Notas iniciais
Fui adoravelmente convidada a participar desta empreitada natalina! É a minha primeira One-Shot. Espero que gostem! Rachel Berry é forçada a ir para Lima no Natal após cometer atos impróprios para uma diva da Broadway, cinema e música. Enquanto se prepara para uma viagem aborrecida e sem perspectiva, uma passageira um pouco ébria despenca ao seu lado. Então, tudo o que Rachel Berry pensou antes sobre sua vida, o desejo, a amizade e o amor tomam contornos distintos dos até então conhecidos. Uma noite encantada… Um presente de Natal?

Respirou fundo.

Desde quando, mesmo, começou a dar ouvidos a sua agente? Claro, desde que ela lhe disse que precisava descansar, pois o estresse da vida corrida de diva pop a estava tornando antipática diante da mídia e dos fãs. Só porque perdeu a cabeça uma vez… Duas vezes, na verdade. A primeira, quando um famoso entrevistador perguntou a razão porque não conseguia manter um relacionamento estável e se isso era por causa da morte de seu namoradinho de escola. Como ele ousou chamar o homem com quem se casaria, que seria o pai de seus filhos, de namoradinho? Finn foi muito mais do que isso! Era certo que estavam afastados quando ele se foi, mas havia um acordo silencioso entre eles. Ela seria a grande estrela da Broadway e ele o seu eterno e enamorado consorte, a esperá-la. Mas o destino… Este não acolhe nossos planos. Ele apenas os tolhe ou deixa vingar… Em seu caso, ela barganhou. Como se tivesse feito um acordo com o diabo, perdeu o amor, porém conheceu a fama. Era uma das maiores fortalezas do show business! Um investimento seguro. Enfim, ela mandou o entrevistador à merda, com todas as letras e sonoridade que tal desejo pode ter, e de maneira muito afinada. Claro! Rachel Berry não desafinava nem xingando!

A segunda vez foi quando uma fã a agarrou, literalmente, e tentou lhe dar uma “bitoca”! Um selinho! Como ela poderia reagir, se não empurrando a louca ensandecida que ousava tocar seus lábios com aquele bico pintado com um batom rosa de brilho duvidoso? Era culpada por se defender?

Agora, estava ali, na primeira classe, à espera do voo que a levaria a Ohio e de lá até Lima, onde descansaria uns dias com os pais e participaria de um encontro de Natal com os antigos colegas do Glee Clube.

Olhou para Sarah, sua agente, que não parava de falar ao celular, ao mesmo tempo em que olhava o relógio para garantir que a sua estrela não pegaria um outro voo para um lugar que estivesse fora de seu alcance.

Suspirou.

Pensou nos antigos colegas.

Santana e Brittany estavam casadas e morando em Los Angeles, onde a latina empresariava a esposa, bailarina requisitada por grandes artistas da música pop. Inclusive pela própria Rachel Berry, que a teve em destaque em sua última turnê. E foi fantástico! Entendeu porque a loira era tão solicitada! Ela era um show dentro do show!

Kurt e Blaine também estavam envolvidos com o mundo artístico: Kurt era um dos melhores artistas da Broadway, junto com ela, claro! E Blaine era produtor musical. Foi ele que produziu, inclusive, o segundo CD de Mercedes que, finalmente, encontrou, também, o reconhecimento. Da crítica, mas não do público. Enquanto era endeusado como uma das grandes obras do Rhythm and Blues, ficava encalhado nas prateleiras das lojas especializadas.

“Deve ser frustrante…”, pensou em murmúrio.

Sam tentou se aproximar da diva renegada pelo público, mas não teve muito sucesso. Provavelmente ela estava amargurada. Não deveria estar disposta a um relacionamento, aventou.

O Sr. Schuester ainda estava no McKinley, após peregrinar por algumas outras escolas, depois que Sue Sylvester se tornou diretora do colégio. Porém, por alguma obra do – às vezes – insensato destino, alguma coisa, que não sabia o que era, aconteceu e acabou por aproximar os dois professores que ergueram uma bandeira de paz e conviviam em harmonia. Ele no Clube Glee e ela levando o Ginásio a mãos de ferro.

