Lenda Ya Lena

5 Capítulo 5 - O ódio era tudo que tínhamos


Keit passou os próximos três dias tentando se acostumar com o fino corpo da jovem Yalena. Ser uma criança pequena dava algumas vantagens quando ele tinha que correr do irmão e se esconder em pequenos lugares.

A vida naquela humilde casinha era pacata e feliz. Acordava logo cedo para trabalhar na roça, a tarde ele cuidava dos animais e na noite comia fartamente antes de dormir. Nos intervalos entre um trabalho e outro, Keit e Cassan duelavam com espadas de madeiras improvisadas. Cassan, por ser muito maior e mais forte, derrotava facilmente a magricela Yalena, porém suas habilidades eram de amadores e, caso Keit estivesse em seu antigo corpo, o derrotaria em três golpes apenas, assim pensava. Mas aos poucos ia se habituando com sua nova forma e de vez em quando conseguia deixar alguns hematomas no irmão.

— Quantos dias será que falta? — perguntou Cassan enquanto pegava a espada de madeira para outra sessão de embates entre ele e Yalena. — Tenho certeza que serei escolhido.

— Por que quer tanto assim entrar no exército? — Keit analisava a espada em lascas, parecia que iria quebrar a qualquer momento, mas mesmo assim ela durara bastante após receber os pesados golpes do irmão. — A vida aqui é tão simples, na mais pura e perfeita paz.

— Justamente por isso. Não aguento mais acordar para plantar, dar comida aos animais, todos os dias, todos os santos e malditos dias. Eu quero um pouco de ação na minha vida, entende, Yalena? Meu desejo é sair desse lugar e desbravar todo o império, fazendo o sangue de cada demônio que eu ver pela frente escorrer por minhas mãos. — Cassan pôs-se em posição de ataque, apontando a espada para a irmã. — Serei um herói do nosso povo.

Aqueles eram os mesmos sonhos de Keit quando Yalena passou em sua vila a busca de alguns homens para o exército. Ele e Cassan não eram muito diferentes, o irmão tinha apenas dezesseis anos e o direito de sonhar. Mas, assim como aconteceu com Keit, esses sonhos terminariam após a primeira batalha. A guerra não era heroica, honrosa ou gloriosa, mas algo perverso e assustador. Aqueles que lutam nas guerras não eram os corajosos e sim os que não tinham mais almas, que já não se importavam em perfurar a carne do inimigo e ver ele sofrendo na sua frente. Assim se criava os grandes generais e reis, assim foi criado Yalena. Daqui a poucos dias Keit viveria um dos muitos horrores de sua mestra. Se estava preparado para isso? Talvez. Ele fora moldado pelos inúmeros anos de combates nas campanhas de Yalena, mas sua humanidade sempre voltara quando ela o chamava na barraca para ali aliviarem todas as tensões.

— Você lembra do primeiro rei? Rahkev I, aquele que começou as campanhas para destronar os demônios de nosso mundo — perguntou Cassan após se defender de um golpe de Yalena. — Eu quero ser grande como ele.

— Rahkev... — Keit era apenas uma criança quando Rahkev subiu ao trono, nada entendia de guerra, somente que seu pai fora lutar nela. — Várias histórias correm sobre ele, o grande marechal, descendente dos primeiros.

— Na verdade não era para ele assumir o trono, você sabe. O verdadeiro herói desapareceu e não tinha ninguém na linha de sucessão. Então Rahkev, afim de evitar que os exércitos dos humanos entrassem em conflito, pegou os seus homens e assumiu como o novo imperador dos humanos, proclamando-se descendente dos primeiros reis. Alguns anos depois de sua ascendência, assumiu o papel de destronar todos os reis Demônios e reconquistar o continente.

— Mas acabou sendo morto no Reino de Nacy — completou Keit ao desferir um golpe no ombro de Cassan. — Espero que não queira ter o mesmo destino.

— Morreu de forma heroica, defendendo o império e a humanidade. E quando o filho tentar retomar os feitos do pai, eu estarei lá comandando seu grande exército — dizia orgulhosamente.

Cassan desferiu um pesado golpe em direção ao ombro de Yalena, mas essa rolou para lado, desviando do ataque e, antes que o irmão pudesse se virar, golpeou-o na costela esquerda e depois chutou suas costas. O garoto cambaleou um pouco, mas conseguiu manter-se de pé, não fora um chute tão forte. Yalena deu um passo para trás, apontando a espada para o irmão.

— Em sua opinião, qual será o próximo passo do rei?

— Um dos guardas que acompanhava o médico ontem falou. Ele reunirá um grande exército para acabar de vez com o Restauradores. Amanhã o Conde Doroy virá na vila para recrutar alguns homens e eu serei um deles. — Cassan tentou fazer outro ataque, entretanto Keit já aprendera a tirar proveito do corpo leve de Yalena. Os ataques do irmão eram fortes, mas previsíveis, logo só precisava desviar de sua espada e o atacá-lo depois. — Você melhorou muito, até demais. Parece até que há outra pessoa controlando seu corpo — disse, fitando seriamente os seus olhos. Aquelas palavras distraíram Keit, o que acabou ocasionando um soco no peito que o derrubou no chão. — Ganhei de novo — ele estendeu a mão para Yalena —, agora vamos, está na hora do jantar.

Keit agarrou sua mão e limpou a areia que ficara presa após a queda. Acompanhou do lado do irmão o curto caminho até a casinha de madeira, mas sem deixar de pensar nas suas palavras. Mais tarde ele contou para Christina o que tinha ouvido e ela respondeu na sua gentiliza de sempre:

— Deixe de ser burro, mesmo se desconfiarem não tem como provar e se provarem, o que irá adiantar? Você agora é Yalena, então seja Yalena, pense com Yalena e lute como Yalena. E não se esqueça do que está por vim. É amanhã, então esteja preparado.

— Sim, sim, entendi — respondeu Keit já encerrando a conversa. Cobriu seu rosto com os braços cruzados e dormiu.

Naquela noite sonhou com Yalena. Estavam ambos sentados nas margens de um rio qualquer, perto de uma vila aleatória comandada por um dos vários condes do império. Não tinha mais ninguém ali, apenas os dois, admirando a lua, com Keit em uma das raras ocasiões que podia deitar no colo dela enquanto recebia um cafuné. Fitou seus olhos no rosto dela e aos poucos a cabeça de Yalena foi se abaixando até sua visão encontrar Keit. Ela abriu os lábios lentamente, ele esperava um beijo, mas não foi isso que aconteceu. Baixinho, Yalena disse alguma coisa. A princípio ele pensou ter ouvido um “eu te amo”, mas não, analisou o movimento dos lábios da guerreira e viu que ela falara algo diferente:

— Socorro — mas era apenas um sonho.