Les Marcheé

29 O sentimento de liberdade


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O sentimento de liberdade era reconfortante e Lorde Codhe retornou a Boandis com mais um motivo para sentir-se vitorioso. Sentia saudades de sua doce Loren. Não via a hora de tê-la novamente em seus braços e sentir seus beijos delicados e quentes.

Ao chegar no Castelo de Bherto foi recebido pelas veilana.

— Onde está Loren? Quero vê-la imediatamente — disse caminhando apressadamente para a ala onde ficava o quarto da moça.

— Lady Mclin está reunida com os Lordes da Ordem — informou uma veilana.

Ele ficou surpreso e virou-se para ela, questionando-a:

— Com os lordes da minha Ordem? Fazendo o quê? — perguntou surpreso.

— Eles se reúnem diariamente, meu lorde. Discutem assuntos que não nos dizem respeito.

— Entendo. E onde eles estão?

— Na Torre Bhertophel.

Lorde Codhe mudou seu caminho imediatamente em direção à torre. Não era proibida para nenhum Lorde da Ordem, porém, não era onde Lady Mclin deveria estar. Isso o deixou preocupado, porque não queria que ela se envolvesse nos seus assuntos de batalha. Caminhou apressadamente com um semblante preocupado e avistou Loren em um dos corredores, correndo ao seu encontro.

— Meu Lorde! Seja bem vindo! — Lady Mclin o abraçou calorosamente com um sorriso feliz.

— Senti saudades — ele disse devolvendo o abraço com calor e intensidade, enquanto sua mão afagava os longos cabelos castanhos dela. — Esses dias me pareceram anos.

— Sim, foram como anos de aperfeiçoamento em magia, conhecimento adquirido e poder evoluído — falou sorrindo contente.

— O que quer dizer? — afastou-se para olhar nos seus olhos e compreender a fala dela, então observou. — Está usando maquiagem?

— Sim — respondeu como se não fosse nenhuma novidade.

Ela não esperou por mais perguntas e puxou-o para um beijo sedento de saudades. Ansiava pelos beijos de Codhe e todas aquelas sensações que ele despertava nela. Ele correspondeu, pois sentia o mesmo, porém, notou uma sutil diferença na forma com que era beijado, Loren estava mais sensual e envolvente.

Assim que seus lábios se separaram, ele se afastou para admirá-la por completo e percebeu os trajes escuros. Não era apenas a maquiagem com pesada sombra negra nos olhos, grandes cílios e boca pintada, também havia peso em suas vestes, tons escuros, vestido com profundo decote provocante e espartilhos apertados.

— O que aconteceu na minha ausência? Por que você está vestida e maquiada dessa maneira? — falou intrigado. Aquela não era a Loren que conhecia.

— Gostou? Acho que combina mais com o estilo e poder existente em Bherto — disse sinuosa.

Lorde Codhe não respondeu, estava em dúvida. A maquiagem ressaltava a beleza natural, o decote e espartilho emolduravam as formas belas e volumosas que sempre estiveram ali. Ele não tinha dúvida quanto à beleza, entretanto, não sabia responder se gostou dessa mudança. A simplicidade, ingenuidade e pureza de Loren sempre foram características que ele admirava e a fonte de toda sua paixão, agora ela parecia ter se transformado em algo que não condizia com sua essência, mesmo que harmonizasse melhor com Bherto.

— O que foi? Por que está me olhando assim? — a lady fechou o sorriso e estreitou os olhos. — Eu sei o que o deixou zangado, não é minha mudança e sim minha curiosidade pela Torre Bhertophel e o que eu fazia lá.

De repente ele lembrou-se desse fato, a recepção calorosa de Loren e observar sua mudança o haviam feito esquecer completamente do motivo de ter se dirigido até a torre. Não estava zangado, mas intrigado.

— É verdade, me lembrei do porquê corri até aqui — cruzou os braços e falou sério. — O que estava fazendo na torre? Explique-me sobre as reuniões com minha Ordem.

