Les Marcheé
32 O portal
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O portal que Lady Hestea abriu em Imperah, lhe transportou a Boandis rapidamente, precisamente na beira de um precipício que findava no mar, onde era a porta principal do Mar Infinito.
A tatuagem em seu peito reagiu em sintonia com seu coração e seus desejos obscuros. Olhou para Allegra ao seu lado e não sentiu pena, pelo contrário, riu satisfeita com o início de sua realização maléfica. Envolveu ambas numa densa fumaça negra, ocultando-se para dar início ao ponto capital de sua maldição.
— Mamãe, o que está acontecendo? — perguntou Allegra assustada, assim que viu as nuvens escuras se formando rapidamente. Sentiu medo e não compreendeu o que acontecia.
— Pense em coisas boas Allegra, pense no seu pai, na família linda que éramos e todas as coisas alegres que você gostava de fazer!
— Mas por quê? O que está havendo? — se encolheu assustada e abraçou a mãe, buscando um abrigo na figura que deveria lhe oferecer proteção.
— Porque seus últimos pensamentos devem estar nas coisas boas e bonitas que você teve na sua curta vida — riu maléfica.
— Estou com medo! — gritou e iniciou um choro baixo.
— Não tenha medo, não vai doer. Você vai ajudar a mamãe a ter o maior poder de Les Marcheé — envolveu a menina com uma magia paralisando-a e fazendo-a flutuar no ar alguns metros acima do chão.
— Mamãe, me ajuda! Eu não consigo me mexer? — gritou assustada.
— É essa a intenção, Allegra, fique quieta! É chegada a hora desta Era sucumbir às trevas e nascer um tempo de glória para aqueles que merecem o poder! É chegada minha hora de imperar! — ergueu os braços para o céu e concentrou sua magia sob si em uma grande nuvem negra de onde saltavam raios e trovões.
A pequena percebeu o que estava acontecendo e se calou, ficou tão assustada com o que seus olhos viram que não conseguiu mais falar.
Pannastovik deu o aviso. Desta vez, não era fútil como as ameaças que ocorreram anteriormente, era um poder para ser temido e demandava atitudes imediatas para um confronto perigoso e mortal.
Lorde Shaido encontrava-se no Palácio do Governo, seguia sua rotina diária quando sentiu aquele aviso, havia uma grande aura perversa invadindo a cidade. Concentrou-se e buscou através de sua magia o ponto capital — o local exato onde era a concentração inicial do poder, que emanava algo tão contrário à harmonia. Sua mente sondou por Boandis, ao mesmo tempo em que pedia ajuda a Pannastovik para localizar seu inimigo, no entanto, não conseguiu saber de quem se tratava.
Aquele presença incômoda lhe fez lembrar da ocasião na qual deteve a morte dos peixes na praia, era muito semelhante e poderia jurar que se tratava da mesma pessoa, porém, muito mais poderosa do que daquela vez.
Lorde Shaido pegou Enarah — seu cajado bélico, e saiu correndo para o terraço do palácio. Lançou sua magia ao céu, dando um sinal de luz para seus exércitos, adiantando-os na preparação. O Palácio do Governo ficava no centro de Boandis, porém, o forte onde estavam alojadas as armas e montarias, ficava afastado do centro e tomaria um tempo precioso caso ele próprio tivesse que ir até lá para mobilizá-los. Era de grande valia ter homens bem treinados sempre alertas para qualquer evento.
Seu coração se acelerou e por um momento, temeu. Pannastovik havia sido claro em sua mensagem sobre a ameaça ser fatal. Ficou estarrecido ao pensar na possibilidade de uma guerra como aquela da Batalha das Sombras, por isso, precisava agir urgente e encontrar quem estava ameaçando de forma tão tenebrosa.
Correu para buscar sua montaria, precisava se preocupar em levar o povo para um local seguro antes que algo horrível acontecesse. No caminho, os lordes da Ordem Levi iam se juntando a ele, todos já armados e cientes que precisavam impedir algo ou alguém. Estavam sem direção, mas Lorde Shaido logo ordenou:
— Tragam o povo para o centro da cidade! Vamos criar um ponto capital para concentrar a magia e erguer uma barreira protetora.
