Les Marcheé

9 Quando o sol surgiu


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Quando o sol surgiu no horizonte de Imperah, muitos já haviam acordado e alguns nem haviam dormido. Codhe contou a Khei o que soubera. Passaram a noite conversando e decidiram que deveriam ir a Boandis oferecer auxílio.

Para isso, necessitavam da permissão do Coirlem, pois iriam interromper seus estudos justo em um momento importante. Não poderiam evitar de seguir seus corações, estavam apreensivos e tristes. Ainda nem sabiam que seu governador, Lorde Levi, havia falecido; quando soubessem seria maior ainda sua dor.

Por outro lado, Shaido Levi sendo um lorde e pertencendo ao Coirlem, estava a par da situação e pretendia comunicar sua ida à Boandis o quanto antes, pois era certo que muito precisava ser feito no litoral, fosse questões de governo, de defesa ou de amparo à população pelo horrendo ocorrido. Assim, planejou a noite toda, organizando tudo o que precisava para sua viagem.

Quando chegou a hora do início das atividades no Coirlem, no palácio Ímpar, Lorde Shaido aguardava para comunicar ao Conselho sua necessidade de ausentar-se por um tempo indeterminado. Devido as circunstâncias, o pedido foi aceito e honrado e naquela mesma tarde estava programada sua viagem.

Já Codhe, mais para o fim da manhã, após assistir suas aulas rotineiras, encontrou-se com Khei e dirigiram-se ao palácio Ímpar, com os documentos necessários para requisitar sua ausência. Quando estavam entrando, reconheceram Shaido, que estava de saída.

Foi a primeira vez que reencontraram o amigo de infância em Imperah, e realmente Shaido estava diferente, não apenas fisicamente, mais alto, mais robusto, mais elegante em seus trajes de lorde; mas também lhes pareceu mais prepotente e arrogante. Não tardou para que Khei quisesse cumprimenta-lo e, empolgada como sempre, teve que ser contida pelo irmão que a segurou pelo pulso.

— Mas Codhe, é o Shaido! Vamos lá cumprimenta-lo! — dizia em um tom um pouco alto chamando atenção desnecessária.

— Agora ele é Lorde Shaido, e pode ser que ele nem se lembre de nós. — Codhe lembrava nitidamente da forma que rompera a amizade e sentia-se inseguro agora diante de Shaido. — Além de que ele está saindo e deve estar ocupado.

— Ele também é de Boandis, ele também deve estar preocupado com o que aconteceu! Devemos pedir ajuda pra ele, oras! Ele tem responsabilidades com sua terra natal.

— Por favor Khei, fique quieta ou vamos ser expulsos! — Codhe deu um sorriso simpático e uma breve reverência aos outros lordes que olhavam a dupla com reprovação, e logo voltou a olhar sério e carrancudo para Khei. Observou Lorde Shaido vir em sua direção.

Khei estava muito animada em rever o amigo, queria abraçá-lo e dizer que sentia saudades, convidar para tomar um café, conversar sobre os velhos tempo, contar como estava indo a vida em Imperah, saber tudo o que Shaido esteve a fazer durante todos esses anos, como foram seus estudos, o título de lorde, como era a vida como membro do Coirlem. Queria saber se ele já tinha visto a Imperatriz, como ela era e se o amigo estava namorando...

Queria saber e falar tantas coisas que por um momento esqueceu o real motivo pelo qual estavam ali. Lorde Shaido aproximou-se, fez um breve reverência para os dois, cruzou a porta e foi embora.

Nesse momento ela se deu conta que tudo havia mudado. Todos estavam diferentes e que teria que parar de acreditar que ainda eram crianças, encarar o mundo real como ele estava atualmente, onde Shaido não era mais seu amigo, e sim, Lorde Shaido, membro do Coirlem, um total estranho.

Khei percebeu que Codhe já havia soltado seu pulso e havia retribuído o cumprimento educadamente, enquanto ela havia petrificado, com a boca semi aberta, imersa em seus pensamentos de um tempo que não voltaria mais. Sentiu-se uma completa idiota e teve vontade de chorar, não por ser tratada como uma estranha qualquer pelo seu amigo de infância, mas por saber que aquela amizade jamais voltaria a ser como antes, havia se perdido no tempo em algum momento que ela não sabia dizer onde. Sentiu-se magoada no momento que se deu conta disso.

