Les Marcheé

26 Quando finalmente


♛

Quando finalmente Lorde Shaido tomou a iniciativa e decidiu ir com a Ordem Levi até Bherto, Lady Khei e sua Ordem foram também.

Esperavam encontrar a Ordem Protheroi de Bherto e tentariam o mínimo de atrito possível, já que a intenção era de paz e sabiam que Lorde Codhe era mais poderoso por ser um Lorde Mago. No entanto, esse fato não causou receio na comitiva do governador. Não acreditavam que Lorde Codhe seria capaz de fazer qualquer ato violento naquelas circunstâncias, ainda que eles estivessem, de certa forma, invadindo seu território.

O Lorde Mago do Fogo era teimoso e irredutível. De fato, não pretendia entrar em batalha contra ninguém, todavia, defenderia suas terras como lhe era devido, mesmo que os invasores fossem o governador e sua própria irmã. Quando sentiu a aproximação da Ordem Levi juntamente com aqueles da nova Ordem Protheroi de Boandis, liderada por Lady Khei, não hesitou e fez o que ninguém esperava: invocou o dragão de fogo.

O grande e poderoso dragão foi visto a longa distância, soberanamente aguardando no pátio frontal do castelo, com suas enormes asas flamejantes abertas em demonstração de onipotência. Seu peito ardia fulminante, lançando labaredas ao ar como sinal de que não deixaria ninguém passar. Podia-se ver sua respiração de fagulhas e fumaça quando sua cabeça se virava para olhar em volta, atento a tudo.

Ninguém ousou continuar. Aquela criatura impunha enorme pavor. Mesmo que ali, naquela comitiva, fossem todos lordes poderosos, cuja magia era de nível superior, ainda sim, não seriam capazes de enfrentar o dragão do selo Tione Flamejante. Eram sábios o suficiente para não tentar e tinham certo apreço por suas próprias vidas.

Lorde Shaido sabia do perigo iminente. Desistiu e ordenou que todos recuassem.

Deveriam resolver de forma diplomática e amigável, jamais com fogo e sangue. Até mesmo Lady Khei concordara com o recuo, porque estava temerosa com a enorme mudança de seu irmão.

— Eu não o entendo mais! Por que isso seria necessário? — dizia indignada enquanto se afastava.

— Seu irmão perdeu a razão — retrucou o governador. — Vamos dar mais um tempo para ele cair em si e ver o quanto está louco.

— Irei sozinha — sentenciou decidida. — Impossível que me faça mal!

— Como pretende passar por aquela fera flamejante? — Lorde Shaido a censurou. — É algum mal de família? Sendo gêmeos, você agora também enlouqueceu?

— Meu irmão está apenas defendendo seu território, mas não é alguém maligno que mataria a própria irmã.

— Até que ponto podemos crer nisso! — o governador quase riu.

— O lorde acabou de dizer, somos gêmeos! Posso sentir o coração do meu irmão!

— Dizem que todo gêmeo possui duas faces. Cedo ou tarde você se mostraria louca igual a ele.

— Vou fingir que não ouvi isso Shaido! — ofendeu-se e o fato de chamar o Lorde governador apenas pelo nome foi mostra de seu descontentamento.

E assim, Lady Khei iniciou sua marcha rápida e decidida, de volta ao castelo de Bherto. De longe, avistou novamente a grande fera, que parecia tranquila em seu território.

O quanto Lorde Codhe estaria lúcido ou enlouquecido pelo amor? Lady Khei chegou a temer e diminuir sua marcha. Começou a desviar e, ao invés de ir direto para o dragão, decidiu dar a volta e avançar pela lateral. Com sua magia de busca, procurou o irmão para lhe avisar que estava ali e queria passar sem ser interrompida pela fera.

Sua magia buscava pelas presenças no castelo, queria tentar sentir o tipo de atmosfera que estava dentro daquelas paredes frias de pedra. Lady Elissa havia sido muito clara sobre a importância de não deixar Loren cair na escuridão da mágoa e vingança.

Inesperadamente, sentiu o calor aumentar. Aquela presença estava se movendo para perto de si rapidamente. Não tinha dúvidas, o dragão não a deixaria passar e se movia para onde ela estava indo.

Ela parou seu cavalo e desmontou no exato momento que o dragão descia do céu às suas costas. Ainda com as asas abertas, ele abaixou a cabeça para encarar Lady Khei, tão pequena diante de tão grande fera. Lady Khei empunhou sua mace na mão direita e o escudo na mão esquerda.

— O que pensa que está fazendo, Codhe! Sabe quem eu sou! — olhou nos olhos de rubi daquela fera mostrando à ela seu poder, buscando através do fogo a mente de seu irmão. — Não acredito que vai me ferir! Sou sua irmã gêmea, será que isso ainda significa alguma coisa para você!

