O Bambuzal é um lugar realmente irritante. Vários coelhos nos guiaram para Eientei, mas não conheço nenhum outro lugar tão úmido e mal-cheiroso quanto aquele. Era provável que a Tewi sabia que chegaríamos, então mandou os coelhos defecarem pelo caminho certo. Não possuo nenhuma evidência nesse momento, então vou deixar passar.

-Cuidado para não se afastarem muito. Se alguém se perder vai ser um saco pra procurar. – diz Reisen, que está guiando o grupo.

Talvez fosse por causa do frio do outono que Reisen usava uma calça comprida e uma jaqueta de mangas longas, daquelas que o pessoal da Europa usa de vez em quando. Os vestidos que Patchouli e Koakuma usam serviam mais para climas frios, como era esse caso. As fadas também não tinham o menor problema. Porém, os três homens do grupo estavam usando roupas mais “descoladas” e menos úteis para essa situação.

-ATCHOOOO!!

-Heh, quem esperava que você fosse espirrar do mesmo jeito de antes, Tsubaki? — Olavo me olhava, tentando segurar o riso.

Eu tremia de frio, parecia mais que alguém me chacoalhava com muita força. Cruzei meus braços e pernas, aproveitando para levitar durante o trajeto. Era realmente algo engraçado de se ver.

-Chegamos. – Reisen para de andar, mas não havia nem sinal da Mansão – Eu preciso avisá-los de que este lugar é uma residência feminina, então façam o favor de segurar seus impulsos enquanto permanecerem aqui, entendido?

Todo mundo se afastou do Tsubasa na mesma hora.

-Ué, que foi que eu fiz?! – ele parecia surpreso. – Mas esses dois são homens também! – ele aponta para Olavo.

-Eu tenho a Koakuma, então nem se preocupem comigo. – eu falo, sem perceber que a deixei corada.

Reisen fala algumas coisas e grande parte do bambuzal se afasta, revelando a grande mansão escondida das alienígenas. Entramos e fomos levados direto para onde Remilia e Sakuya estavam. Remilia parecia deprimida, e era a primeira vez que eu via isso. Após algumas saudações, Patchouli e Sakuya foram conversar sozinhas e eu fiquei com Koakuma e Remilia; o resto do pessoal foi para seus quartos.

-Você não deveria ficar dizendo essas coisas na frente de todo mundo, Leo. – Koakuma estava me dando uma bronca. – Eu gosto de saber que você me ama, mas eu fico muito constrangida com essas suas brincadeiras.

-Desculpa, vou me segurar a partir de hoje.

-Como estava a Mansão Escarlate? – Remilia invade a conversa. – Tinha uma nuvem negra pairando sobre ela?

-Sim, tinha. É algum sistema de segurança?

-Patchouli pode te falar tudo sobre ele, Tsubaki-san, mas agora estou preocupada com Flandre. – Remilia estava quase que sem energias para falar.

Remilia estava sentada na varanda, balançando os pés num movimento monótono. Eu e Koakuma estávamos de pé há uns dois ou três metros de distância. Eu fiz um sinal de cabeça para Koakuma e nos sentamos um de cada lado de Remilia.

-Desculpe por causar tantos problemas, Remilia-sama, – eu falo – mas saiba que irei resolver tudo bem depressa!

-Seria melhor te expulsar da Mansão. – Remilia continuava a encarar o chão.

-Mas Remilia-sama, pode não ter sido culpa do Leo! Outro inimigo pode ter aparecido! Não precisa ser tão extrema!

-Eu disse que ia expulsá-lo, não matá-lo.

-Acho que sei o que fazer. – levantei e fui para frente das duas. Remilia passou a me observar – Se eu encontrar quem fez isso, que com toda a certeza é uma pessoa do seu nível de poder, eu faço questão de passar a luta para Remilia-sama. Eu não tenho tanto poder assim e a senhorita ficaria feliz em ter novamente a chance de quebrar alguém na porrada de novo!

Remilia parecia surpresa. Tudo o que eu disse era verdade, na época, então era a melhor coisa a se fazer. Praticamente, matei dois Youkais com um Danmaku só.

