Les Marcheé
33 Belle
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Belle levou ambos para bem próximo do local onde Hestea estava, porém, teriam que subir uma parte do caminho até o desfiladeiro onde a Dama Albina se encontrava. Belle aproveitou a oportunidade para uma conversa definitiva:
— Quando lhe falei que havia algo além do seu coração que eu desejava ver, me referia ao tipo de poder que o lorde possui — falou tentando encará-lo, mas era difícil em meio a tempestade. — Ainda está no seu sangue o poder dos Mestres da Era Antiga, das Grandes Ordens.
— Precisa estar — respondeu austero usando sua magia para conter a chuva. — Preciso ser capaz de proteger Boandis dessa maldição e devolver a vida.
— Sozinho não, precisará agir por honra e não por orgulho ou obrigação, unindo-se com os novos Mestres detentores dos selos Tiones.
— Quando encontrarmos Allegra e Hestea, talvez, estejamos correndo perigo mortal — falou preocupado e ignorando as palavras de Belle. — Não posso negar que me preocupo com você, pelo amor que lhe dedico, então quero que volte com Allegra assim que eu resgatá-la.
— Escute-me com atenção, pois estou lhe revelando algo para mudar o mundo através do seu amor por mim!
— Posso sentir Hestea, estamos próximos — falou apreensivo. — Acredito que não seja um bom momento para revelações sobre nossos sentimentos.
Eles continuaram a subida se aproximando da parte plana próxima ao precipício. Todavia, a região estava envolta de nuvens negras e densas como fumaça, ocultando tudo. O poder de Lorde Shaido não detinha a tempestade de assolá-los, apenas diminuía sua violência, por isso, estavam ambos encharcados e tendo dificuldades em se mover devido os fortes ventos e a difícil visibilidade.
— Belle, acha que pode usar seu poder para transpassar essas nuvens que envolvem e ocultam Hestea?
— Talvez, meu poder é restrito nessa forma e pode ser que eu não seja capaz de realizar. Mas tentarei.
Assim, ela manipulou seu livro novamente e produziu um poderoso encanto de uma luz brilhante azul, conseguindo uma brecha nas sombras que cercavam e protegiam Hestea, na qual puderam ver a pequena Allegra imobilizada.
— Precisamos salvar Allegra! — Lorde Shaido irou-se ao ver o estado da criança e seu ódio por Lady Hestea não pode ser contido.
Avançou sem pestanejar, elevou o poder de Enarah e adentrou na névoa, utilizando a passagem de luz criada por Belle. Seu ataque surpreendeu Hestea, que estava concentrada em manipular a maldição e não percebeu a aproximação dos dois.
— Que absurdo! Insolente! — Lady Hestea gritou ao se defender com maestria da investida de Lorde Shaido, contra-atacando sem piedade.
— O que pretende fazer com Allegra! — gritou o governador, enquanto revidava. Podia-se ouvir o cajado batendo com violência contra as adagas da Dama Albina.
— Ela será sacrificada para o mais novo e perverso selo Tione que trarei para esse mundo! — respondeu em meio a gargalhadas, enquanto tramavam uma luta digna de mestres.
Lady Hestea possuía como armas bélicas as Adagas Míticas, Maphisah eram seus nomes, um par de lâminas poderosas e mortais, principalmente, pelo alto poder que a Dama Albina tinha devido sua associação aos Kailes. Contudo, sua agilidade não era tão dinâmica como a do Lorde governador, que logo a desestabilizou fazendo com que a magia que mantinha Allegra presa fosse desfeita.
Nesse momento Belle agiu, lançando um encanto de cegamento, por alguns segundos ofuscou com luz a visão de Hestea, dando tempo para Lorde Shaido resgatar Allegra. Porém, a Dama Albina logo repeliu a luz com um encanto de repúdio, deixando os três em estado de atordoamento.
Belle ergueu rapidamente um escudo para protegê-los da chuva, mas não do golpe que Lady Hestea desferiu na sequência. Lorde Shaido recebeu a maior parte do ataque diretamente, pois usou seu corpo para proteger a pequena Allegra e Belle.
Atingidos, foram lançados para longe, descendo boa parte da montanha e ficando afastados de onde a lady estava. Os três se machucaram devido a queda, mas os ferimentos do governador eram mais graves; ele estava perdendo sangue rapidamente.
— Lorde Shaido! — Allegra o chamou em meio ao pranto. — Por favor, fique bem!