Lady Mclin riu alto. A risada escandalosa continuava a mesma, porém, pareceu-lhe escarnecedora devido os lábios pintados de vermelho. Ele a repreendeu:

— Loren, eu não achei isso engraçado.

— Meu nome é Mclin — fechou o riso imediatamente e falou altiva repreendendo-o. — Loren adormeceu há muitos anos e foi esquecida desse mundo.

— Loren...

— Não existe nenhuma Loren aqui Codhe! — sua voz se elevou e seu olhar ficou duro. — Pare de me chamar assim! Não quero, na verdade, detesto! Odeio aquela Loren, idiota, burra e inútil.

Ela afastou-se voltando em direção à torre. Lorde Codhe a seguiu; estava indignado.

— O que a fez mudar assim tão de repente? — indagou em tom grave.

— A verdade. Loren não teria nenhuma utilidade para os tempos que se aproximam — falou com voz austera e firme. — Loren não lutaria nenhuma batalha contra qualquer coisa que fosse, menos ainda contra um mal tão antigo, além da origem das Musas.

— Como se eu quisesse que você lutasse! — irritou-se. — Andou conversando muito com os lordes da minha Ordem.

— Errado! — ela quase gritou. — Meu conhecimento vem de algo muito maior! — seus olhos brilharam com uma intensidade diferente, que Codhe não conhecia. — Venha, vou lhe contar o que aconteceu na sua ausência.

Quando ambos entraram numa sala reservada, ela passou a reviver aquele momento mágico como em um flashback e contou a ele o que havia acontecido:

“Ventura entrou na Torre de Bhertophel e parou observando as armas expostas nas paredes. Não contive minha curiosidade.

— A que devo uma visita tão magnífica! — perguntei admirando os movimentos da musa, os cabelos ruivos, o vestido negro com longa fenda lateral deixando à mostra as pernas envolvidas por meias de rendas.

— Vim trazer-lhe a verdade... — falou-me sem desviar o olhar das armas enquanto tocava em uma. — Ou parte dela...

—Sobre o quê?

— De uma Era muito distante, quando o lado de fora era parte de Les Marcheé.

— A senhora quer dizer, que o Mar Infinito já fez parte do império? — indaguei surpresa.

—Sim. Nessa época nasceu a primeira Ordem, liderada por Yaksha Kaile, a Imperatriz das Trevas, cujo poder maligno e ambições devastaram o império e corromperam os poderes primordiais, trazendo uma terrível maldição sobre todos — fez uma pausa, virou-se rapidamente me encarando com um olhar dramático e acrescentou com voz grave: — A maldição dos Mil Anos.

— Que tipo de maldição é essa? — o penetrante olhar de Ventura sobre mim fez-me tremer, sentei-me numa cadeira para disfarçar meu nervosismo.

— Lúgubre e tétrica, um horror inimaginável — a musa aproximando-se e continuou sua narração no mesmo tom. — Após muitas batalhas, a parte que permaneceu amaldiçoada foi coberta pelas águas e se tornou parte do que se conhece hoje como o Mar Infinito, onde reside, também, a alma selada de Yaksha.

— Por isso Les Marcheé foi abençoado com o cinturão Pannastovik? — arregalei meus olhos surpresa ao constatar a importante ligação. — Para proteger contra qualquer ameaça que pudesse vir do Mar infinito?

— Exato! — Ventura gritou e fez um gesto exagerado com a mão no ar, demonstrando contentamento por eu ter compreendido tão rapidamente a informação. — Entretanto, o cinturão foi algo recente, necessário após a tentativa de retorno frustrado de Yaksha. Com a presença de Pannastovik, ela voltou a dormir em silêncio, mas já havia plantado sua semente do mal no lado de dentro.

— Qual o motivo de Yaksha ser tão maligna?

— Ambição pelo poder! A glória e loucura de ser maior que tudo e todos. A inveja. — dizia grave demonstrando fúria ao recordar os fatos.

— Houve um tempo em que as Musas assumiram forma física. Lutaram junto com os Lordes de Bellephorte para combater um poder do mal — comentei desviando o olhar, tentei me lembrar de tudo o que sabia dos mitos e lendas sobre aqueles tempos.

