Lendas de Eylíon - O segredo do portal
2 Capítulo Um
Notas iniciais
Esforcei-me para guardar a última caixa na prateleira de cima do armário, desejando ter alguns centímetros a mais em momentos como esse. Sorri finalmente, comemorando minha vitória. Dei uma bela olhada satisfatória em meu quarto devidamente arrumado. Organização nunca foi o meu forte, mas prometi a mim mesma que seria uma nova pessoa a partir daqui.
Há poucos dias havia me mudado para Tempe, Arizona, aonde realizaria meu tão esperado sonho de ser jornalista. A ansiedade estava estampada em meu rosto. Joguei-me na cama, desfrutando de meus últimos minutos de silêncio antes que uma mãe eufórica e preocupada adentrasse o quarto soltando aquele: “você tem certeza que vai ficar bem?” que eu estava cansada de ouvir. Revirei os olhos recordando-me. Já havíamos tido essa discussão diversas vezes, ela nem estaria tão distante assim, mas por um lado eu a entendo perfeitamente, não poderá estar aqui para cuidar e proteger a sua tão amada filha. Essa é a primeira vez que fico tão longe de casa, na verdade, essa é a primeira vez que fico longe de casa. Edna Jones sempre foi acima do limite da superproteção, nunca fui à escola, estudei com professores particulares a vida toda, mas estava cansada de viver enclausurada. Entenda, eu a amo, mas me sentia sufocada. Sei que poderia ter feito isso antes, mas eu era a única pessoa que ela tinha antes de conhecer seu novo namorado, Robert. Ele é um cara legal, sei que vai cuidar bem dela. Por incrível que pareça, ela não é minha mãe biológica, ela me contou que cheguei a sua porta ainda bebê, sim, parece um clichê de filme, mas é a verdade. Ela havia perdido seu marido e seu filho no mesmo dia, o pequeno Matt tinha apenas quatro anos. Eles sofreram um grave acidente de carro, deixando-a em choque, era sua única família. Dali por diante, ela cuidou de mim, extremamente, bem. Eu sentia sua dor, devia ser difícil ter perdido as pessoas que amava, tão de repente. Fiquei feliz ao saber que depois de tantos anos ela havia encontrado um companheiro, mesmo ficando tão hesitante.
Ouvi o ranger da porta abrindo-se e quase saltei da cama, meu coração se acalmou ao ver minha nova colega de quarto, Nina Clark, ao invés de uma mãe desesperada.
Nina era uma garota sorridente de claros cabelos curtos e olhos cor de mel, estava carregando uma mala gigantesca, atrapalhando-se na entrada. Largou a bagagem no chão, empurrando-a com os pés até onde ficava seu armário. Passou as costas da mão em sua testa, enxugando o suor.
Poxa! Eu não sabia que tinha tanta coisa.
– Já faz três dias que nos mudamos e você ainda está trazendo suas coisas. – Eu disse.
— Tem razão, sou um pouco exagerada.
Eu franzi a testa, tentando não rir. “Um pouco exagerada” era modéstia.
— Então, Elle. – Sorri, ouvindo o apelido que ela já havia me colocado. É estranho e desconfortável morar com uma pessoa que acabou de conhecer, mas Nina me passava segurança, talvez possamos ser boas amigas. Eu já tive alguns amigos antes, não era um amizade intensa e constante, eles me visitavam às vezes; acho que lá no fundo era porque sentiam pena de mim, mas eu não os culpo.
– sua mãe não vem te visitar hoje? – Perguntou.
— Acredito que ela já está a caminho – Ri sem graça. – Robert deve tê-la segurado por algumas horas, por mim.
— Ela realmente se preocupa com você – Disse, encaixando seus livros na prateleira. – Queria que meus pais fossem assim.
Nina havia me contado que seus pais moravam no Canadá, eram médicos ocupados demais para vê-la, eles apenas a desejaram sorte na vida. Então ela resolveu se mudar e tentar algo novo, como eu.
— Tenho certeza que eles acreditam que você sabe se cuidar muito bem sozinha. – tentei confortá-la.
A porta foi aberta novamente e agora pela pessoa que eu esperava. Eu fui abraçada fortemente por minha mãe, que estava com lágrimas nos olhos. Nina fez sinal que ia sair, deixando-nos sozinhas.