De fato, ele sentiu que não poderia combater Lady Hestea sem um poder maior como o de um Tione. A Dama Albina erguera novamente suas defesas sob a nuvem negra, aumentando o poder da tempestade. Mesmo sendo poderoso, Lorde Shaido não podia mais impedir que a tempestade os atingisse com toda a força, pois tinha que focar seu poder em atacar Lady Hestea.
— Belle, abra o portal e leve Allegra! — Ele ordenou, se levantando com dificuldade apoiando-se em Enarah e se preparou para subir novamente até o precipício. — Nessa tempestade, não posso atacar e protegê-las ao mesmo tempo!
Imediatamente, Belle abriu um portal e enviou Allegra para o palácio de Linmor. A pequena sequer teve tempo de agradecer ou dizer qualquer palavra.
— Por que você ficou, Belle? — gritou desesperado ao ver que a moça fechou o portal assim que a menina cruzou.
— Não vou deixá-lo! Sou sua única chance de detê-la até que os três Tiones estejam reunidos!
Lady Hestea ficou furiosa por ter seus planos frustrados e não seria piedosa com nenhum deles. Sua vingança seria matar primeiramente Belle, para que o lorde sofresse ao ver sua incapacidade de proteger sua amada.
Belle usou seu poder para criar um escudo que amenizava a intensidade da tempestade, dando mais tempo de resistência para eles. Ao mesmo tempo em que tentavam novamente subir e romper a barreira de sombras que ocultava e protegia Lady Hestea, desta vez ainda maior e mais escura.
— Como vamos parar essa maldição se não podemos sequer alcançar Hestea? — perguntou ele, irritado, vendo que seus golpes não surtiam efeito contra a escuridão e tinham pouco avanço.
— Ela já conjurou seu coração pela Insígnia de Kalanthos — disse Belle, já demonstrando cansaço pelo uso excessivo de poder em manter o escudo. — Matá-la não reverterá a maldição e meu poder está restrito.
— Uma restrição por causa da maldição? — disse segurando Belle, que fraquejou.
— Não. Essa restrição me é imposta devido minha forma física. Diferente das minhas irmãs.
— Devia ter ido com Allegra para Linmor! — disse segurando-a em um abraço forte e preocupado.
— Não, ainda posso desobedecer a restrição e usar meu poder em totalidade — disse com certa relutância. — Mas...
— Qual a consequência de sua desobediência? — ponderou as possibilidades, contanto que não arriscasse a segurança de sua amada.
— Eu desapareceria desse mundo.
— Nunca! — sentiu seu coração apertar e a abraçou com mais força. — Jamais permitiria que você se sacrificasse a ponto de desaparecer para sempre. Não suportaria perdê-la dessa forma.
— Este é o preço, Lorde Shaido! — falou entre suspiros e sentiu seu corpo doer.
— Vamos nos unir com os Mestres dos selos Tiones e não há necessidades de um sacrifício desse tipo — tocou a face de Belle com carinho e cuidado, onde viu haver um ferimento que sangrava. Teria concentrado seu poder para curar aquele pequeno ferimento, mas não faria diferença entre tantos outros.
— Minha forma física está ligada ao segredo da minha magia, esta por sua vez, liga-se ao amor existente no império — suspirou novamente e abriu um singelo sorriso. — Me foi concedido andar livremente entre o povo, fazer escolhas, pensar, auxiliar, rejeitar e amar.
Ao ouvir aquelas palavras, Lorde Shaido lembrou-se do Livro das Musas [1], que havia decorado por tantas vezes que o lera. Poderia Belle estar apenas delirando e recitando poesias em sua exaustão, mas era coincidência demais que ela tomasse para si, justamente, a descrição dada para a Musa do Amor. Olhou-a nos olhos e admirou aquele sorriso, de repente, ela parecia corresponder seu olhar apaixonado e seus olhos refletiam uma luz que Lorde Shaido nunca tinha visto antes.
— Entende que posso usar meus poderes, sem restrição e parar a tempestade até que os Tiones estejam reunidos. — A voz dela permanecia baixa, serena e cansada. — Mesmo que não seja eu a trazer de volta a vida, ainda sim, sou Musa e faço parte do mundo, estou junto para viver, sentir e agir.
— Bellepo! — Ele exclamou apaixonadamente desejando beijá-la ali mesmo e esquecer por completo que estavam em meio uma maldição.
