Let it be
10 Não sou uma boa garota!
Notas iniciais
Sentei na minha cadeira, com os olhos esbugalhados. Ah, não, isso não podia estar acontecendo. A Marina, que agora senta ao meu lado na sala de aula, perguntou se eu estava me sentindo bem. Respondi “longe disso”. Pude ver que ela havia tirado nove e meio na prova de história. E eu fiquei com quatro ponto sete! Quatro ponto sete! Quase um quatro e meio, e eu havia estudado tanto. Tudo bem,é mentira. Eu estava tão preocupada com matemática que me esqueci de história. Tirei seis e meio em matemática. Ou seja, terei que fazer recuperação de matemática, história, física e biologia. É. Eu também fiquei em física e biologia. Vou ter que me matar de estudar, isso se meus pais não me matarem antes. A média da escola é 7.5, e eu nunca a considerei alta. Era normal. Era.
– Quanto você tirou? – a Marina perguntou, animada. Ela estava com os cabelos presos em dois rabos de cavalo laterais.
– Não é da sua conta! – dobrei a prova e a guardei na bolsa.
– Foi muito baixa?
– Ai, Mari, vai catar coquinho!
Acho que ela ficou chateada. Mas pelo menos eu a chamei por um apelido. Resolvi pedir desculpas. Sim, vai que eu precise dela um dia. Não quero que ela me empurre de um penhasco ou mande um palhaço me matar. Quero que ela me ajude quando um palhaço tentar me matar. A Marina não respondeu nada quando eu disse “foi mal, só estou com raiva porque tirei uma nota ruim.”. Ela não disse nada, nem mesmo um “tudo bem”. Então, na hora do recreio, decidi fazer uma boa ação. Fui até onde o Jake, o Luan e o Gabriel estavam.
– Oi meninos! Vocês não querem sentar com a gente? – apontei para o lugar onde a Marina e a Isabel estavam, numa mesa da cantina.
– Nós... Adoraríamos. – o Luan respondeu. Pelo que sei, a Marina é gamadinha nele desde a segunda série do fundamental, mas nunca teve coragem de dizer sequer um oi para o garoto. Já o Gabriel combina com a Isabel (até rima!), os dois são fofinhos, tipo ursos polares. Os meninos foram andando comigo até a cantina. Chegamos lá, e as meninas estavam tipo “oi? Alguém explica o que ta rolando?”.
– Bel, Mari! Então, o Luan e o Gabriel vieram ficar com a gente. – sabia que elas gritariam comigo depois, mas tentei expor a situação do jeito mais doce possível. – Eu e o Jake vamos dar uma voltinha pela escola.
Puxei o Jake pelo braço, e pelo canto dos olhos pude ver que as minhas garotas estavam se socializando. Fiquei orgulhosa. No período das provas, e mesmo depois delas, passei a ter uma relação melhor com a Marina e a Isabel, já que minhas ex-amigas realmente pararam de falar comigo. Eu tinha algumas conversas breves com o Jake de vez em quando, e eu estava até o considerando legalzinho.
– Então você gosta de formar casais. Começou com a Athena e o Luis...
– Na verdade, a Athena e o garoto ruivo fluíram sem minha intervenção.
– Bem, que eu saiba, ele estava te procurando para conversar sobre a Athena.
– Sério, deve estar estampado na minha cara ‘está apaixonado? Fale comigo, posso ajudar você. ’. Não entendo... Todo mundo requer aos meus serviços de cupida.
– Talvez seja porque no fundo todo mundo sabe que você é uma boa garota. – soltei uma risadinha falsa (tipo um “há.”) e lhe dei um beliscão no braço.
– Não sou uma boa garota! – exclamei, enquanto ele retribuía o beliscão, só que na minha cintura. Fiz uma cara feia e saí andando na sua frente. Peguei meu celular, meus fones e comecei a ouvir A wish comes true everyday, da Deby Ryan, sinalizando que agora eu só queria ficar sozinha ouvindo música, mas o Jake não deu atenção. Ele roubou um dos meus fones e começou a ouvir a música junto comigo. – Ei!
– Gosta mesmo disso?
– Sim, gosto. É do filme dezesseis desejos. A Deby Ryan é incrível. Quer dizer, ela tem músicas ótimas, um cabelo perfeito e gravou um clipe tãooooo fofinho para uma música da banda A Rocket To The Moon! A música, do clipe, se chama Ever Enough, que significa “sempre o suficiente”. Não tenho no meu celular e estou sem wi-fi, mas você pode procurar na internet quando chegar em casa.
– Tudo bem. Então pesquisa uma música você também. Somethig, dos Beatles. Já ouviu falar?
– Da música não. Espero que seja boa. Caso contrário, te estrangulo amanhã mesmo. Por me fazer perder tempo.
Ele riu, e eu fui atrás da Marina e da Isabel. As duas estavam ainda coversando com os garotos.
* **
Meu celular apitou, sinalizando que havia uma nova mensagem. Peguei-me desejando que fosse do Jake. Eu ouvi a música, e gostei. Era apenas isso. Somente. A música. Apenas. Mas não era do Jake, a mensagem na verdade era de ninguém mais ninguém menos que o Bruno. Tentei me controlar. Porém, quando li a mensagem pulei da cama e comecei a saltitar e dar gritinhos.
“Oi, Alice. Lembra-se daquela voltinha que eu tinha te prometido? Você quer fazer alguma coisa amanhã? Beijos, Bruno.”.
Ok, o Bruno tem um namorado e tudo mais, mas... Sei lá, ele podia ter virado a casaca. E ele é uma ótima compainha, gay ou não. Além de limpar minha vista. Esperei uns cinco minutos para responder, faz parte do meu charme.
“Hum... Acho que estou desocupada amanhã. Pode ser.”
Se eu dissesse “sim, é claro”, poderia parecer fácil de mais. Não quero parecer fácil demais. Nem sequer mandei um beijo. Ele tem que ficar desejando meu beijo. Dicas de namoro da tia Alice, apenas cem reais a hora. Acho que vou fazer cartazes.
“Legal! Te pego às três, princesa.”
“Até amanhã, bruno. Boa Noite,”.
“Boa noite.”
Ai meus duendes!
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