Notas iniciais
Quem aqui gosta de Sherlock? Eu amo demais essa série, gente

Natal em 221 B

Era manhã do dia vinte e quatro de dezembro em Baker Street, apartamento número 221 B. Eu era acordado com um som impertinente do quarto de Sherlock Holmes, meu melhor amigo, se é que ele me permite chama-lo assim. Levantei naquela manhã e pude notar no despertador ao lado que era cinco horas da manhã! Fiquei assustado, pois o barulho que vinha do quarto de Sherlock era assustadoramente imenso, capaz de me acordar espantado (não que fosse difícil me despertar).

Bati três vezes na porta trancada com o punho fechado, a fim de poder entrar em seu quarto e ver o que raios ele fazia. Imaginei se ele havia pegado um caso justamente no natal, o que subitamente me irritou. O que diríamos a Sra. Hudson? Ela estava tão animada para a festa...

Decidi não me precipitar com pensamentos que não convinham no momento. Bati novamente na porta, gritando seu nome:

– Sherlock, Sherlock, abra essa porta. – pedi educadamente, por mais que estivesse com sono e irritado.

Nada. Decidi pedir novamente.

Após uns segundos que levaram eternidade, ouvi o som da porta sendo destrancada e Sherlock Holmes se revelava, magro e alto como sempre. Suspirei aliviado, pois não parecia ter nada de estranho com ele.

– Em que posso ajuda-lo, John? – ele me perguntou cordialmente, abrindo mais a porta para eu poder entrar.

– N-nada. Apenas gostaria de entender a origem de um som que vinha de seu quarto, no qual me acordou. Sabe que horas são, Sherlock?

Sherlock olhou para mim como se acabasse de despertar de um devaneio. Ele sorriu ironicamente e me respondeu:

– Faz alguma diferença ao universo eu decidir mudar os horários naturais do ser humano, John? Não estou querendo complicar, mas eu não sou obrigado a dormir de noite e ficar acordado de manhã. Eu posso trocar as funções quando eu bem entender.

– Mas Sherlock, nesta casa eu e Sra. Hudson precisamos dormir, e com o seu barulho...

– Não faz diferença, John! Escute, se eu decidir que eu quero comer minha janta na hora do café da manhã, é isso que farei! Não sei quem foi o imbecil que determinou essas regras entediantes sobre o que é certo e errado...

E lá estava eu de novo, ouvindo os pensamentos mirabolantes de Sherlock Holmes, agindo teimosamente, o qual eu havia acostumado.

– Certo. Tudo bem, faça o que você quiser. Apenas me responda a origem desse som.

– Estávamos fazendo uma pesquisa de um caso que estamos envolvidos, Dr. Watson. – ouvi uma voz feminina do fundo do quarto dizer.

Era Irene Adler em pessoa, viva e sorrindo. Irene Adler, a primeira mulher que acredito friamente que mexeu, por o mínimo que seja, com meu caro Sherlock Holmes. Irene Adler, no quarto de Sherlock, de madrugada, juntos envolvidos em um caso.

Era muito para absorver na véspera de natal.

– Você... – comecei, gaguejando. – Ela... – disse a Sherlock, apontando para Irene. – Ela não morreu? – eu estava absolutamente aturdido.

– Dizem que quem é vivo sempre aparece – falou Irene, se aproximando de mim. Tentei procurar onde ela poderia estar escondida antes de se pronunciar. – Decidi que estava na hora de aparecer. – ela falou essa frase olhando diretamente para Sherlock.

Sherlock assentiu, o que me deu a impressão de que ele sabia disso a muito mais tempo do que eu imaginava ser.

– Sherlock, havíamos combinado que neste fim de mês com todas essas festas, iríamos ficar em paz e sem casos! – falei, tentando justificar minha perspectiva no momento.

– Ele combinou com você, mas não comigo. – disse Irene, me deixando profundamente irritado. Ela responderia tudo por ele?

– Sherlock, e a Sra. Hudson? – eu supliquei. Queria que ele notasse o quão desalmado estava sendo. – Lestrade disse que viria em algum momento. Até Molly, Sherlock! Não podemos decepcioná-los, você terá que estar aqui de noite porque eles virão por você, não por mim!