No mesmo momento, no Palácio de Linmor, Lady Khei ouviu o aviso de Pannastovik, ficou aterrorizada pela certeza que algo horrível estava para acontecer e exigiria todo seu poder. Convocou a Ordem Protheroi de Boandis imediatamente.
Nunca antes ela havia usado sua arma bélica que ganhara do Coirlem, uma glaive, Enchantare era seu nome de honraria. Semelhante a de seu irmão, mas diferente nos ornamentos e poder, pois não possuía um selo Tione para expandi-la em magia e encanto, todavia, lhe seria útil no momento.
Enquanto isso, no Castelo de Bherto, na Torre Bhertophel, o casal trabalhava no tempero e encanto de armas quando receberam o aviso de Pannastovik, quase ao mesmo tempo em que a voz de Ventura ecoou por todo o salão.
— Lorde Codhe! Ela está aqui para lançar a Maldição! — gritou a Musa irada, materializando-se em forma feminina.
— O que acontecerá com o povo? — O lorde se preocupou ao pensar no seu povo e não saber como protegê-los.
— Traga todos para as proximidades do castelo — ordenou Ventura.
— Vamos criar uma barreira contra a maldição — comandou o Lorde Mago. — Mclin, é hora de mostrar seu poder ao povo. Faça!
O enorme sorriso que Lady Mclin deu foi de pura satisfação. Havia chego sua hora de mostrar do que era capaz. Sabia que a responsabilidade era enorme, pois a proteção de grande parte do povo da região de Bherto estava em suas mãos e no poder que colocaria para erguer aquela barreira; não era permitido falhar ou vidas seriam perdidas.
Permaneceu na Torre Bhertophel, abrindo sobre a grande mesa de ferro vários livros contendo os mais poderosos encantos. Concentrou seu poder na leitura e conjuração para criar o escudo, iniciando ali outro ponto capital para proteção. Desejava avançar o máximo que conseguisse possibilitando um alcance maior para que muitas vidas ficassem seguras. Seu coração almejava salvar o maior número possível.
Ventura enviava através da magia avisos intuitivos para que o povo se abrigasse urgente o mais próximo possível do castelo. Todavia, não tinha certeza alguma se o escudo de Lady Mclin seria capaz de resistir à Maldição quando ela começasse a tomar forma.
As Musas sabiam que Lady Hestea não possuía um Tione e esse era o motivo principal de acreditarem na possível vitória sobre a maldição.
Lorde Codhe armou-se, sua alabarda, Encarnathe, reluzia ofuscante com o brilho flamejante do fogo, com a silhueta de um dragão que a circulava.
— Onde você vai? — Mclin preocupou-se ao ver ele se afastar.
— Meu lugar é no campo de batalha, você sabe disso — disse confiante.
— Cuidado! Não estará seguro fora do escudo.
— Não sabemos nem se estaremos seguros dentro dele — retrucou Ventura, rindo debochada enquanto lançava encantos para fortificar as armas dos Lordes da Ordem, antes que deixassem o castelo.
Lady Mclin ignorou o comentário e tentou não pensar nas possibilidades negativas que eram eminentes, depositou sua confiança em Lorde Codhe e na liderança de Ventura. Pensou em sua vila e teve confiança em Lorde Shaido e Lady Khei, sabia que ambos agiriam heroicamente e fariam o seu melhor para proteger o povo.
Lady Khei cruzou os corredores do Palácio de Linmor, iria para o Palácio do Governo que ficava próximo e onde pensava se encontrar com Lorde Shaido. No percurso, ia observando sua Ordem se reunir, tendo a certeza que estavam todos armados e dotados de plenas condições para um combate caso viesse a ocorrer.
Naquele momento mostrou-se o grande valor que havia sido a volta deles para Boandis. Lorde Shaido, o primeiro a retorna, havia trazido muitos lordes para se unirem a Ordem Levi, em seguida os gêmeos igualmente trouxeram muitos lordes valorosos para o litoral e esse fato faria a diferença para a batalha que viria.
