Esqueci muito cedo de quem eu sou. As labaredas cantavam meu nome, a Lua me despejava com uma vírgula, no rodapé, onde ninguém ousaria ver ou ouvir, afinal o mais belo é repulsivo... Acordei com um tom misterioso hoje, uma sensação de que conspirações acontecem por baixo dos meus olhos, se ao menos eu os tivesse, o mundo seria um pouco diferente. Eu tenho o meu, e já passou da madrugada, desta vez, nada pode entrar.

Baudelaire, o seu spleen está comigo, um arrombo universal num coração que tanto ama e dum momento a outro, resta o pó, aspirado por almas invisíveis e rostos irreconhecíveis. Estou ainda preso naquele quarto e esta carta não é psicografada, sou eu, ainda assim, não mais.

A chuva cai rala e incendiária, mas este fogo que tanto digo não queima, nem aquece, é azul, rasteiro, e se perde na bruma dos meus sonhos esquecidos, estou em estado atônito, cavado e cavando, numa fossa feito o exemplo do decadentismo, o feísmo e a imperfeição numa botelha, é impossível não tragar, meu corpo desce com a bebida que repousa no meu estômago, dilacerando meu duodeno e o meu certo, bendito cerne.

O céu é uma grande tampa, pressionando-me para baixo com tamanha força, uma centelha de redenção brota da terra, os arranha-céus com seus cheiros lúgubres, um aroma de morte e altivez característico das luzes que já se foram, logo numa irrupção anímica o conformismo volta e me põe num estado de perfeita melancolia, nada pode me tocar, afinal todos já me tocaram e ninguém almejou ver quem realmente sou, esperava que tudo fosse diferente se invés de ter sido um eterno nefelibata tivesse posto meus pés no chão.

Sou a Quimera em pessoa, a incongruência, a orquestra desafinada, outrora feliz e eufórica, agora... Um Antônio Nobre da vida.

Da prosa parnasiana ao Realismo português, uma dose de ultrarromantismo e o socorro dos meus deuses, o arcadismo, resumindo parnaso numa linda colina de fogo.

Procurei refúgio na noite, e após determinar que os notívagos perdidos foram os outros, constatei que era eu, que sou eu.

Hegel tinha razão, mas não sei provar de que modo, o turbilhão do absoluto finalmente me absorveu, e servindo ao princípio da dialética posso estar redondamente enganado, afinal em tempos como esse não é possível saber se a mera formiga é a predadora das constelações, enfim... Eu posso ter absorvido o “todo”, e quando se sente cheio, de tudo e de todos, as profundezas obscuras e indecifráveis, feito os cantos da nossa mente, tendem a serem chamativas e extremamente aconchegantes... O frio atrito e a neblina impedindo as árvores de crescer.

Posso ter sido a reencarnação de um grande poeta, pessimista e depressivo, pelo menos essas dores num terreno discrepante geram ótimas passagens pelo inferno. Aquele sem agarras e os demônios da própria criação perambulando, ativos e apelativos.

Leve-me para baixo, já é hora. Não há mais agasalho que sustente..........................................................................................................................................!

FIM

24/08/15

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