Lendas que o Povo Conta
9 Epílogo: Lendas Reais.
Notas iniciais
– E fim. — A idosa de longos cabelos já esbranquiçados fechou o velho livro de histórias. As crianças sentadas a sua frente reclamaram e fizeram birra.
– Ah, por quê?
– Já acabou?
– Conte mais algumas para nós, vovó!
Em resposta, ela dirigiu-lhes um sorriso gentil, que fez-os parar e olhá-la por um instante. Ela parecia ter o dom de acalmar e passar conforto sem dizer nem uma palavra, era o que pensavam. Por fim, a senhora pronunciou-se:
– Não meus queridos, não acabou ainda. Já disse a vocês, toda lenda tem três aspectos básicos. — Ela levantou três de seus dedos magros para ilustrar a situação. — Todas tem um fundo de verdade, todas passam uma lição, e o mais importante...
– Nenhuma jamais acaba de verdade. — completaram as crianças, em coro.
– Então por quê? — a única garota entre o trio dos mais novos fez bico, os belos cabelos negros emoldurando o rosto angelical.
– O fim não quer dizer necessariamente que algo terminou. Também pode indicar um novo início.
– Mas são só histórias, nenhuma tem continuação! — um menino rechonchudo e de grandes olhos azuis protestou. A senhora riu.
– Acho que não prestaram atenção mesmo... Eu acabei de dizer, todas as lendas tem um fundo de verdade. Através das lições que passam, elas nos ensinam sobre a vida. Ou seja, a vida é a continuação do que eu li para vocês.
– Como assim? — por fim, o último do grupo pronunciou-se, o sorriso travesso e a aura de determinação permanentemente expostas em seu rosto.
– Me digam, o que vocês aprenderam com tudo isso? — devolveu a pergunta com outra questão. As crianças se entreolharam, e então o travesso menino tomou a dianteira:
– Aprendi que a vida é o nosso bem mais preciso. Não só a nossa, mas a dos outros também.
– O equilíbrio é a chave da prosperidade. — citou a menina de cabelos negros.
– Bem... Acho que a nossa origem não define nosso papel na vida! — falou hesitantemente o garoto rechonchudo.
– A esperança pode mover uma nação!
– A felicidade e a liberdade estão presentes em pequenos momentos.
– Com paciência e dedicação, toda pessoa pode melhorar.
– Pequenos e simples atos podem fazer toda a diferença, não só para o mundo, mas para uma pessoa.
– E que os sonhos nos motivam a continuar vivendo. — terminou o travesso garoto.
A idosa observou-os por um instante. Aquelas crianças, tão puras, tão corajosas. Com toda a sua infantilidade, já tinham a sabedoria de um adulto. Não pôde deixar de alargar o sorriso que descansava em seus lábios.
– Pois bem, tudo isso que vocês aprenderam, vão usar na vida de vocês. Vocês vão crescer, vão melhorar o mundo, e vão criar suas próprias lendas. Agora, podem ir brincar. O dia está lindo, não o desperdicem aqui dentro.
– Até mais, vovó! — Com a breve despedida, os três saíram em disparada até o jardim da casa da idosa.
E então, a senhora pediu aos céus que pudesse ter uma vida longa, o bastante para ver aquelas crianças crescerem. Ela sabia que ainda teria de escrever mais algumas lendas reais, com as histórias que elas lhe contariam.
Fale com o autor