Se tivesse ocorrido algo anos atrás, quando nenhum deles havia despertado a magia e nem eram admirados e seguidos, Boandis estaria arruinada. Lady Khei era grata por tudo o que aprendera na capital e, principalmente, por tudo o que conquistaram lá. Pensava sobre essas coisas e como seria trágico uma guerra na qual essa harmonia fosse perdida. No íntimo, desejava que fosse apenas um alarme falso. No entanto, aquele aviso não deixava dúvidas sobre a grande tragédia que se desencadeava. Pannastovik não se enganava e nem mentia.
— Espere minha lady, não deixe Linmor. — Um lorde gritou chamando sua atenção.
— Vamos nos reunir com Lorde Shaido e seguiremos seu comando a partir de lá — retrucou virando-se para encarar o lorde que lhe fizera o pedido.
— Linmor será o ponto capital do escudo contra a maldição — falou com urgência em ser ouvido.
— O que está dizendo? — encarou-o surpresa e percebeu que ele não era um lorde da sua Ordem, apesar de trajado para a batalha, ela não viu suas armas e não reconheceu sua indumentária. — Quem é senhor?
— Ninguém que mereça destaque. Porém, peço que me ouça. A maldição já começou a agir e precisamos trazer com urgência o povo para o centro da cidade, o mais próximo possível dos palácios para que fiquem protegidos na barreira.
Lady Khei ficou confusa com aquela nova informação e logo avistou Lorde Shaido chegando em marcha apressada, sem nem mesmo desmontar do cavalo, adentrou o recinto gritando ordens e, ao ver Lady Khei, foi até ela.
— Khei! Rápido, traga todos para o centro da cidade e concentre todo seu poder! — ditou. — Você precisa manter o ponto capital para o escudo protetor.
— Ouviram o Governador! Abriguem o povo! — olhou procurando o lorde que primeiro lhe havia dito aquelas mesmas ordens, mas não o encontrou entre os demais.
Lady Khei recebeu grande incumbência, mas não estava disposta a falhar. Subiu para o terraço, onde executou sua tarefa de erguer a barreira, tão eficiente e suficientemente grande para cobrir toda parte central da cidade. Uma de suas habilidades mais bem desenvolvidas era a de defesa e proteção.
Havia naquele momento dois poderosos pontos capitais em Boandis, um no centro, outro em Bherto. Se seriam suficientes para salvar a todos, era algo que nem mesmo as Musas poderiam responder.
As pessoas corriam rua afora. Todos os lordes, em suas montarias, corriam para expandir seu poder e enviar avisos intuitivos para que o povo deixasse tudo o que estavam fazendo e se abrigassem o mais próximo possível dos palácios. Não podiam ficar parados, pois era urgente que guiasse aqueles que estavam atônitos, em pânico ou que não tinham condições de se locomover rapidamente.
A população era numerosa, Boandis era uma cidade grande e havia muitos que moravam em vilas afastadas ou em terras agrícolas. Seria impossível proteger a todos sem uma intervenção divina, pois os que moravam próximos do centro ou perto de Bherto conseguiam chegar rapidamente no seu destino, mas os que estavam mais afastados demoravam na locomoção. O alvoroço nas ruas, o pânico, o medo e a desorientação atrapalhavam muito, mesmo com muitos lordes pelas ruas auxiliando.
De um ponto alto na fronteira de Boandis, dois Lordes Lynzeths observavam a movimentação.
— Que absurdo permitir que isso aconteça! — dizia indignado o segundo Lorde Lynzeth. — Lorde Danka, você acha que a Imperatriz está com algum problema mental?
— Não diga bobagens Ceth. — disse Lorde Danka, o terceiro Lynzeth. — Mas também não sei o que pensar sobre isso.
— Evidentemente, não conseguirão deter com somente dois Tiones ativos. Mesmo que Lorde Meyne e Lorde Codhe façam seu melhor, não será suficiente.
Outro lorde se uniu a dupla e fez seu comentário, que foi recebido com olhar duvidoso de Lorde Ceth.
