikki desapareceu. Marinette sentou-se na cama e forçou um sorriso.
— Ninguém, ué! Só estou... Ansiosa para ir pra casa. — Respondeu, sentindo o rosto esquentar de vergonha por mentir tão na cara para sua mãe.
Não que Marinette não estivesse ansiosa para voltar para casa, mas Adrien agora era a prioridade. Na primeira oportunidade que tivesse, Ladybug iria correndo procurar por ele. E em seguida buscaria notícias sobre Chat Noir.
— É tão bom ter você de volta. — Sua mãe disse, sentando-se ao seu lado na cama e pegando sua mão. — Saber que logo estará no seu quarto, lá em casa... De volta na padaria. Todos sentiram sua falta.
— Eu sei, mãe. — A menina respondeu de coração, apertando os dedos da mãe entre os seus.
A senhora Chang sorriu para a filha. Então sua atenção foi atraída para a janela e então o sorriso se espalhou mais ainda.
— Parece que você tem visita. — Disse, apontando com a cabeça para a janela.
Com o coração disparado, e já sabendo quem era, Marinette virou-se ansiosa e aliviada para olhar Chat Noir pular para dentro do quarto.
— Eu... Olá, senhora. — Curvou-se para a senhora Chang, todo educado, parecendo um pouco desconfortável.
— Chat Noir, gostaria de agradecer. — A senhora Chang não tirava o sorriso do rosto. — Você trouxe minha filha de volta ao lar.
— Não fiz nada demais. — O gato sorriu, desviando os olhos para Marinette por um segundo. — É meu dever...
Foi interrompido pelos braços da senhora Chang o abraçando apertado. Marinette riu da cara do garoto. Nunca tinha visto seu amigo tão sem reação.
— Vou deixar vocês conversarem. — Disse a mulher, se afastando de Chat Noir. — Mais uma vez, obrigada.
Chat Noir curvou-se novamente antes que a senhora Cheng deixasse o quarto.
— Então... Eu vou receber alta... — Marinette começou, incerta do que falar.
Ele ficou um tempo parado, apenas olhando para a menina, e ela, diferente do que normalmente faria, o encarou de volta, sentindo algo no fundo do estomago. Uma sensação estranha e familiar que ela não soube explicar.
Chat Noir parecia tão abatido, mesmo com a máscara escondendo quase todo o rosto, que ela quis perguntar qual o problema. Mas não o fez. Não queria piorar a tormenta que via em seus olhos.
— Precisamos conversar. — Disse ele, soltando o ar devagar.
Marinette gelou. Chat Noir parecia carregar um peso enorme nas costas e, de repente, antes mesmo que ele dissesse qualquer coisa, ela sentiu como se parte daquele peso caísse sobre seus ombros. Porque ela sabia que alguma coisa não estava certa.
— Conversar...? — Era mais uma pergunta para se ganhar tempo. Ela não queria realmente conversar naquele momento, porque tinha medo.
O gato assentiu, comprimindo os lábios e desviando o olhar para o chão. Levou a mão ao rosto, apertando a ponte do nariz. Outro suspiro pesado escapou de sua boca com um sopro. Então ele ergueu os olhos para a garota.
— Eu sei que não é o melhor momento, mas você é a única que pode me ajudar.
***
Alya estava debruçada sobre as folhas que havia imprimido na escola, analisando e revisando seu plano novamente. Cada vez que olhava, parecia encontrar algum obstáculo novo e mais complexo. Sua conversa com Marinette havia surtido um efeito contrário ao que ela desejava. A coragem que antes transbordava agora parecia ter caído pela metade, mas ela não desistiria. Pegou umas anotações que havia feito e releu. A melhor entrada e a única realmente segura era a das Catacumbas, mas para entrar lá precisaria de uma distração. De algo grande.
Com um pulo, ficou de pé e procurou o celular debaixo dos papéis que estavam sobre sua cama. Olhou as horas e verificou as mensagens. Nada realmente importante. Sua mente trabalhava no problema principal e, com o raciocínio rápido que tinha, Alya achou algo. Foi como se uma luz tivesse se acendido bem no cantinho onde as ideias são criadas.
Era um plano ousado. Não sabia se daria certo, mas podia pelo menos tentar.
***
A entrada do Hotel Bourgeois estava mais uma vez apinhada de paparazzis, mesmo sendo pouco mais das dez da manhã. Alya precisou se esgueirar e empurrar alguns deles para finalmente conseguir chegar nas enormes portas de vidro, protegidas por dois seguranças que tentavam impedir a invasão.