Até ali, Khei acreditava que quando encontrasse Shaido iriam se abraçar, rir e conversar sobre sua infância e adolescência que tiveram juntos, lembrariam dos tempos de escola, do coral, das brincadeiras e de tantas outras coisas que Khei achava tão importante e tinha ótimas memórias. Mas ali se deu conta que nada daquilo parecia agora importar para Shaido. Sentiu-se novamente idiota por guardar lembranças e esperanças inúteis.

— Vamos Khei, é a nossa vez. — Codhe a chamou lhe tirando dos pensamentos, enquanto Khei limpava uma lágrima que teimou em cair.

Apresentaram formalmente o pedido para partirem a Boandis, os lordes se reuniram em uma sala separada e depois de algum tempo, voltaram com o pedido negado.

— Mas por quê? — Khei questionou um pouco audaciosa, recebendo apenas um olhar altivo do lorde a sua frente.

— Khei, comporte-se. — Codhe lhe sussurrou e voltando-se para o lorde, fez uma reverência e agradeceu. — Obrigado por gastar seu tempo conosco, entendemos e aceitamos vossas decisões.

Codhe puxou Khei novamente pelo pulso e saíram da sala quase correndo, sem antes reverenciar mais uma vez. Se ficasse mais alguns segundos naquela sala, Codhe poderia queimar todos os lordes ali presente, tamanha era sua ira por ter seu pedido recusado. Já não bastava a frieza com que o encontro com Shaido foi, agora mais essa negação?

Assim que cruzaram a porta, Khei falou em voz alta.

— Entendo e aceito coisa nenhuma!!!! Qual teu problema Codhe, sua magia queimou o sangue nas tuas veias?

— Khei! Acalme-se, aqui não é lugar pra ter surtos! — Codhe tentava falar ponderadamente disfarçando sua raiva, mas sua fala saia entre os dentes e Khei sabia que o sangue lhe fervia nas veias tanto quanto nas veias dela. — Os lordes são autoridades máximas e não se pode simplesmente contestá-los! Voltaremos aqui novamente amanhã e faremos o pedido novamente.

— Volto amanhã nada! Vou voltar lá dentro e dar na cara daquele lorde até ele assinar isso aqui! — tomou os papéis das mãos de Codhe e os balançou furiosamente fazendo menção de retornar a sala.

— Você não é louca, faça isso e eu me recuso a ser teu irmão, porque não vou admitir uma vergonha dessas! Controle-se! — sua fala saiu em um tom mais áspero e alto do que o esperado, chamando a atenção de alguns que transitavam pelo corredor.

Dessa vez ele não fez questão de disfarçar com sorriso e reverência de desculpa, olhou torto com os olhos estreitos fazendo com que os curiosos desviassem a atenção deles imediatamente.

— Codhe! Precisamos ir a Boandis! Não é possível que nos neguem um pedido assim, temos responsabilidades com nossa terra natal, nossa família está lá.

— E bla bla bla, eu sei Khei, agora para de cena e vamos embora antes que o Palácio se incendeie! — falava como uma ameaça. — Amanhã voltaremos.

Uma moça que ria assistindo a cena aproximou-se dos dois.

— São os gêmeos Protherois! Logo vi pelo temperamento, os Protherois sempre tiveram o sangue mais quente — olhou para ambos em um sorriso simpático mas que se abriu ainda mais para Codhe.

Khei achou o sorriso dela malicioso, estava furiosa e aquela estranha sorrindo abertamente para seu irmão encheu-a de ciúmes. Notou o uniforme imperial que parecia estar um tamanho menor do que o correto, pois a moça tinha curvas e proporções muito maiores do que o natural e os peitos pareciam querer saltar para fora do exagerado decote. Achou aquilo vulgar, estreitou os olhos demonstrando seu desgosto.

— Ei, não me olhe assim! Eu gosto muito de vocês! — a moça notou o olhar de Khei e logo tratou de mudar a situação. — Oh, me desculpe, eu não me apresentei, sou Faeda Gin, sou ministra no Coirlem e também nasci em Boandis, mas estou em Imperah já faz alguns anos.

— Muito prazer em conhecê-la Lady Faeda Gin, eu sou Codhe Protheroi e esta é minha irmã Khei — fez uma breve reverência e retribuiu o sorriso, parecia ter se acalmado e agiu tão naturalmente que fez Khei o encarar indignada.

— Pode me chamar apenas de Faeda, eu detesto títulos, e o prazer é todo meu em conhecer conterrâneos, ainda mais, da nobre família Protheroi. Ouvi o que ocorreu e me preocupei, quero dar meu apoio total — falou com um sorriso sedutor que denotava segundas intenções.