— Confio nos Protherois, eles são poderosos.
— Lorde Lience, eu vi você dando sugestões para Lady Khei no palácio — disse Lorde Ceth, com um leve sorriso malicioso.
— Não foi nada de mais — defendeu-se. — Apenas achei justo adiantar algo que seria benéfico ao povo. Lady Khei não tem um Tione e não possui tantas habilidades em batalha, mas é habilidosa na defesa e precisava de uma direção rápida.
O sexto Lorde Lynzeth, Lience Berlieze, fechou o semblante e deixou o local sumindo com o vento. O terceiro Lorde Lynzeth, Danka VönAi, sorriu amargo e preocupado, sumindo em seguida, deixando o segundo Lorde Lynzeth, Ceth SancShephil sozinho e contrariado.
— Vamos ver se eles serão capazes de impedir a repetição do passado — disse em tom desafiador e também sumiu.
Um escudo de energia se formou onde Lady Hestea a Allegra estavam, protegendo-as de qualquer ação que viesse atrapalhar seus planos. A grande nuvem escura, violenta e densa, começou a ganhar grandes proporções e ia avançando no céu, crescendo até onde os olhos alcançavam. O som que se ouvia era de uma tempestade furiosa.
Formou-se uma forte ventania e Allegra fechou os olhos com a violência do vento contra seu rosto. Lady Hestea riu e se divertiu sentindo o vento açoitar suas vestes alvas e os longos cabelos brancos.
E a grande nuvem despejou sua chuva: a Maldição dos Mil Anos. No mesmo momento, a insígnia de Kalanthos brilhou negra e maligna no peito de Hestea, petrificando o coração da Dama Albina, que naquele instante perdeu toda e qualquer capacidade de bons sentimentos.
O coração de pedra era o primeiro efeito da maldição, manifestada em forma de tempestade, vinda da nuvem negra cujas gotas de água transformavam em pedra tudo o que fosse vivo. Toda fauna e toda flora, todo ser humano, tudo o que tivesse vida, quando tocado por aquela chuva, virava pedra tão dura quando uma rocha.
Aquela era a Maldição dos Mil Anos e mil anos era o tempo que levaria para aquelas rochas transformadas se dissipar. A tempestade foi avançando, fazendo suas primeiras vítimas fatais na vila próxima à praia, onde o povo desorientado, corria pelas ruas julgando ser apenas uma tempestade. Muitos tentavam se abrigar nas casas ou comércio, porém, jamais imaginaram do que se tratava e nem todos conseguiram encontrar abrigo a tempo; quando viram os muitos que jaziam como estátuas pelo caminho o pavor e desespero tomou conta de todos.
Desesperados e sem saber o que fazer ou para onde ir, ficaram a mercê do destino, ainda que recebessem os avisos intuitivos dos lordes para que buscassem abrigo, estavam longe demais dos escudos de proteção. Aqueles que possuíam magia, não eram afetados de imediato e conseguiam resistir algum tempo, suficiente para chegar a um vértice que fora aberto pelos lordes para levá-los ao centro da cidade.
Nos campos próximos a Bherto, a Ordem Protheroi acolhia o povo, protegendo-o com magia até chegarem na barreira ou a outro vértice, igualmente aberto para transporte rápido. Lady Hestea soube das barreiras e das ações tomadas por aqueles que eram seus inimigos, mas não se preocupou com as resistências.
A Dama Albina ria cada vez mais alto, pois sentia que tanto nos Palácios como no castelo de Bherto não havia Tione algum para sustentar os escudos e logo aquelas barreiras seriam derrubadas. Quando a Maldição dos Mil Anos chegasse no centro da cidade seria o fim para Boandis.
Sua mente focou em sentir o selo Tione Resplandecente, antes pertencente à Lady Maga do Sol, Crissânea, agora selado e guardado em local secreto. A Dama Albina desejava encontrá-lo e trazê-lo para si. Pretendia quebrá-lo usando a pureza e bondade de Allegra. Assim, quando a quebra do selo ocorresse e a pequena vida inocente fosse sacrificada, tal ato macabro perverteria o poder do Tione e ele não podendo mais ser selado; não haveria nenhuma chance de impedirem a conclusão da maldição, pois teria um Tione sobre seu comando.