Artie estava no Reino Unido, participando de um programa de talentos e também atuava como produtor musical e levou um pouco da sua experiência em musicais, adquirido no Clube Glee e por uma temporada no shows Off Broadway, para os teatros ingleses. Era querido por lá.

Não sabia de Tina e Mike.

E não sabia de Quinn Fabray, exceto que estava casada com Noah.

Suspirou. Como uma garota como Quinn Fabray se contentou com um casamento? Ela era tão linda… Faria um sucesso enorme no cinema… Poderia ser carismática se quisesse. Na realidade, desde que engravidou de Beth, aos dezesseis, e precisou abrir mão da filha, Quinn amadureceu. Ela precisou amadurecer. Ainda que tivesse aquela aura magnética que, ao mesmo tempo em que atraia os olhares, repelia com frialdade.

Suspirou de novo.

Franziu o cenho e fez expressão pensativa.

Será que Quinn estaria no encontro de Natal? Ela e o Noah…

Por que pensar em Noah lhe foi desagradável? Ah! Ele casou com a Quinn. E, pensou, era um grande desperdício… Enfim, ela seria ótima no cinema!

“Rachel, já anunciaram o seu voo”.

A voz de Sarah a tirou das divagações.

“Já?”, olhou para o visor do iPhone. Ok… Voo dentro do horário, pouco disputado, para Ohio…

“O que eu vou fazer em Lima?”, perguntou com a voz chorosa.

Sarah a mirou e inclinou a cabeça.

“Você vai visitar os seus pais e dar um descanso a sua imagem de diva temperamental. Apenas isso!”.

“Eu não poderia me calar porque aquelezinho achou que poderia me chamar de devoradora de homens por meio de metonímias e metáforas… E nem deixar aquela garota me beijar”, defendeu-se.

“Ok, Rachel! Agora, levante-se e desfile até o avião, seja gentil com a tripulação e não caia na asneira de ingerir álcool. Você sabe o quanto pode ser embaraçoso para a sua baixa resistência e sua imagem”, a mulher achou melhor repassar as ordens, “e Roger irá com você”, comunicou.

A diva pensou que não escutou bem.

“Como?”.

“Roger estará com você”.

Roger era o assessor de imprensa da estrela. E ela não ficou satisfeita de tê-lo por perto.

“Não havia outra pessoa para mandar?”.

“Qual o seu problema com o Roger? Ele é um bom profissional, está conosco há três anos e nunca deu razão para não confiarmos nele. E, sabemos, será bom ter alguém para responder em caso de você se impacientar com algum incauto”, lembrou.

Rachel bufou.

Sem muito por que aborrecer a Sarah, ergueu-se e viu o assessor, em terno e gravata, a esperá-la com um sorriso de trinta e dois dentes lustrados.

“Olá, Roger”, murmurou, altiva.

“Olá, senhorita Berry”, ele a cumprimentou, mas não esticou a conversa. Diva mal humorada era, para ele, sinônimo de tempestade com direito a furacões.

Sentou sozinha.

Roger estava na fileira oposta a sua, mas duas cadeiras atrás. Uma maneira de manter os olhos nela e em quem se aproximava.

Estava colocando os fones para assistir a uma já batida comédia romântica, cuja estrela era ela, quando ouviu vozes e um “ela é minha amiga” meio arrastado. E então sentiu como se um saco de batatas tivesse sido jogado ao seu lado.

Olhou de baixo para cima a pessoa que sentou e parecia alheia ao que a aeromoça falava.

Os pés estavam calçados com botas de camurça que subiam até os joelhos, mas não os cobriam. Meias pretas que desapareciam sob o trentch-coat que certamente estaria sobre um vestido. Viu a mão direita de unhas aparadas e bem-feitas, com esmalte nude. A mão esquerda segurava um copo de uísque com gelo. E havia uma larga aliança de ouro no anelar esquerdo.