Codhe tentou não pensar que a ministra estava ali, talvez, apenas para se exibir. Preferiu acreditar que a preocupação dela era genuína. Ouviu sua irmã fazer algumas perguntas em tom irritado e iniciaram uma conversa onde Codhe não se encaixava.

Se Khei havia desgostado de Faeda na primeira vista, logo mudou de atitude, talvez por deboche ou porque viu que, sendo uma lady ministra, poderia obter alguma ajuda dela. Codhe decidiu deixá-las ali naquela conversa.

— Vou voltar para meus estudos, estarei na biblioteca.

— Ah, espere! Posso falar com os lordes sobre seu pedido, talvez eu possa ajudá-los. — Faeda demonstrou-se solícita. — Estou preocupada com o que ocorreu lá e desejaria que alguém pudesse ir dar apoio ao povo, além do Lorde Shaido, nada contra, mas tenho a sensação que ele é meio ditador. Então, talvez, vocês fizessem algo melhor que ele para acalmar o povo.

— Então nosso amigo de infância agora é visto como um ditador? — Khei riu alto em espanto.

— Amigo de infância! — Lady Fae se surpreendeu. — Oh, me desculpe pelas palavras grosseiras, não imaginava, se bem que deveria ter suposto, já que são todos de Boandis! Claro, minha língua grande, me desculpe se ofendi...

— Não, tudo bem. — Khei logo tranquilizou. — Ele foi nosso amigo na infância, mas hoje vimos que não temos mais a mesma amizade e concordo com você, ele parece ter se tornado bem arrogante.

Enquanto as duas começaram uma conversa sobre o que achavam de Lorde Shaido, Codhe se ateve na informação dada.

— Lady Faeda, você disse que Lorde Shaido irá para Boandis?

— Sim, ele sugeriu ao Coirlem e recebeu apoio, parece que partirá nesta tarde mesmo.

Codhe tratou logo de se despedir das duas e voltar a seus estudos. Uma forma de dispersar os pensamentos que surgiam em sua mente. Lorde Shaido voltaria para Boandis e com certeza reencontraria Loren.

Não sabia se ela ainda era apaixonada por ele como antes, não teve mais notícias sobre ela, apenas de que havia acordado daquele sono e estava bem, apenas isso e nenhuma notícia a mais por todos esses anos. Era como se Loren tivesse desaparecido de Boandis. Até era compreensível, já que não tendo magia e não sendo nobre, Loren era apenas mais uma cidadã comum, que não faziam muita diferença na história; pelo menos era nisso que acreditava pelo pouco que sabia.

Mas para Codhe, Loren fazia toda a diferença. Mais uma vez seus pensamentos se voltaram para ela, todo o esforço que estava fazendo para se tornar poderoso e voltar para Boandis, mostrando a ela que tudo o que se tornou era por amor a ela. Sentiu seu coração apertar.

Enquanto caminhava pelas ruas largas em direção a biblioteca, sem prestar atenção em nada nem ninguém, a única imagem que lhe vinha na mente era Loren, sua amada. E logo pensava em Shaido e no que poderia acontecer caso eles se reencontrassem. Mesmo que Shaido nunca tenha demonstrado interesse por ela, ainda sim, havia se passado muitos anos e as coisas poderiam mudar! Ficou preocupado, como se estivesse com seu futuro ameaçado e pensava unicamente em ir até Boandis.

Se recriminou por nunca ter escrito a Loren, ou buscado mais notícias sobre ela. Certamente ela pensava que ele a havia esquecido e agora Shaido retornaria a Boandis antes dele. Uma crise de ciúmes e raiva teve início em seu íntimo ao pensar nas muitas possibilidades, no entanto, não havia possibilidade alguma de ir a Boandis, já que teve seu pedido negado. Era óbvio que não lhe deixariam partir antes de concluir os estudos, era o último ano daquele nível e ele era o primeiro da turma, sempre muito elogiado.

Precisava fazer algo a respeito. Precisava fazer pelo seu futuro ao lado de Loren.

Refletindo sobre seus planos para um encontro com Loren, Codhe seguiu para a biblioteca. Entrou pisando duro com um semblante sério e irado. Sentou-se à mesa para acalmar seu ânimo e não pegou livro nem coisa alguma, apenas apoiou a cabeça entre as mãos e tentou afastar seus pensamentos sobre o futuro incerto.