Lady Hestea precisava daquele selo, afinal, sabia que poderia ser parada caso houvesse a união de três Tiones. Contudo, havia somente o Tione Flamejante, do Lorde Mago do Fogo e o Tione Cintilante, do Lorde Mago do Gelo.
A tempestade avançava lentamente, como se quisesse causar maior pavor, uma aproximação vagarosa e inevitável. Os lordes corriam contra o tempo para retirar as pessoas das vilas que estavam no caminho da tempestade petrificante. Estavam usando todo seu poder para abrir portais e se locomover rapidamente, salvando o maior número de pessoas. Mas sabiam que seu poder não resistiria por muito tempo e mesmo aqueles nobres poderosos se tornariam pedras caso se expusessem muito tempo à tempestade.
As ruas logo estavam alagadas e as águas começavam a invadir as casas, as vidraças e portas se rompiam pela força dos ventos e da enchente. Assim, mesmo aquelas pessoas que pensavam estar seguras, acabaram sendo petrificadas dentro de suas próprias casas.
A defesa de Bherto era admirável. O escudo de Lady Mclin protegia da tempestade e dos ventos, cujas rajadas eram capazes de arrancar árvores, telhados e revirar o solo.
Lorde Codhe saiu com vários Lordes da sua Ordem, seu plano era encontrar Lady Hestea. Invocou o Dragão Flamejante e Ventura permaneceu ao seu lado para fortificar seu poder. A Musa foi capaz de subjugar a tempestade, com seu fogo transformou a água em vapor, onde seu poder alcançava afastava a tempestade, dando grandes chances das pessoas serem salvas e conduzidas para dentro do escudo do Castelo.
— Codhe! Você precisa encontrar o ponto capital da Maldição e destruí-lo! — dizia Ventura, em meio ao fogo da batalha que travava com a tempestade.
— Encontrarei e matarei Hestea, assim pararemos a maldição — disse se aproximando de um vilarejo onde a tempestade começava a chegar.
— Não tão simples! O poder dos Kailes oculta Hestea — informou a Musa, enquanto abria um portal e fazia a passagem em segurança das pessoas daquela vila. — Não sabemos onde ela está. Somente Kursora consegue ver e os escolhidos dela deverão ser os guias!
— Quem são os escolhidos de Kursora? Por que ela não está aqui? — Um trovão rasgou o céu cegando o Lorde Mago. Por um instante, seu Dragão foi atingido pela tempestade violenta, vacilando e fazendo Lorde Codhe receber uma forte rajada de chuva amaldiçoada.
— Não sei! O selo Resplandecente está oculto e ainda não foi quebrado. — Ventura fechou o portal assim que a última pessoa cruzou. — Codhe, é inútil tentar encontrar Hestea, você precisa avançar para o centro, para a união dos Tiones!
— Iremos. Ventura, por favor, abra um portal que nos leve mais rapidamente!
— Farei, mas você irá sozinho. — Ela abriu o portal imediatamente. — Preciso voltar a Bherto, sem um Tione lá, o escudo não resistirá por muito tempo.
Lorde Codhe cruzou o portal sem pestanejar e logo estava no centro de Boandis, de onde podia ver, não muito longe, a tempestade se aproximando.
A resistência nos Palácios não estava sendo tão bem sucedida, por mais que Lorde Shaido e Lady Khei fossem poderosos, não possuíam um Selo Tione para amplificar o alcance do escudo, tampouco a magia entre os nobres do exército conseguia abrir portais rapidamente, eram mais lentos e menos poderosos. Ainda sim, faziam seu melhor, mas o escudo estava enfraquecendo e a Maldição nem havia chego plenamente ali.
Lorde Shaido pretendia sair em busca do ponto capital da maldição. Tinha certeza que era capaz de encontrá-lo, apenas precisava seguir seu coração.
— Conheço essa aura maligna — dizia ele — , não é a primeira vez que confronto ela.