— Bom dia, senhores! Estou aqui para ver Chloé Bourgeois. Sou da turma dela e vamos fazer um trabalho juntas. — Alya apoiou as mãos na cintura e esperou os guardas responderem.
O guarda da direita falou algo no fone de ouvido, então deu passagem para que Alya entrasse. O saguão luxuoso estava quase deserto. Algumas pessoas estavam fazendo check-in na recepção e só havia um segurança na entrada do elevador. Alya andou tranquilamente naquela direção. O segurança apenas lançou um olhar para Alya enquanto ela esperava pacientemente o elevador descer.
Assim que as portas de metal se abriram, a garota se surpreendeu ao ver Chloe e Sabrina.
— Alya Césaire. — Chloe Bourgeois saiu do elevador, cruzou os braços e a olhou dos pés à cabeça. — Então veio fazer um trabalho comigo?
Alya sorriu amarelo para as duas garotas. Sabrina piscou, então olhou de Alya para Chloe.
— Achei que você sempre faria trabalhos escolares comigo. — A ruiva falou, piscando sem parar.
Chloe bufou e revirou os olhos, mas logo em seguida pareceu hesitar. Com uma calma calculada e, para Alya, totalmente estranha, ela descruzou os braços, apoiou uma mão no braço da amiga e sorriu. E não era um sorriso cínico, que surpreendeu tanto Alya quanto Sabrina.
— E vamos, sim, Sabrina. — Disse complacente. — Não se preocupe. Ei, eu esqueci meu celular no quarto, você pode...
— Sim! Eu pego pra você. — Sabrina deu um pulinho e voltou para dentro do elevador.
Quando as portas se fecharam, Chloe voltou a atenção para Alya. Dessa vez não sorria.
— O que você quer? — Perguntou de forma quase ríspida, voltando a cruzar os braços.
— Preciso da sua ajuda com uma coisa. — Alya olhou ao redor, mas ninguém parecia prestar atenção nas duas, mesmo assim, puxou Chloe pelo braço para perto da enorme escadaria, longe de qualquer outra pessoa presente no saguão. — Você consegue uma autorização para que eu possa entrar nas Catacumbas de Paris sozinha?
Chloe abriu a boca e ergueu um dedo, como se pedisse um tempo. Fechou e voltou a abrir novamente.
— Como assim? Calma, é só isso? — Perguntou, ainda com o dedo parado no ar e o queixo erguido, pensativa e curiosa.
Alya deu de ombros.
— Sim, é um projeto novo, sabe? Olha, Chloe, sei que não nos damos muito bem, mas eu preciso ajudar uma... Amiga. — Alya se aproximou do ouvido de Chloe. — Rena Rouge.
Chloe se afastou e semicerrou os olhos para a garota.
— Rena Rouge? Sério? — A descrença era nítida no olhar da loira. — Não vou fazer perguntas, já acho seu pedido estranho o suficiente, mas o que eu ganho com isso?
— Hum, bem, um autografo da Rena Rouge? — Forçou um sorriso que não durou muito. — O que você quiser, Chloe.
— Certo, eu faço isso. — Sorriu desafiadora. Alya realmente pareceu ver os olhos de Chloe brilharem com a possibilidade de ter o que quisesse dela. — Quero ir com você nesse... Seja lá o que você queira naquele lugarzinho horrível. De acordo?
— Humm... — Alya franziu o cenho. Queria muito negar, mas conhecia Chloe. Sabia que era oito ou oitenta e, naquele momento de hesitação antes da resposta, Alya viu Nino em suas lembranças. — De acordo.
As duas garotas fizeram menção de apertar as mãos, mas o elevador anunciou a chegada no térreo e Sabrina saiu procurando a amiga. Alya abaixou a mão, assim como Chloe, mas assentiram uma para a outra.
***
Alya saiu do Hotel desviando dos paparazzis com outra parte do plano já em mente. Precisaria de um mapa mais detalhado do subsolo da cidade, não apenas de uma parte dele. Ela também pensava no que havia acabado de concordar. Era algo perigoso que poderia colocar bem mais que sua própria identidade em perigo, mas ela faria aquilo por Nino. Tanto fazia se descobrissem que era a Rena Rouge, contanto que o achassem.
Virou a esquina e encontrou sua bicicleta do jeito que havia deixado. Logo estava pedalando pelas ruas, desviando de pedestres, subindo e descendo calçadas apinhadas de pombos. O peito estava cheio de ar. O coração pulsava acelerado com o exercício, mas aquilo era bom. Limpava momentaneamente os pensamentos ruins e imagens que sua mente criava de Nino sofrendo sem que ninguém pudesse ajudar.
Alya colocou na cabeça que o encontraria. Sendo ela mesma ou sendo Rena Rouge.
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