De repente, tudo sobre Belle fazia sentido e sentiu-se tolo por não ter percebido antes de onde provinha toda aquela magia azul envolta de amor e encanto.
— Me alimento de seu amor, ganho forças pelo seu coração que bate somente por mim. — Ela colocou a mão sobre o peito do lorde e manteve o sorriso gentil na face.
Sem desviar o olhar, Lorde Shaido não conseguiu se conter e beijou-a, com todo o amor e desejo que sentia por ela desde o primeiro momento em que a viu; foi como se no mundo existisse somente ele e Belle. Não tinha ideia se era correto se apaixonar por uma Musa, nem se poderia beijá-la daquela forma, desejando tomá-la para si, mas se o amor dele a fortalecia, ele daria sem arrependimentos através daquele beijo que refletia seu coração quente e iluminado, brilhando de amor como se fosse o sol em um dia sem nuvens.
Todavia, o poder de Bellepo não era infinito, pois estava restrito por sua forma física e ele não desejava que ela rompesse essa restrição. Precisava agir enquanto ela ainda tinha poder para manter a barreira e esperava que seu amor fosse capaz de dar a força que ela precisava pra isso.
Enquanto as revelações eram feitas, os amores expressados e o coração correspondido, Lady Hestea os alcançou e aproveitou-se da fragilidade do momento. Usou todo seu poder para investir contra ambos, pegando-os de surpresa, pois não esperavam que a Dama Albina fosse sair de onde estava para vir atacá-los.
Quando Lorde Shaido percebeu a aproximação, já era tarde e não teve tempo de melhorar sua defesa; o escudo protetor que ergueu instintivamente não foi suficiente. Lady Hestea mirou na moça e desferiu um golpe certeiro que petrificou a maior parte do corpo de Belle a impedindo de se mover.
— Que belo achado! Vejam como o amor torna todos fracos e vulneráveis! — disse zombando de ambos. — E quem disse que preciso daquela pirralha pra quebrar um selo? — Lady Hestea gritava ensandecida. — Achei algo bem melhor.
Lorde Shaido não deu tempo para as risadas sarcásticas da Dama Albina, contra-atacou com todo seu poder. Estava furioso e Enarah estava brilhando pelo encanto do seu coração ardente. Lady Hestea foi surpreendida, contudo, já havia medido o poder do governador e, prevenida, não seria ferida novamente.
— Belle, querida — debochava —, você servirá perfeitamente como sacrifício, pois é tão idiota e inocente como aquela cria.
— Sua própria filha! — Belle falava com indignação. — Como pode falar de forma tão repugnante. Sua falta de amor me enfurece.
De fato, Lady Hestea estava com uma aura tão pesada e tão maléfica que enfraquecia Belle, cuja dádiva era o amor. Mas Lorde Shaido estava irredutível e seu poder, ao invés de diminuir, parecia crescer. Ele tentou novamente imobilizá-la para que Belle teletransportasse ambos de volta a Linmor.
— Belle, por favor, precisamos voltar a Linmor agora.
— Não posso! A maldição não permite que me mova. Mas ainda posso enviá-lo.
— Não irei sem você! — disse contra atacando, enraivecido.
— O lorde entende que proteger Boandis é mais importante que a minha vida!
— Eu serei aquele que protegerá Boandis sem precisar perder a vida de ninguém; muito menos a vida da minha amada Musa.
— Ainda posso usar parte do meu poder, Hestea não será capaz de me matar tão facilmente, os lordes ainda tem tempo de se unirem e derrotá-la!
Lady Hestea parou de rir e estava concentrada em atacar Lorde Shaido e se defender da melhor forma possível, o poder dele parecia ter aumentado e ela começou a recuar, temerosa que ele a ferisse. No entanto, não perdeu a oportunidade de lançar uma provocação.
— Vamos Lorde Shaido! Faça sua escolha. Descubra e destrua o ponto capital da maldição para me deter e salvar essa sonsa, ou deixe que ela use o tal poder que diz ter e se sacrifique para salvar Boandis.
— Nitidamente você não se enxerga Hestea. Menos ainda, tem noção de quem realmente Belle é — disse irado, dando tudo de si naquele ataque.
Todavia, Lorde Shaido teve seu próximo golpe interferido. Uma brilhante luz azul diante de si fez seu corpo ser tragado para outro lugar. Como uma viagem no tempo, num espaço diferente, foi tão rápido e tão estranho que quando deu por si, estava no Palácio do Governo; Belle o teletransportou.