— Isso mesmo Mclin. Mas poucos sabem que aquela grande e poderosa sombra de magia negra, ódio e destruição que invadiu Les Marcheé, era a própria Yaksha tentando retornar, em uma forma diferente, já que não possuía mais uma forma humanizada.

— Era o poder de Yaksha que havia dominado o Imperador Protheroi! — levantei-me da cadeira exaltada pela revelação.

— Sim, Mclin. Era Yaksha! — a musa sentou-se em uma cadeira e cruzou as pernas, evidenciando suas curvas pela grande fenda lateral do vestido negro.

— Porém, ela foi vencida, pelos nobres de Bellephorte! — conclui.

— Verdade. Desde o início dos tempos, sempre houve aqueles que protegem e espalham o bem. Aqueles que possuem magia vinda direto dos poderes primordiais, além das Musas — jogou as ondas ruivas para trás dos ombros.

— Pensei que não houvesse poder além das Musas.

— Atualmente não há — desviou o olhar novamente para as armas expostas. — Mas houve um tempo em que a magia era diferente do que conhecemos agora.

— Então, se as Musas estão se manifestando em forma física, quer dizer que...

— Isso mesmo Mclin! — encarou-me com um breve sorriso simpático. — As sementes de Yaksha deram vários frutos e tem trabalhado em segredo para acordá-la e trazê-la de volta.

— Os Kailes! — de repente, tudo se tornava claro em minha mente.

— Sim, são remanescentes da Ordem Kaile, fundada por ela. Porém, possuem um poder restrito devido a constante vigilância dos Guardiões.

— Os Lordes Lynzeth! — falei entre exclamações. — Conhecido apenas nos mitos, mas tão reais quanto as Musas!

— Excelente conhecimento!

— E onde cabe meu auxilio nisso tudo? — perguntei.

— O selo Tione que Lorde Codhe domina é parte da antiga Ordem Protheroi que combateu pessoalmente a corrupção de Yaksha. O poder nunca foi maligno, pelo contrário — fechou os olhos como se sentisse dor pela lembrança e acrescentou em tom irado. — O poder se perverteu nas mãos dela e se expandiu na Era das Sombras. Quando o dragão de fogo foi selado, destruímos o mal, o que restou foi o poder em sua essência primordial; boa.

— Ou seja, Lorde Codhe possui o poder Protheroi original de Eras anteriores as Musas — acrescentei e observei Ventura assentir em concordância, com um breve balançar da cabeça.

— Sempre que surge uma ameaça de retorno da Imperatriz das Trevas, escolhemos aqueles que possuem descendência direta para retornar os poderes principais e impedir Yaksha de voltar.

— Então, devo me unir nesta batalha pelo bem e conservação da paz.

— Bom que compreende a questão — falou em tom de alívio e sorriu. — Este é um breve resumo da verdade, necessário para este momento.

Ventura levantou-se, despediu-se com breves palavras de adeus e sumiu em meio a labaredas de fogo. Não fiquei surpresa com essa saída exuberante e ainda podia sentir Ventura ali. Era verdade, percebi que a Musa habitava a Torre de Bhertophel, desde sempre.”

Lorde Codhe ouviu com atenção tudo o que Lady Mclin lhe relatou, sem interromper. Nada daquilo era novidade para ele, pois Ventura já lhe havia contato as mesmas coisas.

Entretanto, entendeu o propósito da musa Ventura em escolher Loren para auxiliar, porque o poder dela havia crescido e seria perfeito para afrontar o mal vindo do lado de fora. Porém, ele não queria que sua amada fosse envolvida, tinha pela consciência que impedir Yaksha de voltar a Les Marcheé não era tarefa simples e envolveria uma guerra sangrenta, onde muito pereceriam.

Desde que rompera o selo Tione Flamejante e dominou o dragão de fogo seu destino havia mudado ao atender o chamado. A Ordem Protheroi, bem como todas suas armas e magia eram derivadas das ordens diretas de Ventura, que lhe abençoava com poder e conhecimento, principalmente, da batalha que estava por vir, devido ao fortalecimento dos Kailes e a ameaça do despertar de Yaksha.