Não era seu costume ir na biblioteca naquele horário, mas ali havia se tornado um refúgio para organizar suas ideias. Em momento algum lembrou que naquele turno diurno, estava o bibliotecário idoso, o qual se aproximou cautelosamente soltando um livro sobre a mesa.

Quando Codhe levantou a cabeça e fitou o livro, reconheceu de imediato e toda sua raiva voltou em dobro.

— Por que esse maldito livro está aqui de novo? — falou bruscamente.

— Me perdoe interromper, mas achei que o senhor quisesse saber sobre as informações que me pediu sobre esse livro — falou temeroso vendo a ira visível nos olhos de Codhe.

O ruivo se lembrou que havia pedido tais informações e se condenou por ser tão ríspido com o velho bibliotecário que estava ali somente para ajudar. Fechou os olhos por um momento, organizando seus pensamentos e acalmando seu coração.

— Eu lhe peço perdão, havia me esquecido completamente desse livro — falou mais calmo. — Hoje não está sendo um bom dia.

— Entendo. Não está sendo um bom dia para muitos, eu sinto muito.

— Por favor, me diga quais informações conseguiu sobre esse livro?

— Bem, trata-se de uma xilogravura. Esta imagem possui algumas falhas de tinta sobre o relevo, o que indica que esta não é a primeira cópia da prensa, mas talvez uma terceira ou quarta.

— Ou seja, existem outros desses por aí? — Codhe pareceu se surpreender.

— Sim, tivemos o registro de um livro semelhante anteriormente, mas a xilogravura não se tratava de um dragão, e sim, de varias borboletas, bem mais bonitas e pacíficas que esta fera do seu livro.

— Desculpe eu não entendi, qual a relação dos dois livros com desenhos diferentes?

— A prensa. A mesma prensa que fez as borboletas daquele livro é a mesma que fez o dragão do seu livro.

— Este livro não é meu — tratou logo de desfazer o mal entendido.

— Parece que é. Afinal, ele não pertence a biblioteca e é o senhor que o trouxe até aqui — o homem falava com certeza da verdade.

— Eu não o trouxe, ele apareceu na minha mesa.

— Mais um motivo para ser seu.

— E o outro livro, das borboletas, quem é o dono?

— Não posso afirmar, apenas sei que é da biblioteca particular dos Imperadores. Foi registrado para uma restauração de capa depois que ocorreu um pequeno incêndio na biblioteca do castelo. Eu sou o restaurador mais experiente aqui em Imperah, aquele livro me chamou muita atenção por não haver mais nada além de xilogravuras de borboletas por todas as páginas. Fiquei pensando quem se interessaria por um livro desse tipo. Quando o jovem me pediu para verificar seu livro, fiquei surpreso em ver que havia outro da mesma coleção e provavelmente danificado pelo mesmo incêndio.

— Então, este livro pertence a biblioteca particular de Bellephorte?

— Não exatamente, os livros do castelo de Bellephorte possuem o selo Imperial, e não é o caso do seu livro.

— Este livro não é meu, ele tem um dono e eu quero saber quem é. O que mais descobriu sobre o livro que seja útil?

— Bem, é interessante o trabalho com a xilogravura, em Les Marcheé atualmente tenho conhecimento de apenas uma prensa que ainda está em uso, por termos técnicas mais modernas para ilustrar há muito tempo as prensas foram aposentadas, são agora peças de museus e estão fora de uso.

— Mas se este livro é antigo, provavelmente na época em que foi feito a prensa fosse a melhor forma de retratar figuras.

— Esta é uma questão importante, o seu livro é antigo, porém, a gravura não. Pela análise da tinta, foi feita a pouco tempo, talvez um ano ou pouco mais.

Aquela informação deixou Codhe sem palavras, ficou pensativo, que mistério era esse. Alguém queria que ele descobrisse algo sobre aquele livro, deveria mesmo insistir?

— Alguém fez esta xilogravura em um livro velho e resolveu me dar de presente? Devo agradecer ou amaldiçoar? É apenas um livro antigo com uma gravura nova... — Codhe pensava alto.

— Só posso dizer isso no momento, não tenho detalhes melhores.

— Quem fez as xilogravuras?

— É uma pergunta muito difícil de ser respondida meu jovem senhor. Eu não faço ideia.

— Mas sabe onde está a única prensa que ainda funciona? E quem trouxe o livro de borboletas para que fosse restaurado? Essa pessoa deve saber a quem o livro pertence e pode ter mais informações.