-Quebrar alguém na porrada? – Remilia olhava para o chão de novo, mas era possível perceber um sorriso em seu rosto – Seu modo de falar é engraçado, mas existe muita verdade no que diz.

-ATCHOOO!!! Acho que vou ficar resfriado...

-Como que um Youkai fica doente tão fácil? – Remilia me olhou assustada e logo começou a rir de forma honesta – Hahaha, é verdade, somente eu poderia enfrentar esse vilão! Você é tão fraco que até adoece! Hahaha!

-Magoou...

-Leo, que tal ir para a Onsen? Pode ser que você melhore um pouco!

-Tudo bem Koakuma, eu vou. Pode cuidar da Remilia-sama?

-Claro! – ela sorri pra mim – Vá logo antes que piore!

Comecei a andar para onde deveria estar o resto do pessoal, mas acabei perguntando para uma coelha que cuidava de uma árvore. Ela me olhou assustada, levantando a cesta com frutos na altura do busto quando me aproximei.

-Oi, pode me dizer onde ficam os quartos de hóspedes?

-Err, sim, mas...

-Eu sou Tsubaki. O tarado é o loiro, Tsubasa.

-Sério? – a coelha solta um respiro de alívio e me aponta a direção certa.

-Obrigado!

Logo que me afasto da coelha, um par de olhos vermelhos surge atrás dela. Quando ela menos espera uma voz infantil começa a falar de forma assustadora.

-Confraternizando com o inimigo? – a coelha, que estava acenando para mim, congela de medo. Ela vagarosamente vira a cabeça para trás e respira aliviada quando percebe quem se escondia no escuro.

-Que susto você me deu, Tewi-sama! Eu poderia ter tido um ataque do coração!

-Ai eu te levava para a Eirin que ela te curava em um segundo! – Tewi sai da sombra com as duas mãos entrelaçadas na nuca, como quem está nem ai para nada.

-Melhor morrer do que enfrentar aqueles supositórios da Eirin-sama...

-O que achou dele?

-Hã? Do Tsubaki-san? Ele disse que “o tarado é o loiro”. Talvez seja melhor para a senhorita falar com esse loiro, então.

-Eu duvido. Nanashi tinha cabelo escuro e era japonês, o meu tipo!

-Faça como quiser então, Tewi-sama. Preciso terminar de colher essas frutas e voltar logo para o meu quarto.

-Tudo bem, pode ir.

O que será que Tewi planejava? Quem era Nanashi? Ainda bem que eu não estava por perto naquela hora.

-Eita água quentinha! – Olavo esticava os braços após sentar no chão da Onsen. Tsubasa estava um pouco distante e eu acabara de entrar no lugar.

-Verdade, essas aliens tiveram muita sorte de achar esse lugar! – Tsubasa coçava as costas com um esfregão.

Terminei de me trocar e logo estava sentado naquela Onsen incrível. Alguns coelhos passeavam pelo lugar, e tinha até um nadando de costas perto de mim.

-Mas fala a verdade Tsubasa – Olavo falou – tu pegou mesmo a Suika?

-Claro que sim! Mas foi um tanto estranho, sabem? Eu estava lá no festival e a percebi quase caindo de bêbada. Me aproximei com algumas outras bebidas e ela logo desmaiou. Yuugi-san me pediu para deixá-la no Templo Hakurei e voltar logo para o festival. Uma coisa levou a outra...

-Ou seja, tu colocou uma bêbada na mala do carro e saiu voando pro motel? Essa é a tua história? Qualquer um faz isso no Mundo Externo!

-Qualquer um nada! – eu logo me defendia – Eu nunca fiz nada do tipo! Sou um cara que respeita as mulheres acima de tudo!

Os dois me olham e viram a cara, segurando o riso.

-Que foi?! Por que os risos abafados?

-Tu quer dizer que só perdeu a virgindade quando pegou a Succubus-san? – Olavo estava quase chorando de rir.

