Les Marcheé
19 Foi anunciado publicamente
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Foi anunciado publicamente o casamento de Lorde Shaido com Lady Mclin, mas nem toda Boandis comemorou. A cidade estava dividida entre aqueles que apoiavam e achavam que a união seria benéfica e aqueles que achavam que Lorde Shaido não deveria se unir à alguém como Lady Mclin, uma bruxa, cujos poderes eram duvidosos.
Desde que Lorde Shaido retornou e assumiu o governo, Boandis voltou a ter esperanças e confiança. A cidade dava os primeiros indícios de segurança depois da tragédia e ao poucos tudo estava voltado à rotina.
Eles se encontravam todos os dias, pois ela tinha uma cadeira no Conselho de Boandis, que lhe foi dada por Lorde Levi e isso jamais lhe seria tirado, em respeito aos desejos e escolhas do falecido governador. Também porque seu poder era representativo e mesmo com muitos que a desaprovavam, tinha uma boa parte que a admirava.
Os assuntos que conversavam eram sempre relacionados ao governo e no trabalho a ser feito para manutenção da cidade e do povo. No resto do tempo, Lorde Shaido evitava-a. Todavia, gostava de observá-la no jardim, quando ela saía para respirar enquanto fazia uma pausa nos deveres.
Em um desses momentos de observação, Shaido tomou uma decisão. Já não era aceitável sua atitude perante sua noiva, precisava esclarecer a situação. Sentou-se à mesa próximo a janela de onde ainda podia vê-la e pôs-se a escrever:
À querida amiga que, há tantos anos, guardo com preocupação desde a infância até nos momentos em que não mais nos conhecemos. Agora unidos novamente pelo destino, quisera eu poder vê-la com os mesmo olhos que a via anos atrás.
Sinto que me casando com você, talvez lhe faça sofrer... eu não desejo isso. Eu me preocupo com você e com o sofrimento que venha a ter com esse casamento. Sei que ainda me ama e eu sempre a ignorei, fingindo me irritar com o fato de você me amar, quando no fundo, eu gostava de ser amado por você — e ainda gosto.
Desde nossos primeiros encontros, sempre gostei da forma simples e natural que você era. Só não gostava da sua teimosia e da forma irritante que agia para descobrir a magia. Isso me levou a manter distância entre nós. A culpa é minha, a minha mente focada em me afastar para proteger. Magia nem sempre é boa.
Ouvia desde criança muitas coisas, comentários sobre a sua família, sobre as mulheres bruxas das quais você descende. Ouvi tanto de meus avós sobre quem eu era e a função que me era destinada. Fui educado para me ver como o sol, luz do dia, ouro puro, compaixão e benevolência, por isso, acabei por ver você, mesmo com a sinceridade e bondade, como a noite, céu em trevas, ferrugem, mágoa e vingança.
Fiquei tão surpreso com o desejo de meu avô para que nos casássemos. Agora que você é uma lady, sabe o quanto manter títulos e status é importante numa família nobre. Eu fui o escolhido desde que nasci, minha vida toda foi uma preparação para assumir o governo, proteger, conquistar, mudar o mundo se fosse preciso. Por isso, fui contra esse casamento, contra essa associação. Ainda mais depois de saber que Loren e Mclin eram a mesma pessoa.
Isso estava em minha cabeça dia e noite. Perdi muito da vida, perdi muito das coisas boas que poderia ter visto e sentido. Eu sei, eu perdi muito do amor que poderia ter recebido, mas nunca consegui ter sentimentos e emoções como parte da minha essência, porque isso me parecia a pior fraqueza de um homem. Eu poderia me calar e continuar sendo o que sempre fui: arrogante, frio e austero. Porém, eu decidi, ao menos com você, ser sincero e não trazer mais sofrimentos desnecessários.
É verdade que a culpei pela morte do meu avô, como também culpei muitas pessoas por coisas que eu não queria aceitar, mas agora estamos caminhando para um destino único e isso está me assustando. O seu poder me assusta, por isso evito até mesmo de olhar para você.
Você é tão bonita, poderosa e gentil. Eu deveria estar radiante por me casar com você, mas estou triste e preocupado. Quando olho para você, não sinto o amor latente, nem a paixão fulminante. Sinto um grande carinho e um arrependimento por não ter aproveitados os bons momentos que poderíamos ter tido.
Agora eu evito lhe olhar, para que não saiba dos meus sentimentos, os quais não pretendo mudar. Não creio que mereça me casar com você, sabendo de todo o seu amor, mas ao mesmo tempo, é o mínimo que posso fazer, para amenizar todos os anos que lhe fiz ser infeliz e triste.