Ah, meu amor, senti tanto sua falta! – Disse com aquela voz doce de sempre. Ela era o tipo de mulher extremamente amorosa e delicada, tinha cheiro de baunilha em suas roupas por trabalhar em uma doceira, seus cabelos loiros se alojaram em meu rosto, eu mal podia respirar com o aperto.
Mãe, eu te vi ontem. – Reclamei
Não me importo! Você comeu direito, está tudo bem? – ela segurou meu rosto, seus olhos brilhavam.
Eu suspirei e sorri, sei que é um tanto exagerado da parte dela, mas não consigo sentir raiva ou algo do tipo.
Sim, eu comi, eu estou bem, não se preocupe.
Não se esqueça de tomar suas vitaminas, você pode ficar doente.
Eu prometo. – Levantei a mão direita.
E essa garota? Você acha uma boa ideia morar com ela?
Nina é uma boa pessoa, talvez devesse conhecê-la melhor. Eu vou sobreviver me dê um voto de confiança.
Eu confio em você, querida, você é a coisa mais importante do mundo pra mim. Foi uma benção quando eu mais precisei e não sei a quem agradecer. – Ela estava chorando, voltando a me abraçar, acariciando meu cabelo.
Mãe, não precisa chorar, não vou sair daqui. Vai ficar tudo bem. -
Elleonor, você é mais especial do que acredita. Nunca duvide disso.
Por que está dizendo isso agora? – Ergui o queixo para olha-la. Ela balançou a cabeça com se quisesse se livrar de um pensamento.
Não é nada, sou só uma mãe boba e dramática. – Falou lembrando-me do meu discurso do dia anterior. Dessa vez eu a abracei com todas as forças que tinha. Nada será como antes, tenho uma vida nova para conquistar, mas vou levar seus conselhos sempre comigo. Permanecemos ali por mais um tempo até ela ir embora prometendo que almoçaríamos juntas amanhã. Voltei a minha cama encarando a lua vista da janela. Tinha certeza que grandes coisas estariam por vir.
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Respirei fundo enquanto estacionávamos o carro. Minha mão tremula não me deixava abrir a porta, meu corpo em si estava tenso. Aquele lugar era grande demais pra alguém que passou dezoito anos acostumada ao mínimo. Fiz um esforço a mais para por os pés no chão. Nina debruçou-se sobre seu carro, acariciando-o.
— Não se preocupe, neném, eu volto logo.
Ela tinha muito orgulho e ciúmes de seu velho Chevy tahoe, havia ganhado de seu avô há muitos anos. Tomamos nosso caminho rumo à universidade.
O campus era belíssimo, a grama bem aparada sustentava pessoas de diversos estilos, algumas felizes e confortáveis, outras quietas pelos cantos dos muros, apegadas a seus livros e com olhares constrangidos.
Seguimos pelo corredor até a biblioteca onde pegaríamos nossos horários e informações. O ar estava mais frio que o normal, alcancei minha bolsa retirando meu casaco que minha mãe insistira tanto pra eu trazer, embora o vinho estivesse um pouco desbotado nas mangas, era minha peça de roupa favorita. Senti ter esbarrado em algo duro, porém estava mais quente e aconchegante, fazendo-me esticar o pescoço me deparando com um cara alto de olhos negros e cabelos da mesma cor, que caiam perfeitamente com seu rosto oval e barba mal feita. Estreitei os olhos para enxergar pouco acima da gola de sua camisa, onde havia algo escrito, em uma língua que eu não conhecia, mas poderia jurar que era latim. Um arrepio percorreu minha espinha percebendo que o estava olhando por mais tempo do que deveria.
— Desculpe – falei o que mais saiu como um sussurro, ele me ignorou e saiu porta a fora.
— Você viu isso? Adoraria leva-lo pra casa. – Nina acotovelou meu braço e eu me senti envergonhada.
Adorei o comentário desnecessário – pensei.
A moça ao nosso lado deu uma risadinha e balançou a cabeça. Senti minhas bochechas corarem.
— Eu também o levaria pra casa, se fosse um pouco mais velho – pelo seu intenso suspiro pude ver que o rapaz conquistara mais um coração. A moça sorriu novamente – O nome dele é Alexander, vai ser monitor da biblioteca até o final do período.
— Eu já disse que adoro ler? – Nina indagou alegre.
Após nos informarmos de nossas respectivas salas nos despedimos e seguimos em direções opostas. Eu encarei a porta numero 112 antes de entrar, era tarde demais pra voltar atrás, era apenas uma sala de aula. Pessoas, simplesmente, pessoas. Acho que meus pés não entendiam isso, pois não me obedeciam. A manga de meu casaco foi puxada levemente e eu me virei assustada. O rosto masculino me fitava esperando que eu falasse algo.