— Shaido, cuidado! Agora é completamente diferente de tudo o que enfrentamos! — Lady Khei disse preocupada.
— Posso encontrá-la, sinto a origem dessa tempestade, está próxima a praia, além das montanhas no precipício — disse resoluto. — Eu vou até lá!
Assim que Lorde Shaido tomou sua decisão, olhou os portões do Palácio e viu Lorde Meyne entrando juntamente com Belle. Ambos corriam em sua direção e o governador sentiu seu coração tremer em rever Belle naquela situação tão perigosa; não era bom que ela estivesse ali. A princípio, ele não gostou da presença do Lorde albino, mas não era momento para rixas e aquele poder seria de suma importância.
— Lorde Shaido! — cumprimentou Lorde Meyne. — Permita-me oferecer minha ajuda.
— É bem-vindo! Precisamos de um Tione para maior alcance do escudo e mais eficiência para salvar os que ainda estão isolados longe do centro.
Lorde Meyne concordou, sem perder tempo invocou seu Dragão de Gelo, que surgiu gélido e cintilante no céu em meio as nuvens negras que antecediam a tempestade.
E, quando a Maldição chegou, o Lorde Mago do Gelo usou todo seu poder para conter aquela tempestade. Imediatamente, toda água se tornou gelo perdendo seu efeito, sendo submetida à magia gélida do selo Tione Cintilante.
Nesse momento, quando o Dragão prateado abriu suas asas, nevou.
Cada flocos de neve era um ponto de luz, como estrelas, e onde tocavam impediam a petrificação. Acima do grande dragão estava uma silhueta, cujo corpo era de luz alva, deixando à mostra somente a grande coroa de cristal. Era Esteh: a Musa da Esperança, que descia dos céus em socorro de Boandis. Todavia, ela não assumiu uma forma física e permaneceu com seu poder apenas para auxílio do seu escolhido.
— Vou em busca do ponto capital da maldição — anunciou Lorde Shaido.
— Saiba que quem lançou a maldição foi Hestea. E ela está com minha filha, Allegra — informou Lorde Meyne, muito aflito.
Lorde Shaido sentiu toda a preocupação e angústia nas palavras do albino. Lembrou-se de Allegra e ficou igualmente perturbado, pois tinha grande carinho pela menina. Olhou para Belle, que manipulava um Livro de Encantos, abrindo portais para a passagem de mais e mais pessoas até o Palácio. Se aproximou dela desejando abraçá-la e protegê-la, mas suas obrigações eram maiores que qualquer sentimento pessoal.
— Por favor, Lorde Shaido, sei que não somos os melhores amigos — disse o Mago do Gelo, enquanto expandia seu poder para outros portais que Belle abria. — Mas somente o poder de um Tione pode sustentar este escudo de forma eficiente. Se ele for derrubado, todos aqui morrerão, nem mesmo os nobres detentores de magia poderão resistir por muito tempo.
— Entendo! O Lorde Mago deve ficar aqui e sustentar o escudo. Não precisa me pedir, eu sei que devo ir e resgatar Allegra — disse enquanto olhava para Belle diante de si. Vê-la ali envolvida fez seu coração estremecer e só então se deu conta do tipo de poder que ela estava usando. Surpreendeu-se. — Belle!
— Vou com você, Lorde Shaido. — Belle anunciou. — Posso abrir um portal para nos levar mais rapidamente.
— Belle! — O Lorde governador não pareceu concordar com a ideia dela se arriscar daquela forma, mas não era tolo e percebeu imediatamente que o poder da moça era de grande valia. — Vamos! Hestea está elevando cada vez mais o seu poder e a tempestade está se tornando mais violenta.
A moça manipulou seu Livro mais uma vez e abriu um portal, pelo qual passaram ambos. Lorde Shaido repreendeu-se por estar dando grande importância à segurança de Belle, tendo todo o seu povo para se preocupar, todavia, era inevitável não se preocupar com ela, já que a amava.