“Desculpe, meu amado Shaido”. — Belle dizia em pensamentos. — “Impedir o retorno de Yaksha é primordial para todos. Não posso permitir que seu amor por mim seja maior que meu amor por Les Marcheé.”
Na Torre de Panapanézia, a Imperatriz estava reunida com os Lordes Lynzeths. Ela bordava em um pequeno bastidor enquanto os lordes caminhavam de um lado para outro, inquietos e indignados, vendo o caos tomar conta de Boandis e não serem autorizados a agirem. Estavam impedidos por ordens dos Imperadores.
— Por que não podemos ajudar os Tiones? — questionou Lorde Ceth.
— Esta batalha revelará os novos Mestres, descendentes dos Senhores das Grandes Ordens Antigas — respondeu Lady Beriune, sentada em seu divã com um semblante tranquilo enquanto bordava.
— Está evidente que não possuem o mesmo poder, muitas Eras se passaram e a magia do Nastoó se perdeu.
— Pelo contrário — retrucou a Imperatriz. — O Nastoó está na descendência, o poder herdado pode ser esquecido e deixado adormecido, mas nunca perdido.
— Se eles não conseguirem destruir o ponto capital da maldição antes da última gota cair, toda vida petrificada será perdida para sempre! — dizia Lorde Ceth, aproximando-se do divã, desafiadoramente. — A Soberana não se comove com esse fato?
Lorde Ceth SancShephill não era apenas o II Lorde Lynzeth, era também o irmão do Imperador e cunhado de Lady Beriune. Por isso, sua opinião era de grande valia e muito respeitada.
— Não se trata de comoção, Lorde Ceth — respondeu batendo o bastidor contra o assento. — Trata-se de confiança no poder que está no sangue que cada um dos descendentes carrega.
— Experiência própria — sussurrou Lorde Danka para si, mas a Imperatriz ouviu e olhou-o com reprovação.
— Cale-se — falou a Soberana dama sem alterar o tom de voz, fazendo soar ainda mais ameaçadora. — Calem-se todos, pois nenhum de vocês é insubstituível.
As palavras eram ameaçadoras, pois aquele pequeno sussurro de Lorde Danka remeteu Lady Beriune ao passado que tanto queria esquecer. Ela desejava a maldição nos dias atuais para conseguir as duas dádivas que foram perdidas nas Eras passadas e, entre todos os Lordes Lynzeths, Lorde Danka VönAi, o terceiro, era o que mais sabia a respeito das tais dádivas perdidas. Ele também era o único, além do Imperador, que sabia desse propósito e da necessidade de permitir a concretização da Maldição dos Mil Anos sem interferências.
Lady Beriune voltou sua atenção ao seu bordado, pegou o bastidor, mas permaneceu com a agulha cravada no tecido enquanto fitava longe. Seus pensamentos estavam no Imperador, Lorde Thwar não estava ali ao seu lado como deveria e isso a deixava nervosa, pois sabia que ele não concordava e no seu íntimo, temia que ele agisse sozinho e interferisse nos planos.
Lorde Shaido estava abismado pelo que Belle havia feito, obrigando-o a abandoná-la a mercê de Lady Hestea. As palavras provocativas da Dama Albina se repetiam em sua mente levando-o a um perigoso e difícil dilema:
“Descubra e destrua o ponto capital da maldição para me deter e salvar essa sonsa, ou deixe que ela use o tal poder que diz ter e se sacrifique para salvar Boandis.”
Ele não queria escolher, não deveria ser obrigado a fazer uma escolha desse tipo, embora sua razão dissesse não haver nenhuma outra solução, pois aquela maldição precisava ser detida e revertida a qualquer custo.
As dúvidas em seu coração sobre o que fazer o deixaram num estado de desespero. Salvar Belle ou deixá-la se sacrificar? A vida de uma Musa, que era sua amada, em troca de toda vida de Boandis... Definitivamente, precisava pensar em algo que não envolvesse Belle.
Foi assim que recordou-se do presente que recebera da Imperatriz, quando ela se apresentou como uma simples moça, durante sua viagem de volta ao litoral.
“ Um presente para o futuro, quando tiver dúvidas em seu coração.”
Talvez, naquela pequena caixa de cor marsala estivesse a resposta para suas dúvidas. Aquele era o momento e não deveria perder tempo; correu para seus aposentos procurando onde guardara o presente.
