Park Jimin apenas queria chorar, colocar para fora a angústia que o corroía por dentro. Sendo pediatra no hospital central de Seul, infelizmente estava habituado com crianças que não resistiam a acidentes ou doenças, mas havia algumas específicas que mexiam consigo de alguma forma.

Foi ao sair pelas portas principais que se deparou com um moreno que, mesmo de longe, o médico podia perceber o forte cheiro de menta. Ele nitidamente era alfa.

E aquela chuva que caía torrencialmente poderia causar um resfriado no homem. Alfas tinham a mania de pensar que, por conta de seus instintos, da força e do calor que provinha de seus corpos, eram imunes a qualquer coisa, principalmente coisas simples como um resfriado. Mas Jimin, como médico, sabia bem que não era essa a verdade.

Por isso levou seu guarda-chuva para cima do moreno, sentando ao lado dele no meio fio sem se importar de sujar e molhar seu jaleco. Já era fim de seu expediente, de qualquer forma.

— Você vai se resfriar se continuar aqui. — Disse sutilmente, mas o outro continuava a olhar um ponto fixo qualquer no meio do chão. — Não quer voltar para dentro do hospital? Tomar um café ou um chá pode fazer bem.

— Eu... preciso preparar um funeral. E não tenho nem ideia de como faço isso. — Havia um desespero incomum naquela voz, preocupando Jimin.

Certo. Aquele homem tinha perdido alguém naquela noite, era óbvio. Essa parte, a de dar notícias aos entes queridos ou de consolá-los, era a mais dolorosa para o Park.

— Posso ajudar se precisar. Infelizmente estou acostumado. — Declarou, finalmente tendo os olhos do alfa sobre si. — Mas lá dentro, não no meio da chuva.

— Eu gosto de chuva. — Retrucou, mas levantou junto ao ômega. O cheiro de Jimin tinha efeito entorpecente, havia distraído o alfa de alguma forma. — Mas você tem razão, Dr.

Jimin lhe dirigiu um sorriso na tentativa de ser amigável e encaminhou-se junto a ele para dentro do hospital outra vez. Foi com o alfa para o pequeno refeitório que havia ali, logo deixando-o sentado enquanto buscava um café. Um chá seria bom também, ao menos o acalmaria, mas o alfa precisava no momento de mais energia.

— Está com fome? — Indagou, vendo o moreno negar.

— Queria que todos os médicos fossem como você... o que me deu a pior notícia da minha vida não foi nem um pouco sutil. — Murmurou.

Jimin sorriu tristemente. Não era fácil falar para os entes queridos dos pacientes as situações deles. Na verdade, era a pior parte de todas.

— Não é algo fácil. — Começou o médico. — Eu cuido das crianças do hospital, sou pediatra, mas tive que dar notícias tristes inúmeras vezes e as reações são inúmeras. Eu já até apanhei de uma mãe. — Lembrou, vendo o moreno em sua frente arregalar os olhos. — É preciso muito treino, entende? Mas... mesmo acostumado sei que quando deitar em minha cama ficarei lembrando dessa madrugada. Acho que foi uma das piores.

— Digo o mesmo. — Choramingou o alfa. — Pode me contar o seu motivo? Só... não quero ficar em silêncio.

Jimin concordou com a cabeça antes de pegar um café para si mesmo, o cansaço tentando derrubar a adrenalina que ainda estava em seu corpo.

— Nunca gostei de cuidar da emergência, mas hoje precisei cobrir um colega que não pôde vir. Uma menina chegou aqui muito machucada, estava acordada e consciente ainda assim, e quando me viu ela segurou minha mão e pediu que eu ficasse junto a ela. — Os olhos do médico marejaram com a lembrança. — Então fiquei ao lado dela durante todos os exames, segurando sua mão e cantando para acalmá-la. Ela me apelidou de Ji, e me disse que não tinha medo de morrer, disse que se acontecesse ela viraria um anjo e cuidaria de um tal Kookie. Então, o resultado dos exames mostrou que ela estava com hemorragia interna, nós a levamos para cirurgia, mas... não conseguimos. Ela não resistiu... e eu me senti péssimo mesmo que estivesse só assistindo a cirurgia, porque ela se foi segurando a minha mão.

As lágrimas escorreram pelo rosto do alfa. Então ele encarou Jimin e sorriu de canto mesmo chorando, porque ele sabia muito bem de quem o ômega estava falando. E doía muito saber.

— Ela era linda, não era? — Choramingou o alfa. — Não preciso nem ouvir o nome dela para saber que está falando de Somin, a minha irmã... Jeon Somin... e eu sou o Kookie. Quer dizer, Jeon Jungkook.

— Eu não tinha ideia... — Sussurrou o médico. — Me chamo Park Jimin. — Continuou aos sussurros. — E sim, ela era linda.