— Você está bem? – Outro garoto apareceu ao lado dele, os dois de estatura média e cabelos escuros, muito parecidos.
— Não, digo, sim. – Tentei explicar- Sou nova nisso tudo e estou apavorada. – Fiz uma cara de pavor e eles riram.
— Eu sou Kevin – o primeiro estendeu a mão pra mim — e esse é meu irmão, Dylan.
— Meu nome é Elleonor – Os cumprimentei.
— Somos novos aqui também. – Dylan falou – Vem, vamos procurar um lugar.
Concordei, relaxando um pouco. Permaneci junto de Kevin e Dylan toda a aula, as coisas eram bem diferentes da minha rotina, mas estava acostumada com professores, não estava sendo uma experiência tão ruim. À medida que o tempo passava, eu me aproximava de mais pessoas, acho que é isso que chamam de fazer amigos.
—----
Encarei meu reflexo no espelho e as olheiras que insistiam em ficara ali. Resolvi soltar meu cabelo rebelde para disfarçar a noite mal dormida. Balancei a mexa branca da franja que eu mesma tinha feito, não havia fica ruim. Eu não estava tão ruim. Meu celular vibrou com uma mensagem de Nina.
Então, como vai o dia de liberdade?
Melhor do que eu imaginei.
Ainda não se desesperou pra voltar pra casa?
Hahaha, não, estou segurando as pontas.
Fico feliz, me encontra na sala do auditório, quero te mostrar uma coisa.
Okay! x.x
Não sabia se o mais estranho era ela querer me mostrar algo em outro lugar ou o fato de acreditar que eu soubesse como chegar lá. Andei alguns metros pelos corredores deparando-me com o rapaz da biblioteca que vimos a pouco, estava conversando com alguém que conseguir ver, mas tinha uma voz feminina. Reprovei-me pela curiosidade de espia-los que foi mais forte que eu.
— Seja rápido, nós não temos tanto tempo. – A voz ordenou.
— Eu sei – Ele cerrou os punhos, seu corpo todo estava rígido — mas não posso fazer uma abordagem tão direta.
— Não importa, Alexander, só queremos a garota. – Franzi a testa, tentando entender sobre o que falavam. Uma mão gelada tocou em meu ombro e eu pulei, levando minha mão ao peito com o susto. Kevin estava rindo da minha expressão. Voltei-me para a conversa deles, mas já não estavam mais ali.
— Olá, de novo, Elleonor. – Dylan disse. – O que estava fazendo?
— Ah! Olá. E-eu? Nada, nada... – Tentei disfarçar. – Preciso da ajuda de vocês. – Sorri.
Não foi tão difícil achar, os garotos sempre me divertiam no caminho. Eles disseram que moravam com os pais e os avôs que eram ingleses, balancei a cabeça entendo o porquê do sotaque engraçado. Eles achavam incrível minha mãe me deixar morar sozinha e eu caí na risada por nem saberem da metade da história. Abrimos a porta com cuidado. Fiquei confusa do porque Nina me chamara aqui, estava escuro e não havia ninguém.
— Alguém aí? – Kevin perguntou.
— Talvez seja uma iniciação pra uma seita ou algo assim. – Dylan zombou e Kevin riu com ele. Eu dei uma leve tapa em suas cabeças.
Ouvimos um som estridente ao fundo, como se algo de metal fosse arrastado no chão. Dylan tateou as paredes até encontrar um interruptor; as luzes foram todas acesas, mas não víamos ninguém.
— Elleonor – Tremi quando ouvi alguém sussurrar meu nome.
— Dylan, isso não tem graça. – reclamei
— Não fui eu – ele falou sério.
— Eu estava esperando só você, mas vejo que trouxe companhia. – Disse novamente.
— Quem está aí? Por favor, não gosto dessa brincadeira. — Falei. Um vulto se esgueirou por nós e demos um passo para trás. Olhei para os garotos e em seguida para a porta, assentimos e vagorosamente, voltamos a ela, mas, de repente, algo quente passou por nossas cabeças a atingindo. Corremos para o outro lado. A porta estava chamuscada com um buraco onde fora acertada, apertei a mão de Dylan com força e ele fez o mesmo. O ruído estridente foi refeito, agora uma silhueta feminina se aproximava, estava usando uma espécie de armadura feminina, com uma capa preta, seus cabelos adora eram brancos e seus olhos amarelados e sua pele era escura, tinha orelhas pontudas e suas unhas compridas como garras; arrastava uma espada enorme das mãos, era difícil acreditar, mas ela tinha uma beleza aterradora.