Engoliu em seco e subiu os olhos e encontrou os verdes dela. Os cabelos loiros estavam longos e faziam ondas, soltos, na altura dos ombros. Os lábios com gloss… Só! Terrivelmente bela só com gloss labial…

“Oi, Rachel!”, a voz anasalada saiu divertida. E alcoolizada!

“Quinn?”, o espanto era berrante.

“Em carne, osso e cabelos”, confirmou.

“Senhorita Berry, lamentamos o incômodo. Já retiraremos essa senhora…”.

“Senhora?”, Quinn franziu o cenho e encarou a mulher que falou.

A comissária pareceu encolher diante do levantar de sobrancelha de Quinn Fabray.

“Senhorita?”, perguntou, insegura.

Quinn olhou para o anelar da mão esquerda e o grande círculo de ouro que pesava feito um grilhão.

Deu uma risadinha de escárnio e acalmou a funcionária da empresa aérea:

“Senhora! Senhora Puckssauro!”, exclamou em alto e bom som.

Rachel arregalou os olhos. Ainda mais…

Por que Quinn já estava intoxicada se nem levantaram voo ainda?

“Desde que horas está bebendo?”, perguntou.

A loira, que levava o copo aos lábios, estancou e a fitou.

“Esta dose desde há… Não sei! Dez minutos?”, chutou.

“Quinn, por que não deixa o copo e conversamos? Eu estava pensando em você…”, sorriu.

Quinn a mirou.

“Por que estava pensando em mim, Rachel? Estava pensando em como a rainha do William McKinley High School terminou num casamento com um homem com obsessão por segurança, que não me deixa dar um passo sem um de seus lacaios altamente treinados em táticas de guerrilha atrás, mesmo que eu possa transar com estes pretensos lacaios?”.

Rachel olhou para a aeromoça e fez um sinal para que deixasse a loira ali.

A mulher assentiu e se retirou.

A ex cheerio a seguiu com olhos divertidos.

“Quinn, você quer conversar?”, perguntou, estranhamente insegura diante daquela mulher ébria e ainda assim linda. Quinn sempre a desequilibrou… Ainda não encontrou, após alguns anos na Broadway e em Hollywood, mulher que tivesse beleza que a impressionasse como Quinn fazia há anos, desde que estudaram juntas.

“Claro!”, concordou, mirando-a. Aproximou a face a da morena e perguntou, olhando-a nos olhos:

“Como foi que se transformou de viúva de Finn Hudson em devoradora de homens?”, a fala saiu meio arrastada, mas não o bastante para a judia não compreendê-la.

Quase quicou no banco.

“Eu não sou devoradora…”, abaixou a voz e quase sussurrou, “de homens! Eu não sou”.

“Eu sou”, soltou, sem pudor.

Rachel sentiu-se ruborizar.

“O quê? Qual o problema, Rachel? Eu ainda não encontrei o meu par perfeito”.

“Como não, Quinn? Você casou com o Noah! Ele é o pai de Beth”.

“O fato de eu me casar com ele não significa que ele seja a minha metade da laranja”, explicou, “e Beth está com a sua mamãezinha”, enfatizou.

Rachel queria entender.

“Você não está feliz?”.

“Não existe felicidade, Rachel”, ergueu o copo como se brindasse e bebeu o restante do líquido de uma só vez.

“Quinn, eu acho melhor você não beber mais… Eu não vou gostar nada de receber algum tipo de devolução que o seu estômago possa fazer…”.

“Eu não vou vomitar em você, Berry”, garantiu e soltou um soluço. “Desculpe”, pediu e suspirou, olhando para frente.

“Está indo para o encontro de Natal?”, inquiriu, repentinamente tímida.

“Eu tinha duas escolhas, Rachel: ficar em Nova York sozinha enquanto o Puck está em Washington cuidando da segurança do presidente ou ir até Lima… A segunda opção me pareceu menos chata”, confessou.

“Por que ainda estão juntos?”, inquiriu. Era visível que a ex capitã das cheerleaders do WMHS não estava feliz.