— Foi uma veilana de Bellephorte, eu não lembro seu nome, várias veilanas vem na biblioteca, seja a trabalho ou lazer. Muito difícil saber qual entre tantas.

— E a quem pertence a prensa?

— É óbvio meu jovem senhor, pertence aos Imperadores.

— E a veilana que trouxe o livro. Quero encontrá-la, procure nos registros o nome dela, se lembra da sua aparência? Algo que pudesse diferenciá-la?

— É uma moça comum, não sei dizer nada em específico, lembro dos cabelos pretos apenas. Eu sinto muito.

Codhe não pensava que os imperadores iriam prensar xilogravuras e sair por aí deixando livros nas mesas dos estudantes, mas isso tudo era muito estranho e estava muito curioso. Imediatamente, como por instinto, Codhe se lembrou da moça de cabelos negros e olhos castanhos que viu de relance.

— Por acaso ela teria olhos castanhos e prende o cabelo em um coque?

— Ah sim, agora que mencionou, me parece que ela tinha os olhos castanhos, bem raros aqui na região, mas sobre o cabelo, sabe como são as mulheres, mudam de penteado todos os dias.

— Por favor, verifique seus registros e descubra o nome dela e uma forma de me encontrar com ela para lhe fazer algumas perguntas.

Codhe agradeceu ao bibliotecário e decidiu ir para seu apartamento no Palácio de Isle, que servia como hospedagem para os estudantes que vinham de outras cidades.

Fazia quase dois anos que os gêmeos estavam em Imperah. Alguns meses depois de chegar e iniciar seus estudos, completaram dezoito anos apresentaram-se ao Coirlem como manda a tradição. Poderiam ter aceitado títulos de Lorde e Lady, pela herança de família, mas recusaram porque não se consideravam da mesma raiz que os Protherois do passado. Assim, Codhe e Khei foram instruídos a concluir seus estudos e alcançarem níveis superiores em sabedoria e magia para finalmente terem seus títulos por mérito.

Estavam com vinte anos e, se tudo ocorresse normalmente, em algumas semanas concluiriam seus estudos e receberiam seus títulos.

Khei estava realmente animada e queria muito ser aceita no Coirlem como uma verdadeira Lady. Já Codhe pensava em voltar para Boandis, casar-se com Loren, trazê-la para a capital como sua esposa. Porém, as coisas estavam mudando e os planos de Codhe pareciam não estarem tão certos assim. Sentia como se algo conspirasse contra ele, querendo atrapalhar seu futuro.

Não era apenas a ida de Lorde Shaido à Boandis, havia algo muito além que o perturbava. Caminhou de volta ao seu apartamento ainda pensando sobre todas essas coisas. Quando chegou em Isle, já no corredor, viu Khei correndo em sua direção. Notou que ela chorava e ficou preocupado.

— O que aconteceu, por que está chorando?

— Fiquei mais algum tempo no palácio Ímpar conversando com a Fae, então soube da notícia!! — dizia aos soluços, chorando. — Nosso governador faleceu Codhe, Lorde Levi nos deixou!!! — abraçando o irmão caiu aos prantos.

Codhe ficou atônito, Lorde Levi, além de governador, era muito querido por todos, um grande amigo da família. Sua perda seria irreparável e ficou muito triste ao saber da notícia. Abraçava forte a irmã e tentou consolá-la.

— Ele foi um homem nobre e um excelente líder. Está em paz e será sempre lembrado pelo bem que fez ao seu povo.

— Pobre Shaido... Ele amava muito o avô. Deve estar sofrendo...

— Ele já devia estar sabendo, por isso sua partida a Boandis foi providenciada com rapidez. Os lordes sabem o que fazem.

— Acha que por isso ele nos tratou com tanta frieza? — Khei havia acalmado seu choro. — Pensamos que ele estava sendo arrogante quando na verdade ele estava sofrendo! Codhe, nós somos pessoas horríveis! Somos amigos péssimos! — Khei demonstrava arrependimento pelo julgamento precipitado.

— Não faça dramas desnecessários. Como saberíamos? — dirigiam-se para o apartamento que dividiam no palácio. — Estou muito cansado, aconteceu muita coisa hoje e essa notícia só me deixa mais angustiado.

Naquele momento, ambos não podiam fazer nada além de esperar o dia seguinte, quando tentariam mais uma vez um pedido para ir a Boandis.

Notas finais
Obrigada por chegarem até aqui. bjss e até breve!