— Estava te esperando, Elle. – A voz soou me fazendo perceber de quem se tratava, estava mudada e assustadora, mas ainda era ela.
— Nina – Arregalei os olhos e ela sorriu de lado.
— Sim, sim, sou eu. Meu nome é Burach, mas me chame como quiser.
— Ela é sua amiga? – Kevin perguntou.
— Definitivamente, não. – Respondi – Porque me trouxe aqui? O que é isso tudo?
— Ah, inocente menina. Creio que você sabe mais do que imagina. Agora, eu só vou perguntar uma vez: Onde está a chave?
Eu a encarei mais confusa do que já estava não me lembrava de ter pegado chave nenhuma e ao mesmo tempo não acreditava que ela havia feito tudo aquilo por uma coisa tão simples.
— Sinto muito, não sei do que está falando.
— Não me faça de idiota. – Esbravejou esmurrando uma cadeira que logo foi lançada para longe.
— Elleonor, seja o que for, devolva pra ela. – Kevin implorou ofegante.
— Eu não tenha nada comigo. — Por favor, eu não tenho nenhuma chave, não sei do que está falando. – Gritei. Apesar da situação eu não estava com tanto medo como deveria. Na verdade, embora pareça loucura, me sentia cheia de coragem, milhares de pensamentos passavam por minha mente tentando lembrar-me se havia pegado algo parecido em algum momento.
— Você está esgotando minha paciência. — Ela lançou outra bola de fogo em nossa direção, nos jogamos para o lado, levantamos com pressa e Kevin estava sangrando a barra de sua camisa estava queimada e seu abdômen ferido. Dylan me puxou pelo braço fazendo com o que eu caísse me salvando de mais um tiro. Ele atirou um pedaço de madeira quebrado em cima da criatura, distraindo-a. Apoiei Kevin em meus ombros ajudando-o a correr em direção à porta.
— Vai, tira ele daqui. – Entreguei-o para Dylan.
— Não vamos te deixar aqui – Ele respondeu.
— Não seja teimoso, rápido chame alguém! – Mas era tarde demais outra chama, mas agora azul os atingiu, deixando-os inconscientes.
— Kevin, Dylan – Gritei, mas foi em vão. — Isso é um pesadelo, um pesadelo, é um pesadelo. – Repeti para mim mesma em pensamento fechando os olhos. Num flash, sua mão apertava meu pescoço, me suspendendo.
— Você não está colaborando, Elleonor. – Insistiu.
— Já chega, eu não faço a menor ideia do que está procurando, escolheu a pessoa errada. – Falei quase sem ar.
Ela gargalhou – Se a escolha fosse minha, realmente não seria você, mas infelizmente eu tenho que obedecer ao destino. – Falou entredentes. Agarrei seu pulso tentando me livrar, mas ela era forte demais.
— Você tem mais uma chance, do jeito fácil ou do difícil. Onde está a chave?
— Achei que só ia perguntar uma vez. – Falei por fim.
A dor inigualável da minha coluna sendo jogada contra a parede me fez perceber que aquele foi um péssimo momento para fazer piada. Minha cabeça latejava, as memórias do meu dia passavam por ela initerruptamente e eu não conseguia me mexer, senti minhas forças e a coragem que outrora estava comigo, indo embora. Achei que seria meu fim, quando ouvi o som de janelas sendo quebradas e, em seguida, a Nina do mal foi enterrada com força próximo a mim. Braços me seguraram e me acomodaram junto a um peito masculino descoberto. Tateei algo que entrelacei entre os dedos, tinha formato de penas, brancas e macias; a sombra se estendia no chão, eram tão compridas que chegavam ao tamanho de seus braços e o fim de suas costas. Ergui a cabeça, enxergando os escuros e intensos olhos que me fitavam com ternura.
— Está tudo bem agora – Aquela voz entrou em meus ouvidos como música doce e suave. Minha visão se embaçava e minha cabeça tombou em seu ombro. E, dando meu último suspiro, antes que a escuridão me tragasse completamente, eu pude ter certeza.
Eu vi.
Alexander tinha asas.
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