Compreendeu a mudança de Mclin, o chamado de Ventura era muito forte e impossível permanecer igual diante de tanto poder, ainda mais tendo sido um chamado feito pessoalmente. Todavia, ele queria a doce Loren permanentemente. Em seu coração surgiu um arrependimento por tê-la sequestrado, nunca imaginou que algo assim fosse acontecer.

Ele não poderia permitir que ela se envolvesse de forma a correr riscos, mesmo sendo uma escolha de Ventura, não aceitaria; seu poder e sua Ordem deveriam ser suficientes.

Pensando no bem de sua amada, no dia seguinte a conversa reveladora, ele convidou Lady Mclin para um passeio fora do castelo. Foi a primeira vez que ela iria sair de Bherto, desde que ali chegara. Ela ficou feliz e ao mesmo tempo, perturbada, pois sentia necessidade de ficar e continuar se preparando para o que estava por vir.

Entretanto, Lorde Codhe foi convincente e no meio da manhã, ambos partiram para um passeio a cavalo. Lady Mclin estava novamente em seus braços cavalgando rapidamente, como no dia em que fora sequestrada, porém, desta vez, estava feliz e apreciava a paisagem.

— Por que estamos indo tão rápido? — Mclin protestou. — Podemos ir mais devagar para podermos apreciar a bela vista!

— Me desculpe, mas vamos chegar tarde se diminuirmos a marcha.

— Vamos tão longe assim? Aonde vamos? — ficou curiosa.

— Num lugar que você vai gostar — falou com um leve sorriso evitando de olhar para ela.

— Sabe que posso roubar essa informação com apenas um olhar! — ela ameaçou rindo e olhando para o semblante sério do lorde.

— Você não faria isso, não iria querer estragar a surpresa — não demonstrava, mas estava usando todo seu poder para fechar sua mente diante de Mclin.

— Tem razão, confio em você.

Essa declaração fez o coração dele doer levemente. Estava indo até a Vila Maior, em Boandis, onde a família de Loren morava; iria devolvê-la para que ficasse segura, junto dos que a amavam.

O perdão dado pela Imperatriz Beriune de Les Marcheé aos lordes de Boandis tornou-se a notícia mais comentada daquela semana. A autorização para que Lorde Codhe se casasse com Lady Mclin era recebida com grande entusiasmo no reino do litoral, tendo em vista que a maioria não queria o casamento dela com Lorde Shaido, mas concordavam na união com o Lorde Mago do Fogo.

O caminho até a vila onde Mclin morou foi feito com rapidez e urgência. Chegaram ao início da tarde e foram recebidos com surpresa e alegria pelos familiares dela. A felicidade de rever a família podia ser sentida no brilho dos olhos, nos sorrisos abertos e nos abraços apertados.

Notaram a grande mudança estética e visual dela, mas ninguém comentou, acreditando se tratar de estilo e maturidade. O que de fato, tinha certo teor de verdade.

Enquanto conversavam e aliviavam a saudade, Lorde Codhe aproveitou um momento em particular com Malessa, a sobrinha mais jovem de Mclin.

— Malessa, eu sei que você e Loren sempre foram muito amigas, por isso peço que você cuide dela — disse sentando-se ao lado da moça.

— Por que o lorde está me pedindo isso? Não estou entendo como cuidarei dela — demonstrava confusão.

— Não permita que ela volte para Bherto — disse seco e direto.

— Como assim? Pensei que estivessem juntos, que ela se casaria com o lorde, agora que a própria Imperatriz autorizou — ela parecia incrédula com o pedido.

— Não é bem assim que as coisas funcionam — sorriu amargamente. — Não é o meu desejo me separar dela, você sabe o quanto amo Loren.

— Então! — exclamou intrigada. — Depois de tudo o que fez por ela, por que quer se separar deixando-a aqui?

— Porque Bherto se tornou perigoso para ela e não lhe fará bem permanecer lá.