Se eu tivesse aceitado sua amizade, retribuído um pouco da atenção que recebia. Se tivesse demonstrado gratidão pelo seu amor, respondido pelo menos uma de suas cartas, hoje tudo seria diferente. Talvez, hoje eu pudesse olhar em seus olhos e dizer que você foi uma das minhas melhores e maiores amigas.
Você terá uma união linda, em nome da amizade que perdemos a oportunidade de ter. Ainda que eu não possa oferecer o que você deseja ou mereça, eu farei meu melhor, à minha maneira.”
Assinou a carta, fechou e selou. Imediatamente mandando um dos seus assistentes entregar à Lady Mclin, antes que ele se arrependesse.
Lady Mclin se levantou do banco onde estava sentava assim que o assistente veio em sua direção. Quando recebeu a carta, jamais imaginou que o remetente era seu noivo. Menos ainda, o conteúdo tão profundo que ali fora escrito.
Leu com os olhos marejados. Ainda que houvesse o tom arrogante costumeiro, não se incomodou, pois sabia que não seria diferente tratando-se de seu noivo. Ela compreendendo toda a intensidade e sinceridade que havia naquelas palavras difíceis de serem assumidas por alguém como Lorde Shaido. Seu coração disparou e suspirou mais que três vezes.
Assim que terminou de ler, correu para dentro do palácio, para a sala de seu lorde. Entrou sem bater, sem pedir licença, escancarando a porta com pressa e euforia. Ele se levantou um pouco surpreso pela invasão nada educada, mas não se aborreceu.
Pelo contrário, sorriu e, quando ela o abraçou segurando-o firme como se pudesse prendê-lo para sempre naquele abraço, ele a envolveu de forma terna e condizente com tudo o que acabara de escrever.
Era a primeira vez que ela o abraçava. A primeira vez desde que o conhecera.
Ela sabia que ele não mudaria sua personalidade ou caráter, nem queria isso. O importante era que ela sabia da verdadeira essência do coração dele, Lady Mclin agora sabia da verdade, ainda que não fosse amor, havia sentimentos e para ela era isso o que importava.
No quarto destruído pelo fogo, no palácio de Isle onde residia os gêmeos Protherois, Khei permanecia zelosa.
Sentou-se na cama onde o irmão estava num sono profundo. Acomodou-o mais confortavelmente e analisou o grande estrago que o incêndio havia causado. Por sorte não havia se propagado para fora do apartamento e, pelo que parecia foi controlado rapidamente, evitando maiores danos. Khei estava muito preocupada, queria alguma resposta e não iria aguentar esperar até o irmão acordar para lhe contar a verdade.
Codhe estava entre os melhores alunos, seu domínio com a magia era excelente, Khei sabia que Codhe não teria feito tudo isso sem nenhuma razão. Isso a incomodava, ainda mais sendo óbvio que os Lordes de Bellephorte sabiam da verdade, mas não quiseram lhe dizer. Pensou em quem procurar para lhe dar uma luz sobre os fatos.
Levantou-se com a intenção de limpar e organizar o quarto, quando ouviu uma suave batida na porta. Pensou logo que não tardaria para curiosos de todos os lugares estarem à sua porta, querendo saber do ocorrido. Apesar de que o povo da capital era discreto e bastante ético, ainda assim muitos não controlavam sua curiosidade. Não pretendia atender ninguém e teria ignorado as batidas se não ouvisse a porta se abrindo.
Khei correu para a sala, um pouco irritada com a ousadia de alguém em entrar sem permissão. Teria xingado e posto para fora, mas sua ira se desfez quando viu Belle entrando, com toda sua postura doce e amável.
— Desculpe querida. Acho que não me ouviu bater, por isso entrei mesmo sem ser convidada — disse num tom de voz suave e tão persuasivo que ninguém podia retrucar ou discordar.
— Eu que peço desculpas, não pretendia atender ninguém, mas não imaginei que fosse você.
Devido as tantas vezes que a gêmea precisou da ajuda da bibliotecária, Belle se tornou amiga. Ambas mantinham uma boa amizade, nada muito íntimo, mas já haviam tomado vários cafés juntas e até se emprestavam cosméticos.
Khei tinha um carinho especial por Belle e Codhe, por várias vezes, comentava sobre o quanto a moça lhe parecia perfeita em muitos aspectos. Ficou feliz por Belle ter se preocupado e vindo dar atenção ao ocorrido, era bom ter uma amiga para momentos como aquele. Quem sabe Belle poderia lhe dar alguma luz?
— Belle, com sua experiência em magia, o que acha que aconteceu aqui?
— Um novo selo foi quebrado — falou tão natural que Khei ficou sem saber o que dizer. — Você sabe sobre os selos Tiones, não sabe?