“Vejamos…”, fingiu pensar e franziu a testa de maneira tão graciosa que Rachel se perdeu nos detalhes daquele perfil que lhe parecia uma perfeição, “eu sou educada. Eu sou inteligente. Eu tenho senso de humor. Eu sou uma mulher que muitos homens gostariam de exibir como esposa… Essas coisas… E ele não me enche o saco! Desde que eu colabore e seja uma mulher que lide de maneira perfeita com todos os eventos sociais e entediantes em que ele precise estar presente. Encenamos o casamento perfeito, com afagos e pequenos selinhos. Depois, ele vai para o escritório e eu para a cama”.

“Você disse que é devoradora de homens…”.

Quinn sorriu.

“Ok… Eu exagerei. Só fiquei com três dos seguranças que ele mandou para tomar conta de mim… O quarto ainda está lá atrás, onde um dos seus capangas o barrou. Mas com este eu não dormi. É muito feio…”, gargalhou.

Rachel olhou para trás.

Olhou para Roger.

Chamou-o.

O homem se levantou e foi até ela.

Recebeu uma olhada divertida da loira e ficou vermelho feito um tomate.

“Há seguranças aqui?”, a cantora inquiriu.

“Apenas Pierre, senhorita”.

“Oh! E quando eu saberia?”.

“Quando chegássemos. Sarah não quis estressá-la. Ela sabe que não aprecia os seguranças…”.

Quinn a fitou.

“Você é das minhas, Berry? Odeia ‘homens de preto’?”.

Ela achou por bem dispensar o assessor de imprensa e se concentrou na loira:

“Eu não durmo com eles, se é o que está insinuando”.

“Eu não insinuei”, murmurou, procurando pelas garrafinhas de vodca.

“Você não vai colocar mais nenhuma gota de álcool na boca”, avisou pegando a mão da loira.

Os olhos verdes pararam sobre o toque morno e delicado da cantora.

Ergueu-os e encontrou os marrons.

“Por que se importa, Rachel?”, inquiriu, sem deboche ou frieza. Era uma pergunta profunda e séria.

E a cantora não soube responder. Por que se importava? Só porque não queria que a loira lhe vomitasse? Não…

“Eu… Eu só não quero que você passe mal, Quinn… Por que não tentamos conversar?”, falou.

“Ok…”, concordou.

Começaram a entabular uma conversação.

Rachel foi contando por tudo o que passou desde que começou a fazer sucesso na Broadway, depois no cinema e na música.

Quinn a ouviu com atenção.

O avião já estava em pleno voo e Rachel continuava a falar.

A loira deu um sorrisinho. A judia não mudou muito. O ego enorme, a maneira de falar feito uma metralhadora descontrolada, a maneira de rir… E ela estava tão bonita!

“Você está linda, Rachel”, soltou.

A cantora estancou. Piscou algumas vezes e desviou os olhos dos verdes.

“Está envergonhada, Berry? Nunca lhe disseram o quão bonita você é?”, indagou sem a menor moléstia.

“Já…”, quase sussurrou, “mas quando o elogio vem de você…”, suspirou sem, no entanto, olhar para a acompanhante de viagem.

A Fabray sorriu.

“Quando o elogio é feito por mim… Ele tem mais importância para você?”, questionou.

Rachel sentiu a face arder.

Era só o que lhe faltava! Ficar rubra diante de Quinn Fabray.

A loira sorriu e apertou, gentil, a mão da morena com a sua.

“Você está maravilhosa, Rachel. Mesmo…”, asseverou.

Rachel segurou o ar. Há quanto tempo não ouvia um elogio como este? Há quanto tempo só tinha interesseiros atrás de sua famosa e rica pessoa?

“Eu não queria acanhá-la”, Quinn sussurrou para ela.

A judia a mirou nos olhos verdes ébrios. E não pode deixar de indagar:

“Você se lembrará do que me disse quando o nível de álcool em se sangue tiver diminuído e a sua mente não mais estiver nublada?”.

Quinn sorriu, doce.

