Lenda Ya Lena

4 Capítulo 4 - Mas ele virá atrás de você, é, ele virá atrás de você


Keit acordou novamente em cima da cama de Yalena. O pai o observava, Cassan pegava sua mão e a mãe colocava uma toalha quente na testa dele.

— Ela realmente não está bem, será que foi algo que comeu ontem? — disse o pai com um tom preocupado.

— Não sei — respondeu o irmão —, ela me parecia como sempre. Não faço ideia do que poderia ter acontecido.

— Se acalmem — aconselhou a mãe — o médico já deve estar chegando.

O médico da vila bateu na porta uns quinze minutos depois. Usava um sobretudo vermelho vinho, sapatos negros, uma máscara de couro com um bico que se assemelhava a de um pássaro e um chapéu preto de aba. Nas mãos carregava a mala com seus utensílios e um pequeno bastão de metal com asas na ponta. Também levava uma faca na cintura e vinha acompanhado de dois guardas a cavalo.

Cassan os recebeu e carregou os cavalos para amarrá-los no estábulo. O pai, como um bom anfitrião, fez um chá de ervas para os presentes ali enquanto a mãe falava com o médico. Depois ela se encontrou com o pai e ambos conversaram em um tom de voz baixo:

— Por que um pássaro? — Assim eram chamados os médicos que se vestiam daquele jeito. — E ele se quer parece ser daqui. Aconteceu alguma coisa com os doutores da vila?

— Não sei, só nos resta confiar nele — respondeu o pai.

Keit viu a figura sinistra entrando no quarto. Não se assustou, já tinha visto vários daqueles quando estava em campanha com Yalena, principalmente nas regiões oeste do império. Em que ano ele estaria mesmo?

— Ei, em que ano estamos? — Perguntou Keit.

— De acordo com qual calendário? — A voz do médico era abafada pela máscara, o que a tornava um tanto sinistra.

— O universal. — Vários calendários existiram antes e depois de Yalena. Tinha como base datas importantes, guerras e nascimento daqueles que se autoproclamavam profetas. O universal pegava do ano zero, da época que não existiam deuses até o ano dessa história.

— 838.

— E a quanto tempo usa essa máscara?

— Você faz bastante perguntas para uma garotinha — o doutor olhou para Keit, mas ele nada disse. — Dois anos.

Yalena começara sua história em uma das épocas mais difíceis, mas são esses tempos que criam pessoas incríveis como ela.

— Então já começou — disse Keit jogando as palavras ao vento, o médico ignorou e tirou seus utensílios da mala.

Durou apenas alguns minutos o tratamento, se é que pode ser chamado assim. O médico fez alguns exames básicos, mas nada constatou. A jovem Yalena estava bem, apenas com o corpo cansado e precisava de algumas horas de repouso. Cassan trouxe os cavalos de volta, os guardas agradeceram pelo chá e mãe de Yalena deu algumas maçãs como símbolo de boa vontade. Nas épocas de pragas e guerras, os médicos são pagos pelos senhores para que possam atender a todos. Claro que os impostos dobravam e os nobres tinham prioridade, mas pelo menos o risco de morrer por alguma doença diminuía.

— Ei, doutor — chamou Cassan —, a vila aqui perto tem alguns médicos e o senhor parece ser bem de longe. Está acontecendo alguma coisa?

— A doença vem se alastrando e os Restauradores ganham mais território a cada dia que passa. O rei está planejando enviar um exército para lá, então está recrutando médicos — respondeu um dos guardas.

— Vocês deram sorte de eu estar passando pela vila, caso o contrário teriam ficado sem médico — disse o doutor enquanto limpava a poeira de sua roupa —, o que não seria nenhum problema, a garota está bem, só precisa descansar.

Há alguns metros dali um mensageiro cavalgava no seu corcel em direção ao pequeno grupo. Carregava uma grande mochila nas costas e um papel enrolando na mão.

— Garoto — disse o mensageiro para Cassan —, quantas pessoas moram nessa casa?

— Quatro. Eu, meu pai, minha mãe e minha irmã. Por quê?

— Chame-os para cá, tenho um comunicado importante — ao terminar de ouvir, Cassan foi para dentro de casa buscar os pais. — Doutor — o mensageiro fez uma pequena referência —, espero que acompanhe a gente.

— Sim — respondeu o médico.

Cassan chegou logo depois acompanhado do pai e da mãe. O mensageiro perguntou onde estaria o quarto membro, mas o médico interviu e contou sobre seu procedimento mais cedo.

— Enfim — falou o mensageiro, abrindo o papel em suas mãos. — Saibam que Conde Doroy, soberano dessas terras, aparecerá dentro de quatro dias na vila recrutando homens para lutar ao oeste do império. Então tratem de estarem presentes no dia ou serão penalizados.

Os olhos de Cassan voltaram a brilhar, fez um pequeno movimento para mostrar os músculos que tinha ganhado com anos de trabalho duro na fazenda da família. Aquilo despertou uma leve risada em um dos guardas, mas o mensageiro ignorou e foi embora.

No quarto, Keit, deitado, observava o humilde teto de madeira. O lugar onde Yalena morava era bem confortante, tendo uma temperatura agradável, nem muito quente ou frio. Seria um local perfeito para um homem viver seus últimos dias, se não fosse por um detalhe. Com doze anos a história de Yalena começou, logo aquele fino corpo seria moldado pelas inúmeras guerras e batalhas que viriam.

— Keitroxa, você lembra o que irá acontecer daqui a alguns dias? — Perguntou Christina que naquele mundo tinha a aparência de uma espada velha.

— Pare de tentar fazer trocadilhos com o meu nome.

— Me responda logo, seu idiota.

— Eu já sei, droga. Só estou um pouco relutante. Ainda não me acostumei por completo com esse corpo.

— Por isso que não para de passar a mão nele? Sabe, há outras partes para você tocar. Uma mulher não é feita somente de peito e vagina — o rosto de Keit adquiriu um tom levemente vermelho.

— DÁ PARA PARAR DE ME OLHAR?

— Eu sou uma espada, não tenho olhos. — Keit pegou a espada e a jogou para debaixo da cama. — Apenas esteja preparado.

— Sim, estarei.

Keit levou a coberta até tampar o rosto e agarrou-se no travesseiro para pensar no que viria a seguir.

Logo um exército atacaria aquela região e a jovem Yalena teria que enfrentá-lo.