Jungkook sorriu pela primeira vez naquele instante, finalmente prestando atenção no fato de que o cheiro daquele ômega era tão doce quanto o da sua irmã, mas o dele era mais intenso e o lembrava algo que nem mesmo sabia definir o que era.

Somin cheirava a morangos, Jimin a cereja. E ele amava ambos os cheiros sem sequer perceber.

Por mais estranho que fosse, naquela madrugada ainda Jimin ajudou Jungkook a organizar o funeral de Somin. Não era algo bom, de fato, as circunstâncias eram péssimas e eles bem sabiam disso, mas o Jeon agradeceu muito por ter alguém ao seu lado naquele instante.

Explicou a Jimin que havia ocorrido um acidente de carro, que seu primo dirigia o veículo e tanto sua irmã quanto o filho de seu primo haviam ficado feridos, no entanto a única a não resistir havia sido sua irmã.

E mesmo sendo ainda mais estranho, após ir para casa tomar banho e trocar de roupa, Jimin ficou ao lado de Jungkook durante toda a cerimônia que estava longe de ser feliz. Ele nem sabia que era possível apoiar alguém daquela forma, apoiar uma pessoa que conhecia tão pouco, mas sentia que era o certo a se fazer.

Ao menos naquele instante.

~#~

Os dias pareceram passar depressa. Jungkook sequer conseguia acompanhar todos os acontecimentos que estavam cercando sua vida nos dias que se seguiram após o falecimento de sua ômega preferida, Jeon Somin, sua irmã.

A proximidade que passou a ter de Park Jimin se tornou algo quase insaciável para o alfa, que precisava de cada vez mais contato com o médico. Eles se tornaram amigos, muito amigos, com muita rapidez. Tinham tanto em comum, conseguiam falar sobre tudo ao mesmo tempo que não precisavam de assunto nenhum porque somente a companhia um do outro já lhes era o suficiente.

Todos os dias, Jungkook encontrava Jimin quando este saía de seu plantão diário. Jimin trabalhava quatorze horas por dia, ainda que algumas vezes ficasse na emergência e, por conta disso, fizesse plantões absurdos e muito maiores do que os que já estava habituado.

Eles saíam para jantar todas as noites, sem exceção. Conversavam, falavam sobre seus dias e compartilhavam um com o outro tudo que lhes viesse em mente. Eles falavam muito sobre a irmã de Jungkook, porque o Jeon gostava de contar histórias sobre sua pequena, mas eles raramente falavam sobre o que aconteceu com ela. Jungkook sabia que sua irmã tinha partido e que não iria voltar, mas preferia pensar em todas as coisas boas que teve ao lado dela.

Jimin também se preocupava com frequência, porque Jungkook claramente não estava bem e, ainda mais nítido que isso, deixava isso transparecer em cada partícula sua. Ele não ria, sequer sorria mostrando seus dentes. Era óbvio que por alguns instantes conseguia se distrair e ocupar sua cabeça somente com o ômega adorável que cheirava a cereja, mas logo seus pensamentos voltavam para sua irmã.

Era inevitável.

Jungkook sabia que todos aqueles que amava, lhe abandonavam de uma forma ou de outra. E os três seres humanos que mais amou, foram levados pela morte. Ao menos, tranquilizava-se em saber que não foi escolha deles abandonarem-no. Sabia, com total confiança, que eles o amavam. E era só isso que, no fim das contas, realmente importava para ele.

— Tem algo que possamos fazer essa noite de diferente? — Jimin indagou ao Jeon assim que adentrou o carro do mesmo. — Você precisa distrair essa cabecinha e não vai ser no mesmo restaurante de toda sexta-feira que isso vai acontecer. O que acha de irmos ao cinema?

Jungkook retesou por alguns segundos. Fazia quase seis meses que não ia a um cinema, desde que levara sua irmã para assistir a uma animação qualquer que havia sido do desejo dela. E ele nem acreditava que já estava sem ela há quase cinco meses, então.

Jimin percebeu que aquela sua pergunta havia sido desconfortável para o moreno e, por inúmeros segundos, perguntou-se se não seria melhor pensar em algum outro programa, ou talvez chamar o alfa para ir até sua casa assistir a algum filme e jogar conversa fora.

Mas, antes que pudesse, Jungkook concordou com a cabeça após soltar um suspiro, garantindo que seria mesmo algo bom para os dois. E o Park apenas torcia para realmente ser, afinal Jungkook precisava muito de algo para alegrar sua vida nem que fosse por cinco minutos.

— Se não quiser, podemos fazer outra coisa. — Alegou o Park após algum tempo de puro silêncio perpetuando entre eles. — Não me importo, de coração. Eu passo o dia inteiro dentro de um hospital, qualquer coisa já está bom.

Jungkook acabou sorrindo. E não era um sorriso qualquer, era um dos mais verdadeiros que poderia. Ele sentia-se completo de uma forma inexplicável ao lado do Park.