“Sim… De cada palavra, de cada expressão do seu rosto”, confessou.

Rachel riu, confusa.

“Quinn! Você nunca me achou bonita”, atestou.

A loira meneou a cabeça e retorquiu, em voz arrastada e profunda:

“Eu pensei que havíamos superado isso, Rach”.

A cantora a fitou.

A ex cheerleader continuou:

“Lembra quando você resolveu fazer um filmeco em que teria de tirar a roupa e eu e Santana fomos até NY conversar sobre você não ter que atuar nele? Por que eu faria isso se não me importasse com você?”, argumentou. “Além do mais”, completou, “a fama lhe fez muitíssimo bem! Você está realmente linda, Rachel”.

A morena sentiu o coração ratear no peito. Quinn a compreendia! Quinn achou, como ela mesma achava, que a fama lhe fez bem! Por que os outros não conseguiam ver isso? Por que era massacrada em críticas por Mercedes, via mídia, de que ela – Rachel – já era egocêntrica na escola secundária e agora, com a fama, ficou insuportável. Ou mesmo Kurt, que – apesar de companheiro de palcos – dizia que ela não seria Rachel Berry para sempre. Que outra estrela mais tenra apareceria e que ela seria substituída com facilidade.

Após escutar esses pensamentos, tornados palavras pela boca de Rachel, Quinn se limitou a comentar, sobre Mercedes e Kurt, respectivamente:

“Diva frustrada. Bicha invejosa”.

Rachel soltou uma sonora gargalhada.

A loira a fitou e, séria, atalhou:

“Isso não foi uma piada, Berry. Eu realmente acho isso. A Mercedes foi superlegal quando Russel me colocou para fora de casa por eu estar grávida, mas… Vamos dar a César o que é de César: o disco dela é maravilhoso! Para ouvidos apurados e poetas de plantão. A garotada de hoje não está para isso. Já você…”, mirou-a, “cinema, discos nas paradas da Billboard, Tony Awards, Teen Choice Awards, e essa eu não entendi… Adolescentes? Mas, enfim, você sequestrou e colocou em cativeiro o Sr. Sucesso. Você brilha em tudo o que faz”, olhou para trás, a fim de ver se o segurança de Rachel havia aprisionado o segurança que Puck enviou para acompanhá-la. Dessa vez, o homem era realmente feio! Achou que o marido foi meio ardiloso nesta última escolha de capanga. Voltou-se para a cantora e prosseguiu:

“E o Kurt: é estrela, mas apesar da voz linda, o espaço para ele não é tão extenso quanto para você… Talvez se alguém fizesse um musical sobre Farinelli, o castrato… Alguém já fez?”, indagou, curiosa.

Rachel sorria, hipnotizada por aquela Quinn tão cheia de humor ácido e que, com cada palavra, enchia, de maneira boa, o seu já inflamado e inflado ego. Explodiria!

“Sim… Em Buenos Aires, em dois mil e quatorze”, respondeu para a loira.

“Mas nunca na Broadway?”, a pergunta foi terminada com um soluço engraçado.

“Não… Ainda não”, sussurrou a morena.

“Então… Eu vou contratar um maestro para escrever um musical para o Kurt estrelar, sobre Farinelli. Ou posso comprar os direitos da peça argentina e montá-la em Nova York”, explicitou a ideia como se fosse a coisa mais simples do mundo a se fazer.

“Quinn, produzir um musical é caro e arriscado…”, comentou a atriz, com experiência.

A loira franziu o cenho. Indagou:

“Eu não lhe contei que o Sr. Pucksauro é muito rico?”.

A cantora ficou atônita.

“E eu tenho metade de tudo o que ele tem! Eu posso produzir vários musicais, Rachel”, segredou.

“Quinn, definitivamente você está muito alcoolizada!”, riu.

A cantora sentiu o peito aliviar.

