Lendas que o Povo Conta

6 O Jardineiro e A Princesa


Notas iniciais
Heeey, estou de volta! Desculpem o atraso, tive que escrever um capítulo complicado em outra fic. Este aqui é na mesma linha do anterior, espero que gostem!

Essa é uma lenda que ecoa pelos ouvidos do povo.

Há muito tempo, num majestoso castelo, existiu uma princesa.

Oh, bem, melhor dizendo, não era um castelo, muito menos uma princesa. Na verdade, era “somente” uma mansão de mármore, e a pequena filha do governador de uma cidade. Com seus precoces dez anos e imaginação fértil, a menina de cabelos dourados vivia mergulhada em sua fantasias.

Não era assim tão incomum, visto sua idade. O problema real é que seu pai mimava-a demais, e como resultado, sua inocente brincadeira de criança tomou grandes proporções. A memina, ao invés de sonhar com a vinda de um príncipe encantado, passou a achar-se superior que os demais. Tratava seus empregados com descaso, e ganhava tudo o que desejava. Como resultado, sua personalidade antes tão doce, tornara-se estragada.

E provavelmente teria crescido e tornado-se uma pessoa ainda pior, se não fosse por um único e minúsculo fator: seu velho e humilde jardineiro.

Todos os dias, ao passear pelo seu enorme jardim — que ela fingia ser uma floresta encantada, diga-se de passagem- o senhor cumprimentava-a com um sorriso. Mesmo que ela tratasse-o com descaso, e por vezes sequer o respondesse, ele continuava gentil.

Numa destas situações, o jardineiro até fizera uma reverência, dizendo: “Bom dia, princesa.” Não pode-se negar a surpresa que a jovem de cabelos dourados tivera. Ninguém jamais havia feito aquilo por livre e espontânea vontade, quanto mais num tom tão carinhoso. A memória do sorriso caloroso de seu “servo” jamais seria esquecida. Não que ela fosse admitir em vida. Ah, porque tinha que ser tão orgulhosa...

Alguns dias depois, a menina fora mais uma vez surpreendida ao ver dezenas de novas flores plantadas, todas do mesmo tipo. Na mesma hora, aproximara-se do senhor, perguntando-lhe sem educação:

“Que flor é essa? Por que estão no lugar daquelas outras vermelhas? Eu quero aquelas de volta!” O bondoso jardineiro apenas sorriu e respondeu:

“Desculpe, princesa. Resolvi plantar estas porque combinam contigo.” Ela arregalou os olhos, num ato infantil. “É por causa dos meus cabelos?” Devolveu a resposta com outra questão, referindo-se a cor dourada das flores.

O idoso tratou de explicar, calmamente: “Veja, são girassóis. Sempre voltados para a direção do sol, e representam alegria. Lembra-me de seu sorriso, princesa, embora também assemelhe-se aos seus cabelos.”

“Oh... Então... O-Obrigada.” E então a falsa princesa retornou para sua casa, tendo, pela primeira vez na vida, agradecido alguém.

O terceiro acontecimento, na verdade, foi obra da própria menina. Numa tarde de verão, aproximara-se acanhada do jardineiro. Pediu-lhe (ou ordenou, melhor dizendo) se poderia ensinar o significado das outras flores que estavam no jardim. E o senhor o fez de bom grado.

A pequena só não percebera que também sorrira durante todo a aula.

A quarta situação foi, sem dúvidas, uma das mais significativas. Conforme seu pedido, o bondoso senhor ensinou-lhe a plantar uma flor. Suas desajeitadas mãos acabavam derramando água demais na terra, e amassando em demasia o solo. O jardineiro apenas sorria e corrigia seus erros. A menina bufava, sem paciência. E então ele ensinou-lhe uma das muitas coisas que carregaria por toda a vida:

“Deixe-me contar um segredo, princesa. A chave para tudo é ter paciência, e, sobretudo, carinho. Se cuidar dos brotos com calma e dedicação, eles florescerão e tornar-se-ão belas flores.”

E assim, aos poucos, a menina de cabelos dourados ia melhorando, transformando-se em uma pessoa melhor. Muito parecida, para dizer a verdade, com aquele jardineiro. Bondosa, humilde e sábia.

Os anos se passaram, e a menina cresceu. Abandonara suas fantasias tolas, bem como seu deplorável comportamento. Contudo, seus laços com o senhor somente cresceram, juntamente com suas lições. “Havia sempre algo novo a aprender-se”, era o que ele dizia. “Sejam fatos, como o que aprendes na escola, ou somente lições de vida.”

Todavia, um dia, seu castelo simplesmente desmoronou, com um sopro do vento. Durante sua visita diária, o bondoso jardineiro não estava lá. E nem no dia seguinte. Ou no outro.

Mais tarde, a menina soube que o senhor havia morrido. Ele estava doente há algum tempo, e finalmente sucumbira ao sofrimento.

Não existem palavras suficientes para descrever o sentimento da não mais menina de cabelos dourados. Porém, pode-se simplesmente dizer que seu brilhante sorriso, desaparecera sem rastro, como o sol escondido por trás das nuvens.

E provavelmente, esse sol não teria voltado por um bom tempo, se não fosse por um único e simples fator: uma carta, de seu velho e humilde jardineiro, para ela.

“Olá princesa. Provavelmente, agora a senhorita está tentando sorrir, lembrando do seu apelido de infância, mas não consegue. Mesmo assim, peço-lhe que tente. Recorde-se do que ensinei: A chuva é somente uma preparação para o sol que virá mais tarde.

Aliais, peço que recorde-se de todos os meus ensinamentos, e carregue-os com você. Gostaria de ter feito muito mais por ti, mas confio que o resto, poderá aprender sozinha. A vida é uma eterna aventura, sempre há algo novo para explorar. Eu já vivi muito, e agora quero que você o faça.

Por favor, não se entristeça com minha morte, e também por eu não ter lhe contado. Não havia nada mais a ser feito. Como já disse, só quero que continue indo em frente. Você foi um broto do qual eu cuidei com carinho e paciência, e logo, como eu esperava, floresceu numa bela e bondosa flor. Não suportaria que este girassol murchasse, então mantenha seu lindo sorriso.

De seu humilde jardineiro, mestre e pai de coração.”

Naquele momento, a reação da menina foi bastante peculiar. Soltara um largo e caloroso sorriso, mesmo que lágrimas não parassem de cair. As lágrimas, pelo arrependimento de nunca tê-lo chamado de pai, agradecido por tudo, e dito que o amava. O sorriso, no entanto, pela certeza de que ele sempre estaria consigo, e que provavelmente, já sabia de tudo o que ela queria ter dito.

E o belo girassol continuou voltado para o sol, por muito tempo.

Notas finais
Então, gostaram? Comentem se puderem!