Primeiramente não compreendeu o porquê Belle viera ajudar, mas quando viu o poder da moça, entendeu. A questão que lhe apertava o coração era ela ter vindo junto ao Lorde Meyne e sua teoria parecia se confirmar: Lorde Shaido suspeitava que Belle amava o Mago do Gelo, por isso, era tão relutante em aceitar seu cortejo.
Logo, Lorde Codhe chegava no Palácio de Linmor. Estar encharcado pela chuva era um fato preocupante, mas sentiu-se mais confiante ao ver o Lorde Mago do Gelo com o Dragão do Tione Cintilante.
— Lorde Meyne. Que bom vê-lo — cumprimentou transparecendo confiança em ter outro Tione para auxiliar naquele momento fatídico.
— Bem-vindo, Lorde Codhe, mas saiba que somente dois Tiones não são suficientes para deter a maldição.
— Ventura me informou sobre isso. Espero que sua dádiva seja de Kursora e nos diga onde está o ponto capital da maldição.
— Não, Lorde Codhe, sou escolhido de Esteh, Kursora ainda não se manifestou e isso é preocupante — disse franzindo as sobrancelhas. — Se o selo Resplandecente não for dominado rapidamente, teremos grandes problemas.
— Meu irmão! — Lady Khei entrou correndo no salão, por um momento, suas pernas fraquejam, pois estava exausta pelo trabalho com magia e também estava encharcada. — Que bom que chegou, precisamos de ajuda!
— Onde está Lorde Shaido? — perguntou olhando em volta.
— Ele foi procurar Lady Hestea — informou Lady Khei. — Ela lançou a maldição de algum ponto próximo à praia.
— Ele a localizou? — Lorde Codhe perguntou surpreso.
— Sim, ele sentiu a presença dela antes mesmo da maldição ser lançada.
— Vou atrás dele, pois sem um Tione ele pouco poderá fazer ao encontrá-la.
— A maldição ganhou força de tal forma que já não é possível abrir portais dentro da tempestade — informou Lady Khei. — Assim, se você for estará se arriscando muito, pois não é seguro.
— Lorde Codhe, ouça-me. — O Mago do Gelo chamou a atenção. — Precisamos reunir no mínimo três Tiones, aqui somos dois e precisamos manter essa união até o terceiro chegar.
— Mas não posso deixar que Shaido se arrisque dessa forma. Ele não poderá deter Lady Hestea e colocará sua vida em risco inutilmente. — O Mago do Fogo se opôs em ficar parado.
— Lorde Shaido sem um Tione talvez não consiga, mas Belle poderá intervir até que Kursora envie seu poder.
— Belle? — perguntou Codhe, surpreso. — Por que Belle está com Shaido?
Antes que Lorde Meyne pudesse responder, a tempestade reagiu violenta e o Dragão prateado emitiu um som triste. Todos souberam que a maldição havia atingido Boandis em totalidade, com exceção dos dois pontos de resistências nos Palácios e em Bherto, ninguém mais poderia ser salvo. Mesmo o escudo, agora mantido pelo Tione Cintilante estava enfraquecendo. Lorde Codhe invocou seu Dragão de Fogo novamente e uniu o Tione Flamejante ao Tione Cintilante. Assim, conseguiram amenizar a tempestade, mas já não tinha grande valia.
— Que absurdo... — Lady Khei suspirou triste ao sentir que não poderiam mais salvar ninguém e temeu pela vida dos seus amigos. — Kursora deveria ser a precursora de tudo, deveria ter mostrado seus escolhidos antes dessa maldição iniciar. Pensei que o poder dela estivesse sempre à frente de toda e qualquer batalha, por que agora ela tarda?
— Talvez, ela não tenha tardado. — Lorde Meyne disse pensativo.
— Como teremos certeza que Shaido e Belle estão bem? — Khei disse começando a chorar e se desesperar. — A tempestade já causou seu efeito fatal em toda Boandis, nem mesmo eles poderão resistir por muito tempo.
— Eu confio em Belle. — Lorde Meyne respondeu sério.
— E eu confio nas Musas — disse Lorde Codhe, com o pensamento em Mclin e Bherto. — Espero que Ventura não me decepcione.
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