Lenda Ya Lena

7 Capítulo 7 - Eu olho pra trás e não dá pra enxergar


Ao fundo da rua principal que levava até a praça, um pequeno contingente de cavaleiros cavalgava em direção a multidão. Tinham armaduras vermelhas e alguns carregavam uma bandeira de cores também vermelha e branca, com uma rosa ao fundo. No centro se aproximava o Conde Doroy. Era uma pessoa nova, assim percebeu Keit, deveria estar na faixa de vinte e cinco anos. Pequenos olhos castanhos claros o davam um toque especial, junto com uma barba trançada na ponta. Vestia armadura de placas vermelhas sobre a cota malha, com uma bela capa de seda nas costas. O elmo cobria todo o cabelo negro e um pouco do nariz. Mas sua jovialidade estava presente na maneira que ele lidava com a situação. Tentava fazer uma expressão séria, mas não conseguia esconder a ansiedade. Keit concluiu que ele não era conde há muito tempo e nem vira muitas batalhas. Ao seu lado, acompanhava um homem com aparência mais forte, barba branca e algumas cicatrizes no rosto. Possuía aspectos de conselheiro, talvez fosse ele quem realmente liderasse aqueles soldados.

O conde parou próximo a fonte. Um outro cavaleiro, de aparência mais frágil, cavalgou com seu corcel até o lado do senhor e entregou-lhe um pergaminho. Doroy abriu o documento e deu uma breve lida, depois entregou de volta ao cavaleiro e pôs-se a discursar:

— Boa plebe da Vila Belites. Eu, Conde Doroy, protetor dessas terras, venho para trazer-lhes uma triste mensagem. Como todos sabem, há muito tempo atrás os humanos eram escravizados e por muitos anos lutamos para termos nossa liberdade. Mas mesmo libertos, ainda nos oprimiam, esses vocês sabem, os malditos demônios. Porém isso não nos impediu de continuar de cabeça erguida e, quando o grande Don derrotou o último deus, podemos enfim retomar o que era nosso por direito.

"Nós, povo de Gentdar, aqueles com o primeiro rei humano enfim ao trono, somos os escolhidos para devolver o continente de Theodley de volta a quem realmente pertence: nós. Por isso o primeiro rei iniciou as Campanhas Imperiais, para livrar os outros países, os outros humanos da opressão dos demônios. "

A multidão soltava gritos de coragem e orgulho. Cassan e a mãe acompanhavam-nos de uma forma ainda mais frenética. Repetiam "Morte aos Demônios" diversas vezes. Apenas alguns ficavam calados, como era o caso do pai de Yalena e Keit, que apertava fortemente suas mãos, tentando tirar da cabeça a imagem de sua mestra morta.

— Porém nosso rei — continuou Doroy —, infelizmente, foi morto em uma de suas grandes batalhas no Reino de Nacy, que ainda insiste em resistir. E, para piorar, os malditos demônios não se aquietaram após perderem o trono para aqueles que tem direito. Na região oeste do país, antigos nobres demônios, que mantiveram suas propriedades afim de paz, traíram seu rei e reuniram-se secretamente para nos usurpar.

"Os Restauradores, assim se autoproclamam, são o pior das piores espécies. Vestem-se como assombrações, clamam por falsos reis, saqueiam vilas e matam impiedosamente qualquer humano, seja criança ou mulher, que estiver na sua frente.

"Entretanto o novo rei não iria ficar de braços cruzados ao ver eles ganhando territórios. Vários condes foram mandados para o oeste de Gentdar afim de deter essa rebelião de porcos. Mas os demônios jogam sujos, pois tem medo de lutar.

"Para retardar nossos soldados eles envenenaram a água com uma substância em que apenas eles não são prejudicados. Seja humano ou animal, qualquer um que beber o líquido morrerá dentro de poucos dias. Agora imaginem: camponeses, fazendeiros, crianças e mulheres, inocentes como vocês morrendo por não poderem se refrescar.

"Mas é claro, nosso rei não deixará as coisas continuarem assim. Para acabar de vez com esses demônios e salvar o povo de Gentdar, um grande exército será enviado para massacrar esses malditos até o último da espécie. Não importa que tipo de demônio seja, nem o quão bom eles aparentam ser, devem ser mortos, todos devem ser mortos.

OUVIRAM? MORTOS!"

A multidão novamente voltou a gritar. Os cavaleiros ergueram suas espadas para o céu e o público, imitando aquele movimento, levantou o que seguravam nas mãos.

— Então aproximem-se os corajosos! — exclamou Doroy, também erguendo sua arma — Aproximem-se aqueles dispostos a lutarem até a morte para salvarem seus filhos e suas mulheres.

Cassan e mais alguns jovens em volta dele preparavam-se para dar o primeiro passo, porém o grito fino de uma garotinha os chamou atenção. Do lado oposto da multidão, corria uma criança, deveria ter sete anos idade e usava um vestido preto de bolinhas brancas, o que dificultava sua movimentação. De seus olhos castanhos brotavam lágrimas que molhavam o pátio de pedra.

— CORRAM, ELES ESTÃO VINDO, ELES ESTÃO VINDO — gritava ela em desespero —, ELES ESTÃO VIN...

Uma flecha cortou o céu e atingiu as costas da garota. Seus olhos perderam a cor e ela caiu de joelho, tentando inutilmente soltar qualquer palavra, mas já era tarde demais. Outra flecha a atingiu no mesmo local, derrubando-a no chão que logo foi sujo por uma poça de sangue.

Mal tiveram tempo para lamentar a morte da criança, pois um exército surgiu ao redor da vila. Usavam um manto negro que cobria todo o corpo. Seus rostos eram tampados por uma máscara preta com ponta e dois buracos para os olhos. No peito era estampado uma espécie de cruz em formato de X com um pentagrama invertido em seu centro. Nas mãos, carregavam os mais variados tipos de armas e, um pouco mais atrás, era possível ver o arqueiro que matara a garota. Esse, que usava a roupa de cor roxa, apontou seu pálido dedo até a multidão e deu a ordem:

— Matem-nos.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.