Khei sabia. Tinha estudado sobre os Tiones, os selos que regiam a Tríade, mas não sabia muito mais que informações técnicas provenientes de livros. Também não sabia quem eram os detentores, nem como esses selos eram obtidos ou de onde vinham.
— Por acaso foi meu irmão que quebrou esse novo selo? — Khei quase tinha certeza da resposta, mas ainda era algo surreal em sua mente.
— Sim, aqui mesmo nesse quarto.
Belle entrou no quarto de Codhe e parou ao lado da cama observando-o em seu profundo sono.
— Como ele quebrou o selo? De onde veio esse selo? — Khei se aproximou e falava sussurrando, com cuidado para não acordar o irmão.
— Como ele quebrou? Com magia, eu creio... é assim que os selos são quebrados.
Belle não mudou o tom de voz e mesmo sendo suave, khei se preocupou que o irmão despertasse. A moça de cabelos azuis lhe confortou:
— Não se preocupe, Khei, ele não vai acordar antes de alguns dias — sorriu levemente.
Belle olhou para Codhe e, pela primeira vez, seu sorriso se alargou. Todos sabiam o quanto era difícil ver o sorriso de Belle e Khei se admirou com esse simples gesto.
— Você precisa saber mais sobre os selos, Khei! — Belle ainda sorria e virando-se rapidamente saiu do quarto.
Khei a seguiu até a sala, onde Belle parou e se virou novamente para Khei, entregando-lhe um livro.
— Pode ler e depois me devolva na biblioteca, este livro vai lhe tirar muitas dúvidas — despediu-se e saiu.
Depois que Belle saiu, Khei ficou parada, pensando nas coisas que ela acabara de lhe dizer. Realmente a bibliotecária era admirável, tinha um conhecimento enorme sobre todas as coisas em relação à magia.
Olhou para o pequeno livro de capa azul, decorado com arabescos perolados. Imediatamente abriu e foi lendo enquanto se dirigia para o quarto de Codhe. Era um livro muito interessante, uma narrativa poética sobre as Musas e os Selos Tiones. Não tinha informações técnicas ou uma escrita clara e coerente, era lírica, romântica, transferindo o conhecimento por magia através das palavras. Um livro realmente interessante.
No palácio de Isle, Codhe dormiu bem mais que o previsto deixando Khei cada dia mais preocupada. Os resultados finais haviam sido divulgados. Codhe e Khei foram os melhores alunos daquele ano e o fato dele ter quebrado um novo selo despertou imediatamente o interesse do Coirlem. Porém, Codhe precisava acordar para que os títulos lhe fossem dados.
Khei escreveu uma carta para seus pais, orgulhosa, contou todas as novidades. Ela sabia que o motivo de ambos terem vindo para Imperah tinha sido justamente por causa da magia despertada. Já sabia que isso não era algo bom em sua família, mas esperava que com todos os anos na capital, agora com títulos de reconhecimento, domínio total dos poderes e Codhe se tornando um Lorde Mago, seus pais mudassem de opinião e aceitassem a magia.
Para ser mais convincente de que suas magias eram de origem benéfica, falou sobre sua amizade com Belle e transcreveu partes do livro, para que seus pais tivessem clara ideia de onde provinha o poder que agora Codhe possuía.
Enquanto escrevia, pensou no porquê Belle não tinha um título de Lady. Por muitas vezes, Khei quase se viu chamando-a de Lady Belle, mas lembrava que a moça, mesmo tendo suma importância em Imperah, não possuía o título, assim com o Sr. Havin.
Isso lhe parecia estranho e suspeito, pois ambos pareciam saber de tantas coisas importantes na história de Les Marcheé. Khei começou a formular teorias sobre eles, tinha a sensação que os bibliotecários eram muito poderosos, mas por algum motivo, escondiam seus poderes por trás da simplicidade; não ter títulos fazia parte dessa máscara.
Khei e Belle se tornaram mais próximas. Khei evitava sair e deixar o irmão sozinho, por isso, Belle visitava o apartamento dos gêmeos com frequência, conversavam sobre muitas coisas e a amizade estava gerando laços mais fortes.
A gêmea chegou a pensar que, talvez, Belle estivesse interessada em Codhe. Essa ideia lhe parecia ótima e com certeza apoiaria, caso ambos desejassem iniciar um relacionamento. Porém, Belle nunca demonstrou nada além de amizade e carinho, mesmo quando Khei tentava insinuar algo, Belle era evasiva e ponderada.
Belle emprestou muito livros de sua coleção particular. Livros, estes que continham diferentes magias e isso foi imprescindível para os dias que se sucederam na vida dos gêmeos.
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