Me senti meio ridículo ao parar de falar. Irene olhava como se analisasse todos meus movimentos e expressões e Sherlock parecia levemente consciente do que acabara de fazer.

– E você ainda diz que vocês não são um casal. – ela falou, sorrindo para mim como se compreendesse tudo.

Decidi ignorar esse comentário, pois sabia que prolongar não levaria em nada.

– O que é esse caso, Sherlock? – perguntei, voltando ao meu tom normal de voz ao notar que estava quase gritando com Irene segundos atrás.

– Irene me trouxe o recado de que os terroristas que haviam pego-a e quase a matado estão tentando acha-la novamente.

– Durante esse meu tempo ausente eu me envolvi com um homem milionário da Holanda, por mais que eu não tenha tido sentimento algum por ele. – ela olhou para mim como se passasse um recado de: “Lembra que eu sou lésbica” e eu entendi na hora. – Por fim o homem faleceu e decidi voltar. Mas foi um erro. Não sei como, mas os terroristas me rastrearam aqui em Londres e estou em risco de vida. Sherlock aceitou me ajudar e conseguir me livrar deles.

– No natal? – eu disse, depois notando o quão imbecil foi a pergunta que fiz.

– Não será tão complicado, John. – desta vez foi Sherlock que falou, o que me aliviou. – Iremos atrair os terroristas em uma enrascada, Lestrade e sua equipe estarão lá e os prenderão. Depois iremos interroga-los e descobrir quem é o mandante e finalmente Irene poderá dormir em paz.

Eu sabia que não daria para fazer tudo isso antes do natal, então desisti de contrariar.

– Eu vou voltar a dormir. Onde a senhorita vai dormir? – perguntei a Irene, que estava vestida em um roupão luxuoso e os cabelos molhados. Imaginei se ela estava a tanto tempo aqui que havia tomado banho e eu nem percebera.

– Não vou dormir. Não mais. Vai quase amanhecer, Sr. Watson. – ela havia me deixado novamente em uma situação complicada.

– Ótimo, mas eu vou dormir! É véspera de natal, meu Deus! – exaltei um pouco e fechei a porta atrás de mim. Ela conseguia me irritar mesmo eu sendo muito calmo.

Deitei na minha cama e tentei dormir, porém foi impossível. Eu estava perplexo com Irene estar viva, no meu apartamento, com Sherlock. Estava perplexo de como seria nosso natal neste ano agora que Sherlock inventara de arrumar um caso.

Decidi me levantar e fazer café da manhã para a Sra. Hudson.

Abri a geladeira e surpresa! Não tinha leite. Eu deveria parar de me surpreender com este fato, porque Sherlock sempre usava todo o leite e nunca comprava. Vi o horário e decidi me vestir com uma roupa mais quente para ir até o supermercado buscar mais leite e pão fresco.

Voltei e vi que Sra. Hudson estava acordada e espiava pela porta do quarto de Sherlock o que estava acontecendo. Eu achei engraçado e disse:

– Bom dia, Sra. Hudson! Sherlock não deixou a senhora dormir também? –perguntei sorrindo, enquanto colocava as compras na mesa.

– Eu ouvi voz de mulher no quarto de Sherlock. Você sabe de algo? – ela sussurrou para mim.

Fiquei sem graça naquele momento. Como explicar para Sra. Hudson que a mulher no quarto de Sherlock estava fugindo de terroristas? Decidi ser mais simples:

– Tem uma mulher sim, mas é apenas uma conhecida. Ela precisa da ajuda de Sherlock em um caso, algo do tipo.

Ela assentiu com a cabeça, sentando-se na mesa enquanto eu preparava o café. Meia hora depois eu arrumei a mesa e sentei junto com a Sra. Hudson para comer.

– Me ajuda a arrumar a casa com os enfeites de natal, querido? – Sra. Hudson me perguntou enquanto comíamos.

– Claro. – respondi, imaginando que hora sairia Sherlock e Irene do quarto.

