Lenda Ya Lena
6 Capítulo 6 - Você está tentando por aquela voz distante
A família seguia seu rumo até a vila, em cima de uma carroça que era puxada por dois robustos cavalos negros de crista e rabo branco, Rouf e Loir, assim Cassan os batizara. A estrada não tinha problemas, asfaltada com pedregulhos, o galope tornava-se mais suave e a viagem tranquila. Algumas nuvens ameaçavam despejar água, mas não passavam de passageiras. O sol continuaria a brilhar por todo o dia.
Yalena — ou Keit — sentava-se ao fundo do veículo, lendo um dos antigos livros de seu pai, que ora ou outra respondia às perguntas curiosa da filha sobre o assunto. Naquela época poucos sabiam ler, mas o pai fora um estudioso no passado e passara os conhecimentos básicos para seus filhos, assim concluiu Keit. Entretanto ele já tinha aprendido a ler em sua outra vida.
— O que seria um rei ideal? — perguntou Keit, fechando o livro e revelando seu título, escrito na capa: O Princeso.
— O rei ideal é aquele que, tanto amado ou temido por seu povo, consegue centralizar todo o poder do Estado em suas mãos e, com os punhos de ferro, defender as terras, os camponeses e eliminar todos aqueles que querem tirá-lo do trono.
— Mas os reis já não são assim?
— Nem tanto. A maioria dos reis não passam de pau-mandados daqueles que possuem terras em seu território. Aqui, por exemplo, caso os Condes não estiverem satisfeitos, podem facilmente derrubar seu soberano do trono e colocar alguém que os agrada no lugar. Apesar de ser um vasto império, Gentdar é bastante dividida.
"Lembre-se da hierarquia da nossa sociedade: Rei, Condes, Cavaleiros e Camponeses. O Rei é o representante máximo do estado, sendo soberano de todos os humanos, isso porque a família que está no poder é descendente direta, assim eles dizem, dos primeiros reis, quando os humanos governavam o continente de Theodley.
"Entretanto ele tem apenas alguns pedaços de terra, que como qualquer um já sabe, é o Castelo Real e as regiões adjacentes. Indo para uma perspectiva realista, o rei não passa de um Conde com mais poderes. Já os Condes são aqueles que servem o rei, entretanto governam suas terras do jeito que assim preferirem, desde que não desrespeitem as Leis Sagradas. Mas em resumo, são pequenos reis que até possuem seus vassalos: os cavaleiros. Esses últimos são responsáveis por comandarem contingentes reduzidos de homens, além de protegerem as vilas, cobrarem impostos e recrutarem novos soldados.
"E como é inevitável, há rivalidades, seja ela de condes com rei ou com os próprios condes e cavaleiros. Além do mais, nem todas as vilas possuem apenas humanos. Elfos, fadas, anões, duendes, todos aqueles não humanos são submetidos aos mesmos deveres que um. Em exceção estão os demônios que são exterminados.
"Com o poder todo descentralizado, as chances de acontecer uma guerra civil são altas. Por vários anos os humanos foram escravizados e também não há nenhuma prova que o nosso imperador é descendente direto dos reis do passado. Então alguém com um grande exército e carisma pode se autoproclamar rei e tomar o trono, se assim os outros condes desejarem. "
— Então o imperador está com o trono o tempo inteiro ameaçado?
— Basicamente. Por isso um soberano tem que ser ágil em subtrair ao máximo a força daqueles que podem o derrotar. E eles se esquecem do quarto poder.
— O quarto poder?
— No império há três poderes que regem as terras: o rei, o parlamento e os condes. O rei e os condes eu lhe expliquei anteriormente. Já o Parlamento é um bando de condes velhos que não tem mais idade para levantar uma espada, mas sabedoria o suficiente para criarem leis que valham para toda Gentdar, as Leis Sagradas, e também aconselhar o imperador.
"São esses três que governam o grande império, porém muitos se esquecem da base da pirâmide. Camponeses fornecem alimentos, ferreiros as armas e armaduras, alfaiates as caras roupas de cerimônias. Você pode ser o melhor guerreiro do mundo, mas de nada adianta se não ficar de barriga cheia. Além do mais, mesmo que condes e cavaleiros sejam muitos, não se comparam a quantidade de pessoas que ocupam a base"
— Mas o que impede de camponeses raivosos começarem uma rebelião?