Ao encontrá-lo, abriu imediatamente e viu que era um pingente, em forma de gota na cor violácea. Não entendeu como aquela pequena jóia poderia ajudá-lo, porém, ao olhar mais atentamente, viu que continha grande magia, contida e concentrada. Não sabia como usar aquele poder, mas seu instinto falou por si.
— Esse presente me foi dado pela maior autoridade de Les Marcheé. Não há de ser somente para enfeite, deve dar as respostas que preciso para o momento de dúvida que enfrento em meu coração.
Disse e concentrou seu poder naquela gota, pensando também nas palavras de Belle, sobre o poder que deveria estar no seu sangue, como dos Mestres das Ordens Antigas. Logo, pela influência do seu poder, o tom violáceo deu lugar para um tom dourado, fulminante e quente, que parecia conter o sol.
— Vamos magia onipresente! Eleve o meu poder como o sol, radiante em glória e luz, para que eu seja capaz de subjugar esta tempestade revertendo essa maldição! — falou alto, confiante e com autoridade, enquanto a gota brilhava e se expandia na palma da sua mão.
Lorde Shaido estava convicto que seu poder, aliado àquela magia, seria capaz de parar a maldição. Havia lido sobre os antigos Mestres do Canto, cujo poder provinha das palavras entoadas em seus mantras, que em eras anteriores governaram o litoral com grande honra e luz.
De repente, o quarto todo foi iluminado por uma magia quente, luminosa e grandiosa tal qual um sol de meio dia. Era como se aquela pequena gota, quando inflada pelo poder do governador, tivesse invocado algo superior e infinitamente maior.
Pannastovik sentiu e congratulou o lorde por, finalmente, demonstrar o poder que era devido aos Levis. Assim como também, o Tione Resplandecente correspondeu àquela magia e aceitou um novo domínio.
Lorde Shaido, primeiramente, ficou surpreso ao sentir o poder do Tione, mas não tinha tempo para comoções e precisava ser rápido, pois sempre colocou à frente suas obrigações. Os tantos anos de estudos e dedicação ao aprimoramento das técnicas de poder e magia em Imperah, aliados a herança de sangue, foram cruciais para o domínio rápido e eficiente daquele selo. Sabia que somente a união dos três Tiones poderia parar a maldição. Todavia, seu primeiro pensamento foi para Belle e, ao invés de ir para Linmor onde estavam os outros dois Lordes Magos, usando de seu novo poder, abriu um portal para a montanha, onde estava sua amada Musa.
Assim que Belle teletransportou Lorde Shaido, a Dama Albina se aproximou da moça, ergueu ambas as adagas com a intenção de ali, tomar de uma vez a vida da Musa.
Nesse momento, riscou o céu um raio de sol e aquilo assustou Lady Hestea, pois era impossível que o sol aparecesse enquanto a maldição estivesse ativa. Daquele raio surgiu outros vários outros que se concentraram no ponto capital da maldição. Imediatamente, ela ignorou Belle e tentou correr para impedir que aquela manifestação solar prejudicasse sua magia. Foi então que se deu conta, não podia se mover.
— Bellepo! Mova-se! — A voz veio daquela réstia de sol e Belle soube imediatamente de quem se tratava. Um poder magnífico e bondoso, capaz de desfazer a petrificação que estava no corpo de Belle.
— Kursora! Por que o atraso? — perguntou Belle, erguendo seus escudos e abrindo seu Livro de Encanto.
— Não houve atraso, cheguei exatamente quando deveria e conforme meus planos — saindo entre os raios de sol, Kursora desceu vagarosamente até onde Lady Hestea estava imobilizada.
Kursora tomou forma física, sua silhueta feminina era alta e corpulenta. Seu corpo era dourado e brilhante, era a única Musa que exibia suas asas, com suas penas e plumas douradas como o sol resplandecente [1].
— O Tione Resplandecente tem novo dono, eu o escolhi.
— Muito bem, voltarei para junto dos outros dois e fortalecerei a Tríade que renasce mais uma vez.
E dizendo assim, Bellepo sumiu em uma névoa azul, deixando Lady Hestea indignada.
— Estúpida! — gritou a Dama Albina, inconformada. — Volte aqui!
— Veja como todo seu esforço foi em vão — disse Kursora, em voz altiva.