Deixei que a Sra. Hudson descansasse e me voluntariei para lavar a louça. Neste momento Sherlock e Irene saíram. Ela estava sorrindo.

– Te vejo mais tarde, Sherlock. – ouvi Irene dizer. Ela vestia agora um vestido com botas e luvas quente. — Venho de noite para passar o natal com você.

Vi Irene se inclinar em direção a Sherlock e dar um leve beijo em sua bochecha. Sherlock não retribuiu o que é de se esperar dele.

– Ela vai vir? – eu perguntei, secando minha mão após lavar a louça.

– Vem.

– Sério? – eu estava nesse momento fazendo uma careta.

– Foi o que eu disse. – ele respondeu secamente.

– Mas vai vir Lestrade. Vai vir a Molly!

– E daí?

– E daí? – E daí que a Molly vai te ver com ela, tive vontade de dizer, mas ele não merecia essa atenção. – Nada, nada, Sherlock. Coma aí enquanto eu ajudo a Sra. Hudson a arrumar a casa para a noite.

Imaginei que Sherlock sairia várias vezes hoje para se encontrar com Irene, mas ele apenas se ausentou depois do almoço enquanto eu fiquei lendo os posts do meu blog.

Sete horas da noite, eu estava bem arrumado esperando nossos convidados chegarem. Não levou muito tempo e todos nós estávamos juntos, menos Molly e Irene que não haviam chegado por algum motivo.

Sra. Hudson pediu para Sherlock tocar para nós seu violino. Confesso que fechei até meus olhos para ouvir o som dos deuses que saía daquele instrumento. Sherlock tocou três musicas e depois todos nós começamos a conversar. Nossos assuntos eram na maioria das vezes sobre como andava a segurança de Londres, já que Lestrade trabalhava nisso e Sherlock tinha apreço a esses assuntos. Depois de um tempo chegou Molly, com pacotes de presentes.

– Oi Sherlock. – ela disse, com os olhos brilhando de esperança. Ele a cumprimentou de volta e depois cumprimentou o resto de nós.

No natal passado Sherlock havia a humilhado, por isso percebi que ele estava meio distante para não ocorrer novamente. Ele começou a analisar sua roupa e linguagem corporal, deduzindo que ela havia se arrumado para um namorado e o presente com o pacote mais bonito era para esse alguém. Quando ele pegou o cartão, notou que o presente não era para ele. Ficamos todos sem graça e senti que ela queria chorar naquele momento. Fico feliz que ela não tenha ressentimentos e continue próxima de nós.

Decidi que não esperaria mais e decidimos todos comer. Havia um grande banquete que Sra. Hudson teve o imenso prazer de preparar para nós. Após comermos, voltamos a conversar, agora com a barriga cheia.

Nada de Irene.

Mas no momento em que pensei nisso, parece que ela ouviu, pois imediatamente nossa campainha tocou. Sherlock decidiu que atenderia e eu fui atrás, espiando-o para ouvir quem seria.

Era uma voz masculina. Vi que Sherlock se apressou para pegar o casaco que estava no porta-chapéu ao lado da porta e saiu.

Senti que deveria sair também.

Eu sabia que Irene iria estragar nosso natal, e minha impulsividade fez com que eu precisasse sair atrás de Sherlock no caso de dar algo errado. Peguei meu casaco e coloquei um revólver bem escondido dentro, no caso de precisar. Peguei um taxi e pedi para que seguisse o de Sherlock e por sorte, deu certo.

Fui levado até um grande barracão e notei que havia muitos carros do lado de fora dele. Um frio passou na minha espinha, pensando na probabilidade de Irene ter sido pega pelos terroristas e Sherlock havia ido ajudar. Respirei fundo e entrei no barracão, notando que no corredor apertado de acesso estava visivelmente vazio. Peguei minha arma por precaução e fui andando silenciosamente até que ouvi um grito de fora do corredor.

Era Irene Adler.

Senti um frio na barriga novamente porque ouvi a voz de Sherlock falar calmamente:

– Eu sabia que podia contar com vocês. Viram como captura-la não foi difícil?