A irritação pelas críticas que sofreu nos últimos meses foram se dissipando conforme a conversa com Quinn se desenvolvia entre comentários pouco adoráveis da eterna Rainha de Gelo e seu cinismo talhado pelas impertinências da vida e uma ou outra tentativa de pedir mais um uísque caubói, impedida a tempo por ela, Rachel, que achou que a ebriedade de Quinn aumentou conforme o avião se colocou no ar. Entretanto, apesar disso, um encantamento a tomou por inteira. Imergiu na voz e no movimentos dos lábios rosados, nas expressões faciais da loira que mudavam conforme ela exemplificava um caso, pensava sobre alguma coisa, ria de outra, fazia pouco de outro e, assim, sem saber como nem porquê, seus olhos estancaram sobre os lábios de Quinn. Passou a língua, quase inconscientemente, sobre os próprios lábios. E imaginou sua boca naquela boca, sentindo-a, provando…

“Deve ser deliciosa”, murmurou, sem notar.

“O que, Rachel?”, a eterna capitã das cheerleaders do William McKinley High School não entendeu o comentário da morena.

“O quê?”, fez-se de boba, fingindo não saber sobre o que era a pergunta feita.

A loira meneou a cabeça e, como se não se lembrasse mais do motivo por ter parado de falar, retomou a conversação, de um outro ponto distinto, mas Rachel não se importou. Ela quase não conseguia se desconcentrar dos lábios e do resto daquela cara tão bonita.

Aterrissaram no Port Columbus International Airport rápido demais, segundo Rachel. Quinn não poderia ser levada em consideração, pois ainda estava “nivelada” no álcool e sua noção de tempo estava muito deturpada.

Roger se aproximou das duas mulheres, seguidos há alguns passos de distância por Pierre, que trazia atrás de si o Feio, como Quinn batizou o segurança que Noah havia colocado em seus calcanhares.

“Mantenha esses gorilas longe de mim e de Quinn, escutou?”, uma Rachel nada simpática e humilde ordenou ao assessor.

“Srta. Berry, é para a sua segurança”.

A judia o fitou.

“Roger, querido, você é estúpido? Eu disse para mantê-los longe, não para despedi-los ou dar folga”, e soltou um muxoxo aborrecido, seguindo para a saída.

Quinn mirou o assessor e deu uma risadinha. Comentou para ele:

“Você é estúpido, Roger! Não tenha dúvidas!”.

Ele empalideceu, antes de ficar rubro. Um efeito devastador!

Olhou para os seguranças e achou por bem obedecer a patroa e a curiosa amiga dela.

“Como pretende ir para Lima”, a cantora perguntou para uma Quinn meio atordoada.

“Táxi”, murmurou, enquanto se dirigiam para recolher suas bagagens.

“Há um carro aqui, que pai e papai mandaram, com motorista. Eu gostaria de tê-la como convidada”, falou, quase desejando desaparecer pela vergonha que a tomou, ruborizando-lhe as faces.

Quinn, ainda que flutuando entre a leveza do álcool e a razão da sobriedade que estava a tomar cada vez mais espaço em seu sistema, percebeu a coloração no rosto da pequena, e achou que ela ficava muito doce quando se assemelhava a um pimentãozinho.

Chegaram para recolher as malas e Quinn mandou que Feio recolhesse as dela e as da senhorita Berry.

O homem obedeceu, pensando em como poderia protegê-la com os braços e mãos atulhados de bagagem. Deus! Quem foi que disse que ela valia mesmo o sacrifício? Ah! O último cara que o Sr. Puckerman enviou para ter aulas de guerrilha na Faixa de Gaza…

As duas mulheres foram conversando como nunca antes, com Rachel pensando que deveria ser um pouco mais liberal quanto ao álcool para Quinn. Ela ficava terrivelmente sexy soltinha e altinha por causa da substância.

Pegaram o carro e deixaram Roger, os seguranças e a bagagem para seguir de táxi atrás.