— Ótima pergunta. Primeiro é que os condes são muito unidos quando se trata de proteger seus títulos de nobreza, então caso algum aventureiro tome liderança com seu exército de fazendeiros, os nobres podem rapidamente liquidá-los. Segundo que esse tipo de pessoa está preocupado em alimentar sua família e tirar um pequeno lucro no final da plantação. Assuntos como política e guerras não os interessam, eles não foram feitos para isso.
"Um sábio rei deve ganhar o amor de seu povo, pois enquanto nobres querem poder, a plebe deseja apenas que seus filhos não passem fome. Dê-lhes o que querem e terá sua lealdade. Lutarão por você e aos herdeiros contarão suas histórias. Um conde pode até conquistar uma vila, mas se não conquistar o povo, passará dificuldades e lidará com rebeliões. E o contrário também funciona, caso os fazendeiros amem mais o inimigo do que o seu senhor, facilitarão de todas as formas para derrubar o soberano que os oprime. "
Os olhos de Keit continuaram vidrados no pai de Yalena mesmo após ele ter terminado de falar. Tamanha era a inteligência dele, então por que vivia apenas como um simples camponês? Com seu cérebro, acabaria com qualquer um dos condes que se autoproclamavam sábios, mas de nada sabiam.
Cassan não deixou de escutar a conversa, tão fitado ficou que, sem querer, fez a traseira da carroça bater na ponte de pedra que levava até o centro da vila. Sua mãe, que roncara a viagem inteira, acordou na hora, xingando-o por ser tão distraído. Yalena e o pai apenas riram da situação.
— Parece que chegamos — avisou Cassan, manobrando os cavalos para que eles parassem aos poucos.
A praça, localizada no centro da vila, era um grande espaço entre casas e tabernas. Mais ao centro fora construído uma fonte com a imagem do conde dono daquele lugar. Keit nunca tinha conhecido o Conde Doroy na sua outra vida, mas ele parecia ser do tipo orgulhoso e um tanto romântico, afinal não eram todos que mandavam construir uma estátua de si mesmo em cima de um cavalo que empinava ao céu com várias cabeça de demônios em volta.
— Quanta gente nesse lugar. Isso vai ser um tédio — falou a mãe após um bocejo.
E de fato, todas as pessoas que moravam na vila e fazendas em volta, como era o caso de Yalena, estavam de pé no centro da praça, apenas esperando que o conde chegasse. Keit analisava as feições de cada um. Naquela região do império era comum as pessoas terem orelhas mais pontudas, assim como o queixo, além da predominância de olhos castanho, puxando um pouco paro o vermelho. Características essas que se assemelhavam bastante aos demônios, mas óbvio, ninguém falaria com orgulho que tem um pouco de sangue do inimigo correndo nas veias.
Cassan estacionou a carroça em uma rua fechada onde outras carroças e cavalos aguardavam seus mestres. Amarrou os animais e depois seguiu com a família até o centro da praça. Como o costume de ocasiões especiais, usavam roupas de diferentes e mais limpas. Cassan e o pai vestiam uma túnica de linho branca que cobria todo o braço, indo até o meio das coxas e com um cinto apertado na cintura. Nas pernas, calças de couro de vaca, já velhas e desgastadas e um sapato do mesmo material. Enquanto isso, Yalena e a mãe trajavam um vestido marrom com detalhes vermelhos e brancos. Keit sentia-se incomodado naquela roupa, preferia algo que pudesse o fazer se movimentar mais rápido, porém fora obrigado a usar aquilo. Tentara trazer Christina na cintura e também foi proibido, já que aquilo não se encaixa com uma dama, assim dissera a mãe, que pela sua aparência descuidada nada devia entender das mulheres nobres. Entretanto Cassan fizera a boa vontade de trazer a espada de Yalena junto com a sua. Foi um trabalho meio duro tentar o convencê-lo, Keit até o avisou sobre o que aconteceria, mas o irmão achou aquilo uma bobagem. Os demônios estavam lutando ao oeste do país, era impossível chegarem ali.
A família juntou-se a multidão. Alguns homens fitavam Yalena de uma forma pervertida, outros tentaram pôr a mão, porém Keit conseguiu evitar, além de distribuir alguns socos.
— Francamente, uma mulher não pode ter um pouco de paz? — reclamou a Cassan.
— Fique quieta, o conde está vindo.
E no fundo da praça, em direção a todos que estavam ali, um robusto exército de homens se aproximavam.
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