Pelo que havia entendido Sherlock havia levado Irene até os terroristas? Ele estava... atuando para ela? Não imaginei que Sherlock pudesse ser tão frio.

Decidi sair do corredor e ver com meus próprios olhos o que estava acontecendo. Vi Sherlock entre alguns terroristas e Irene presa em uma cadeira, os pulsos atados. Em um súbito momento, porém, Sherlock notou minha presença. Apenas ele. Olhei enojado a ele e ele transmitiu uma mensagem para mim em código Morse: “Me ajude”.

Entendi imediatamente o que Sherlock fazia. Ele havia mentido aos terroristas, entregando Irene como isca, mas na verdade a qualquer momento as autoridades chegariam para prendê-los.

Peguei meu telefone e apontei para Sherlock, sinalizando que ligaria a Lestrade. Ele confirmou com a cabeça que eu deveria fazer isso e fiquei perguntando porque ele não havia pedido minha ajuda antes ou para Lestrade. Aí me lembrei que ele era Sherlock Holmes e casos “fáceis” como isso precisavam de mais emoção, por isso complicara.

Fui para o corredor novamente e liguei ao Lestrade. Nossa converse foi rápida e ele estava a caminho quando um terrorista arrancou meu celular para longe de mim e me segurou pelas costas, batendo em meu rosto até sangrar meu nariz.

Fui levado preso até a sala principal em que estava Sherlock e Irene. Eles me revistaram e tiraram minha arma de mim, me deixando sem nada para fazer. Um dos terroristas, o mandante eu imaginava, disse a Sherlock:

– Devemos achar outro lugar para manter Irene e esse homem já que a policia está vindo.

Sherlock assentiu com a cabeça e se aproximou de mim, colocando seus dedos longos da mão em meus ombros.

– Acho a atitude mais racional. – disse Sherlock

Ficamos desse jeito por dez minutos, olhando um para a cara do outro enquanto os terroristas levavam tudo o que tinham para os carros a fim de fugir. Vi em alguns momentos o mandante falar com Sherlock para que lugar era melhor levar Irene.

Um dos terroristas entrou correndo no barracão e apontou para fora. Ele gritou:

– A polícia chegou! Rápido, vamos sair por trás!

Sherlock caminhou até mim e falou:

– Abaixe a cabeça quando eu disser já. JÁ! – disse Sherlock, abrindo seu casaco e rapidamente tirou uma arma de dentro e atirou na perna do terrorista maior.

Percebi que estávamos em uma enrascada. Todos os outros pareciam armados, mas imediatamente um bombardeio do outro lado começou. Sherlock me soltou de onde estava e correu até Irene, livrando-a da cadeira.

– John, leve Irene para longe, já vou! – gritou Sherlock para mim. Peguei Irene, envolvendo sua cintura em meus braços e entramos no corredor novamente.

Não levou muito tempo para ver Lestrade e seus homens saírem com os terroristas algemados. Sherlock saiu por último e foi em nossa direção e falou a Irene:

– Por fim, nosso plano deu certo.

– Eu sempre soube que daria. – ela respondeu, sorrindo.

Me irritei, pois Sherlock nem me olhou quando se aproximou. Pigarreei e disse:

– Desde quando estão organizando esse caso?

– Desde o começo do mês, quando voltei a Londres. – disse Irene.

– E então vocês decidiram fazer isso no natal? – eu estava horrorizado.

– Estava chato, já aqui foi único. A propósito, Feliz Natal, John! Já passou da meia noite.

A raiva cresceu em mim por ele ser tão insensível a isso. Virei as costas para ele e distanciei para entrar em uma das viaturas de Lestrade para voltar para casa. No caminho, joguei o pacote de presente que eu havia comprado a ele nesse natal no chão. Quando finalmente entrei no carro vi que ele havia aberto o pacote. Não consegui ler sua expressão, mas ele segurava, analisando o cachimbo luxuoso que havia comprado a ele de natal.

Quando o carro começou a mover, sussurrei para ele, por mais que fosse impossível de ouvir:

– Feliz Natal, Sherlock Holmes, meu amigo. Feliz Natal.

Notas finais
Bromance