-Nem vem, eu a perdi muito antes de conhecer a Koakuma. Falando nisso, como que tu pegou a Suwako? Precisou embebedar ela também?

-Não, na verdade nem precisei fazer muito esforço. Quando eu cheguei, cai perto dela em algum lugar da montanha, perto de onde tinha uma lagoa de sapos. Joguei um papo qualquer e a peguei alguns dias depois.

-Pff, mas que historinha! – eu apontava pro Olavo e ria alto – Hahahaha! Sério mesmo que eu vou acreditar nisso? – Tsubasa também ria alto.

Olavo nos olhava irritado, até que percebeu algo nadando perto dele e apontou. Eu vi um par de orelhas de coelho, que poderiam pertencer a aquele que eu vi antes. Sem pensar muito, Olavo puxou as orelhas e lá estava a Tewi com uma roupa de natação, daquelas japonesas, escrito “Inaba” naquele quadrado branco do tórax. Ela não parecia intimidada com o trio masculino.

-Fui pega...

-Tá fazendo o que aqui, coelha travessa? – Olavo estava puto.

-Ué, errei o caminho e vim parar aqui, normal.

-Deixa de conversa! Diz logo o que tu quer!

-Ele. – Tewi apontou para Tsubasa, que estava “excitado” com a pequena Tewi naquela roupa.

-Olha a hora! Tenho que ir! – pulei fora da Onsen e fui me secar e trocar o mais rápido que pude, deixando a cena rolar.

-Tu tá de brincadeira com a minha cara? – Olavo está cara-a-cara com a Tewi, ainda segurando suas orelhas. – Por que tu ia querer algo com ele?

-Não é da sua conta. E que tal me soltar agora?

Olavo solta a Tewi de vez, espalhando água até no teto. Ele sai e vai se trocar, ao mesmo tempo que eu saio da sala.

Algumas horas depois, Eirin informa que a situação da Flandre é estranha, mas estável. Em algum tempo seus poderes vampíricos retornarão, mas, até lá, ela será uma humana normal. Remilia senta no chão, com um olhar de alivio e medo. Ficou decidido que deveríamos retornar para a Mansão o mais cedo possível.

-Tsubaki-san, preciso falar com você em particular.

Patchouli me leva a um lugar mais afastado do grupo.

-O que foi?

-Quero que deixe a Koakuma e saia da Mansão. Não esqueça das duas crianças também.

Me senti como se fosse descartado. Como ela consegue ser tão fria? Mesmo assim...

-Eu sei que você não quer ver suas amigas sofrendo, mas não adianta colocar todas as suas frustações em mim!

-As coisas estavam bem até que vocês apareceram. Não digo que o tempo que passou conosco foi ruim, pelo contrário, até agradeço pelo que fez por ela, mas a hora de partir chegou.

-Eu não sei o que dizer...

-Não diga, faça.

Mal terminou a frase e já estava se afastando de mim. Sem pensar direito, eu agarro seu braço e grito, desesperado.

-O que você quer de mim afinal?

Patchouli me olha friamente.

-Quero que desapareça. Isso não já ficou claro para você?

Eu me deixo cair no chão. A queda foi de tão mal jeito que Koakuma veio correndo ver se eu tinha me ferido.

-Leo, tenha cuidado! Está sentindo alguma dor?

-Eu... não...

Sempre achei que essa hora não chegaria nunca, que haveria um meio de recuperar minha alma antes que isso acontecesse e tudo acabaria bem.

-Eu não sinto minhas pernas a um bom tempo, Koakuma. – digo, me sentando no chão – Desculpe por te preocupar tanto, mas nem sei porque consigo andar e comer mais. Só sinto meu coração batendo, mais nada.

A cena teria sido romântica se não fosse por tudo o que aconteceu até agora.

-Sério? – Sakuya prepara uma faca – E se eu fizer isso?

A faca arremessada me atinge na coxa direita, enquanto me levanto. Como se fosse uma farpa, eu a arranco e jogo no chão. O sangue saindo e a carne exposta estão bem presentes, mas a dor não. A única coisa que posso fazer é sorrir para Sakuya.