— Explique-se — pediu com certa audácia.

— Não posso explicar. O assunto não diz respeito a ninguém além dos nobres — tentou ser cauteloso e educado nas respostas. — É assunto que os lordes estão tratando com discrição, pelo bem do reino.

— Certo — suspirou derrotada. — Não sou grande coisa e não entendo nada dos assuntos dos nobres, mas se o lorde diz, deve ser algo importante.

— Malessa, preciso que cuide bem de Loren. Eu confio em você.

— E o lorde acha que eu, a mais nova da família, poderia impedir Lady Mclin, a poderosa bruxa, de fazer o que ela bem entender? — riu da ideia.

— Você pode, Loren gosta muito de você e não te magoaria jamais.

— Mas isso não tem nada a ver. Se ela quiser, voltará para Bherto, queira o lorde ou não.

— Converse com ela. Convença-a! Eu sei que você consegue. Preciso manter Loren a salvo.

— E por que o próprio lorde não conversa com ela? — começava a ficar indignada. — Aliás, não entendo por que a chama de Loren, se há muitos anos ela é Mclin.

— Para mim, sempre será Loren. Não desvie do assunto!

— Me parece que está tentando fugir das consequências e empurrando ela de volta para a família.

— Não é nada disso. Não seja presunçosa — falou sério e irritado. — Você não sabe de nada e não conhece a situação que enfrentaremos em breve. Se estivesse no meu lugar também escolheria não envolver Loren.

Malessa baixou a cabeça sentido a face corar diante da repreensão. Envergonhou-se, pois de fato, não conhecia o que se passava entre os nobres e não podia imaginar nada que fosse tão perigoso; tudo parecia estar em paz até o momento. Porém, ela não duvidava do amor de Lorde Codhe por sua tia, com certeza, se ele preferia que Mclin ficasse junto à família e longe de Bherto, o motivo deveria ser sério.

Lorde Codhe se levantou e a observou, Malessa era muito parecida fisicamente com Loren, mas tinha a estatura menor e cabelos pretos. Ao notar o constrangimento da moça, arrependeu-se por ter sido tão ríspido.

— Malessa, eu preciso de sua ajuda — falou com um tom suave amenizando a situação. — Apenas para manter Loren ocupada, até que eu convença Ventura a deixá-la fora disso.

Ao mencionar o nome da Musa, a jovem o encarou com o olhar assustado. Era a primeira vez que ouvia uma Musa ser mencionada de forma direta e íntima.

— O lorde se refere a Musa Ventura? — perguntou chocada.

— Sim. Acredite Malessa, por isso preciso que Loren fique aqui com vocês.

— Está bem — seu olhar mudou e de repente, estava convencida. — Vou fazer o que puder para mantê-la aqui. Mas não posso garantir sucesso, pois minha tia é muito decidida e teimosa!

— Eu sei disso e ela está a cada dia pior! — disse dando um sorriso brincalhão, descontraindo o clima tenso e fazendo a moça rir. — Eu confio em você, vai dar tudo certo.

Ela continuou com um sorriso na face, impressionada com o pedido ter relação com a Musa. Não seria fácil cumprir a tarefa, mas faria seu melhor. Sentiu um arrepio em seu corpo quando Lorde Codhe segurou gentilmente sua mão, em um aperto de cumplicidade. O sorriso que ele lhe dirigiu, a forma que demonstrou confiança nela, o poder que emanava dele e, acima de tudo, saber que ele tinha contato direto com uma Musa; sentiu a aceleração de seu coração e o corar de sua face. Estava novamente sem graça diante dele.

Antes que todos percebessem, Lorde Codhe, silenciosamente, foi embora. Lady Mclin estava tão feliz e envolvida com conversas que demorou a dar falta de seu lorde.

Lorde Codhe retornou a Bherto e foi diretamente a Torre Bhertophel ter com Ventura.

— Ventura! — entrou no salão chamando em tom grave.

— Não precisa gritar — surgiu dentre fagulhas escarlates —, não sou surda.