— Quero sim, bebê. — Jungkook constrangeu-se no mesmo instante, notando o que tinha proferido. Um sorriso de canto adornava os lábios carnudos e bonitos do Park, o que apenas enervou Jungkook ainda mais. Teria Jimin gostado do que havia dito? — Me perdoa, eu...

— Eu gostei. — Afirmou o Park, olhando para Jungkook mesmo que o alfa permanecesse olhando para a estrada. — Preciso de um apelido para você, Jungkookie.

O Jeon acabou sorrindo outra vez, agora envergonhado. Aquilo já era um apelido e Jimin sequer imaginava que ele tinha amado ser chamado de tal forma. Fazia um calor muito gostoso tomar conta do seu peito, era como se aquela fosse a certeza de que precisava para saber que, em algum nível, por menor que fosse, seus sentimentos bagunçados eram retribuídos.

O caminho até o shopping onde tinha um dos melhores cinemas da cidade não era exatamente longe, por isso Jimin desejou muito que o trajeto tivesse durado mais apenas para poder admirar Jungkook por mais um tempinho.

Assim que adentraram o grande amontoado de lojas caminharam diretamente para o cinema, visando que esse era o objetivo principal de ambos. Jungkook pagou pelos ingressos mesmo sob o protesto de Jimin e então o Park, teimoso como era, pagou pelos lanches deles, que consistiam em pipoca, balas, chocolate e refrigerante.

— Saudade de comer essas porcarias. Digo o tempo todo para as crianças evitarem e acabo fazendo o mesmo, mas como elas poderiam? É tão gostoso! — Murmurou Jimin enquanto saboreava uma bala que tinha sabor de cereja. O mesmo sabor que representava o seu cheiro.

— É errado eu querer provar? — Jungkook questionou sem tirar os olhos da boca avermelhada do médico.

Jimin negou com a cabeça, levando uma bala aos lábios do mais novo para que esse provasse. E o Jeon sentiu-se ainda mais errado, porque Jimin não tinha entendido o que ele queria dizer. Não tinha entendido que ele queria provar a boca do mais velho e não a bala.

Mas tudo bem, aceitou o doce e tirou seus olhos da boca alheia, ajeitando tudo que compraram nos espaços destinados a isso em suas poltronas.

Estava sentindo que fazia parte de um filme clichê.

E, sinceramente, a sensação era muito boa.

O filme era uma maldita comédia romântica que tinha feito Jungkook quase arrancar os próprios cabelos. O problema não era o longa, e sim estar sentindo basicamente tudo que o casal principal afirmava nutrir um pelo outro.

E toda vez que Jimin ria com alguma cena o coração do alfa acelerava, ou quando as mãos se tocavam, ou quando Jimin o dava chocolate na boca sem importar-se com mais nada. Aquilo tudo mexia com o psicológico de Jungkook. Aquilo tudo o enfiava em uma bolha da qual não conseguia sair.

E ele nem queria mesmo sair e sabia bem disso.

Jimin estava com as mãos nos bolsos quando eles saíram do shopping. Ainda tinha um sorriso pequeno em seus lábios, enquanto Jungkook aparentava estar desconfortável com o que acontecia dentro de sua mente. Céus, parecia tão malditamente errado.

— Você gostou do filme? — Indagou o Park, parando perto do estacionamento junto ao alfa.

O vento gélido da noite não era possível de acabar com o calor que a presença de Jungkook lhe trazia e somente isso já era o bastante para lhe arrancar inúmeros sorrisos.

— Eu gosto da sua companhia, Jimin, qualquer coisa que fizermos juntos é bom. — Afirmou mesmo um pouco receoso e tímido, ganhando um largo sorriso em resposta.

Jimin não pensou muito, sua mente fervia com tantos pensamentos, por isso apenas deu dois passos para frente e abraçou o alfa. O cheiro forte e amadeirado do mais novo adentrando suas narinas de forma extremamente agradável. Sentia um conforto inexplicável só por estar ali com ele.

Quando encarou o rosto do Jeon encontrou os olhos deste vidrados em si. E quando, mais uma vez na noite, os olhos de Jungkook desceram até os lábios de Jimin tudo se perdeu e quando o alfa percebeu ele já tinha grudado sua boca na do mais velho sem importar-se com mais nada.

O beijo era suave e ainda assim intenso, o coração dos dois parecia bater em sincronia ainda que extremamente acelerado. As mãos de Jimin se apostaram dos cabelos do Jeon ao mesmo tempo em que teve sua cintura sendo segurada com firmeza pelas mãos do mais novo. E era simplesmente bom.

E fluía do mesmo jeito que tudo entre eles.

Jimin sequer percebeu em que momento aconteceu, mas mesmo sem querer, de certa forma ele tinha conseguido curar o coração tão quebrado do Jeon, preenchendo-o de amor, carinho e, o principal de tudo, cumplicidade.


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