-Desculpe desapontá-la, mas é verdade. Me sinto mais como um zumbi. Na verdade, devo ser mesmo um monstro.

Koakuma está aterrorizada. O Leo Tsubaki que ela conhecia não diria uma coisa dessas com um sorriso tão honesto e triste no rosto.

-Leo, você não é um monstro. – ela tenta falar – Eu mesma sou um demônio, então não faz mal estarmos juntos, né?

-Eu queria ter mais tempo pra saber. – eu falo sem sequer olhar para Koakuma – Sylph, vamos embora.

Eu e Sylph saímos de Eientei andando. No caminho, eu avisto um garoto com orelhas de coelho e cabelo preto. Sua roupa branca denuncia que ele é de Eientei.

-O senhor vai sair do bambuzal? – pergunta o garoto.

-Sim, eu e minha... Sylph?

Ela estava chorando, silenciosamente.

-Por que, papai? Por que deixamos todo mundo?

-Eu falo no caminho. Pode nos mostrar a saída, pequeno coelho?

-Tá. – ele se vira e começa a andar.

-Eu achei que ficaríamos mais tempo por lá, verdade. Nem sei o que falar pra você...

-Diga a verdade. Luni, Kassi e todo mundo ficou pra trás. Eu não quero me separar delas!

Eu quero abraçá-la, mas talvez as coisas só piorassem. Tenho medo de ficar sozinho agora.

-Acho que a Kirisame-san pode nos abrigar. Se ela não estiver em casa, entramos mesmo assim, que tal?

-Hehe, pode ser. – ela limpa as lágrimas e sorri. – Eu posso fazer uma coisa, papai?

-O que?

Sem esperar a resposta, Sylph me abraça enquanto andamos. Por um momento, achei que tinha conseguido sentir seu carinho, mas acho que posso ter me enganado.

-Chegamos. Se quiser ir pra casa daquela preta-e-branca, é só seguir pra lá. Boa sorte!

-Obrigado, pequeno coelho.

-Meu nome é Ruri!

-Sim, obrigado Ruri.

Nós dois acenamos para o coelho quando nos afastamos bastante. A direção que ele apontou nos obrigou a andar até amanhecer. Por alguma sorte ou ironia do destino, foi relativamente fácil achar aquela casa velha e cheia de vinhas crescendo pelas paredes, com a placa “Loja Mágica da Kirisame” pendurada na frente.

-Não sinto magia alguma por perto, papai. Será que é aqui mesmo?

-Olha o nome da loja! Com certeza ela deve ter camuflado melhor seus feitiços de alarme, ou nem isso...

Coloquei a mão na maçaneta e fechei os olhos, esperando um barulho ou explosão. Nada aconteceu. A porta estava destrancada, então entramos na casa. Bem, parecia mais um depósito do que uma casa, mas entramos assim mesmo.

-Tem alguém ai? – falei bem alto, assustando a Sylph.

Sem resposta.

-Vamos nos ajeitar em qualquer lugar que logo ela chega.

Eu fiquei em algum lugar do chão, enquanto que a Sylph não fez cerimônia e foi dormir na cama da Marisa. Eu estava tão cansado que nem precisei esperar o sono chegar.

-...ai eu peguei a vassoura e dei nele na cabeça!

-Hahahaha, como você consegue, Kirisame-san?

Acordo com as duas rindo e terminando de tomar o café da manhã. Quando me levanto, percebo que tem um cobertor me cobrindo.

-Acordou, invasor? Sabe que vai ter que pagar, não é?

-E as coisas que você “pegou emprestado”, vai devolver quando?

-Não peguei nada emprestado seu, ze. – Marisa fala, palitando os dentes. – Mas não mude de assunto, por que você vai pagar com um duelo de danmaku!

-Eu não tenho Spell Cards...

-Nossa, vocês não tem salvação mesmo. Eu tenho umas em branco aqui, vou te ensinar como fazer e ai temos o duelo, certo?

-Tá, eu aceito.

Tinha como recusar uma oferta dessas?