— Perdoe-me, minha Musa, mas estou irritado! — falou se aproximando. — Pensei que o selo Tione e minha Ordem, com todo o poder que me foi dado, fossem suficientes para enfrentar a ameaça dos Kailes. Por que chamou Loren?

— O poder dela não deve ser desperdiçado — fez um gesto com a mão para que ele parasse e não se aproximasse. — Nunca disse que você agiria sozinho! Se a Maldição dos Mil Anos for lançada, um único Tione não será capaz de deter!

— Para isso existem os Lordes de Bellephorte, a Tríade Imperial — disse cruzando os braços. — Loren não faz parte de nada disso.

— Ela será necessária — encarou-o e acrescentou com impaciência. — A Tríade não existe mais, foi desfeita depois que Kursora, em sua suprema teimosia, achou por bem retirar o seu poder dos domínios de Lady Crissânea.

— Então, o selo Resplandecente está novamente oculto? Sem ninguém para dominá-lo? — ficou surpreso, pois não sabia sobre o fato.

— Exato Codhe! — sorriu e dirigiu-se até a parede onde as armas ficavam expostas.

— E por que Kursora fez isso?

— Kursora é o tempo do início ao fim, aquela que vai à frente. Ninguém contesta suas decisões porque ela vê o futuro — fez uma pausa dramática. — Seu principal atributo é a honra.

— Lady Crissânea desonrou seu chamado para com a Musa e o selo Tione?

— Eu não me importo em saber sobre particularidade dos outros escolhidos — falou com certo desdém. — Pode ter sido algo bom.

— Entendo e também não me importo com o que não me diz respeito. Agora, quanto a Loren, este sim, é um assunto que quero discutir.

— Sem discussões Codhe! Escolhi Mclin e minha palavra é ordem.

— Não quero que ela domine nenhum tipo de selo.

— Não de minha parte, até porque não tenho nenhum para dar a ela — levou a mão ao queixo como se estivesse ponderando uma ideia. — Mas quem sabe eu possa pensar em algo.

— Ventura, por favor... — estava disposto a implorar se fosse necessário, mas a Musa o interrompeu.

— Ah! Chega! — fez um gesto exagerado com a mão abanando no ar.

— Posso ficar tranquilo que Loren não tomará parte desta batalha?

— Com certeza, Loren não tomará parte de coisa alguma, até por que essa daí está morta faz tempo — mexeu despretensiosamente nas madeixas ruivas e sorriu irônica. — Já Lady Mclin, a bruxa, esta sim, será bem útil.

Antes que Lorde Codhe tivesse tempo de retrucar, Ventura desapareceu entre labaredas ofuscantes deixando no ar uma risada baixa e provocativa. Ele ficou confuso e irritado. Não era a toa que os poderes dela provinham do fogo, pois entre todas as Musas, era a de personalidade mais forte e provocativa. Era difícil tratar com ela sem perder o respeito ou a paciência. Contudo, era decidida e impunha autoridade, por isso, Lorde Codhe sentiu que seus esforços para manter sua amada longe do perigo seriam em vão.

À noite, ele não conseguiu dormir pensando em Loren. Arrependeu-se, afinal, se Ventura havia decidido, ele não poderia impedir. Pensou em ir atrás de Loren na vila, porém, se ela concordasse em ficar junto à família, talvez, a Musa mudasse de ideia e a deixasse em paz.

Lady Mclin, por sua vez, durante a tarde feliz com a família, demorou algum tempo até notar a ausência de Lorde Codhe. Quando percebeu que ele havia retornado sem ela, questionou diretamente Malessa o porquê de ele tê-la deixado para trás; estava indignada pela atitude dele.

Por mais que a sobrinha tentasse convencê-la a ficar, explicando os motivos do lorde, Lady Mclin se recusava a aceitar, alegando que tinha poder suficiente para ajudar no que fosse necessário e mais, desejava tomar parte de tudo.

Porém, como já estava tarde, não quis arriscar-se voltando sozinha. Decidiu esperar amanhecer para retornar; não se afastaria de Bherto, muito menos, de Lorde Codhe por quem agora estava apaixonada.