Roger sentiu, no fundo de sua alma, que Sarah o mandaria procurar emprego com outra atriz-cantora-diva-sádica. Aliás, escolheria melhor suas patroas…

Cogitou, realmente, deixar o posto de assessor de imprensa de Rachel Berry quando passou direto por um hotel três estrelas na estrada para Lima e precisou pedir ao taxista para retornar para, após as duas mulheres recolherem as malas, enviá-lo com Feio e Pierre para Lima, a fim de verificarem os perímetros e as chances de sofrerem algum tipo de violência ou sequestro. Inclusive, Quinn achou por bem sugerir que Roger deveria procurar o delegado da cidade a fim de o corpo policial montar barreiras para que pudessem ter certeza de que não seriam – definitivamente – surrupiadas por alguma gangue do mal ou, mesmo, por um disco voador mal intencionado.

“Acha que ele deveria contatar a Força Aérea?”, Quinn perguntou para a judia.

Rachel pareceu pensar.

Assentiu.

“Definitivamente! Acho que, na verdade, deveriam chamar o Noah e a segurança do presidente para nos resguardar”.

“Isso, Rach! Bate aqui”, mostrou a palma para um High Five.

Rachel sorriu e bateu na mão da loira.

“Feio, passe o telefone do seu patrão para o Roger. Escutou? Ou terei que desenhar?”, debochou.

O homem soltou o ar devagar.

A vontade de pegar aquela mulher e dar-lhe uns tapas na bunda bem-feita (reparou muito bem) era imensa. Mas o marido dela lhe cortaria fora as partes…

“Sim, senhora”, grunhiu.

“Isso foi um arroto, Feio? Além de feio, o Puck me arranjou um segurança porco”, e gargalhou, arrastando Rachel no riso.

E sob a sonata das gargalhadas afinadas daquelas mulheres que tinham uma estranha química, uma atração e repulsão que confundia a cabeça, eles se foram.

O humor da loira não diminuiu quando soube que só havia uma suíte livre. De casal. Cama única.

“Uau! Vou dormir com Rachel Berry, a estrela da Broadway. Já posso visualizar as manchetes dos tabloides de fofoca: estrela passa a noite em hotel meia boca com beldade loira”, e riu.

“Não é engraçado, Quinn”.

Por algum motivo, a piada não fez bem para Rachel.

Ela não queria que a ex cheerleader desdenhasse daquele momento que considerava especial. Há muito tempo, em tão curto espaço de tempo, não se divertia. Quinn foi capaz de lhe arrancar todos os humores negros e enlevá-la.

Entraram no quarto e Quinn foi até o bar.

“Uísque…”, cantarolou e se serviu de uma dose, sob o olhar grave de Rachel.

“Rach, eu não vou vomitar em você! Por que não me leva a sério?”, inquiriu e bebeu um gole do líquido que desceu quente pela garganta.

A pequena caminhou até ela e parou-lhe em frente. Encarou-a.

Quinn franziu o cenho. Conhecia aquela expressão de há tempos…

“Quinn, muito do que falam sobre mim não é totalmente verdade. E nem totalmente mentira. Há muito tempo eu me tornei amargurada… Talvez você não compreenda isso, pois também tem a sua amargura e, certamente, pela maneira como prefere ficar fora da realidade através do álcool, o que poderá lhe acarretar a médio ou curto prazo uma doença grave que lhe tirará a vida cedo demais, talvez não enxergue a desdita alheia. Então você despencou, literalmente, ao meu lado naquele avião, pouco depois de eu pensar que há muito eu não lhe tinha notícias. Pensei que isso não poderia ser ao acaso. E não errei. Você me revitalizou em pouquíssimas horas, e dentro de um avião, num voo que deveria ser longo por desagradável que seria. Então, por respeito e essa leveza com a qual me presenteou, não faça piada com este instante que eu realmente quero guardar comigo, como um dos melhores presentes de natal que eu já ganhei nos últimos anos”, finalmente finalizou e respirou.

Mas o ar lhe foi roubado no instante seguinte, quando, sem saber por que razão, viu-se tomada pelos braços da cheerleader e puxada de encontro ao corpo dela. A boca foi reclamada pela dela, cujo gosto de álcool não retirou, em nada, o prazer que aquele contato inusitado lhe causou. Sentiu um frio dentro do estômago. O ventre contrair. Um gemido de refastelo escapou-lhe e afogou-se dentro da boca de Quinn Fabray.