— Ridícula! — Lady Hestea virou-se para encarar Kursora e esbravejou furiosa. — Eu quero o Tione Resplandecente, como ousa dá-lo a outro e não a mim. Eu serei a soberana de tudo e de todos!
Kursora estava prestes a deixar a Dama Albina discutindo sozinha, pretendia encontrar-se com seu escolhido, no Palácio do Governo, mas sentiu uma poderosa presença invadir o local. Era Lorde Shaido, em sua magnífica e brava força, resoluto à salvar Belle.
Contudo, sua amada não estava mais ali e, quando viu Kursora, admirou-se.
— Kursora! — disse ele em espanto, fazendo uma nobre reverência em respeito.
— Estava prestes a ir vê-lo, mas vieste até mim. Estou aqui pra honrar tua bravura e atender o desejo de teu coração — falou orgulhosa, enquanto caminhava até ele. — Tu és aquele que protegerá Boandis sem precisar perder a vida de ninguém, capaz de subjugar esta tempestade e reverter a maldição! Pois tua honra me agrada e tua altivez me glorifica.
— Este é meu destino. As Musas sabem, desde sempre, que meu sangue é o mesmo dos Mestres das Grandes Ordens. Não envergonharei minha herança.
— Quanto nhénhénhé — debochou Lady Hestea, fazendo caretas e revirando os olhos.
Apesar de poderosa, a Dama Albina não era tola de enfrentar um Tione e uma Musa ao mesmo tempo. Evaporou-se em uma sombra escura, fugindo do lugar.
— Maldita! — Lorde Shaido correu em direção onde a Dama Albina sumiu, pretendendo segui-la.
— Deixe-a ir — interviu Kursora. — A prioridade é deter a maldição, antes que avance para as próximas cidades.
— Aqui é o ponto capital, se conjurarmos um poder de anulação teremos nossa chance.
— Fostes o escolhido não apenas pelo teu sangue, pois muitos Levis estão por essas terras, mas tu és o mais poderoso e teu orgulho me comove, mas use também da sabedoria e lembre-se que somente um Tione não é suficiente.
A princípio, Lorde Shaido sentiu-se ofendido por aquela repreensão, mas havia verdades ali e ele precisava deixar o orgulho e agir com soberania. Abriu um portal para que os Lordes Magos, que estavam em Linmor, pudessem vir até o ponto capital.
Como o esperado, o escolhido de Kursora guiou o caminho com valentia para que pudesse haver a união dos Tiones. No entanto, o momento de ausência dos dois Tiones nos palácios poderia ser fatal para o escudo e ambos os lordes ficaram receosos em deixar seus postos, pois Esteh não havia assumido sua forma física e não havia nenhuma Musa para manter a proteção.
Naquele momento, apenas Ventura e Kursora tinham poder materializado e capacidade para tal feito.
Todavia, Belle chegou em Linmor e revelou-se:
— Vão agora, Lordes Magos escolhidos pelas Musas! Eu, Bellepo, o Amor de Azurita revelarei meu poder e manterei o escudo intacto — disse segura de si. — Não percam tempo, ou terá sido tudo em vão.
Aquela última advertência foi devido os olhares surpresos de todos os presentes ali que ouviram aquela revelação. Bestificados, as bocas se abriram incrédulas e exclamavam palavras tanto de surpresa quanto de louvor e gratidão, pois era impressionante magnífico que uma Musa estivesse há tanto tempo entre eles sem ter sido notada.
— Belle… Bellepo! Que seja feito o bem pela justiça e pelo amor. — Lorde Codhe se pronunciou, sentindo sua admiração crescer ainda mais por aquela moça, que sempre lhe pareceu tão amável.
— Faço minhas as palavras do Lorde Mago do Fogo — completou Lorde Meyne —, que seja feito o bem, também com a esperança para o futuro!
Aquelas eram palavras de honraria às Musas que lhes davam as graças: Ventura, a Justiça de Proustita, Bellepo, o Amor de Azurita e Esteh, a Esperança de Cristal de Quartzo. Além de que, também havia Kursora, a Honra de Pirita. No entanto, eles não sabiam que ela havia escolhido Lorde Shaido como seu Lorde Mago.
Assim que o portal aberto pelo governador surgiu no centro do salão, eles souberam e Pannastovik os apresentou ao novo Lorde Mago da Luz, Shaido Levi.
Sem demora, ambos cruzaram ao mesmo tempo em que Bellepo expandia seu poder até o limite que lhe era permitido para manter a segurança dos palácios.
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