O dragão parecia pouco se importar com quem ela era ou o que lhe dizia. Ergueu-se arqueando seu longo pescoço para o alto, elevando novamente sua cabeça e inflando seu peito. Ela sabia o que viria a seguir, não precisava ser nenhum gênio para saber que aquela era a postura de ataque que lhe daria uma grande baforada flamejante de fogo incandescente.

Mas claro que ela não pretendia terminar ali daquela forma, confiava no seu irmão, foi essa confiança que a fez permanecer ali, diante de uma morte iminente.

Quando o dragão inflamou seu peito ao ponto da luz incandescente cegar Lady Khei, num piscar de olhos o dragão bateu suas asas. Ela sentiu o calor lhe chamuscar os cabelos na ventania de fogo. E voando, o dragão se elevou ao céus para, em seguida, descer sobre uma das torres do castelo. Estava confirmado, seu irmão ainda estava lúcido e com total controle do selo Tione.

Ela montou novamente e deu a volta, para entrar pelo portão da frente.

— Não pense que vou entrar como uma ladra, pois sou tua irmã! Tenha educação e receba-me pela porta da frente! — gritou para seu irmão, cruzando o portal e os rastros de seu cavalo deixaram uma trilha de fogo.

Uma visita de Lady Khei, talvez, ainda não fosse apropriada, já que Lorde Codhe acreditava que sua amada precisava de mais algum tempo para si e ele daria todo o tempo, independentemente de quanto tempo ela precisasse.

No entanto, não poderia negar de receber sua irmã, mas tomaria providências para que sua amada não fosse perturbada.

As muitas tapeçarias que compunham a atmosfera da Torre de Panapanézia não eram apenas decorativas, eram presentes tecidos por mãos das Musas, como ferramentas de avisos.

Os desenhos de flores, arabescos e, principalmente, borboletas, tinham vida própria e se multiplicavam conforme o bem se expandia nos reinos, ou abandonavam, caso o mal estivesse sendo mais forte.

Há todo o momento, as borboletas das tapeçarias voavam para longe, demonstrando a insatisfação das Musas com os últimos acontecimentos. Esse ato se intensificou após o sequestro de Lady Mclin no casamento.

Lady Beriune se preocupava com o destino da moça, pois estava constantemente recebendo avisos de Pannastovik a respeito das sombras no coração da lady. Era urgente resolver a questão em Boandis.

Arrependeu-se por não compartilhar seus planos com seu esposo, o Imperador. Não havia motivos para não confiar nele, tinha apenas um receio pelo que houve no passado e, como conhecia muito bem os sentimentos do Imperador sobre aqueles fatos, era cautelosa em comentar qualquer coisa sobre o assunto. Suspirou cansada.

Após muito refletir durante a noite, quando a manhã seguinte chegou, Lady Beriune acordou ao lado do esposo decidida a contar-lhe seus planos, deu-se o luxo de observar algum momento o rosto perfeito de Lorde Thwar, cujos anos não o agrediram e permanecia na eterna juventude. No entanto, ao notar que ele despertara, levantou-se.

Escolhendo o que vestir, a imperatriz notou os belos olhos violetas do Imperador observando-a em silêncio.

— Gosto tanto da cor roxa, mas definitivamente, o preto me cai muito bem – dizia separando um vestido negro com bordados em cristais.

— Lembro-me quando a chamavam de “A Dama de Preto”. — seu olhar mirou um passado distante enquanto se ajeitava entre os travesseiros.

— Veja só que ironia, a bondosa Dama de Preto é inimiga da malvada Dama Albina — riu sem protocolos.

Lorde Thwar se permitiu rir, ainda que mais contido. Nos últimos tempos eram raros esses momentos, apesar da frase paradoxal conter grande verdade, ainda sim, soou engraçada. Continuou deitado desleixadamente na cama.

— Meu lorde — jogou o vestido negro sobre uma cadeira e sentou na cama ao lado do esposo —, hoje convoco Lorde Shaido e Lorde Codhe diante do trono imperial para resolverem suas diferenças.

— Acredito que ambos são capazes de resolver esse assunto por meios próprios — ajeitou os travesseiros e puxou Lady Beriune para junto de si.

— Eu duvido. Ambos são orgulhosos para cederem — deixou ser puxada e encontrou-se enlaçada num abraço apertado e caloroso. — Me preocupo com Lady Mclin.

— Pelo que temos acompanhado em Bherto, ela não está mais tão descontente. Pelo contrário, está muito bem conformada.

— Exatamente por isso — afastou-se um pouco para encará-lo. — Farei uma pequena intervenção para acabar de vez com essas desinteligências.

— Que tipo de intervenção desta vez?