Passou os braços pelo pescoço dela e colou mais os corpos.

Quinn soltou o copo de uísque, que caiu sobre o tapete e entornou o líquido, cujo olor empesteou o ar e inebriou ainda mais as duas mulheres, afogadas uma na outra, bebendo-se, embebedando-se entre bocas, línguas, mãos, carícias, gemidos e liberdades que nunca imaginaram, um dia, permitirem-se. E nem sabiam porque o faziam agora, mas nenhuma tinha a intenção de parar aquela chuva de sensações de prazer e, também (por que mentir?) luxúria que as tomou.

Chegaram, por instinto talvez, à cama, sem esbarrarem em um só móvel ou objeto daquele pequeno quarto para aquelas duas mulheres acostumadas aos grandes luxos que o dinheiro em demasia pode pagar.

“Deus, Rachel”, gemeu Quinn, com a voz rouca pelo desejo, sobre o corpo da menor, “se eu soubesse que você era tão gostosa eu teria lhe beijado no colegial, em vez de lhe dar banhos de slushies…”, e voltou a atacar a boca carnuda, um pouco mais rubra pelo beijo desmedido que trocavam.

Experimentaram-se por quase toda a noite, entre doces palavras, piadinhas de ambas as partes, comentários provocantes de Quinn, beijos e mais beijos. Namoraram-se. De uma maneira que nunca namoraram outra pessoa antes.

O dia seguinte trouxe uma Quinn com uma dor de cabeça infernal e cuidados de uma Rachel que ficou insegura sobre falar a respeito do que aconteceu na noite e madrugada passadas. Não sabia até onde a loira lembrava. E nem se aquilo foi apenas mais uma aventura.

Sentiu-se tola.

Como poderia romantizar uma noite tão inusitada, que acontecia apenas uma vez na vida, e por isso tornava-se inesquecível?

Respirou fundo e achou melhor esquecer.

Quinn era casada. Mal casada! Porém, casada…

“Merda…”, murmurou, “alegria de diva maldita dura pouco”, comentou consigo mesma.

Entraram no carro e seguiram viagem.

O carro parou, primeiro, na casa de Rachel e esta desceu, com o motorista a acompanhá-la para retirar a bagagem do porta malas.

Quinn desceu e a segurou pela mão, puxando-a para si num abraço morno.

“Quinn…”, soluçou, surpresa.

“Eu quero mais do que tivemos ontem, Rachel”, confessou. Talvez, apenas talvez, Rachel pudesse ser a sua metade da laranja.

A morena sentiu o coração acelerar no peito.

“Quer?”, a voz saiu insegura. Seria possível que o amor lhe viera por meio de Quinn Fabray?

“Quero”, a voz saiu segura.

“Mas… Quinn, você é casada”, lembrou.

“Não, Rachel. Eu apenas uso uma aliança e tenho um documento que me prende ao Noah. Nada que um advogado não possa resolver”, falou.

Rachel sentiu que poderia explodir feito foguete de fogos de artifício em mil cores no céu de Lima de tanta felicidade, porém, necessitava manter os pés no chão:

“Você não acha que isso está indo muito rápido?”, perguntou.

Quinn sorriu e a mirou com olhos cálidos.

“Não… Nós vamos namorar muito como na noite passada. E depois, quem sabe, devagar, você deixe que eu passeie as minhas mãos por dentro da sua calcinha”.

“Quinn! Isso foi…”.

“Excitante, Rachel! Muito excitante”, sorriu e a estreitou nos braços outra vez, beijando-a na cabeça.

Hiram e LeRoy Berry apareceram e sorriram ao ver as duas moças abraçadas.

Roy falou para o esposo:

“Eu não disse que, um dia, elas iriam se encontrar e reconhecer que, no fundo, sempre se quiseram?”.

Notas finais
É isso! espero que tenham gostado! Beijos de Feliz Natal! - Cal. *-*