Com um sorriso vitorioso, Lady Beriune contou sua intenção ao esposo, que depois de ouvir, concordou.

— Muito bem... que seja.

E dizendo assim, puxou-a para um beijo, delicado a princípio, mas que ao ser correspondido com vontade, tornou-se voraz e necessitado. Ainda era cedo e podiam desfrutar de mais algumas horas juntos; tempo precioso que deveria ser aproveitado tendo em vista todas as responsabilidades que os aguardavam.

Lorde Thwar passava maior parte de seu tempo nas fronteiras de Boandis, onde mantinha constante vigilância. Havia estado irritado e perturbado pela forma com que Lady Beriune lidava com os Kailes e seus seguidores, mas seu coração se tranquilizou naquela manhã.

Ele era um homem prático e racional, não gostava de entremeios e delongas. Se fosse por sua vontade, Lady Hestea teria sido liquidada assim que souberam da sua traição, mas Lady Beriune tinha outra forma de ver os acontecimentos, não de maneira tranquila ou procrastinadora, na verdade, a Imperatriz gostava de testar os limites e se satisfazia em enfrentar o perigo.

Justamente, foram essas características que fizeram ele se apaixonar por ela. Ao lembrar-se de tudo o que viveram juntos até o momento, sentia-se abençoado e, ao mesmo tempo, temeroso com a possibilidade de perdê-la.

Ironicamente, pela ganância e tolice de Lady Hestea, era possível restabelecer o que fora perdido pela ação maligna dos Kailes. Justamente, o que a Imperatriz pretendia fazer, porém, Lorde Thwar discordava, sabendo o imenso perigo que representava para sua amada se envolver numa batalha desse nível.

Ele não desejava essa batalha em Les Marcheé. Se acontecesse, talvez não restaria reino algum para lembrar-se da história. Contudo, não havia como interferir, pois as seis Musas estavam trabalhando em prol do mesmo objetivo: o desejo de se reunirem novamente para restabelecer dádivas perdidas. Nos sentimentos íntimos do Imperador, não desejava essas dádivas, se elas fossem às custas de novas batalhas e o risco de perder Lady Beriune.

Acima de tudo, Lorde Thwar temia a Maldição dos Mil Anos. Por isso, não mais questionou Lady Beriune sobre suas ações e concordou em ficar silencioso enquanto ela trabalhava. Aparentemente, eram pequenas interferências motivadas por afeto ao povo, mas o Imperador estava ciente que essas atitudes eram em prol de algo maior, conduzindo o destino do império para o inevitável, onde o objetivo da Imperatriz e, principalmente, das Musas seria alcançado de qualquer maneira.

No dia do sequestro de Lady Mclin, havia acontecido mais uma dessas pequenas interferências de Lady Beriune.

Estavam presentes no evento Lorde Thwar e os Lordes Lynzeths, mas não foram vistos. Prestavam atenção ao casamento e assistiram, calmamente, quando Lorde Codhe surgiu com sua Ordem levando Lady Mclin para Bherto.

Lady Beriune permaneceu na praia, após todos se retirarem. Esperou a oportunidade para falar com Lady Khei. Sob o disfarce de Elissa Irebe, ela propôs a moça que reunisse os melhores homens e erguesse uma nova Ordem. Sem dúvida, a Imperatriz era muito ardilosa e percebera com antecipação o grande potencial que a jovem Protheroi possuía. Lorde Thwar achou a ideia interessante, certamente, apoiaria essa nova Ordem.

Ventura havia se manifestado a favor dos Protherois novamente, isso trazia o despertar do verdadeiro poder da família, igual nos dias antigos. Daopra estava abençoando a Imperatriz, enquanto o Imperador tinha a dádiva de Bellepo, a Musa mais próxima do povo e do amor. Esteh jamais abandonou os seus escolhidos e permanecia ao lado deles desde Eras passadas. Kursora, por motivos não revelados, havia retirado a dádiva de seu escolhido e elegido outro, porém, o afortunado ainda era desconhecido, apesar de suspeitado. Assim, possivelmente, quando fosse necessário, restabeleceriam as Cinco Grandes Ordens suficientes para enfrentarem a batalha contra aquele mal inominável; que habitava desde o início dos tempos o lado de fora de Pannastovik, no Mar Infinito.

Contudo, agora, havia um pequeno incidente no percurso da história. O temor de que Lady Mclin obscurecesse seu coração por completo, devido aos acontecimentos do dia de seu casamento. O principal fundamento para tal medo era o fato de Mclin ter um poder além da magia, que não provinha das Musas conhecidas, mas sim, de outra vertente. Se tal poder fosse usado para o mal, desencadearia uma catástrofe sem precedentes. Por isso a importância de proteger seu frágil e delicado coração.